A jornalista da Folha Beatriz Peres conta a seguir o insólito e lamentável episódio por ela testemunhado no Frei Caneca Unibanco Arteplex neste 7 de Setembro:
Feriado nacional na sexta-feira, sala 8 do Arteplex lotada de velhinhos reunidos para ver “Brasileirinho” (foto), de Mika Kaurismäki. Antes de se apagarem as luzes, dois rapazes sorridentes aparecem na frente da tela e explicam que, para promover uma marca de suco de soja, seríamos convidados a participar de uma “propaganda interativa”. Hã? “É para quebrar um pouco da rigidez do cinema”, dizem. Hã?? E informam as regras: teríamos que fazer bastante barulho quando a propaganda fosse exibida antes dos trailers. Valia bater o pé no chão, falar ao celular, gritar e bater palmas. O objetivo: fazer (com o barulho) uma embalagem do suco estourar e encher um copo. Ah, tá. E aposto comigo mesma: ninguém vai fazer barulho nenhum, certo? Claro que não: erradíssimo. Na hora da tal propaganda, os moços sorridentes reaparecem e, como líderes de torcida, comandam os velhinhos na algazarra até a tal embalagem explodir. A platéia se diverte um pouco e pede suco grátis. “Na saída”, respondem os sorridentes. Melhor assim. Para ser pior do que essa cena, só se garçons resolvessem distribuir a bebida durante a exibição do filme. “Brasileirinho”, o razoável documentário de Kaurismäki sobre chorinho, poderia ter passado sem essa.
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Mais sobre William Friedkin Quem também gostou do ótimo “Possuídos” precisa fazer um passeio pelo site da revista “Paisà”. Está no ar há alguns dias um dossiê sobre a obra do diretor, com cotação e comentário para cada um de seus filmes. Boa oportunidade para descobrir (ou relembrar) que a carreira do cineasta vai muito além de “O Exorcista”.
Depois do episódio das cópias que foram parar nos camelôs, o filme “Tropa de Elite” voltou a ser notícia nestes dias, em nova polêmica. Reportagem publicada hoje pela Folha informa que um grupo de 23 oficiais da PM querem que a Justiça impeça a exibição do longa-metragem de José Padilha.
Após assistir ao filme num DVD pirata, Rogério Roca, advogado dos policiais militares, disse que “Tropa de Elite” “causa danos” à corporação e que os autores do filme “enxovalharam a PM, o Bope e os policiais”. Roca buscará uma liminar que impeça a exibição da obra no dia 20, no Festival do Rio, e sua estréia nacional, em 12 de outubro.
Num segundo estágio, o advogado pretende mover uma ação por danos morais, pedindo indenizações, o pagamento de direitos de imagem e a retirada de cenas que desagradaram aos militares.
Direto ao ponto: tentar censurar uma obra de arte é dar um tiro no pé. Por mais que inspirado em fatos reais, “Tropa de Elite” é uma peça de ficção _recentemente, são raríssimos no Brasil os casos de filme cuja exibição tenha sido impedida por ordem judicial.
Se nenhuma Corte tiver a idéia maluca de atender aos desejos de Roca e seus contratantes, este novo episódio servirá apenas para fazer o que os PMs aparentemente não querem: dar mais visibilidade ao longa de Padilha.
De polêmica em polêmica, “Tropa de Elite” vai chamando a atenção cada vez mais, aqui e lá fora. O londrino “Guardian” nesta semana descreveu o filme como uma espécie de “Cidade de Deus 2” _e todos sabemos como os ingleses adoraram o original de Fernando Meirelles.
Além do talento já demonstrado por Padilha em “Ônibus 174” e do boca-boca positivo de quem já viu o longa, os fatos fora das telas estão ajudando a transformar “Tropa de Elite” no filme mais aguardado deste final de ano. Se o lançamento for bem-feito, o resultado deve aparecer na bilheteria.
