Ilustrada no Cinema
 

O encontro do Monty Python com Bergman

O encontro do Monty Python com Bergman

Imagine um filme que mesclasse o humor dos ingleses do Monty Python com os questionamentos existenciais de Ingmar Bergman. Esse filme existe, é um curta-metragem chamado “De Düva: The Dove” (“A Pomba”) e foi indicado ao Oscar. O  blog “Screens”, do “New York Times”, garimpou o filme no Google Video e o colocou no ar nesta semana.

“De Düva” é uma homenagem aos filmes de Bergman, em forma de paródia e dirigido pelos americanos George Coe e Anthony Lover em 1968 _os dois fazem aqui o mesmo estilo de comédia que o Monty Python celebraria anos mais tarde. Há citações a longas como “Morangos Silvestres” e “O Sétimo Selo” _sim, há um duelo com a morte, mas num jogo bem distinto do xadrez. E a primeira imagem revela que “De Düva” venceu o Escargot de Ouro no Pan-Europa Festival du Cinema. Conhece esse prêmio?

Como escreveu Dan Saltzstein, autor do post no “Screens”, é um curta divertido mesmo para quem nunca viu nada de Bergman. Para os fãs do diretor sueco, é um achado. Fique com “De Düva”, falado em falso sueco e com legendas em inglês de verdade.

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Antoine Doinel fala castelhano?

As Leis de Família”, de Daniel Burman, finalmente estréia hoje em SP e no Rio. Com Lucrecia Martel e Pablo Trapero, Burman forma a trinca dos melhores diretores do atual cinema argentino. Mas sua obra se encaixa num registro um pouco diferente, o da crônica do cotidiano, temperando drama com humor. Assim como em “Esperando o Messias” (2000) e “O Abraço Partido” (2004), Daniel Hendler surge no papel principal, agora lidando com questões típicas de um jovem adulto e suas pequenas grandes crises, no casamento, na profissão e na relação com o pai.

A presença de Hendler, pela terceira vez vivendo um personagem chamado Ariel, aproxima a trilogia de Burman da saga de Antoine Doinel, como bem observou Cássio Starling Carlos na Ilustrada de hoje (leia aqui, para assinantes Folha ou UOL). Uma boa parte de “As Leis de Família” remete às situações vividas pelo alter ego de François Truffaut em “Domicílio Conjugal”. Voluntário ou não, é um belo e saboroso tributo.

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PS - Precisei republicar este post, porque, toupeira que sou, tinha escrito Monty Python errado, como logo me alertou a leitora Carina. Acho que agora está direitinho.

Escrito por Leonardo Cruz às 2h15 PM

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Diretor de Nip/Tuck vai ao cinema

Diretor de Nip/Tuck vai ao cinema

 

Não é de hoje a história de que o cinema acabou. Para muitos críticos e estudiosos, a criatividade, os melhores roteiros e diálogos migraram das telas de cinema para as séries de TV. Se a tese é controversa, um lançamento em DVD permite ver como se sai quem faz o caminho inverso.

"Correndo com Tesouras" ("Running with Scissors") chegou a ter sessões para a imprensa, mas sai direto em DVD, por enquanto apenas para locação. É a estréia na direção em longas de Ryan Murphy, o criador da série "Nip/Tuck". Com o bordão "Diga-me o que você não gosta em você", o programa abusa do humor negro ao contar a história de dois cirurgiões plásticos às voltas com clientes bizarros. É uma sátira pesada à sociedade das aparências.

"Correndo com Tesouras" mostra que Murphy tem fôlego para sustentar um longa-metragem. O filme é baseado no livro homônimo de Augusten Burroughs e conta sua infância e adolescência. Entre o drama e a comédia, o jovem Augusten (Joseph Cross) enfrenta a separação dos pais _ele, um alcoólatra (Alec Baldwin); ela, uma poetisa medíocre e bipolar (Annette Bening, indicada ao Globo de Ouro).

Empurrado pela mãe, Augusten vai morar com o psiquiatra dela (Brian Cox), sujeito que se mostra malévolo, chefe de uma família igualmente disfuncional _Evan Rachel Wood e Gwyneth Paltrow interpretam suas filhas. Enquanto isso, Augusten vai deixando aflorar sua (homo)sexualidade na América dos anos 70.

O clima lembra "Os Excêntricos Tenenbauns" (2001, de Wes Anderson), então o grande mérito de "Correndo com Tesouras" é tratar esses personagens com um olhar de igual para igual, sem sensacionalismos ou de forma caricata _que, no fim das contas, é o grande mal do cinema indie contemporâneo.

Assim, o diretor ameniza a sátira pesada de "Nip/Tuck", que às vezes descamba para o grotesco, e busca refinar seus traços autorais, de forma mais abrangente: algo que cabe bem numa grande tela de cinema.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 2h29 PM

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Antonioni e o mal-estar social

Antonioni e o mal-estar social

 

O cartaz de “Blow Up” (1966), um dos nove que ilustram o topo deste blog, não está aí por acaso ou apenas por ser bonitinho. Poucos filmes me causaram tamanho impacto e ampliaram tanto meu interesse por cinema quanto esse primeiro filme em língua inglesa do italiano Michelangelo Antonioni.

Um filme que trata, no fundo, de um jovem inglês desgostoso e entediado, apesar de uma vida de sucesso como fotógrafo de modelos. Reflete a fome espiritual de um profissional rico, famoso, mas angustiado, que se lança ao acaso, para “flanar” por uma Londres fervilhante dos anos 60. E o acaso lhe permite fotografar um casal se beijando e um suposto assassinato.

