Ilustrada no Cinema

 

 

Podcast - entrevista com Acerola

Podcast - entrevista com Acerola

 

Está no ar, aqui e na Folha Online, mais um podcast do blog, desta vez com uma entrevista com Douglas Silva, o Acerola, da série e agora do filme "Cidade dos Homens", que entra em cartaz no país nesta sexta.

 

Para ouvir, basta clicar abaixo. A seguir, o trailer gringo do longa de Paulo Morelli. Como sempre, críticas e sugestões são bem-vindas.

 

http://media.folha.uol.com.br/ilustrada/2007/08/31/ilustrada_no_cinema.mp3

 

Escrito por Leonardo Cruz às 11h17 AM

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'Reparação' vira filme pomposo e vazio

'Reparação' vira filme pomposo e vazio

Por Pedro Butcher (crítico da Folha, em Veneza)

Para os fãs de Ian McEwan e de sua obra-prima "Reparação", uma má notícia: a adaptação cinematográfica do livro, exibida nesta quarta-feira na abertura do Festival de Veneza, ficou a anos-luz do original. O roteiro de Christopher Hampton (que fez um bom trabalho com "Ligações Perigosas") e a direção de Joe Wright (de "Orgulho e Preconceito") dispensaram as ricas possibilidades de exploração cinematográfica do romance em nome daquela pomposidade vazia que habita nove entre dez filmes de época.

"Reparação", apesar de ser um livro difícil, altamente literário, poderia render um bom filme _afinal, seu assunto central, antes de tudo, é o olhar (o testemunho de uma cena à distância e sua interpretação dão partida à trama). O erro da pré-adolescente Briony, que acusa injustamente o filho da empregada de sua casa de estupro, e as conseqûëncias funestas dessa atitude estão contados com clareza, mas a multiplicidade de vozes do romance de McEwan se reduz a um melodrama em três atos, pontuado por uma música onipresente (de Dario Marianelli), que se torna ainda mais irritante por usar e abusar do som de uma máquina de escrever em sua melodia.

Joe Wright realiza um dos planos-seqûëncias mais inúteis e pomposos dos últimos tempos, mostrando o martírio do personagem Robbie Turner. Para completar, no Brasil o filme vai ganhar o impiedoso título de "Desejo e Reparação" _o original em inglês, fiel ao nome do livro, é "Atonement".

Muitos dólares a menos foram gastos em "Rec", filme de terror espanhol rodado em Barcelona e co-dirigido por Jaume Balagueró e Paco Plaza _com um resultado, ao menos, muito mais divertido. Exibido também nesta quarta-feira, na seção Venezia Notte, Rec pode ser irresponsavelmente definido como uma mistura de "A Bruxa de Blair", 'A Volta dos Mortos-Vivos" e "Edifício Master".

A equipe de um programa exibido nas madrugadas na TV espanhola, chamado "Enquanto Você Dorme"  (um personagem, sabiamente pergunta: mas então ninguém vê?), acompanha uma divisão do corpo de bombeiros em uma típica madrugada. Eles são chamados para uma emergência em um prédio de apartamentos, onde uma senhora, aparentemente, grita por socorro. Em pouco tempo, porém, stão confinados naquele prédio, enquanto coisas absolutamente terríveis começam a acontecer. Há muito tempo não via sustos tão bem construídos com recursos parcos.

Escrito por Pedro Butcher (em Veneza) às 11h02 PM

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Um filme por dia, de graça

Um filme por dia, de graça

Um dos nomes centrais do cinema experimental/documental a partir dos anos 60, o lituano radicado nos EUA Jonas Mekas (foto) continua na ativa e oferece em seu site oficial, gratuitamente, um filme por dia.

Desde 1º de janeiro de 2007, Mekas iniciou a exibição de uma série de 365 curtas, de menos de 5 minutos em média, um a cada dia. São cenas do cotidiano do cineasta (declamando poemas num bar, comendo morangos em Paris) e das pessoas que o cercam, no mesmo tom autobiográfico de obras que marcaram a carreira do realizador, como "Walden" (1969).

Se isoladamente esses filmetes não causam muito impacto, em conjunto os curtas compõem um diário da vida do protagonista, Mekas, um jovem artista de 84 anos.

O download, em formato MP4, é gratuito para o filmete do dia; basta fazer um cadastro no site e baixar. A proposta prevê que o público acompanhe o ritmo de exibição, veja apenas um curta a cada 24 horas. Para assistir aos anteriores, é necessário pagar 2 dólares para cada download, o que torna a brincadeira bem cara, pois a novelinha de Mekas já está no capítulo 241. Ainda assim, vale acompanhar a partir de agora, pois o projeto é interessante, e o velhinho, cheio de boas idéias.

*

Mekas na "Senses of Cinema", Antonioni na "Contracampo"

Cheguei ao site de Mekas e ao seu projeto, após ler uma entrevista com ele na nova edição da ótima revista eletrônica australiana "Senses of Cinema", a do trimestre julho-setembro, que finalmente entrou no ar há alguns dias.

O diretor fala de seus projetos atuais e recém-finalizados e mais uma vez se define como um "filmador" ("filmer") e não como um "cineasta" ("filmmaker"). E por quê? Ele responde: "Eu apenas filmo minha vida. Não tenho planos nem roteiros. Não tenho idéia do que farei com a filmagem. Mas cineastas normalmente têm um roteiro, têm uma idéia, querem fazer um filme. Eles sabem, mais ou menos, o que aquele filme será e o que eles querem que seja. Eles coletam material para fazer esse filme. E os considero cineastas; eles fazem filmes. Eles têm um programa, um plano, uma idéia. Eu não tenho. Eu só filmo".

Outra ótima revista eletrônica que colocou sua nova edição no ar recentemente é a brasileira "Contracampo", capitaneada por Ruy Gardnier. O site nacional presta bom serviço a quem gosta de cinema ao publicar oito artigos de Michelangelo Antonioni sobre o fazer cinematográfico, uma entrevista antiga com o diretor e um depoimento de Monica Vitti sobre as filmagens de "A Aventura".

O pacote da "Contracampo" permite compreender melhor os conceitos de Antonioni, as idéias que moviam seu trabalho, indo além dos obituários publicados na imprensa brasileira à época da morte do diretor. Recomendo especialmente a leitura de "Para mim fazer um filme é viver", no qual o diretor relembra seu primeiro contato com a câmera.

Ainda na edição 88 da revista, um bom dossiê sobre a obra de Alain Resnais e outros mimos. Vale dar um passeio por lá.

Escrito por Leonardo Cruz às 3h59 PM

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Filmes de Kubrick em edições de luxo

Filmes de Kubrick em edições de luxo

Todo cinéfilo que se preze tem em casa alguns filmes de Stanley Kubrick. Não só pela importância do diretor mas também pela facilidade para comprar no Brasil os DVDs de seus longas, especialmente os lançados pela Warner, figurinhas freqüentes nos saldões de lojas reais e virtuais. Mas são edições simples, com pouquíssimos extras ou materiais de apoio _em alguns casos, nenhum.