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Campanha de marketing ou não, caiu no YouTube o que parece ser um trecho de cinco minutos do filme. Aí vai.
Constante promessa entre os diretores da nova geração do cinema americano, Todd Haynes mostrou, no Festival de Veneza, um filme que confirma seu talento. “I’m Not There”, que foi exibido nesta terça-feira, na competição pelo Leão de Ouro, era um projeto cercado de grande expectativa, tanto pelo gigantismo de seu tema (uma cinebiografia de Bob Dylan) quanto pela originalidade da proposta (seis atores interpretam fases e aspectos diferentes da vida do cantor e compositor). E o resultado mostra que a proposta não era puro exibicionismo, e sim a evolução natural de um cinema que procura comungar pesquisa de linguagem e um certo grau de comunicação, que não encerre o filme em um nicho fechado.
Haynes conseguiu, enfim, o que vinha buscando desde o começo de sua carreira: captar o fluxo da vida e as metamorfoses que sofremos fugindo dos elementos que costumam servir de leito para a narrativa convencional (a trajetória do herói, os “três atos” do roteiro, e, principalmente, as “causas” que determinam o destino dos personagens). O objeto do filme é perfeito para isso: Bob Dylan é, ao mesmo tempo, um artista em eterna transformação e um homem coerente com alguns princípios básicos.
“I’m Not There” reproduz essa idéia dentro de sua própria estrutura, de forma muito bem-sucedida. Épico, musical, drama intimista, faroeste, "road movie", comédia _o filme se transforma na medida em que seu personagem “pede”. E Haynes faz o pequeno milagre de conferir uma estranha organicidade a tudo isso.
Os atores ajudam. Eles vivem personagens com nomes diferentes mas que, fica muito evidente, representam facetas ou fases de um mesmo homem, Bob Dylan. Do menino negro Marcus Carl Franklin, que faz o pequeno Dylan, fugitivo e já apaixonado por determinados aspectos da música tradicional americana, a Cate Blanchett, que incorpora Dylan na fase mais conturbada de sua carreira, quando ele incorporou uma banda de rock e foi considerado um traidor do folk e da canção de protesto.
“I’m Not There” tem distribuição garantida no Brasil. Antes de assistir ao filme, uma dica. Vale correr atrás de dois grandes documentários sobre Dylan: “No Direction Home”, de Martin Scorsese (2005), “e Don’t Look Back”, de D.A. Pennebaker, clássico do cinema direto de 1967. A seguir, o trailer do longa de Todd Haynes.
Em setembro do ano passado, quando estava no Festival de Toronto para apresentar “Dália Negra”, Brian De Palma foi procurado por um representante da produtora HDNet Films com uma proposta: desenvolver um filme de U$ 5 milhões, sobre qualquer tema, desde que realizado em vídeo digital de alta definição.
De Palma respondeu que concordaria, se encontrasse um assunto adequado ao formato. Pouco depois, tomou conhecimento de um incidente da Guerra do Iraque em que soldados americanos de um posto de controle estupraram uma garota de 14 anos, massacraram sua família, atiraram no rosto dela e incendiaram seu corpo. “Como esses garotos podem ter chegado a esse ponto? Procurando respostas, li blogs de soldados, assisti a seus vídeos amadores, surfei pelos seus websites e pelo material postado no YouTube. Estava tudo lá, e tudo em vídeo”.
O resultado desse trabalho foi exibido pela primeira vez na sexta-feira passada, na competição do Festival de Veneza, provocando alto impacto. “Redacted”, que também será exibido no Festival de Toronto e tem estréia garantida no Brasil, é a recriação ficcional desse episódio brutal na forma de um documentário multiforme, reproduzindo os meios de captação e reprodução da imagem digital hoje: diários filmados, documentários amadores, câmeras de vigilância, testemunhos online. Na verdade, trata-se praticamente de uma refilmagem de “Pecados da Guerra”, que De Palma realizou em 1989, sobre um episódio muito semelhante ocorrido na Guerra do Vietnã.