A revelação do registro fotográfico, suas ampliações, cada vez maiores, e a busca por confirmar se houve de fato uma morte fascinam o fotógrafo, lhe despertam de novo o interesse pela vida. Toda essa saga existencialista é apresentada em planos longos e enquadramentos sempre belíssimos, marcas de Antonioni presentes ao longo de toda a sua obra.

Com David Hemmings e Vanessa Redgrave ótimos nos papéis principais e a trilha sonora jazzística de um alucinado Herbie Hancock, “Blow Up” conseguiu captar o mal-estar moderno, a essência de “As Babas do Diabo”, o conto inspirador escrito por outro gênio, o argentino Julio Cortázar.

Essa fúria, essa angústia espiritual como reflexo de uma vida fútil, transparece na seqüência abaixo, em que David Hemmings “orienta” modelos numa sessão de fotos. 

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Para ver Antonioni em DVD
Alguns dos principais longos de Antonioni foram lançados em DVD no Brasil. “Blow Up” saiu pela Warner. É difícil encontrá-lo à venda por aí, mas não é tão complicado achá-lo em locadores. Ainda entre os filmes falados em inglês, “Passageiro: Profissão Repórter” (1975) foi lançado pela Sony.

Os principais filmes em italiano de Antonioni saíram no Brasil pela Versátil. A distribuidora já lançou “As Amigas” (1954), “O Grito” (1957), “A Noite” (1960), “O Eclipse” (1962)  e “Deserto Vermelho” (1964). E ainda colocará no mercado “A Dama sem Camélias” (1953), “Os Vencidos” (1953) e “Identificação de uma Mulher” (1982).

“A Aventura” (1960), primeiro filme de Antonioni premiado em Cannes, saiu em DVD numa cópia muito ruim da Continental e ainda merece um relançamento adequado.

O diretor italiano ainda pode ser visto em segmentos de dois longas de episódios: “O Amor na Cidade” (1953, Versátil) e “Eros” (2004), seu último filme, lançado pela Imovision e, por enquanto, disponível apenas para locação.

Escrito por Leonardo Cruz às 1h20 PM

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Bergman, por Domingos Oliveira

Bergman, por Domingos Oliveira

 
 
A seguir, um belo depoimento sobre Ingmar Bergman que o cineasta Domingos Oliveira ("Todas as Mulheres do Mundo", "Amores", "Carreiras") gentilmente redigiu para a Ilustrada. Muito do que ele escreve abaixo também vale, creio, para Michelangelo Antonioni, morto menos de 24 horas depois de seu colega sueco.
 
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Bergman fez a vida valer, por Domingos Oliveira
 
No futuro, as crianças cineastas aprenderão nas escolas que, entre o início do século 20 e o início do século 21, viveram três cineastas a quem nunca mais ninguém se comparou. Artistas que contaram a humanidade como aquele outro, russo, chamado Dostoiévski. Dizem que é preciso entender da vida para compreender a arte. A formulação está inversa. É preciso conhecer da arte para saber o que é a vida. A arte é o arauto. Ela conta aos homens aquilo que, confusos e torturados, eles não conseguem compreender. Devassam o intenso mistério da condição humana.

Charles Chaplin, sem dúvida, dos três é quem mais amou. Fellini atravessava com sua câmera as paredes finas do real e filmava o transcendente. Bergman talvez tenha sido menos divino, o mais humano desses três reis magos. E trouxe a alma para o cinema. Aquilo que é mais complexo no homem. O mais complexo da sua consciência. E descobriu, segundo declarou, a cor da alma: é vermelha.

O verdadeiro artista, como um Cristo, não vem ao mundo para julgá-lo e, sim, para salvá-lo. A luz que Bergman lançou sobre a cultura ocidental. A alegria e a beleza que fez chegar até nós, somente poderão ser justamente avaliadas nos confins da eternidade. Filmes como "Vergonha", "Sorrisos de uma Noite de Verão", "Gritos e Sussurros" e, particularmente, "Fanny e Alexander" (foto) não são simplesmente filmes. São "a coisa" em si.
 
Quando morre um artista assim, perde-se um amigo, sem dúvida. Mas não se deve lamentar a morte de gente gloriosa. O inocente Ingmar, tão preocupado com as besteiras daquele pastor que o criou, morreu em idade aceitável. Fez os mais belos filmes, comeu as mais belas mulheres. Ou seja, realizou a maior das façanhas, que é fazer a vida valer.

Escrito por Leonardo Cruz às 10h18 AM

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Ingmar Bergman (1918-2007)

Ingmar Bergman (1918-2007)

Tinha algumas coisas para colocar no blog hoje, mas, com a morte de Bergman, fica tudo para depois. Agora, a melhor forma de homenagear o mais importante cineasta sueco é apresentar trechos de alguns de seus grandes filmes, inclusive de "O Sétimo Selo", cuja cena do jogo de xadrez com a morte já havia sido postada aqui dias atrás. Ao final, uma entrevista com o diretor, feita em 1970, dividida em três partes, e também novidades sobre lançamentos de filmes dele em DVD no Brasil.

"Gritos e Sussurros" (1972)
 
"Persona" (1966)
 
 
"Morangos Silvestres" (1957)
 
"O Sétimo Selo" (1957)
 
"O Silêncio" (1963)
 
"Saraband" (2003)
 
Entrevista com Bergman - Parte 1
 
Entrevista com Bergman - Parte 2
 
Entrevista com Bergman - Parte 3
 
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Os principais filmes de Ingmar Bergman foram distribuídos em DVD no Brasil pela Versátil, que prepara o lançamento de mais oito longas do diretor, a partir de 2008, incluindo "Monika e o Desejo" (1953), "Uma Lição de Amor" (1954) e "O Rosto" (1958). 

Escrito por Leonardo Cruz às 12h39 PM

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PERFIL

O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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