Pois cinco desses filmes de Kubrick pela Warner ganharão edições de luxo, a serem lançadas em outubro nos EUA e em novembro no Brasil. A caixa "Director Series: Stanley Kubrick Collection" será formada por "2001, uma Odisséia no Espaço", "Laranja Mecânica", "O Iluminado", "De Olhos Bem Fechados" e "Nascido para Matar". Os quatro primeiros serão DVDs duplos, e o último terá extras, mas sairá um disco só. O documentário "Stanley Kubrick: Imagens de uma Vida" completa o pacote. Ao que tudo indica, será um lançamento à altura do diretor americano.

O cardápio de extras promete. "2001", por exemplo, terá o documentário "2001: a Produção de um Mito", uma entrevista em áudio com o diretor e especiais sobre os efeitos especiais do filme e sobre o legado da obra e mais alguns penduricalhos. Nada disso constava do DVD lançado originalmente no Brasil.

"De Olhos Bem Fechados" trará, entre outras coisas, as duas versões do filme (a suavizada para o público dos EUA e a integral), comentários de Sydney Pollack, um documentário sobre o último filme do diretor e especiais sobre os projetos inacabados dele.

A Warner afirma que cada longa foi recuperado digitalmente, algo que já acontecia com parte das edições simples. Resta esperar o lançamento para conferir se houve de fato algum ganho na qualidade do filme em DVD.

Nos EUA, a caixa custará cerca de 80 dólares, e cada DVD será lançado separadamente por 27 dólares. No Brasil, o preço ainda não foi definido, e também não está fechado se os filmes serão lançados fora da caixa.

Escrito por Leonardo Cruz às 6h56 PM

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Estréia o podcast do blog

Estréia o podcast do blog

Ah, as maravilhas da tecnologia.

A Folha Online, de visual novo, estreou nesta semana uma série de podcasts de seus colunistas e blogueiros _e este site também entrou na dança. O primeiro boletim já está no ar, na home da Folha Online e no link abaixo, com comentários sobre três estréias desta sexta ("Ultimato Bourne", "O Grande Chefe" e "Santiago") e sobre o Festival de Curtas de SP.

Para ouvir, basta clicar e baixar o arquivo de MP3.

http://media.folha.uol.com.br/homepage/2007/08/23/ilustrada-no-cinema.mp3

Gostou? Legal. Detestou? Pode meter a bronca aí no comentário. Críticas são sempre bem-vindas e ajudarão a melhorar os próximos podcasts.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h12 PM

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10 indicações para o Festival de Curtas

10 indicações para o Festival de Curtas

Com 424 filmes nacionais e estrangeiros, começa nesta quinta a 18ª edição do Festival Internacional de Curtas de SP. Até o dia 1º de setembro o público paulistano poderá ver, de graça, em nove salas da cidade, uma boa parcela do que há de mais interessante na produção mundial de curtas.

A pedido do blog, a diretora do festival, Zita Carvalhosa, fez uma seleção de dez filmes imperdíveis, que servem como porta de entrada para quem quiser se aventurar pela programação nos próximos dias. Às indicações da Zita, numa divisão feita por ela.

Três estreantes brasileiros:
Vida Maria” (foto), de Marcio Ramos
Panorama Brasil 3 – Primeira sessão nesta sexta, às 19h, no MIS
Premiada animação sobre a vida de uma menina no interior do Nordeste

 
Alphaville 2007 D.C.” (trailer), de Paulinho Caruso
Panorama Brasil 9 – Primeira sessão neste sábado, às 20h, no CCSP
Curta experimental com Antônio Abujamra, José Luis Datena e Sheila Mello

O Lobinho Nunca Mente”, de Ian SBF
Panorama Brasil 8 – Primeira sessão na segunda, 27, às 16h, no Cinesesc
Um homem reflete sobre a vida após ficar paralisado em um acidente doméstico

Um master-piece de animação:
Meu Amor”, de Alexandre Petrov
Mostra Internacional 6 – Primeira sessão na segunda, 27, às 18h, na Cinemateca
Prêmio de melhor animação no Anima Mundi do Rio neste ano

Uma descoberta na tela, nos limites de várias passagens:
Repeter Alba Negra”, de Jeanne Faust
Especial Jeanne Faust – Primeira sessão nesta sexta, 20h, na Cinemateca
A artista transita entre o cinema e as artes plásticas, misturando ficção e realidade

E alguns filmes mais pessoais:
Trinta Anos” (foto), de Nicolas Lasnibat
Mostra Latina 2 – Primeira sessão nesta sexta, às 18h, na Cinemateca

A Casa das Oliveiras”, de Thouly Dosios
Mostra Internacional 5 – Primeira sessão na terça, 28, às 16h, no Cinesesc

Negociação da Paz”, de Jenifer Malmqvist
Mix Brasil – Primeira sessão na segunda, 27, às 21h, no Espaço Unibanco de Cinema

Pueril”, de Jean Pierre Dominguês e Fernando Faria Freitas
Oficinas Kinoforum 2 e Especial – Primeira sessão nesta sexta, às 17h, no MIS

Milan”, de Michaela Kezele
Política Viva – Primeira sessão na segunda, 27, às 22h, no Cinesesc

Escrito por Leonardo Cruz às 7h04 AM

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Filmoteca - Kleber Mendonça Filho

Filmoteca - Kleber Mendonça Filho

O pernambucano Kleber Mendonça Filho vem construindo nesta década uma sólida carreira como curta-metragista. Desde 2002, dirigiu quatro filmes, incluindo os ótimos “Vinil Verde” (2004) e “Eletrodoméstica” (2005). A partir desta sexta, sua obra mais recente, “Noite de Sexta, Manhã de Sábado”, terá quatro sessões no Festival Internacional de Curtas de São Paulo, que acontece na cidade de amanhã até 1º de setembro. Além de cineasta, Kleber é também repórter e crítico de cinema do “Jornal do Commercio” e pilota o bom site Cinemascópio. A seguir, os cinco filmes que o diretor gentilmente escolheu para o Ilustrada no Cinema.

*

La Jetée” (Chris Marker, 1962, assista acima)
Objetivamente, este curta-metragem francês de 28 minutos traz ficção científica e viagem no tempo.  Filosoficamente, talvez aborde a importância das imagens que fazem parte das nosas vidas. Marker estabelece um estado de hipnose utilizando um formato de “foto-romance”, imagens estáticas acompanhadas por uma narração extraordinária que nos informa e sugere muita coisa. A projeção acaba, mas o filme continua, agora instalado na sua cabeça.

 

Vá e Veja” (Elem Klimov, 1985)
Em algum lugar entre uma fábula demente e um carnaval de selvageria existe esse filme de guerra que deixa na boca um gosto indescritível de cinema de horror. Criminosamente desconhecido para a grande maioria, “Vá e Veja” destruiu, para mim, a idéia de “filme de guerra”, pois os que eu já tinha visto antes de vê-lo, e os que eu ainda verei, passaram a ser/serão medidos a partir dele. Klimov, que na sua infância foi  evacuado de Stalingrado com a mãe, fugindo do cerco nazista, parece ter conseguido traduzir uma noção abstrata e surreal de “guerra”. Ele narra a embriaguez do terror de um garoto no front soviético em 1942, área  invadida pelas tropas de Hitler. Klimov evita quase que sistematicamente  os elementos comuns ao gênero, com câmera subjetiva, trabalho de som e o rosto do ator Aleksei Kravchenko, que fazem do filme o produto de um cinema incomum. “Vá e Veja” também deixa a sensação de que você acabou de ler uma obra importante da literatura russa, a cena da vaca no campo aberto é um dos inúmeros momentos que sugerem isso.

