A solidão tem um nome. Travis é o andarilho solitário de "Paris, Texas", de Wim Wenders. Travis é também uma banda escocesa tristonha, que canta versos como "Why Does It Always Rain on Me?" (Porque sempre chove em mim?). Mas nenhum Travis é mais solitário, perdido e perdedor do que Travis Bickle, o "Taxi Driver".
O clássico de 1976 de Martin Scorsese retorna agora em "edição definitiva", pela Sony, em um caprichado DVD duplo que traz um disco inteiro de extras, a preço razoável: R$ 29,90.
"Taxi Driver" faz parte daquela restrita e subjetiva galeria dos cult movies, em que uma simples imagem se descola do filme para criar vida própria. Neste caso, a imagem de Travis (Robert De Niro), com seu sorriso ambíguo e corte de cabelo moicano, enquanto aponta o dedo para a cabeça, ensanguentada, como se fosse uma arma.
Para quem não conhece, um breve resumo. Estamos na Nova York dos anos 70, época barra-pesadíssima. Drogas, decadência, inocência perdida, Hollywood em momento de reinvenção: o clima nada leve contagiava os filmes norte-americanos do período. Travis é o sujeito insone que resolve trabalhar como taxista. Cansado da "sujeira" das ruas, se torna um justiceiro.
É um personagem com várias nuances, fechado em si mesmo, complexo. Por isso mesmo, e pelo caráter mítico que o filme adquiriu, os extras não se tornam redundantes.
Ficamos sabendo de curiosidades: é estranho imaginar que o filme poderia ter sido dirigido por Brian De Palma e estrelado por Dustin Hoffman, por exemplo. No segmento dedicado a Scorsese, ele fala sobre as influências que "Taxi Driver" recebeu. Diz que, naquela época, o cinema europeu exercia grande fascínio sobre os novos cineastas norte-americanos. Que, em "Taxi Driver", ele buscou incorporar o modo como Godard filmava, em que prevalecia um certo distanciamento das coisas. Fassbinder, Franceso Rosi, Salvatore Giuliano e Hitchcock, em especial "The Wrong Man" ("O Homem Errado"), foram outras fontes de inspiração.
Scorsese e o roteirista Paul Schrader falam de sua identificação com Travis, que em dado momento é descrito como uma espécie de Nosferatu, preso em um caixão de metal que flutua por Nova York _um dos melhores extras é um documentário onde ex-taxistas contam como era uma experiência "leve" rodar pela cidade na época.
Schrader dá o resumo definitivo: "Não é um filme sobre a solidão. É um filme sobre a patologia da solidão. A solidão [de Travis] era seu mecanismo de defesa. Ele não é só por natureza, é só por opção. É uma patologia bem americana".
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Saudade de "Taxi Driver"? Aí vai um trechinho. Tá falando comigo?
O cartaz deste ano, criado e protagonizado por Hector Babenco
A 31ª Mostra de Cinema de São Paulo definiu os preços de ingressos de seus pacotes promocionais. A partir de segunda, das 12h às 18h, a Central da Mostra, habitualmente no Conjunto Nacional (av. Paulista, 2.073), começa a funcionar para tirar dúvidas e vender bugigangas (bonés, camisetas etc.). No dia 13, podem ser comprados os ingressos, das 10h às 21h, nos seguintes valores:
Integral (passe livre para todas as sessões) - R$ 360 Integral com desconto de 15% para assinantes da Folha - R$ 306 Especial (que vale de segunda a sexta para sessões começadas até as 17h55) - R$ 90 Especial com desconto Folha - R$ 76,50 Pacote de 20 ingressos - R$ 150 Pacote de 40 ingressos - R$ 260 Ingressos individuais - de seg. a qui.: R$ 13; sex., sáb. e dom.: R$ 16.
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Em tempo, novos confirmados: “Redacted”, de Brian de Palma, que deve chegar mais para o final do evento, e “Senhores do Crime”, de David Cronenberg. Será a estréia nacional desses dois filmes, que depois entrarão em cartaz no Brasil.