Inconformado com a repetição de erros do passado e com a situação da mídia nos Estados Unidos hoje, De Palma fez um filme profundamente político, não só pelo seu conteúdo, mas também pela proposta de uma reflexão em torno do estatuto da imagem nos dias de hoje. “Redacted” significa “editado”, numa referência à forma como a informação sobre a Guerra do Iraque vem sendo veiculada pelos grandes meios de comunicação _“na base da omissão, da mentira e da censura”, nas palavras do diretor. Em entrevista à Folha, Brian De Palma transbordou sua indignação com a guerra e criticou, ainda, a indústria do cinema americano.
Folha - Depois da primeira exibição de “Redaced”, a platéia parecia um tanto atônita, sem saber como reagir ao filme. Você já acompanhou uma projeção pública? O que achou da reação? Brian de Palma - Antes de Veneza, mostrei o filme para poucos amigos, produtores e distribuidores. Notei essa mesma reação, em todas as exibições que fiz. Não sei bem por que, talvez por ser algo novo as pessoas ainda não saibam exatamente como processar o que viram. Quando você faz algo inovador, é natural que perguntem o que é isso. Mas, na verdade, só estou apresentando um material na forma como eu o descobri. Procurei determinadas informações, e a forma do filme evoluiu naturalmente dessa pesquisa. Fiz “Redacted” da maneira que me pareceu a mais correta para expor o tipo de material que encontrei.
Folha - Como foi o trabalho de pesquisa? De Palma - Basicamente, usei as ferramentas de busca da internet. Juntei mais de cem páginas de material e descobri tudo o que você vê no filme, não inventei absolutamente nada. O que selecionei e o que ficou na versão final é baseado em material de plena confiança. Está tudo lá. Nem sempre pudemos identificar a origem de certos materiais, que por isso não foram usados. Mas apenas por uma questão legal, não duvidei da veracidade deles.
Folha - Além da pesquisa virtual, você chegou a conversar com soldados? De Palma - Sim, vários. A pesquisa não se limitou à internet. E o mais impressioannte é que as histórias são as mesmas, exatamente as mesmas do Vietnã! Os veteranos se fazem as mesmas perguntas, dizem as mesmas coisas: “O que fomos fazer lá? Todo mundo parece me odiar! Que diabos é isso? Meu amigo expliodiu atrás de mim!”. É exatamente a mesma história que contei em “Pecados da Guerra”.
Folha - Você encontrou muitas barreiras legais enquanto desenvolvia este filme? De Palma - Sim. Precisei consultar advogados para saber o que poderia ser usado o tempo todo. O material que cai na internet não é de domínio público se você for fazer um filme de ficção. E isso é uma loucura. Nunca entendi direito como funciona essa legislação. Em nosso país, se você faz uma obra de ficção baseada em algo que supostamente aconteceu de verdade, pode facilmente ser processado pelas pessoas que viveram a história _mesmo depois de essa história ter sido publicada, impressa e transmitida pela televisão infinitas vezes. O argumento utilizado é que o cinema é um meio comercial, mas então eu pergunto: a televisão não é um meio comercial? É difícil entender porque perdemos tanto tempo com isso... Gostaria, por exemplo, de usar uma frase dita por um soldado numa determinada situação, mas não pude fazê-lo. Tudo, no filme, é ficcionalizado, mas não menos verdadeiro.
Folha - Como foi esse processo de “ficcionalização”? De Palma - No fundo, fácil, porque na verdade já fiz esse filme antes. Conhecia o material dramático. Só me reaproximei daquela história em um novo país, o Iraque, sem precisar me afastar do material real que chegou às minhas mãos.