 

Trens Estreitamente Vigiados” (Jiri Menzel, 1966)
 Menzel passou o filme novo dele em Berlim neste ano, o agradável (e muitas vezes bem bonito) “I  Served the King of England”, que parece revisitar “Trens…”, feito 40 anos antes. “Trens Estreitamente Vigiados” é a história de um jovem funcionário numa estação de trem, durante a Segunda Guerra. Ele descobre as mulheres. Este filme peculiar é desconhecido para as gerações mais novas, muito embora tenha dado o Oscar de Filme Estrangeiro ao tcheco Menzel, na época com 27 anos. O que mais me agrada em Menzel (e neste filme, particularmente) é o seu olhar para as mulheres, comparável talvez (e apenas) ao de François Truffaut. É um olhar erótico, sexualizado, mas com um espanto verdadeiro de delicadeza.

 

The Beguiled” (Don Siegel, 1971)
No Brasil, é conhecido como “O Estranho que Nós Amamos”, mas o que me vem sempre à cabeça é “Não Há no Inferno Fúria Maior do que a de uma Mulher Humilhada”. Aqui, as mulheres também são essenciais, embora neste o tom seja um tanto diferente... Feito na grande era do cinema americano dos anos 70, “The Beguiled” se passa na Guerra Civil de 1861 e é a história de um soldado do norte (Clint Eastwood) que vai parar (ferido) num colégio interno para meninas, todas sulistas, carentes de atenção masculina. Esse vespeiro de sexualidade envolve desde a garotinha de 11 anos que descobre o homem na floresta (sequência impensável na Hollywood PG-13 de hoje) às colegas adolescentes ou jovens mulheres, e à diretora matriarcal madura. A presença do soldado no lindo casarão sulista gera uma situação humana guiada pelo pior que macho e fêmea são capazes de fazer uns com os outros. Não é careta. Um bônus para aliviar a tensão é ver Eastwood aprendendo com Siegel, em cada cena, como se faz cinema, algo que terminou sendo bem útil para Clint ao longo dos anos.

 

A Morte do Sr. Lazarescu” (Cristi Puiu, 2005)
A lista de dez filmes importantes desta década já está bem encaminhada e este certamente estará na minha. Com domínio total do realismo encenado, o romeno Cristi Puiu apresenta uma crônica de morte anunciada (já no título) sobre um aposentado que passa mal numa noite de sábado, em Bucareste. Socorrido por uma ambulância, ele fará uma turnê infernal por hospitais lotados, num quadro duro sobre desrespeito e também compaixão. Poderia ser um filme brasileiro, mas é romeno, e foi ele que deu início à atual onda romena que viu Cannes dar a Palma de Ouro 2007 ao também muito bom “4 Meses, 3 Semanas, 2 Dias”. O equilíbrio entre o humor e o lento terror é estranhamente tocante, talvez por ambos serem verdadeiros e terem origem na vida, e não no teclado de algum roteirista malvadinho. Tristemente, esse filme não atraiu distribuidores brasileiros. De fato, a sinopse é matadora para o setor de vendas, muito embora a experiência de ver o filme em si seja riquíssima sob muitos aspectos.

Escrito por Leonardo Cruz às 9h46 AM

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Qual a fórmula de sucesso de um filme?

Qual a fórmula de sucesso de um filme?

É possível calcular a fórmula de sucesso de um filme? Sim, responde o professor de psicologia da Universidade da Califórnia Dean Simonton. Na última sexta, o acadêmico comandou o simpósio "Criatividade e os Filmes", no encontro anual da Associação Americana de Psicologia.

Aos seus colegas, Simonton relatou as conclusões a que chegou após submeter milhares de longas ficcionais, falados em inglês, a uma bateria de testes estatísticos, incluindo o coeficiente de correlação de Pearson, cuja fórmula é esta coisinha simples: 

Com base em sua pesquisa, Simonton concluiu que, nos EUA, um sucesso de crítica tem mais chances de ser:
1) um drama de censura R (inadequado para menores de 17 anos);
2) adaptado de um livro ou de uma peça premiada;
3) inspirado em uma história real; e
4) roteirizado pelo diretor ou pelo autor do livro/peça original.

E é incomum que esse sucesso de crítica seja:
1) seqüência ou refilmagem;
2) comédia ou musical;
3) um lançamento de férias;
4) um projeto de grande orçamento; e
5) estréie em muitas salas ou tenha grande bilheteria no primeiro final de semana.

Um exemplo? Dos filmes que estrearam neste ano nos EUA, o que mais se encaixa nessas características é "Zodíaco" (foto), de David Fincher, que obteve críticas positivas tanto lá quanto cá.

Além do simpósio, o professor Dean Simonton apresentará em livro sua tese sobre as chaves para o êxito de um filme, incluindo também as características mais prováveis de um sucesso de público. A obra, em produção, terá o sugestivo título: "Grandes Fitas: Estudos Científicos de Criatividade Cinematográfica e Estética".

Escrito por Leonardo Cruz às 7h26 PM

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Mais uma chance à película

Mais uma chance à película

Em tempos em que pululam nos cinemas as projeções digitais e em DVD, muitas vezes com baixa qualidade, é bom ver uma proposta que trilhe o caminho contrário. Trate-se do "Última Chance em 35", programa do Sesc Santana que exibe bons filmes obrigatoriamente em película de 35 milímetros, ou seja, respeitando o formato para o qual o filme foi concebido.

O título do ciclo é um tanto radical. Ninguém imagina, por exemplo, que esta será a última chance para ver em 35 mm os filmes de Luchino Visconti, o diretor que é tema da programação deste mês. Ainda assim, a escolha do nome reflete a realidade do cinema atual, no qual a película gradualmente perde espaço para o digital.

Neste ano, o "Última Chance" já apresentou longas de Woody Allen, Quentin Tarantino e Pedro Almodóvar. Sempre de graça. Para este mês, o diretor escolhido foi o italiano Luchino Visconti, do qual já foram exibidos "Belíssima" e "Rocco e seus Irmãos". Nesta terça, às 20h, o filme em cartaz é "Morte em Veneza" (foto), a primorosa adaptação para o cinema do romance de Thomas Mann. Na terça que vem, no mesmo horário, será a vez de "O Inocente".

Para setembro, está previsto um ciclo de quatro filmes de Ingmar Bergman. Segundo o pessoal do Sesc Santana, a mostra já estava programa antes da morte do cineasta sueco. Serão apresentados "O Sétimo Selo" (4/9), "Morangos Silvestres" (11/9), "Gritos e Sussurros" (18/9) e "O Ovo da Serpente" (25/9). Boa oportunidade para quem nunca viu Bergman em tela grande. Faz muita diferença.