O prêmio principal ficou para “Mutum” (foto), mas “Estômago” levou o maior número de troféus no encerramento do Festival do Rio na noite de ontem. A belíssima adaptação de Guimarães Rosa deu à diretora Sandra Kogut o prêmio de melhor longa de ficção segundo o júri. A fábula político-culinária de Marcos Jorge deixou o Cine Odeon com quatro Redentores: melhor longa de ficção pelo júri popular, melhor diretor, melhor ator (João Miguel) e o prêmio especial do júri para o ator Babu Santana, que atua também em “Maré, Nossa História de Amor”, de Lucia Murat. Já premiada em festivais no exterior por seu forte desempenho em “Casa de Alice”, Carla Ribas foi escolhida a melhor atriz no Rio.
A premiação foi mais pulverizada para os documentários. O júri elegeu “Condor”, longa de Roberto Mader sobre a política de cooperação na caça a opositores feita pelas ditaduras sul-americanas nos anos 60 e 70. O público preferiu “Memória para Uso Diário”, outro filme que ataca o regime militar, com depoimentos de integrantes do grupo Tortura Nunca Mais. Cao Guimarães ficou com o Redentor de melhor diretor por “Andarilho”, que acompanha a saga de três homens que caminham por estradas brasileiras.
Entre os curtas, “Sete Minutos”, de Cavi Borges, Júlio Pecly e Paulo Silva, foi o vencedor do júri. O público premiou “A Maldita”, de Tetê Mattos.
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Voltada sempre para os filmes nacionais, a eleição oficial não foi a única realizada no Festival do Rio. Os críticos das revistas “Cinética”, “Contracampo” e “Paisà” também escolheram o melhor filme da mostra carioca, numa edição especial do Prêmio Jairo Ferreira.
Na verdade, escolheram os melhores, pois três grandes longas ficaram empatados na votação final. “I’m Not There”, de Todd Haynes, “Paranoid Park”, de Gus van Sant, e “Síndromes e Um Século”, de Apichatpong Weerasethakul. Ótima seleção. Se tivesse que escolher um dos três, este blog ficaria com os skatistas de Van Sant.
“I’m Not There” e “Paranoid Park” (trailer abaixo) estarão na Mostra de SP e, depois dela, já têm distribuição garantida no Brasil. Para quem gosta de cinema são filmes obrigatórios, entre os melhores do ano. O longa de Apichatpong já tinha sido exibido em SP na Mostra do ano passado. Agora, só deve voltar ao Brasil quando alguma boa alma organizar uma retrospectiva do cineasta tailandês.
Este blog acaba de ganhar um irmão caçula. O mais novo integrante da família já está no ar: é o Ilustrada no Pop, blog de música e outras coisas legais, coordenado pelos repórteres Thiago Ney e Marco Aurélio Canônico (essas beldades das fotos acima). Nos posts de estréia, Nokia Trends, Arctic Monkeys e, acredite se quiser, Sandy. O primogênito da família Ilustrada deseja boa sorte ao novo rebento.
Já faz tempo que o YouTube virou uma das mais fortes ferramentas para disseminar o cinema na internet, de trailers de filmes a palanque para sucessos de público, como o fenômeno "Tapa na Pantera", de Esmir Filho, Mariana Bastos e Rafael Gomes (foto).
Pois o site anunciou nestes dias a criação de um concurso internacional de curtas-metragens, aberto a diretores de Brasil, Canadá, Espanha, EUA, França, Itália e Reino Unido.
A iniciativa se chama Projeto Direto e começará a receber os concorrentes a partir deste próximo domingo. Parece legal, né?! Sim, mas o YouTube criou algumas regras que complicam um bocado o argumento de qualquer filme, especialmente de curta duração. São três elementos obrigatórios no roteiro: 1) um personagem tem de enfrentar uma situação para a qual ainda não tem maturidade; 2) um personagem precisa dizer a seguinte frase: "Exijo uma explicação para tamanhas bobagens! O que você tem a dizer?"; e 3) uma cena precisa mostrar um personagem passando a outro uma fotografia.
Quem quiser encarar a empreitada tem até 9 de novembro para enviar seu filme, que deve ter de 2 a 7 minutos de duração, no máximo 100 MB, e pode ser falado em português, mas precisa ter legendas em inglês. Antes de pegar sua filmadora, convém ler as letrinhas miúdas do concurso.
Um júri encabeçado pelo cineasta Jason Reitman ("Obrigado por Fumar") selecionará os 20 melhores filmes. Os finalistas irão ao ar no YouTube, e os internautas escolherão o vencedor. O resultado será divulgado em 5 de dezembro.
