Ilustrada no Cinema
 

Linklater em dose dupla

Linklater em dose dupla

Sem muito alarde, Richard Linklater, 47, vem construindo uma das obras autorais mais interessantes do cinema norte-americano atual. Se, por um lado ele faz obras mais comerciais (como "Escola do Rock"), é em filmes como "Antes do Amanhecer" que ele consolidou seu status de cult, ao lado de diretores que afloraram nos anos 90, como Quentin Tarantino e Kevin Smith. Linklater é uma espécie de versão pop do francês Eric Rohmer: muito papo-cabeça, pouca ação.

Dois de seus filmes cult, "Waking Life" (2001, foto acima) e "O Homem Duplo" (2006, foto abaixo), que dialogam entre si tanto na forma quanto no conteúdo, chegam quase ao mesmo tempo em DVD, o primeiro pela Fox e o segundo pela Warner. Em ambos Linklater usa a técnica da rotoscopia, que aplica recursos de animação sobre cenas filmadas com atores. O resultado são filmes que parecem desenho animado, mas não são.

Há quem ache essa opção estética mera afetação. Mas ela funciona bem em "Waking Life". O filme surgiu de uma experiência pessoal de Linklater. Certo dia, ele ficou "preso" dentro de um sonho. Nele, tinha plena consciência de que estava sonhando, mas não conseguia acordar de verdade. Sempre acordava dentro de outro sonho.

Não há trama propriamente dita no filme. O que há é um fiapo de narrativa nas andanças de um rapaz sem nome (Wiley Wiggins), que vai cruzando com inúmeras pessoas. Com cada uma delas, vai ouvindo monólogos que discorrem sobre assuntos que vão desde existencialismo e reencarnação e discursos políticos. Pode-se considerar o filme confuso e raso (a distância entre o papo-cabeça e o papo de boteco não é muito longa), mas o fato é que "Waking Life" capta com precisão seu tema: a dúvida sobre o que é real e o que é imaginário.

Dúvida que era central também para o escritor de ficção científica americano Philip K. Dick (1928-1982). O diálogo final de "Waking Life", que ajuda a elucidar a charada do filme, não por acaso é todo construído sobre uma experiência de K. Dick.

Já "O Homem Duplo" é baseado num conto de tintas autobiográficas do escritor, e novamente, uma das questões centrais é a dúvida sobre a realidade e o imaginário. Não chega a funcionar tão bem quanto "Waking Life", mas ainda assim tem seu charme (nem que seja só para ver os extras, que trazem trechos de entrevistas com o próprio K. Dick).

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A seguir, um trechinho de "Waking Life".

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h24 PM

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Perdido na tradução

Perdido na tradução

É ótimo que os novos filmes de grandes cineastas cheguem às salas de cinema do país, e um exemplo disso é “Medos Privados em Lugares Públicos”, de Alain Resnais, em cartaz em São Paulo. O filme é uma bem-humorada reflexão sobre a solidão humana e merece ser visto. Mas a cópia em exibição tem alguns problemas de tradução, e as legendas apresentam erros que incomodam quem conhece um pouco de francês.

Um exemplo: na primeira cena do filme, Nicole (Laura Morante) visita um apartamento com o corretor Thierry (André Dussollier). Ela diz que o apartamento é pequeno, que pedira um de três quartos. Ele afirma que o imóvel tem três quartos. Ela rebate, argumentando que era um apartamento de dois quartos grandes e que um deles foi dividido ao meio por uma parede. É quando a tradução se enbanana. Nicole argumenta que, com a divisão, sobrou um quarto grande e dois meios-quartos _ou seja, ainda um imóvel dois quartos. Essa fala é traduzida como “um quarto grande e dois pequenos”, o que distorce o raciocício da personagem. Na sequência, Nicole continua sua tese e diz que cada meio-quarto tem meia-janela, pois a janela original também foi dividida pela parede. E a legenda traduz que cada quarto pequeno tem uma janela pequena. E a graça do diálogo original vai pro beleléu.

Quer outro? Mais adiante no filme, uma personagem afirma: “Ai ai ai ai ai!”. E a legenda traduz: “Minha nossa!”. Minha nossa! Traduzir filmes como o de Resnais, centrados no diálogo, é extremamente difícil e, por isso mesmo, exigem atenção redobrada. “Medos Privados” merecia mais cuidado.