Outro ponto positivo do "Última Chance" é levar uma programação de cineclube para a zona norte de São Paulo, hoje tomada por cinemas que se restringem aos filmes do circuito comercial. Oferece Visconti e outros biscoitos finos para uma platéia que, se quisesse ir ao cinema perto de casa, tinha de se contentar com blockbusters.

*

João Moreira Salles debate "Santiago"

O melhor filme do ano até agora estréia na próxima sexta. É o documentário "Santiago", de João Moreira Salles, já comentado por aqui em março, quando das primeiras exibições públicas do filme, no Festival É Tudo Verdade.

Para quem não quiser esperar até sexta e tiver interesse em ouvir o que João Moreira Salles tem a dizer, o programa obrigatório acontece já na noite desta terça, a partir das 20h, no Cine Bombril (ex-Cinearte), em SP. O diretor participará de um debate com o público logo depois da exibição do longa, numa pré-estréia promovida pela Folha.

Como o evento é gratuito e a sala 2 do Bombril é pequena, é bem provável que fique lotado. Os ingressos serão distribuídos a partir das 19h; convém chegar bem mais cedo que isso.

Escrito por Leonardo Cruz às 9h19 PM

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Coutinho conquista público de Gramado

Coutinho conquista público de Gramado

Edison Vara/PressPhoto

“Jogo de Cena”, novo documentário de Eduardo Coutinho, provocou uma cena inédita no 35º Festival de Gramado. Pela primeira vez desde o início das sessões competitivas de longas brasileiros e estrangeiros, no domingo passado, a platéia aplaudiu em cena aberta, gargalhou nos momentos divertidos, fungou nos mais tocantes e, ao final, aplaudiu gritando “bravo!”.

O longa de Coutinho foi apresentado fora de concurso na noite de sexta, em seguida à entrega do troféu Kikito de Cristal ao diretor, em homenagem à sua carreira.

Coutinho define “Jogo de Cena” como “um filme sobre a representação e a vivência de algumas mulheres”. Diz que “estava interessado em saber como uma pessoa comum vira personagem [de si mesma] e se torna pública e como uma atriz volta a ser uma pessoa comum”.

Por isso, os relatos de “Jogo de Cena” são contados duas vezes _pela pessoa que os viveu e por uma atriz. Mas apenas três atrizes são largamente conhecidas do público: Marilia Pêra, Andréa Beltrão e Fernanda Torres. Com essas, o diretor conversa a respeito da atuação. Elas dizem como se prepararam, como se sentiram diante do diretor, que tipo de dificuldade tiveram.

Fernanda Torres, por exemplo, empacou ao “representar” uma garota de 20 anos que engravidou aos 18, sem desejar ter um filho. Agora, ela vive “o caos da maternidade”, porque há o amor pela filha, “mas também os sonhos, os sonhos aventureiros” dos quais está tendo de abrir mão, em nome da responsabilidade de cuidar sozinha do bebê.

Das atrizes não-famosas, o filme exibe apenas as cenas de interpretação, sem entrevistas posteriores com o diretor. E, nesses casos, não é fácil distinguir qual é a personagem “real” e qual é a atriz _daí o “jogo de cena”. A platéia de Gramado entregou-se ao jogo e deixou o Palácio dos Festivais debatendo animadamente quem era quem.

As mulheres anônimas do filme foram escolhidas num teste, divulgado em anúncios num jornal popular e nos vagões femininos do metrô do Rio de Janeiro. O anúncio buscava “mulheres acima dos 18 anos, com uma história para contar num filme documentário”.

As histórias que elas contam são sobre as relações com os filhos, os pais, os maridos, enfim, sobre seus afetos. Há os fatos e a maneira como elas os encaram, ou seja, a representação que têm do mundo e da própria vida. Portanto, a discussão sobre a representação em “Jogo de Cena” é feita em camadas superpostas e embaralha permanentemente a percepção do espectador.

Todos os depoimentos foram gravados num palco de teatro, com a platéia (vazia) ao fundo. Ontem à tarde, antes da sessão, Coutinho disse: “O filme é de uma monotonia visual absoluta. Mas eu o fiz assim, confiando que os gestos de alguém interessam aos outros”. A reação da platéia à noite demonstrou que o diretor não apostou errado.

*

Ao ser homenageado com o troféu Kikito de Cristal pela carreira, Eduardo Coutinho fez uma lista de “pessoas físicas, que são as que importam” para agradecer. São os que o ajudaram a construir a carreira. A relação, numerosa, começava com Leon Hirszman (1938-1987) e terminava no amigo e produtor de seus últimos filmes João Moreira Salles.

Escrito por Silvana Arantes (em Gramado) às 10h49 AM

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O pensamento vivo de Homer Simpson

O pensamento vivo de Homer Simpson

Antes de ver "Os Simpsons" no cinema, há algo que você precisa ler. Pouco antes da estréia do filme nos EUA, o jornal "USA Today" publicou uma "entrevista" com Homer Simpson. Obviamente, as respostas são da equipe de Matt Groening, o criador da série. A seguir, alguns trechos do pingue-pongue entre o repórter Scott Bowles e o idiota mais amado do mundo.

Pergunta: Você ainda parece manter um ótimo relacionamento com Marge após 20 anos. Qual o segredo de um casamento saudável?

Homer: Tentar encontrar interesses comuns. Minha mulher e eu descobrimos que temos filhos da mesma idade, então isso nos dá algo sobre o que conversar durante os comerciais na TV.

Pergunta: Você conseguiu manter seu visual ao longo dos anos. Como faz?

Homer: É um procedimento raro: lipo-injeção. Ei, eles têm que fazer alguma coisa com toda aquela gordura que tiram das pessoas.

Pergunta: Há alguma coisa que você não comeria?

Homer: Minha cabeça. Preciso dela para comer.

Pergunta: Sua ficha na usina nuclear de Springfield é totalmente manchada. Como você nunca foi demitido?

Homer: Ainda trabalho na usina porque o chimpanzé que treinaram para fazer meu trabalho foi promovido. Eu agora me reporto a ele. E todo ano tenho que ir à estúpida festa de natal dele.

Pergunta: Quais são suas posições políticas?

Homer: Tenho um sistema quando voto: Colo da pessoa na cabine ao meu lado. Se estou numa daquelas máquinas eletrônicas de votação, tento marcar a pontuação mais alta. Pode soar estúpido, mas não há como discutir com os resultados: agora temos o mais incrível presidente da história.

*

A versão integral do texto, em inglês, pode ser lida aqui. Para quem vai assistir ao filme, uma dica: fique até o final dos créditos, pois a pequena Maggie reserva uma surpresinha. A seguir, mais um trailer de "Os Simpsons, o Filme".

Escrito por Leonardo Cruz às 8h55 AM

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Para Jorge Furtado, o cinema vai mal de saúde

Para Jorge Furtado, o cinema vai mal de saúde

"O cinema ainda não morreu, mas não vai muito bem de saúde." O diagnóstico, feito neste Festival de Gramado, é do cineasta Jorge Furtado, que está em cartaz nos cinemas com "Saneamento Básico - O Filme" (foto).

