Ilustrada no Cinema
 

Reichenbach, os piratas e a internet

Reichenbach, os piratas e a internet

Luciana Benaduce Figueiredo

Em post há alguns dias em seu Reduto do Comodoro, Carlos Reichenbach confessou não ter resistido à tentação. Comprou num camelô na Lapa paulistana o DVD pirata de “Tropa de Elite”, num pacote com “Ultimato Bourne” e “Duro de Matar 4.0”.

O texto em que Reichenbach admite seu pecadilho é uma interessante reflexão sobre o mercado da pirataria e o compartilhamento de filmes. E mais interessante por ser a visão de um cineasta, alguém, em tese, diretamente preocupado com a proteção de seus direitos autorais.

Após comentar a qualidade dos três filmes comprados, o diretor chegou às seguintes lições, que valem tanto para produtores quanto para espectadores:

“Só liberar cópias em DVD com marca d´água da empresa produtora, em toda extensão da imagem (de preferência, daquelas pouco discretas), durante o acabamento final do filme; evitar comprar ‘gato por lebre’ ou ficar suscetível à má qualidade de mídias vagabundas, dando sempre preferência aos DVDs selados.
No entanto, confesso que não me transformei num títere da antipirataria, pois continuo defendendo o direito de ter acesso a obras importantes, raras e não-comercializadas. Para isso, existe a democratização do compartilhamento. Eu mesmo pretendo futuramente disponibilizar gratuitamente alguns filmes de minha lavra, nos torrents e nos e-mules da vida.”

Numa conversa por e-mail, Reichenbach confirmou a intenção de ver ao menos parte de sua obra disponível na rede e aprofundou seu ponto de vista: “ É evidente que só poderei disponibilizar os filmes sobre os quais detenho poder majoritário (não são muitos), mas acho que esta é mais uma postura política e pessoal. Sou totalmente favorável a idéia do Creative Commons; ora, quem deve decidir ou não se abre mão dos direitos autorais é o próprio autor, e ponto”.

Um desses filmes sob poder majoritário do diretor é o necessário “Lilian M – Relatório Confidencial” (1974/75). Segundo ele, a entrada de sua obra na rede ainda depende de um maior aprendizado do funcionamento das ferramentas de compartilhamento e da definição de quais de seus longas estarão disponíveis em vídeo ou DVD.

Enquanto a produção de Reichenbach não chega à internet, o diretor indica três sites que permitem ver/baixar filmes de graça, legalmente, e comenta: “Não fossem endereços como estes, jamais teríamos a chance de ter acesso às obras do anarquista Otto Mühl, ao único filme de Samuel Beckett ('Film', 1965), ao extraordinário 'The Amazing Mr. X', do banido pelo macarthismo Bernard Vorhaus, e até de alguns primeiros filmes de Roger Corman”.

Tem muita coisa boa mesmo. Aproveite.

http://www.ubu.com/film/index.html
http://www.publicdomaintorrents.com/
http://www.archive.org/index.php

Escrito por Leonardo Cruz às 9h29 AM

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No universo onírico de Kar-wai

No universo onírico de Kar-wai

Você já sofreu por amor? Ou, melhor, você já foi abandonado(a) por alguém, sem entender direito por que, e desde então sua vida anda meio estranha? Se sim, já é meio caminho andado para entender o que é o universo de Wong Kar-wai. Universo que está presente em dois filmes do diretor chinês recém-lançados em DVD: "Felizes Juntos" (1997, Lume Filmes, foto) e "Dias Selvagens" (1991, Imagem Filmes, só para locação).
 
Essas duas produções reúnem todas as características que tornaram Kar-wai mais do que mero objeto de culto entre cinéfilos (a narração em off, para desespero dos professores de roteiro, cortes abruptos, trilha nostálgica e ocidental etc.). Seus filmes são, antes de tudo, objetos de fetiche, onde a forma tem poder determinante, quase ofuscante, mas não esvazia a força poética e cinematográfica do que está sendo contado.
 
Em "Felizes Juntos", um casal chinês gay que vive às turras resolve ir à Argentina (eles querem ver as cataratas do Iguaçu). Terminam. Resolvem ficar em Buenos Aires. Um deles vira porteiro de boate. O outro, michê. E eles sofrem, enquanto são embalados pelo mais melancólico dos tangos. "Felizes Juntos" marca o reconhecimento "oficial" de Kar-wai, que ganhou o prêmio de melhor diretor em Cannes com o longa.
 
"Dias Selvagens" é outro tipo de marco. Trata-se do pontapé numa espécie de trilogia de Kar-wai, que seria seguida por "Amor à Flor da Pele" (2000) e "2046" (2004). Não espere, no entanto, algo que realmente ligue "Dias Selvagens" a esses dois outros filmes.
 
Neste longa, ambientado nos anos 60, Leslie Cheung é o Don Juan que vai abandonando mulheres apaixonadas, até o dia em que resolve ir atrás de sua verdadeira mãe biológica.
 
A conexão entre os três filmes está no clima, na eterna temática que Kar-wai repete em toda a sua obra, e que, volta e meia, lhe rende comparações com Michelangelo Antonioni. Kar-wai também se pergunta: o que é real, o que é imaginário? Foi um sonho? O que é o passar do tempo e a memória?
 
