Quarto longa-metragem de Jorge Furtado, “Saneamento Básico, o Filme” tem dois elementos fundamentais para se tornar um sucesso de público neste ano: é uma das mais engraçadas comédias nacionais recentes, protagonizada por um elenco global, com ótimos atores de intensa exposição na TV. Ao mesmo tempo, é uma bela homenagem ao cinema, especialmente o italiano, e uma sátira ao seu modo de produção, especialmente o brasileiro.
À trama: os moradores de uma pequena comunidade da serra gaúcha se unem para solicitar à prefeitura local verba para a construção de uma fossa para tratamento de esgoto. O casal Marina (Fernanda Torres) e Joaquim (Wagner Moura) leva o pedido ao município e ouve que não há dinheiro para saneamento básico. Mas há para um vídeo de dez minutos, R$ 10 mil que haviam sido liberados pelo governo federal para um projeto agora abandonado. Se a verba não for usada, terá de ser devolvida.
Com a ajuda de sua irmã, Silene (Camila Pitanga), e do namorado dela, Fabrício (Bruno Garcia), Marina e Joaquim encampam o projeto do vídeo. Farão um filme sobre a fossa, na crença que conseguirão usar a maior parte do dinheiro para a obra em si e não para o curta.
Quando a trupe começa a fazer a ficção “O Monstro da Fossa”, os personagens de Furtado são apresentados aos desafios de todas as etapas de realização de um filme: escrever um roteiro, negociar patrocínio, escolher o elenco, produzir cenário, figurino e efeitos visuais, filmar e finalmente montar.
Na mesma toada dos curtas e longas anteriores de Furtado, “Saneamento” é um filme de linguagem direta, clara, que fala à platéia sem rodeios, mas que guarda, para quem acompanha o cinema mais de perto, algumas boas piadas internas e ao menos duas cenas encantadoras protagonizadas pelo Joaquim de Wagner Moura, de longe o personagem mais interessante do longa.
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Anote na agenda: “Saneamento Básico, o Filme” estréia no Brasil em 20 de julho. Seu site está no ar e vale uma visita. Tem entrevistas com elenco e equipe, fotos, trailers e trechos da trilha sonora, quase toda composta por músicas italianas.
Para quem quiser conhecer um pouco mais a obra de Jorge Furtado, seus principais curtas estão disponíveis no site PortaCurtas, incluindo os ótimos “Ilha das Flores”, "O Dia em que Dorival Encarou a Guarda" e “Barbosa”.
Lei do Cinema na Espanha: 1 Almodóvar para cada 3 Shreks
Na mais quente temporada cinematográfica dos últimos anos, os exibidores espanhóis radicalizaram. Vão manter seus cinemas fechados na próxima segunda. É um protesto contra a nova Lei do Cinema, que ainda está em discussão no país, mas já desagrada o setor.
O principal ponto da discórdia é a "cota de tela", mecanismo que existe também no Brasil, para proteger o filme nacional contra a concorrência estrangeira. Aqui, a cota estabelece um número de dias obrigatórios de exibição de filmes brasileiros para cada cinema _de acordo com a quantidade de salas de cada complexo.
Lá, é um pouco diferente. A imposição é que seja exibido um filme espanhol ou europeu para cada três de terceiros países _ou seja, os Estados Unidos entram nessa conta.
A Federação dos Cinemas da Espanha diz que a medida "é injusta, incondicional e inútil". Mais uma vez, é uma questão de saber quem paga a conta. Os exibidores espanhóis gostariam que ela fosse parar nas mãos dos estúdios americanos, as majors, a quem acusam de "abuso de poder". Eles acusam também o governo espanhol de falta de coragem para enfrentá-los.
Aqui no Brasil, os exibidores também discordam da cota de tela. Argumentam que, para cumpri-la, às vezes são obrigados a passar filmes brasileiros para salas vazias, tendo prejuízo. Quem descumpre a cota é multado. Os que defendem a existência da cota dizem que ela é um importante mecanismo de regulação do mercado, serve ou para "corrigir assimetrias", em tucanês, ou para enfrentar a "distorção de um mercado pautado pela hegemonia de Hollywood", na outra língua.
Embora batam bastante o pé contra a cota de tela, é difícil imaginar os exibidores brasileiros numa atitude semelhante à dos espanhóis. Salvo se progredir a intenção do governo brasileiro de estabelecer uma "cota de tela regional", envolvendo os países que compõem o Mercosul mais a Venezuela. Aí sim, pode ser...