Os dois longas anteriores de Furtado, "O Homem que Copiava" e "Meu Tio Matou um Cara", foram vistos por aproximadamente 700 mil pessoas cada um. Ele é o autor também de "Houve Uma Vez Dois Verões", além do antológico curta "Ilha das Flores".

Para "Saneamento Básico - O Filme", Furtado e seus sócios da Casa de Cinema de Porto Alegre (que foi homenageada em Gramado por seus 20 anos de existência) esperavam público semelhante, mas o longa está na casa dos 120 mil espectadores.

"Talvez eu esteja sendo pessimista demais, mas acho que vamos ter que explicar para os nossos netos como era o cinema", disse Furtado, quando refletia sobre a maré baixa dos filmes brasileiros nas bilheterias.

Com desesperança, mas sem amargura, o diretor disse que procura explicações para esse fenômeno olhando primeiro para si. Interrogou-se, então, sobre por que tem ido menos ao cinema, ao mesmo tempo em que nunca viu tantos filmes. Concluiu que o fato de agora os filmes estarem sempre ao alcance, em DVD, retirou da ida ao cinema "o sentido de urgência" que isso já teve, algo que "quem nasceu depois do vídeo cassete nem sabe o que é". Ou seja, ao deixar de ser a única chance de ver os filmes, o cinema tornou-se dispensável.

Embora as salas de cinema possam estar perdendo sentido, não é o caso de deixar de produzir filmes, salientou Furtado. "Os filmes continuam necessários. A minha dúvida é sobre o modelo de lançamento." Especificamente sobre o caso brasileiro, a dúvida aumenta.

"Se se confirmarem até o fim do ano os números de queda de público brasileiro [cerca de 14% em relação a 2006, até aqui], a gente vai ter que enfrentar o dilema de saber que no Brasil se investem R$ 300 milhões na produção de filmes, para 5 milhões de pessoas assistirem. Vamos ter que pensar um pouco", disse.

Furtado fez essas reflexões nesta tarde de quarta, durante entrevista organizada pelo festival. Ontem à noite, na homenagem prestada à Casa de Cinema no Palácio dos Festivais, ele e seus sócios preferiram agradecer os que ajudaram a construir os 20 anos de história da produtora _especialmente os 656 atores e 1.422 técnicos que trabalharam nos filmes da Casa.

Escrito por Silvana Arantes (em Gramado) às 3h48 PM

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O primeiro longa do YouTube

O primeiro longa do YouTube

Eis um interessante caso sobre como filmes podem ser distribuídos.

À primeira vista, "Four Eyed Monsters" seria apenas mais um entre as centenas de filmes independentes que pipocam nos EUA a cada ano. Estréia na direção do casal Susan Buice e Arin Crumley, o longa ficou pronto no final de 2005, começou a rodar o circuito de festivais nos EUA e ficou duas semanas em cartaz numa sala de Nova York.

Mesmo sem um lançamento nacional, o filme rendeu neste ano aos cineastas duas indicações ao Spirit Awards, o Oscar dos independentes. E rendeu também milhares e milhares de dólares em dívidas para Susan e Arin _os dois foram personagens do "New York Times" numa reportagem sobre como falir fazendo cinema.

Cientes de que não conseguiriam uma distribuição nacional e para tentar tirar o pé da lama, os diretores se tornaram os primeiros a colocar a versão integral de um longa-metragem no YouTube, numa promoção com o site Spout, de críticas de cinema escritas por internautas. Funciona assim: antes do filme no YouTube, Susan e Arin explicam seu dilema e convidam os espectadores a se cadastrarem no Spout. Para cada novo cadastro, eles ganham 1 dólar.

O esquema com o Spout foi repetido no MySpace. Até agora, os diretores juntaram US$ 43 mil _a meta é chegar a US$ 100 mil. Além disso, puseram cópias à venda no site oficial de "Four Eyed Monsters", em DVD (US$ 15) ou para download em alta resolução (de US$ 3 a US$ 8).

A iniciativa alimenta ao menos duas questões.

Qual o sentido de exibir um longa no YouTube? Agüentar tela minúscula e resolução meia-boca por 72 minutos (a duração de "Four Eyed Monsters") é tortura para quem gosta de cinema. Susan Buice e Arin Crumley parecem saber disso e usam a exibição no site como um "teaser", uma forma de chamar a atenção para sua obra. A página do filme no YouTube foi acessada mais de 800 mil vezes, e os diretores crêem que uma parte desse público terá interesse em comprar o DVD ou fazer o download em alta.

Numa época em que não há espaço suficiente nas salas para a quantidade de filmes produzidos, será a internet uma forma viável de distribuição comercial? Uma alternativa real, rentável, para longas que não terão espaço nas salas de exibição? Tenho dúvidas, especialmente enquanto houver os programas de compartilhamento gratuitos, os P2Ps. Por que alguém pagaria US$ 3 para baixar um filme que já está de graça, com a mesma resolução, no Emule e nos Torrents da vida? Esse raciocínio vale não só para os filmes pequenos, independentes, mas também para as grandes produções, já vendidas para download no exterior.

A seguir, "Four Eyed Monster", na versão integral. Se você não tiver tempo nem paciência para ver tudo, assista ao menos os primeiros minutos _há uma bela seqüência inicial.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h35 AM

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Quem precisa de preparador de elenco?

Quem precisa de preparador de elenco?

 

Durante o debate realizado nesta tarde de quarta no Festival de Gramado sobre “Deserto Feliz” (foto), longa de Paulo Caldas que participa da competição pelos Kikitos, o diretor deixou no ar uma pergunta: quem precisa de preparadores de elenco?

Quando a discussão sobre “Deserto Feliz” girou em torno da relação de Caldas com os atores do filme e sobre como fez a escolha da atriz estreante em cinema Nash Laila para interpretar a protagonista, ele fez um breve pedido de desculpas a eventuais preparadores de elenco que estivessem na platéia, para depois dizer:

“Existe uma tendência no cinema brasileiro de usar preparadores de elenco. Em alguns filmes, a necessidade do preparador de elenco é óbvia. Mas, quando você tem um grande ator e um diretor, não sei o que um intermediário pode fazer no meio dessa relação”. E arrematou citando um diálogo que teve com o veterano cineasta Ruy Guerra sobre o tema. “O Ruy Guerra me disse outro dia: ‘Se eu não vou dirigir os atores, o que vou fazer no filme?’”.


*


Quando o debate sobre “Deserto Feliz” se aproximava do fim, o crítico gaúcho Marcus Mello tomou a palavra, para elogiar o título, do qual se disse “orgulhoso”. Mello lamentou que a reação da platéia na sessão oficial competitiva, ontem à noite, tenha sido comedida.

 

“Fico pensando que, há vinte anos, nos bons tempos de Gramado, esse filme seria aplaudido de pé”, disse, e acrescentou que só não se levantou para aplaudir porque é “muito tímido’.

Outro participante do debate não se fez de rogado. “Mas o filme é genial, então vamos aplaudir agora”,disse, já se levantando, num gesto seguido por boa parte da platéia do debate.