Pelas regras da disputa, o premiado poderá exibir sua obra em uma sessão especial de "uma grande competição internacional de filmes (de 18 a 27 de janeiro de 2008) em Park City, Utah, EUA". O regulamento não diz, mas o que acontece em Park City nessa data? O Festival Sundance. O ganhador também embolsará um cartão com crédito de 5.000 dólares e terá seu curta em todas as homes do YouTube.
Vale o desafio? O Jason Reitman acha que vale. Dê uma olhada abaixo.
Biscoito fino para profissionais, estudiosos e amantes de cinema: o diretor israelense Amos Gitaï virá a São Paulo no final deste mês para ministrar um workshop na Faap. No evento, organizado pela 31ª Mostra de SP, apenas 20 alunos poderão acompanhar a palestra do autor de ótimos filmes como "Free Zone" (2005), "Alila" (2003) e "Kippur" (2000). O cineasta estará acompanhado da francesa Marie-Jose Sanselme, roteirista de vários longas de Gitaï, incluindo o mais recente, "Désengagement".
A oficina acontecerá em 30 de outubro, das 9h às 12h e das 14h às 18h, no campus da rua Alagoas, e custará R$ 150. Os interessados têm até 12 de outubro para se inscrever, pelo e-mail oficina@mostra.org. É necessário enviar currículo e um texto de um parágrafo que responda à pergunta: "Por que você quer fazer a oficina de Amos Gitaï e Marie-Jose Sanselme?". Os nomes dos 20 selecionados serão divulgados em 16 de outubro.
A oficina não é o único motivo da vinda de Gitaï e de sua roteirista a São Paulo. O cineasta, que já foi homenageado com uma restropectiva na 28ª Mostra, também terá seu novo filme exibido no festival paulistano. Estrelado por Juliette Binoche, "Désengagement" conta a história de dois irmãos e do impacto que a saída de Israel da faixa de Gaza tem sobre suas vidas.
"Não era incomum naquela época [início dos anos 80] encontrar cópias pirateadas de filmes recém-lançados ou prestes a serem lançados. Foi o caso de 'Gandhi' [Richard Attenborough, de 1982, foto acima], que podia ser comprado nas ruas de Lagos mesmo antes de seu lançamento na Europa." Soa familiar, não?! Esse caso antigo, que hoje nos parece tão próximo, ilustra o artigo "A Explosão da Videoeconomia: o Caso da Nigéria", de Françoise Balogun, um dos muitos que fazem parte de uma interessante coleção que será lançada neste mês no Brasil.
Trata-se de "Cinema no Mundo: Indústria, Política e Mercado", um panorama da atual produção cinematográfica mundial, dividido em cinco volumes. Quem organiza a coleção é a pesquisadora Alessandra Meleiro, autora de "O Novo Cinema Iraniano".
Cada um dos cinco livros é dedicado a uma região: Ásia, América Latina, EUA, África e Europa. Como indica o título, o foco está menos na historiografia do cinema e mais nas alternativas de produção _como se estruturam os principais mercados dessas regiões e quais as políticas governamentais para estimular esse nicho.
O primeiro tomo, sobre a Ásia, dá uma idéia boa do espírito da coisa: são seis artigos, que traçam um panorama da indústria no Japão, na Coréia do Sul, na Índia, na China, em Taiwan e em Hong Kong.
No volume dedicado à América Latina, há dois artigos sobre o Brasil. O cineasta Jom Tob Azulay escreve sobre a política cinematográfica brasileira, e o pesquisador André Gatti faz uma análise sobre o mercado nacional.
As cinco obras serão publicadas simultaneamente pela Escrituras Editora e chegarão às livrarias a partir do próximo dia 25, quando acontecerá o lançamento da coleção, em um evento dentro da 31ª Mostra de SP. Cada livro custará R$ 25.
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Falando em pirataria... Depois da estréia pirata nos camelôs e da oficial no Festival do Rio, "Tropa de Elite" finalmente chega aos cinemas nesta sexta-feira. Para aproveitar o frisson da imprensa nas últimas semanas, os produtores decidiram antecipar o lançamento, inicialmente previsto para o dia 12. Ou seja, a partir deste final de semana, começará a ser respondida uma das questões mais discutidas no mercado brasileiro neste segundo semestre: as cópias clandestinas queimaram o potencial de público do filme ou serviram, involuntariamente, para promover o longa de José Padilha? Dado o boca-a-boca positivo, este blog acredita na segunda hipótese.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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