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Bola dentro da Cinemark
A rede Cinemark trocou seu vídeo institucional antes dos filmes. No passado, era aquele que dizia ao público: “Evite falar alto durante o filme”. Agora, usando cenas de “Os Simpsons, o Filme”, com Mr. Burns fazendo cara de mau, o vídeo é direto: “E nada de conversa”. Não que a platéia entenda o recado _ao menos não nas sessões que vi de “Duro de Matar 4.0” e “Harry Potter”. Mas o fato de a rede dar o exemplo é um bom começo. Espera-se que, depois que “Os Simpsons” sair de cartaz, a Cinemark não volte para o vídeo antigo e sua mensagem equivocada.

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Brasil verá o ganhador da Palma de Ouro
Boa notícia! O vencedor do Festival de Cannes deste ano entrará em cartaz no circuito comercial brasileiro. “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, do romeno Cristian Mungiu, foi comprado pela distribuidora Lumière, que volta a lançar filmes no mercado brasileiro. A informação está no boletim Filme B desta semana. A data de estréia do vencedor de Cannes ainda não foi definida, mas a obra já está na programação do Festival do Rio, que acontece em setembro. A seguir, uma cena do filme.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h46 PM

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Iracema é cool

Iracema é cool

Para comemorar seu 75º aniversário, a “Sight & Sound”, revista de cinema do British Film Institute, pediu a 75 críticos que apontassem um filme “obscuro e digno de maior eminência”. O resultado foi a lista das “75 gemas escondidas”, o título da capa da “S&S” de agosto, também batizada de Cool 75.

A idéia para a Cool 75 surgiu de um debate sobre cânones do cinema organizada pelo BFI em abril. Das discussões em Londres nasceu a proposta de montar uma seleção de filmes que se opusesse aos melhores da história, aos dez mais, aos Hot 100.

Chama a atenção entre os autores da lista que nenhum crítico convidado escreve regularmente para veículos sul-americanos nem leciona em universidades do continente. Por razões óbvias, uma grande parcela dos especialistas é britânica. Há um bom punhado de americanos, alguns canadenses e franceses, como o editor da “Cahiers du Cinéma”, Jean-Michel Frodon. E ao menos um representante de cada região importante na produção mundial.

Se os críticos sul-americanos foram esquecidos, os filmes, não. Há três longas entre as “gemas escondidas” da “Sight & Sound”. Demetrios Matheou, do Channel 4, escolheu “Iracema, uma Transa Amazônica” (1974, lançado em DVD), o filme de Jorge Bodansky e Orlando Senna que mescla ficção e realidade para retratar o impacto da construção da estrada para a região amazônica nos anos 70.

Matheou justifica assim sua escolha: “Banido pela ditadura militar brasileira, mantido por anos como um filme cult e agora reverenciado por diretores inspirados por seu método e sua ambição de revelar um Brasil escondido, ‘Iracema’ é ao mesmo tempo um ‘road movie’, uma provocação política e um experimento cinemático”. Boa definição. O detalhe chato é que a “Sight & Sound” errou o título do filme (saiu “Amaziônica”) e o ano de produção (saiu 1976).

Os outros dois sul-americanos na lista são o peruano “Kukuli” (1960, de Luis Figueroa, Eulogio Nishiyama e César Villanueva) e o argentino “No Habrá Más Penas ni Olvido” (1983, de Héctor Olivera). Entre os 75 títulos escolhidos há longas mais conhecidos do público, como “Um Tiro na Noite” (1981, de Brian De Palma), e obras mais obscuras, como o tunisiano “The Girl From Carthage” (1924, de Albert Samama Chikly). A seleção inclui ainda filmes menos consagrados de diretores importantes, como Luis Buñuel, George Cukor, Shohei Imamura, Robert Aldrich, Gillo Pontecorvo e Samuel Fuller.

A “S&S” não colocou a lista completa em seu site, mas vale dar um pulo lá para ler a entrevista em que Gus Van Sant sobre a obra de Andy Warhol e o impacto que o artista teve em seu trabalho. As 75 gemas da “Sight & Sound” estão listadas aqui.

Escrito por Leonardo Cruz às 2h17 PM

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O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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