Escrito por Silvana Arantes (em Gramado) às 1h12 PM

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Os argentinos superam a crise (coletiva)

Os argentinos superam a crise (coletiva)

O longa “Nacido y Criado” (nascido e criado), de Pablo Trapero, segundo título apresentado na disputa estrangeira neste 35º Festival de Gramado, é um bom exemplo de algo que críticos atentos à cinematografia argentina andam observando: com a superação da crise econômica, o cinema argentino pôde voltar-se ao indivíduo.

O colapso da economia argentina em 2001 _e seus devastadores efeitos sobre a população_ pareceu tornar a crise um imperativo temático no cinema. Daí vieram filmes como “Buena Vida Delivery”, em que a pobreza rebaixa o comportamento moral dos personagens, ou “O Abraço Partido”, permeado pelo desejo de abandonar o país. Agora, com a relativa estabilidade econômica do que os argentinos chamam a “Era K. [de Kirchner]”, esse pano de fundo não mais se impõe.

Trapero, que vem de abordar a classe média baixa na numerosa “Família Rodante”, trata em “Nacido y Criado” de um núcleo familiar menor _pai, mãe e filha_ pertencente a uma escala social mais elevada.

A descrição da vida que levam ocupa a abertura do filme. Têm um belo e descolado apartamento, cuidado por uma empregada uniformizada; um trabalho “cool” (são designers de interiores) e um estilo de vida desencanado _numa semana de muito trabalho, decidem fazer uma pausa e viajar por uns dias com a filhinha, que faltará à escola.

Um episódio trágico na viagem fará Santiago (Guillermo Pfening) mergulhar num inferno pessoal, que ele decide viver no gelado e isolado cenário da Patagônia. “Nacido y Criado” pode ser visto como uma investigação sobre a dor e a culpa _e a possibilidade de superá-las. Mas não se trata da história de um país, e sim de uma trajetória pessoal, pessoalíssima.

Em tempo: o diretor brasileiro Walter Salles, que notou o talento de Trapero desde que ele despontou com “Mundo Grua”, é produtor associado de “Nacido y Criado”. A produtora Videofilmes, de Salles, despachou equipamentos para as filmagens na inóspita Patagônia. Apesar disso, o filme ainda não tem previsão de estréia no Brasil.

Escrito por Silvana Arantes (em Gramado) às 9h58 AM

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Para que servem os festivais?

Para que servem os festivais?

O Festival de Gramado, que deu a partida em sua 35ª edição no último domingo, está tentando fazer (mais uma) correção de rumo em seu perfil. Gramado já foi um importante festival para o cinema brasileiro. Quando a produção nacional rareou, na crise do início dos anos 90, ele foi buscar socorro na dos países vizinhos, tornando-se um “festival do cinema brasileiro e latino”.

Nos 2000, com a indústria nacional reaquecida, Gramado rebaixou os latinos e alçou ficções e documentários nacionais (primeiro, em competições separadas; depois, unidos) ao seu foco principal. Com tanto vaivém, foi perdendo personalidade e importância e, principalmente, bons filmes, que acabaram migrando para outras mostras.

Desde o ano passado, os gaúchos tentam reconquistar prestígio. Contrataram os críticos José Carlos Avellar e Sérgio Sanz para cuidar da programação. Para escolher os seis concorrentes brasileiros deste ano _os documentários “Castelar e Nelson Dantas no País dos Generais” (Carlos Prates) e “Condor” (Roberto Mader) e as ficções “Deserto Feliz” (Paulo Caldas), “Olho de Boi” (foto acima, Hermano Penna), “Otávio e as Letras” (Marcelo Masagão) e “Valsa para Bruno Stein” (Paulo Nascimento)_ Avellar disse que usou um critério duplo. Os filmes teriam de ser “expressões pessoais, artísticas” e também ter estréia nos cinemas prevista para breve, para que “o festival pudesse contribuir” com a carreira dos filmes nas salas.

Pela cartilha informal do mercado cinematográfico, esses dois critérios parecem excludentes, já que filmes que sejam “expressões pessoais, artísticas” normalmente interessam à menor parcela do público, enquanto os realizados deliberadamente para entreter abocanham as grandes platéias.

No ano passado, o Kikito de melhor filme foi divido entre “Anjos do Sol”, de Rudi Lagemann, e “Serras da Desordem”, de Andrea Tonacci. O filme de Tonacci ainda não estreou. O de Lagemann fez 80 mil espectadores. Confrontado com esses resultados, Avellar diz que o festival quer dar sua contribuição, mas não é capaz de “mudar o mercado”.

Cabe a pergunta: faz sentido ter um festival com o objetivo de aumentar o público de filmes feitos para pouco público? Avellar diz que “essa pergunta pode ser feita também no contracampo: faz sentido ter um festival para impulsionar o público dos filmes comerciais, que já terão grande público?” É fato. Mas isso leva então a outra pergunta: para que servem os festivais? Como hoje há pelo menos 120 deles sendo feitos no Brasil (quase todos com benefício da renúncia fiscal) não seria mal encontrar uma boa resposta.

Escrito por Silvana Arantes (em Gramado) às 11h39 AM

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Scorsese e Woody Allen saúdam seus mestres

Scorsese e Woody Allen saúdam seus mestres

 
O “New York Times” deu um valioso presente a seus leitores neste final de semana: dois artigos, um sobre Antonioni, outro sobre Bergman. O primeiro escrito por Martin Scorsese. O segundo, por Woody Allen. Ambos os textos têm tom de depoimento, mais do que análise, e revelam um pouco da personalidade desses dois cineastas americanos contemporâneos.
 
Em “O homem que libertou o filme”, Scorsese relembra a primeira vez que viu “A Aventura” (1961) e o impacto que a obra teve em sua relação com o cinema. O trecho que mais me agrada vai a seguir, no qual o diretor de “Touro Indomável” compara as obras de Antonioni e Fellini.
 
“ ‘A Aventura’  me causou um dos mais profundos choques que tive no cinema, maior do que ‘Acossado’ ou ‘Hiroshima, Mon Amour’ (feitos por outros dois mestres modernos, Jean-Luc Godard e Alain Resnais, ambos ainda vivos e atuantes). Ou ‘A Doce Vida’. Naquela época havia dois campos _as pessoas que gostavam do filme de Fellini e os que gostavam de ‘A Aventura’. Eu sabia que estava firmemente do lado de Antonioni, mas, se você me perguntasse na época, não tenho certeza se teria conseguido explicar por quê. Amava os filmes de Fellini e admirava ‘A Doce Vida’, mas eu fui desafiado por ‘A Aventura’. O filme de Fellini me comoveu e me entreteu, mas o de Antonioni mudou minha percepção de cinema e o mundo ao meu redor e fez com que os dois parececem ilimitados. (Dois anos depois eu me reencontrei com Fellini e tive o mesmo tipo de epifania com ‘8 ½’.)”
 