O jornalista Carlos Alberto Mattos, 53, já tem quase 30 anos de crítica de cinema e é um dos principais especialistas em documentários no país. Atualmente, resenha filmes para o jornal "O Globo" e para o site www.criticos.com.br, além de manter o DocBlog, ponto obrigatório para quem se interessa pelo cinema não-ficcional. Tem cinco livros lançados _sobre Walter Lima Jr., Eduardo Coutinho, Carla Camurati, Jorge Bodanzky e Maurice Capovilla_ e um ainda inédito, sobre Vladimir Carvalho. A seguir, ele apresenta seus cinco filmes favoritos.
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"8 e 1/2" (Federico Fellini, 1963, disponível em DVD) A descoberta do cinema moderno à margem da aridez intelectual. A libertação do tempo narrativo, a incorporação da dúvida como modelo de criação, a mescla de realismo, onirismo e fantasmagoria, tudo isso me saltou aos olhos quando vi esse filme pela primeira vez, recém-saído da adolescência. Desde então, passei a apontá-lo como meu filme predileto.
"Taxi Driver" (Martin Scorsese, 1976, disponível em DVD) Em sua obra-prima, Scorsese empacotou o melhor do cinema estadunidense das últimas décadas: movimento, individualismo, obsessão, violência, catarse, ironia. Marcou o auge de uma geração de atores, que incluía De Niro, Keitel e Foster. A trilha do Bernard Herrmann é um clássico. De que mais se precisa para um grande filme? "Crepúsculo dos Deuses", de Billy Wilder, também caberia nesse nicho.
"Cabra Marcado para Morrer" (Eduardo Coutinho, 1984, disponível em VHS) O mais extraordinário documentário brasileiro foi que primeiro chamou minha atenção para as potencialidades do cinema de não-ficção, hoje meu principal objeto de estudo. Um caso raro de filme que preencheu um vácuo histórico; era pessoal, nacional e universal ao mesmo tempo; e interveio na realidade ao ponto de mudar o futuro dos seus personagens. De quebra, ainda mudou a história do documentário no Brasil. Dziga Vertov, em seu "O Homem com a Câmera", surtiu efeito semelhante no meu apreço pelo cinema documental.
"Lavoura Arcaica" (Luiz Fernando Carvalho, 2001, disponível em DVD) Poderia citar "Limite", de Mário Peixoto, mas preferi ficar com um filme que reeditou o mesmo impacto poético e o mesmo “diferencial” em relação aos figurinos médios do cinema brasileiro em suas respectivas épocas. Fruto de uma atitude corajosa e perfeccionista, é um dos três ou quatro mais belos filmes brasileiros de todos os tempos. Imagino que qualquer obra literária sonhe com uma adaptação deste calibre às telas, em que livro e filme co-habitam uma mesma moradia.
"A Noviça Rebelde" (Robert Wise, 1965, disponível em DVD) Parece brincadeira, mas é verdade. Sei que o filme é cafona e quadrado, mas o que posso fazer, se foi o meu primeiro cult, o primeiro a me fazer voltar ao cinema e descobrir que ali era um bom lugar para estar? Até hoje me compraz cantarolar Rodgers, rever Salzburgo e torcer por Maria. E, cá entre nós, "Something Good" é tudo de bom em matéria de canção.
A Índia pode virar o próximo pólo produtor de animação do mundo. E, diferentemente da grande massa de filmes de Bollywood (a Hollywood indiana), essa produção vai começar a ser exportada e pode até chegar ao Brasil.
O canal seria a megaindústria Disney, que fechou ontem um acordo com o estúdio Yash Raj Films para produzir animações dubladas por estrelas da Índia.
De olho no grande mercado consumidor do país, o contrato prevê pelo menos um filme por ano e já tem o primeiro longa da lista: "Roadside Romeo", previsto para 2008, com canções, cenas de ação e danças, bem ao estilo bollywoodiano. O filme, a ser falado em hindi por Saif Ali Khan e Kareena Kapoor, conta a história de um cãozinho abandonado nas ruas da capital.
Mark Zoradi, diretor de mercado da Disney, disse em Mumbai que essa cooperação firmada "ajudará a aprofundar a compreensão da cultura indiana". "Sozinhos não poderíamos fazer um bom filme indiano."