Folha - Por que a maior parte dos americanos não chegou a esse material, se ele está todo disponível na internet? De Palma - Isso é curioso. Não sei por que, mas toda a forma como a informação circula mudou, e muita gente ainda não sabe como chegar até ela. Do Vietnã para cá, acho que o aspecto do mundo que sofreu a maior transformação foi a mídia, que hoje não informa, mas esconde a informação. É preciso fazer um filme sobre isso: o que aconteceu com a mídia? Que tipo de transformação se efetuou? A primeira Guerra do Golfo, por exemplo, foi impressionante. Parecia um show de fogos de artifício. Ninguém via onde as bombas caíam, eram apenas luzes no céu. Mas, Deus do céu, aquelas bombas estavam caindo sobre pessoas!
Folha - Ter feito esse filme em vídeo foi um ato político? De Palma - Não, o vídeo não é político por ser vídeo, é apenas um meio que está aí, disponível. O fato é que surgiu toda uma nova indústria criativa a partir do vídeo e da tecnologia digital e nós não fazemos idéia de onde ela vai parar. Toda vez que me conecto na internet, descubro alguma coisa nova. Há correspondentes de televisão em várias partes do mundo que transmitem programas ao vivo, de suas próprias casas. Hoje, cada um pode ter seu próprio programa de TV. Isso é uma revolução.
Folha - Antes desse filme, você já estava amplamente familiarizado com a internet? De Palma - Sim, adoro computadores, sou muito interessado no desenvolvimento da tecnologia, nas novas formas de captar e usar a imagem. Está tudo mudando muito rápido. Presto atenção na minha filha para saber o que está aparecendo.
Folha - Como você espera que seu filme seja recebido nos Estados Unidos? De Palma - Fiz esse filme o mais silenciosamente possível, não queria que a notícia vazasse e algo pudesse atrapalhar nosso processo de trabalho. Tenho certeza de que “Redacted” vai desagradar muita gente. Sua primeira exibição está sendo aqui no Festival de Veneza. Acredito que, nos Estados Unidos, a reação vai ser bastante polarizada. A direita vai chamá-lo de propaganda comunista. Será uma reação forte. Já está sendo, aliás, antes mesmo do filme ser exibido.
Folha - Qual será, na sua opinião, o desenvolvimento da guerra a partir de agora? Haverá uma retirada em um curto espaço de tempo? De Palma - Não. Essa guerra ainda vai durar muito tempo. Provocamos um caos e agora fica difícil sair dele. Alguém acreditou, algum dia, que nossa presença no Iraque tornaria algo melhor? Obviamente não sabemos nada! O que estamos fazendo lá? Mas a consciência do desastre está cada vez maior. Talvez com o novo Congresso, as coisas comecem a mudar. O desenrolar dessa guerra foi tão ruim e há tanta mentira que não há como evitar que as coisas venham à tona. É por isso que vamos ver mais filmes sobre esse assunto. Ainda não vi o filme de Paul Haggis [“In the Valley of Elah”, também em exibição em Veneza], mas tenho certeza de que é muito interessante. Oliver Stone vai fazer um novo filme sobre o Vietnã, e muitos outros estão vindo por aí.
Folha - Você é a favor de uma retirada imediata? De Palma - Não sou político nem militar, não me considero com elementos suficientes para dizer qual a saída para essa situação. Só sei que não deveríamos estar lá, simples assim! O Oriente Médio é uma área complicada, que foi dividida e explorada. Árabes têm sido mortos há décadas. Já passamos por isso, lemos nossos livros de história, mas estamos nós de novo, invadindo, matando, estuprando, recolhendo todos os recursos. Até o Império cair e sermos expulsos. O que há de novo nisso? Minha maior esperança é que há um limite físico, no sentido de que não temos gente o suficiente para continuar mandando para a guerra.
Folha - Por que, no fim do filme, você exibe fotos reais e faz questão de deixar claro que essas fotos são reais, em uma cartela explicativa? De Palma - Num filme como esse é preciso deixar claro o que é verdadeiro e o que é falso. Vivemos na era da reality TV, não quis reproduzir esse tipo de lógica no filme.