Já em “O homem que fez as perguntas difíceis”, Woody Allen conta como soube da morte do diretor, relembra algumas conversas que teve com ele e descreve hábitos do diretor sueco, como nesta passagem:
 
“Bergman, apesar de todas as suas manias e obsessões filosóficas e religiosas, era um contador de histórias nato, que não deixava de entreter mesmo quando sua mente estava dramatizando as idéias de Nietzsche ou Kierkegaard. Eu costumava ter longas conversas telefônicas com ele. Ele as fazia a partir da ilha onde vivia. Nunca aceitei seus convites para visitá-lo porque a viagem de avião me incomodava, e eu não achava agradável voar em uma pequena aeronave para algum ponto perto da Rússia para, eu previa, almoçar iogurte.  Sempre discutimos filmes, e sempre deixei que ele falasse mais, porque me sentia privilegiado de ouvir seus pensamentos e idéias. Ele projetava filmes para si mesmo todo dia e nunca cansou de assisti-los. De todos os tipos, mudos e falados. Para dormir, assistia a uma fita que não o fizesse pensar e o relaxasse da ansiedade, algumas vezes um filme de James Bond.”
 
*
 
Notícias de Gramado
A repórter Silvana Arantes está em Gramado para cobrir para a Ilustrada o festival de cinema da serra gaúcha, iniciado na noite de ontem. Textos dela também devem pintar por aqui nos próximos dias.

Escrito por Leonardo Cruz às 3h26 PM

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Linklater em dose dupla

Linklater em dose dupla

Sem muito alarde, Richard Linklater, 47, vem construindo uma das obras autorais mais interessantes do cinema norte-americano atual. Se, por um lado ele faz obras mais comerciais (como "Escola do Rock"), é em filmes como "Antes do Amanhecer" que ele consolidou seu status de cult, ao lado de diretores que afloraram nos anos 90, como Quentin Tarantino e Kevin Smith. Linklater é uma espécie de versão pop do francês Eric Rohmer: muito papo-cabeça, pouca ação.

Dois de seus filmes cult, "Waking Life" (2001, foto acima) e "O Homem Duplo" (2006, foto abaixo), que dialogam entre si tanto na forma quanto no conteúdo, chegam quase ao mesmo tempo em DVD, o primeiro pela Fox e o segundo pela Warner. Em ambos Linklater usa a técnica da rotoscopia, que aplica recursos de animação sobre cenas filmadas com atores. O resultado são filmes que parecem desenho animado, mas não são.

Há quem ache essa opção estética mera afetação. Mas ela funciona bem em "Waking Life". O filme surgiu de uma experiência pessoal de Linklater. Certo dia, ele ficou "preso" dentro de um sonho. Nele, tinha plena consciência de que estava sonhando, mas não conseguia acordar de verdade. Sempre acordava dentro de outro sonho.

Não há trama propriamente dita no filme. O que há é um fiapo de narrativa nas andanças de um rapaz sem nome (Wiley Wiggins), que vai cruzando com inúmeras pessoas. Com cada uma delas, vai ouvindo monólogos que discorrem sobre assuntos que vão desde existencialismo e reencarnação e discursos políticos. Pode-se considerar o filme confuso e raso (a distância entre o papo-cabeça e o papo de boteco não é muito longa), mas o fato é que "Waking Life" capta com precisão seu tema: a dúvida sobre o que é real e o que é imaginário.

Dúvida que era central também para o escritor de ficção científica americano Philip K. Dick (1928-1982). O diálogo final de "Waking Life", que ajuda a elucidar a charada do filme, não por acaso é todo construído sobre uma experiência de K. Dick.

Já "O Homem Duplo" é baseado num conto de tintas autobiográficas do escritor, e novamente, uma das questões centrais é a dúvida sobre a realidade e o imaginário. Não chega a funcionar tão bem quanto "Waking Life", mas ainda assim tem seu charme (nem que seja só para ver os extras, que trazem trechos de entrevistas com o próprio K. Dick).

*

A seguir, um trechinho de "Waking Life".

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h24 PM

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Perdido na tradução

Perdido na tradução

É ótimo que os novos filmes de grandes cineastas cheguem às salas de cinema do país, e um exemplo disso é “Medos Privados em Lugares Públicos”, de Alain Resnais, em cartaz em São Paulo. O filme é uma bem-humorada reflexão sobre a solidão humana e merece ser visto. Mas a cópia em exibição tem alguns problemas de tradução, e as legendas apresentam erros que incomodam quem conhece um pouco de francês.

Um exemplo: na primeira cena do filme, Nicole (Laura Morante) visita um apartamento com o corretor Thierry (André Dussollier). Ela diz que o apartamento é pequeno, que pedira um de três quartos. Ele afirma que o imóvel tem três quartos. Ela rebate, argumentando que era um apartamento de dois quartos grandes e que um deles foi dividido ao meio por uma parede. É quando a tradução se enbanana. Nicole argumenta que, com a divisão, sobrou um quarto grande e dois meios-quartos _ou seja, ainda um imóvel dois quartos. Essa fala é traduzida como “um quarto grande e dois pequenos”, o que distorce o raciocício da personagem. Na sequência, Nicole continua sua tese e diz que cada meio-quarto tem meia-janela, pois a janela original também foi dividida pela parede. E a legenda traduz que cada quarto pequeno tem uma janela pequena. E a graça do diálogo original vai pro beleléu.

Quer outro? Mais adiante no filme, uma personagem afirma: “Ai ai ai ai ai!”. E a legenda traduz: “Minha nossa!”. Minha nossa! Traduzir filmes como o de Resnais, centrados no diálogo, é extremamente difícil e, por isso mesmo, exigem atenção redobrada. “Medos Privados” merecia mais cuidado.

*

Bola dentro da Cinemark
A rede Cinemark trocou seu vídeo institucional antes dos filmes. No passado, era aquele que dizia ao público: “Evite falar alto durante o filme”. Agora, usando cenas de “Os Simpsons, o Filme”, com Mr. Burns fazendo cara de mau, o vídeo é direto: “E nada de conversa”. Não que a platéia entenda o recado _ao menos não nas sessões que vi de “Duro de Matar 4.0” e “Harry Potter”. Mas o fato de a rede dar o exemplo é um bom começo. Espera-se que, depois que “Os Simpsons” sair de cartaz, a Cinemark não volte para o vídeo antigo e sua mensagem equivocada.

*

Brasil verá o ganhador da Palma de Ouro
Boa notícia! O vencedor do Festival de Cannes deste ano entrará em cartaz no circuito comercial brasileiro. “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias”, do romeno Cristian Mungiu, foi comprado pela distribuidora Lumière, que volta a lançar filmes no mercado brasileiro. A informação está no boletim Filme B desta semana. A data de estréia do vencedor de Cannes ainda não foi definida, mas a obra já está na programação do Festival do Rio, que acontece em setembro. A seguir, uma cena do filme.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h46 PM

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Iracema é cool

Iracema é cool

Para comemorar seu 75º aniversário, a “Sight & Sound”, revista de cinema do British Film Institute, pediu a 75 críticos que apontassem um filme “obscuro e digno de maior eminência”. O resultado foi a lista das “75 gemas escondidas”, o título da capa da “S&S” de agosto, também batizada de Cool 75.

A idéia para a Cool 75 surgiu de um debate sobre cânones do cinema organizada pelo BFI em abril. Das discussões em Londres nasceu a proposta de montar uma seleção de filmes que se opusesse aos melhores da história, aos dez mais, aos Hot 100.