Vem de outro país totalmente desconhecido em qualquer área audiovisual a primeira animação em 3D árabe: o Kuwait, que vai ser primeiro a usar esse tipo de tecnologia, na película "Moghamarat Nafout" (foto).
A obra, co-produzida por Egito e Kuwait, tem roteiro de Mahmoud Saber e é dirigida por Tarek Rashed. O TR Studio foi fundado em 1995 e é especializado em cartuns para comerciais e séries de televisão infantis, principalmente para o mercado egípcio, onde foi divulgado o projeto.
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O Anima Mundi, que comemora seus 15 anos a partir do dia 29 deste mês no Rio e no dia 11 de julho em São Paulo, já está antenado com essa safra de lugares exóticos e promete filmes do Egito (o curta "Had Tang/Someone Els") e Tailândia (o longa "Khan Kluay", que estará em competição).
O diário inglês "The Guardian" criou em seu site uma seção chamada Clip Joint. É um trabalho de garimpagem no YouTube para reunir cenas de filmes que dialoguem entre si. Estreou no mês passado e já encontrou coisas bacanas, como os melhores momentos do Festival de Cannes e as grandes interpretações de Paul Newman. Mas o que entrou no ar nesta terça é impagável: trechos de refilmagens de blockbusters feitas fora dos EUA.
Por exemplo? Da Turquia, um remake de "E.T.", no qual o pequeno alienígena não é tão simpático quanto o de Spielberg e libera uma flatulência altamente tóxica quando em perigo. Os turcos também são responsáveis por um novo "Guerra nas Estrelas" (pôster acima), que rouba cenas do original de George Lucas e cola com seqüências em que um Luke Skywalker local combate um monstrengo vermelho com golpes de caratê. Para os mais curiosos (ou corajosos), o Google Video tem a versão integral do filme, neste link.
Nessa mesma linguagem de "cinema-gilete", o nigeriano Faruk Ashu-Brown fez o seu próprio "Titanic", com Céline Dion, mas bem mais trash que o original.
As duas refilmagens indianas são mais, digamos, profissionais. John Belushi parece ter ressuscitado em Nova Déli para interpretar um Super-Homem rechonchudo e com costeletas à Elvis. Ele voa com sua Lois Lane, canta e dança com a moça nos braços. Fechando o pacote há ainda a versão de "Uma Babá Quase Perfeita", com um Robin Williams mais moreninho.
A seguir, os dois favoritos deste blog: o "E.T." turco e o "Superman" indiano. Divirta-se.
Gus Van Sant ainda nem lançou comercialmente seu novo filme, "Paranoid Park", e a revista "Variety" já anuncia seu próximo projeto. O cineasta dirigirá a adaptação ao cinema de "O Teste do Ácido do Refresco Elétrico", de Tom Wolfe.
No livro, de 1967, Wolfe narra a saga do escritor Ken Kesey e seus Festivos Gozadores, grupo que atravessou os EUA nos anos 60 para alardear as benesses do LSD. A bordo do Furthur (foto acima), um antigo ônibus escolar convertido ao estilo viajandão, Kesey cruzou o país fazendo seus testes de ácido com voluntários, em eventos regados ao som da banda Grateful Dead, ainda em início de carreira. A vida dos Festivos Gozadores ficou mais complicada a partir de 1966, quando o LSD se tornou ilegal nos EUA. Kesey chegou a ser detido por posse de maconha, simulou um suicídio para enganar a polícia e fugiu para o México.
"O Teste do Ácido do Refresco Elétrico", lançado no Brasil pela Rocco, é o terceiro livro de Wolfe, retrato aprofundado da contra-cultura americana e de uma parcela importante do movimento hippie. O roteiro da adaptação ficará nas mãos de Dustin Lance Black, que escreveu alguns episódios do bom seriado "Big Love", sobre uma família polígama nos EUA.
A relação entre Van Sant e Ken Kesey é antiga. O escritor, autor de "O Estranho no Ninho", fez uma ponta em "Até as Vaqueiras Ficam Tristes", e Van Sant dedicou a ele "Gerry", mais um de seus grandes filmes e infelizmente inédito no circuito de cinema comercial brasileiro.
Vale lembrar que, ao contrário de "Gerry", "Paranoid Park" está comprado pela distribuidora Imovision e deve estrear no país ainda neste ano. A seguir, um trechinho do filme, que recebeu um prêmio especial da 60ª edição do Festival de Cannes.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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