Folha - Você pretende continuar a fazer filmes políticos? De Palma - Não sei. Estou muito indignado com o grau de corrupção nos Estados Unidos hoje. Certamente quero fazer um filme sobre isso. Também quero fazer outro filme usando essa mesma técnica, mas ainda não sei exatamente o quê.
Folha - Depois dessa experiência, você chegou a pensar em dirigir um documentário “puro”? De Palma - Sim, se fosse um filme no estilo do cinema direto, o que sempre me interessou. Mas isso consumiria muito tempo; é preciso ficar dois, três anos acompanhando alguém para obter alguma coisa interessante, e tenho muitas idéias de ficção na minha cabeça.
Folha - Você acredita que seu filme possa mudar alguma coisa? De Palma - Não quero mudar nada, mas espero, sim, fazer as pessoas entenderem melhor o que esses soldados têm passado e lutar para que esses fatos não sejam esquecidos. Moro numa região da Califórnia próxima do hospital dos veteranos. Vejo, todos os dias, veteranos caminhando nas ruas com um olhar absolutamente perdido, distante. Parece que estão caminhando por Marte... Não podem mais se comunicar, se relacionar com suas comunidades. As relações se destroçam depois de experiências como essa. É uma história terrível atrás da outra, o que deve continuar por décadas. Essas pessoas estão profundamente traumatizadas. Foi assim no Vietnã. Não temos idéia do tamanho do dano psicológico que sofreram.
Folha - É possível voltar à ficção depois de um filme como esse? De Palma - Não sei... Quero ainda fazer muitos filmes, mas filmes que sejam do meu interesse, do coração. Estou cansado de lidar com todo o “mambo jambo” do cinema. Todos os executivos de Hollywood, hoje, vieram da televisão. Veja bem: há muita coisa boa na televisão, principalmente na TV a cabo, mas esses executivos simplesmente não entendem nada de cinema. Eles querem produzir coisas que possam passar no horário nobre.
Folha - Como está o projeto da continuação de “Os Intocáveis”? De Palma - Ainda estamos procurando o ator ideal para interpretar Al Capone, mas não encontramos. Não tenho idéia se esse será meu próximo filme, mas esse projeto ainda está vivo.
Folha - Como vê as perspectivas de sua carreira, daqui para adiante? De Palma - Qual é o objetivo de uma carreira cinematográfica hoje? Fazer um sucesso atrás do outro? Mas por quê? Depois que você juntou um certo dinheiro, qual é o sentido em ganhar mais dinheiro? Essa é a grande questão. Quando fiz “Missão Impossível”, meu filme de maior sucesso, Tom Cruise veio me perguntar se queria fazer “MI2”. Mas por quê? O que pode haver de interessante criativamente aí? Vejam Sam Raimi, um diretor tão talentoso, e o que ele tem feito? Vai passar o resto da vida fazendo “Homem-Aranha”! Vão fazer mais três filmes! Sinceramente, esse é um preço alto demais para ganhar 1 bilhão de dólares... Na minha idade, aproveito o que me resta. Estou feliz com os filmes que fiz, e quero fazer com que todos os dias sobre este solo que piso sejam bons dias.
(Esta é a versão integral da entrevista com Brian De Palma, cujos principais trechos foram publicados na capa da versão impressa da Ilustrada desta terça-feira.)
Morreu o fotógrafo e cineasta Mário Carneiro, informa Carlos Alberto Mattos em seu DocBlog. Tinha 77 anos, sofria de câncer. Seu funeral será no Cemitério São João Batista, no Rio, nesta tarde, às 17h. Um dos principais diretores de fotografia da história do cinema brasileiro, Carneiro trabalhou em filmes como "Porto das Caixas", "Todas as Mulheres do Mundo" e "Di". Quem viu "500 Almas", sua última obra, sabe da importância de sua fotografia para a excelência do documentário de Joel Pizzini. A perda de um artista é sempre maior quando este ainda estava na ativa, produzindo como Carneiro ainda produzia até recentemente.