Chama a atenção entre os autores da lista que nenhum crítico convidado escreve regularmente para veículos sul-americanos nem leciona em universidades do continente. Por razões óbvias, uma grande parcela dos especialistas é britânica. Há um bom punhado de americanos, alguns canadenses e franceses, como o editor da “Cahiers du Cinéma”, Jean-Michel Frodon. E ao menos um representante de cada região importante na produção mundial.

Se os críticos sul-americanos foram esquecidos, os filmes, não. Há três longas entre as “gemas escondidas” da “Sight & Sound”. Demetrios Matheou, do Channel 4, escolheu “Iracema, uma Transa Amazônica” (1974, lançado em DVD), o filme de Jorge Bodansky e Orlando Senna que mescla ficção e realidade para retratar o impacto da construção da estrada para a região amazônica nos anos 70.

Matheou justifica assim sua escolha: “Banido pela ditadura militar brasileira, mantido por anos como um filme cult e agora reverenciado por diretores inspirados por seu método e sua ambição de revelar um Brasil escondido, ‘Iracema’ é ao mesmo tempo um ‘road movie’, uma provocação política e um experimento cinemático”. Boa definição. O detalhe chato é que a “Sight & Sound” errou o título do filme (saiu “Amaziônica”) e o ano de produção (saiu 1976).

Os outros dois sul-americanos na lista são o peruano “Kukuli” (1960, de Luis Figueroa, Eulogio Nishiyama e César Villanueva) e o argentino “No Habrá Más Penas ni Olvido” (1983, de Héctor Olivera). Entre os 75 títulos escolhidos há longas mais conhecidos do público, como “Um Tiro na Noite” (1981, de Brian De Palma), e obras mais obscuras, como o tunisiano “The Girl From Carthage” (1924, de Albert Samama Chikly). A seleção inclui ainda filmes menos consagrados de diretores importantes, como Luis Buñuel, George Cukor, Shohei Imamura, Robert Aldrich, Gillo Pontecorvo e Samuel Fuller.

A “S&S” não colocou a lista completa em seu site, mas vale dar um pulo lá para ler a entrevista em que Gus Van Sant sobre a obra de Andy Warhol e o impacto que o artista teve em seu trabalho. As 75 gemas da “Sight & Sound” estão listadas aqui.

Escrito por Leonardo Cruz às 2h17 PM

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O encontro do Monty Python com Bergman

O encontro do Monty Python com Bergman

Imagine um filme que mesclasse o humor dos ingleses do Monty Python com os questionamentos existenciais de Ingmar Bergman. Esse filme existe, é um curta-metragem chamado “De Düva: The Dove” (“A Pomba”) e foi indicado ao Oscar. O  blog “Screens”, do “New York Times”, garimpou o filme no Google Video e o colocou no ar nesta semana.

“De Düva” é uma homenagem aos filmes de Bergman, em forma de paródia e dirigido pelos americanos George Coe e Anthony Lover em 1968 _os dois fazem aqui o mesmo estilo de comédia que o Monty Python celebraria anos mais tarde. Há citações a longas como “Morangos Silvestres” e “O Sétimo Selo” _sim, há um duelo com a morte, mas num jogo bem distinto do xadrez. E a primeira imagem revela que “De Düva” venceu o Escargot de Ouro no Pan-Europa Festival du Cinema. Conhece esse prêmio?

Como escreveu Dan Saltzstein, autor do post no “Screens”, é um curta divertido mesmo para quem nunca viu nada de Bergman. Para os fãs do diretor sueco, é um achado. Fique com “De Düva”, falado em falso sueco e com legendas em inglês de verdade.

*

Antoine Doinel fala castelhano?

As Leis de Família”, de Daniel Burman, finalmente estréia hoje em SP e no Rio. Com Lucrecia Martel e Pablo Trapero, Burman forma a trinca dos melhores diretores do atual cinema argentino. Mas sua obra se encaixa num registro um pouco diferente, o da crônica do cotidiano, temperando drama com humor. Assim como em “Esperando o Messias” (2000) e “O Abraço Partido” (2004), Daniel Hendler surge no papel principal, agora lidando com questões típicas de um jovem adulto e suas pequenas grandes crises, no casamento, na profissão e na relação com o pai.

A presença de Hendler, pela terceira vez vivendo um personagem chamado Ariel, aproxima a trilogia de Burman da saga de Antoine Doinel, como bem observou Cássio Starling Carlos na Ilustrada de hoje (leia aqui, para assinantes Folha ou UOL). Uma boa parte de “As Leis de Família” remete às situações vividas pelo alter ego de François Truffaut em “Domicílio Conjugal”. Voluntário ou não, é um belo e saboroso tributo.

*
 
PS - Precisei republicar este post, porque, toupeira que sou, tinha escrito Monty Python errado, como logo me alertou a leitora Carina. Acho que agora está direitinho.

Escrito por Leonardo Cruz às 2h15 PM

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Diretor de Nip/Tuck vai ao cinema

Diretor de Nip/Tuck vai ao cinema

 

Não é de hoje a história de que o cinema acabou. Para muitos críticos e estudiosos, a criatividade, os melhores roteiros e diálogos migraram das telas de cinema para as séries de TV. Se a tese é controversa, um lançamento em DVD permite ver como se sai quem faz o caminho inverso.

"Correndo com Tesouras" ("Running with Scissors") chegou a ter sessões para a imprensa, mas sai direto em DVD, por enquanto apenas para locação. É a estréia na direção em longas de Ryan Murphy, o criador da série "Nip/Tuck". Com o bordão "Diga-me o que você não gosta em você", o programa abusa do humor negro ao contar a história de dois cirurgiões plásticos às voltas com clientes bizarros. É uma sátira pesada à sociedade das aparências.

"Correndo com Tesouras" mostra que Murphy tem fôlego para sustentar um longa-metragem. O filme é baseado no livro homônimo de Augusten Burroughs e conta sua infância e adolescência. Entre o drama e a comédia, o jovem Augusten (Joseph Cross) enfrenta a separação dos pais _ele, um alcoólatra (Alec Baldwin); ela, uma poetisa medíocre e bipolar (Annette Bening, indicada ao Globo de Ouro).

Empurrado pela mãe, Augusten vai morar com o psiquiatra dela (Brian Cox), sujeito que se mostra malévolo, chefe de uma família igualmente disfuncional _Evan Rachel Wood e Gwyneth Paltrow interpretam suas filhas. Enquanto isso, Augusten vai deixando aflorar sua (homo)sexualidade na América dos anos 70.

O clima lembra "Os Excêntricos Tenenbauns" (2001, de Wes Anderson), então o grande mérito de "Correndo com Tesouras" é tratar esses personagens com um olhar de igual para igual, sem sensacionalismos ou de forma caricata _que, no fim das contas, é o grande mal do cinema indie contemporâneo.

Assim, o diretor ameniza a sátira pesada de "Nip/Tuck", que às vezes descamba para o grotesco, e busca refinar seus traços autorais, de forma mais abrangente: algo que cabe bem numa grande tela de cinema.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 2h29 PM

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