O único porém desses dois lançamentos são os extras, que se resumem a textos e trailers (a edição norte-americana de "Felizes Juntos", da Kino Vídeo, por exemplo, traz extras como um documentário de 59 minutos sobre o filme). Mesmo assim, são DVDs necessários, e pouco a pouco as distribuidoras estão completando essa lacuna nas lojas. De Kar-wai, há ainda, no Brasil, "Amor à Flor da Pele", "Conflito Mortal" (nome tosco para "As Tears Go By") e "Eros", em que ele dirige um dos episódios. Se você procurar bastante, vai achar em VHS o fundamental "Amores Expressos" e "Anjos Caídos".

A seguir, o trailer de "Dias Selvagens".

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 3h24 PM

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Amos Gitaï não é israelense?

Amos Gitaï não é israelense?

Boa história trazida pelo "Jornal da Mostra", informativo do festival de cinema paulistano. Ninguém duvida que Amos Gitaï seja o principal cineasta israelense em atividade. Ninguém? Bem, parte do governo israelense não concorda muito com essa frase.

Na semana passada, a Autoridade de Radiodifusão Israelense, órgão público, voltou atrás em um acordo com Gitaï, que previa a liberação de US$ 200 mil para "Disengagement" (foto), o mais novo filme do diretor. Pelo acerto, a obra passaria na TV israelense, que também teria direito a exibir os últimos nove longas do autor.

O comitê de TV da ARI recusou o acordo por unanimidade, e seus membros argumentaram que Gitaï não é um artista israelense, que não mora no país há muitos anos e que seus filmes são politicamente controversos, dado o pendor à esquerda.

Gitaï nasceu em Haifa, Israel, em 1950. Passa parte do tempo lá, parte em Tel Aviv e parte em Paris. Seus filmes têm o mérito de abordar o conflito no Oriente Médio de forma plural, olhando para todos os lados, problematizando ações palestinas e também israelenses.

O "Haaretz", um dos principais diários de Israel, publicou parte da carta do advogado de Gitaï ao comitê da ARI. O trecho mais interessante: "Parece que as justificativas para rejeição (do acordo) eram infundadas ou baseadas em informações erradas ou que não foram examinadas, para dizer o mínimo... É desnecessário notar que todos os filmes de Gitaï foram filmados e editados em Israel".

A Mostra ainda não divulgou sua programação deste ano, mas confirma que "Disengagement" será exibido no festival de SP, que acontece de 19 de outubro a 1º de novembro. O novo longa do diretor é um drama sobre a relação de dois irmãos e tem como pano de fundo a saída de Israel da faixa de Gaza. Foi filmado na França e em Israel e, apesar de estrelado por Juliette Binoche, também tem atores e produtores israelenses.  E foi exibido na noite de gala do festival de Haifa. Parece um bocado israelense, não?!

Escrito por Leonardo Cruz às 6h03 PM

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Destaques do Festival do Rio

Destaques do Festival do Rio

O Festival do Rio divulgou nesta segunda a lista com os destaques internacionais de sua programação _a edição 2007 começa no próximo dia 20 e terá cerca de 300 filmes, divididos em 20 seções.

Alguns filmes premiados nos principais festivais europeus deste ano serão exibidos pela primeira vez no Brasil durante a mostra carioca. Exemplos? Vamos lá: de Veneza virão "Se, Jie" ("Luxúria, Cuidado"), de Ang Lee (Leão de Ouro, foto), "It's a Free World", de Ken Loach (melhor roteiro), e "I'm Not There", de Todd Haynes (Prêmio Especial do Júri). De Cannes, "4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias", de Cristian Mungiu (Palma de Ouro), e "Paranoid Park", de Gus van Sant (Prêmio Especial do 60º Aniversário).

Além desses premiados, muitos outros estrangeiros merecem atenção. Da relação divulgada pelo festival, aí vai uma triagem do que parece obrigatório, a começar, claro e finalmente, por Lynch.

"Inland Empire", de David Lynch (França/EUA, trailer abaixo)
"Les Témoins", de André Techiné (França)
"Fay Grim", de Hal Hartley (EUA)
"Hei Yan Quan" ("Eu Não Quero Dormir Sozinho"), de Tsai Ming-liang (Taiwan)
"Rescue Dawn", de Werner Herzog (EUA)
"Ne Touchez pas la Hâche", de Jacques Rivette (França)
"A Mighty Heart", de Michael Winterbottom (EUA)
"Une  Vieille Maitresse", de Catherine Breillat (França) 
"Sicko", de Michael Moore (EUA)
"La Fille Coupée en Deux", de Claude Chabrol (França)
"Death  Proof", de Quentin Tarantino (EUA)
"Bashing", de Masahiro Kobayashi (Japão)
"Solnze" ("O Sol"), de Alexander Sokurov (Rússia)
"Le Papier ne Peut pas Envelopper la Braise", de Rithy Panh (França)
"Control", de Anton Corbijn (Reino Unido)
"El otro", de Ariel Rotter (Argentina)
"Nacido y Criado", de Pablo Trapero (Argentina)
"Déficit", de Gael García Bernal (México)

Escrito por Leonardo Cruz às 8h11 PM

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O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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