Numa época em que os multiplex se proliferam, não há mais cinemas em São Paulo como o Gemini, sala da avenida Paulista de charme decadente, estacionada no passado, em algum momento dos anos 80. Para nossa sorte, não virou igreja nem bingo.
Localizado numa galeria, o Gemini é na prática um cinema de rua, pois sua entrada fica a cerca de 20 passos da calçada da alameda Joaquim Eugênio de Lima. Exibe vários filmes por dia (atualmente sete), em sessões alternadas, driblando a limitação física de suas duas salas. E funciona como último refúgio de bons longas, lugar onde aquela fita bacana fica algumas semanas, depois de ter rodado o circuito e antes de sair de cartaz.
Na tarde deste último domingo, desisti de meu Palestra após um primeiro tempo de baile cruzeirense e fui ao Gemini ver “Possuídos” (“Bug”), de William Friedkin. O novo trabalho do diretor de “O Exorcista” me fôra muito bem recomendado por amigos.
A diferença do Gemini para os cinemarks da vida começa já na bilheteria. Os ingressos, naqueles grandes talonários antigos, não trazem o nome do filme nem o horário da sessão. De relevante, cada bilhete (laranja ou roxo) apresenta apenas a inscrição “inteira” ou “meia”.
Um escadão leva à entrada das duas salas. Sofazões velhos, mas em bom estado, bancos de madeira, carpete estampado puído e bonbonnière com pipoca baratinha. Banheiros de azulejo vinho até o teto, muito limpos, com sabonete líquido e papel-toalha.
A sala 1 tem 379 poltronas de couro, daquelas em que o espectador se afunda. O mesmo carpete estampado puído reveste tudo e ataca as vítimas de rinite. Começa a projeção (imagem razoável, som ok) e me dou conta que “Possuídos” nasceu para ser exibido no Gemini, um cinema Rústico, como o nome do motel americano onde a ação se desenrola.
Agnes (Ashley Judd) é a garçonete que vive num quarto desse motel, traumatizada pelo desaparecimento do filho pequeno e assombrada pela possível volta do marido, um presidiário solto sob condicional. Ela conhece Peter (Michael Shannon), ex-militar atordoado por experiências recentes no Golfo Pérsico.
Peter e Agnes se descobrem alvo de ataques de microinsetos, pulgões que deixam pequenas feridas em seus corpos _ao longo da sessão, sinto estranhas coceiras nas pernas, não sei se reais ou imaginárias.
Fato ou paranóia, a ação dos pulgões detona um contra-ataque desenfreado de Agnes e Peter, que fazem de tudo para dar cabo dos insetos, num filme que cresce e eletriza mais a cada minuto.
Saí de “Possuídos” com aquele misto de perplexidade e fascinação que só as grandes obras despertam. E feliz por tê-lo visto numa sala que, de forma muito peculiar, está à sua altura.
Voltarei ao Gemini nas próximas semanas. Quando comprei meu ingresso, não resisti à promoção e paguei mais 3 reais por um bilhete extra, que pode ser usado em qualquer sessão num prazo de um mês.
Voltarei com gosto. Vida longa a William Friedkin. Vida longa ao Gemini.
O grande destaque do Festival de Veneza neste domingo foi a pré-estréia mundial do novo longa-metragem de Woody Allen, “Cassandra’s Dream”. Sem contar com o diretor no elenco, o filme marca a volta de Allen ao suspense depois do pequeno “divertissment” de “Scoop – O Grande Furo”. Mas o tom, agora, é ainda mais soturno do que em “Match Point” (o mais bem sucedido entre seus filmes recentes).
Outra vez situado em Londres, “Cassandra’s Dream” traz Ewan McGregor e Colin Farrell como dois irmãos de origem modesta, que acabam cometendo um crime bárbaro em nome da ascensão social. Mas, se em “Match Point” o acaso era determinante para os rumos do protagonista, agora é o destino que está em jogo, numa recriação contemporânea da tragédia grega.
McGregor vive o irmão arrivista, que mente para sua namorada dizendo-se um empresário do ramo hoteleiro. Farrell é um mecânico de automoveis que contrai uma grande dívida em função de seus vícios (pôquer e corridas de cachorro). Os dois precisam ganhar muito dinheiro rapidamente, e a oportunidade surge quando seu tio Howard (esse sim um bem-sucedido empresário do ramo da hotelaria) lhes faz uma proposta indecente.
“Cassandra’s Dream” é muito bem resolvido do ponto de vista do roteiro (apesar do fim um pouco abrupto), mas é, sobretudo, a mais bem filmada das obras recentes de Allen. Com elegância e economia de meios, Allen fez um filme hipnotizante, que conta com uma trilha sonora original, assinada por Philip Glass, que muito contribui para a atmosfera densa.
Na entrevista coletiva do filme, Allen estava cabisbaixo e aparentemente cansado _talvez por ter acabado de rodar, há apenas cinco dias, seu mais novo filme, todo rodado em Barcelona. Sobre o projeto espanhol, falou: “é uma comédia dramática, com elementos românticos. Uma história de amor com algumas coisas divertidas no meio. Ainda não tenho um título, mas assim que o material tomar uma forma, sei que ele vai aparecer”.
Ewan McGregor contou que filmar com Allen é uma experiência única: “Você precisa estar à altura. Ele filma rápido, em planos únicos, cenas com muito diálogo, sem fazer muita cobertura. Então, você precisa estar preparado. Ele até dá liberdade para improvisar, mas você nao se sente tão bem improvisando quando o texto foi escrito por Woody Allen. As palavras estão muito bem colocadas...”.
O domingo do Festival de Veneza girou em torno de grandes mitos. Além da recriação da tragédia grega por Woody Allen em “Cassandra’s Dream”, o brasileiro Júlio Bressane apresentou “Cleópatra”, sua versão para o mito da rainha egípcia, e o neo-zelandês Andrew Dominik (de “Chopper”, inédito no Brasil, estreando em Hollywood) exibiu “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford”, uma nova versão para o mito do lendário bandido do Velho Oeste americano, estrelada por Brad Pitt.
O filme de Bressane, mais uma poderosa recriação audiovisual de grandes temas, feita na tradição modernista brasileira, teve uma ótima recepção na sessão para a imprensa (no sábado) e gerou bastante interesse na entrevista coletiva, realizada neste domingo. Bressane explicou que, como o mito de Cleópatra praticamente não teve ressonância em português, sua primeira preocupação foi “forjar imagens de Cleópatra dentro da lírica da língua portuguesa”. O roteiro partiu de uma longa pesquisa, que o cineasta definiu como uma “semiótica de Cleópatra”, buscando fontes textuais (como Plutarco), musicais e pictóricas. “Meu filme é o fragmento de um grande tema, que é a tirania”, definiu.
Alessandra Negrini, a atriz que vive Cleópatra, também presente na coletiva, explicou que o filme é dividido em duas partes: “na primeira, apolínea, marcada pelo relacionamento entre a rainha e Júlio Cesar, Cleópatra ainda está marcada pela política e pela razão; na segunda, dionisíaca, quando está apaixonada por Marco Antônio, ela é puro desejo”.
Exibido na competição pelo Leão de Ouro, “O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford” (trailer abaixo) oferece uma releitura para o mais tradicional dos gêneros americanos, o faroeste. Andrew Dominik retoma uma história que já passou pelas mãos de Samuel Fuller e Anthony Mann, fazendo o caminho inverso desses mestres. Apesar de ser visualmente muito bonito (uma indicação ao Oscar de fotografia, para Roger Deakins, é uma barbada), o filme se excede tanto em relação às motivações psicológicas que teriam levado Robert Ford a matar seu parceiro de crime com um tiro pelas costas como na composição das imagens, sempre emolduradas pelas tintas de uma grande “criação artística”.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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