Ilustrada no Cinema
 

Em João Pessoa, o cinema só fala português

Em João Pessoa, o cinema só fala português

A seguir, o crítico da Ilustrada Cássio Starling Carlos comenta a edição deste ano do Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, que movimenta João Pessoa nesta semana.

*

Longas filas, salas lotadas, espectadores disputando espaço até para assistir de pé e aplausos acalorados ao fim das sessões. Não. Não se trata da estréia de mais um blockbuster, mas o que se viu ao longo de toda a semana durante a 3a. edição do Cineport, Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa, em João Pessoa. O evento, que termina neste domingo, após o anúncio na noite de sábado dos premiados, passa a ter a capital paraibana como sua sede fixa no Brasil, em caráter bienal, enquanto nos anos pares permanece itinerante, em outro dos países lusófonos. A próxima edição, segundo sua coordenadora geral, Mônica Botelho, pode se realizar em Maputo, capital de Moçambique.

Ainda jovem, o festival, lançado há dois anos, em Cataguazes (MG), consolida seu formato como vitrine de trabalhos de realizadores brasileiros, portugueses, angolanos, moçambicanos, caboverdeanos e guineenses. Com ingressos a R$ 1 (valor da entrada no espaço na Usina Cultural Saelpa), o público ganha acesso não só aos filmes exibidos em duas tendas, como também a exposições, espetáculos performáticos e shows. Mas seu diferencial encontra-se na comunidade audiovisual lusófona, que permite a interação entre produtores, diretores, roteiristas e atores em busca de fomento para seus projetos, muitos ainda em germe.

 

Tal condição é encarada com maior otimismo pelos convidados africanos. Donos de uma cinematografia minúscula, os angolanos, por exemplo, vêem no evento a chance de alcançar condições de maior autonomia em sua expressão audiovisual, ainda dependente quase exclusivamente do apoio de fundos europeus e norte-americanos. Miguel Hurst, diretor do Instituto Angolano de Cinema, Audiovisual e Multimédia, aponta o Cineport como o “espaço que viabilizou e começa a consolidar uma estrutura que não só permite a exibição de trabalhos como estabelece a continuidade, com oficinas de formação e acordos de co-produção”.

 

Com ênfase no documental e no etnográfico, os filmes africanos exibidos em João Pessoa demonstram uma vocação para a construção de identidades, tanto no plano estético quanto nos temas. “Dançando na Corda Bamba” (foto acima), representante de Moçambique, acompanha a entrada de uma adolescente na vida sexual sob o impacto dos riscos da Aids. Sob as regras da tradição, que impõem a submissão feminina, o relato, dirigido pela inglesa Karen Boswall, confirma a vocação eminentemente política do audiovisual nestes países.

 

A Aids como metáfora de abusos de poder sobre as mulheres é também tema da ficção “O Sol do Outro Homem”, dirigido pelo moçambicano Sol de Carvalho, cujo tema forte, infelizmente não encontra soluções dramáticas além do caricatural. Muito mais estimulante foi a descoberta de “Desobediência”, de Licinio Azevedo. O diretor brasileiro, radicado em Moçambique, provoca um curto-circuito entre realidade e representação ao reencenar um ato de suicídio numa aldeia. Ao utilizar as próprias pessoas da família do morto como personagens-atores, Azevedo coloca o cinema numa encruzilhada entre fato e ficção, reveladora de ambos os lados.

 

A abolição das fronteiras também marca os trabalhos do angolano Zezé Gamboa, um dos homenageados do festival. Depois de um início de carreira no documentário, Gamboa alcançou com “O Herói” um retrato cru e exato das cicatrizes da guerra civil em seu país, através do olhar de um soldado que retorna a Luanda.

 

Em meio a revelações e decepções, espera-se que o Cineport avance rumo à maturidade criando espaço também para a reflexão. Na atual estrutura, o festival ressente-se da ausência de debates que permitam uma interação de idéias entre artistas e público que vá além da festa. Pois, se é louvável a iniciativa de dar visibilidade a uma enorme comunidade com base na língua, ainda falta estimular o questionamento dessa identidade no plano das imagens.

(Cássio Starling Carlos)

Escrito por Leonardo Cruz às 2h30 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Cinema em debate | PermalinkPermalink #

Fernando Meirelles ou Jean-Luc Godard?

Fernando Meirelles ou Jean-Luc Godard?

"Cidade de Deus", de Fernando Meirelles, é melhor do que "Acossado", de Jean-Luc Godard? Sim, respondem os leitores do diário inglês "The Guardian". O jornal londrino fez uma enquete em seu site em que perguntava: Qual o melhor filme de todos os tempos não falado em inglês? O resultado foi publicado hoje, e o filme sobre o surgimento do tráfico em uma favela carioca ficou em quarto lugar, enquanto o clássico da nouvelle vague apareceu na sexta posição.

Mais de 2.500 pessoas enviaram seus votos, e cerca de 500 filmes foram citados. E quem ficou em primeiro? O bonitinho (mas ordinário) "Cinema Paradiso" (foto), do italiano Giuseppe Tornatore, seguido por "O Fabuloso Destino Amèlie Poulain", do francês Jean-Pierre Jeunet, e os "Sete Samurais", do japonês Akira Kurosawa. Dá pra levar a sério? Nem o pessoal do "Guardian" gostou muito da seleção, e o crítico David Thomson lamentou a escolha do vencedor.

E o que o jornal disse sobre o quarto lugar para "Cidade de Deus"? A avaliação de Thomson, numa tradução livre:

"Primeiro, jovens estão votando e buscando nos filmes uma visão real do mundo. Segundo, essa busca se amplia à América Latina e às favelas do Rio, onde o filme de Meirelles é rodado. E, terceiro, jovens cinéfilos usam o filme como uma forma de focar sua raiva e desespero quanto às injustiças do mundo. Tudo isso também poderia ter sido dito sobre 'Os Esquecidos', de Luis Buñuel, feito em 1950 e um filme melhor. Mas 'Os Esquecidos' nunca despertou o mundo como 'Cidade de Deus' fez."

Este blogueiro concorda com Thomson, tanto na comparação com Buñuel, quanto (e principalmente) na avaliação do furor causado por "Cidade de Deus" na época de seu lançamento, especialmente no exterior e no público mais jovem.

O filme de Meirelles não é o único brasileiro que aparece entre os 40 primeiros colocados: "Central do Brasil", de Walter Salles, é o 30º colocado, nove posições à frente de "A Regra do Jogo", outro clássico francês, este dirigido por Jean Renoir.

Para ver a lista completa do "Guardian", basta clicar aqui. E você, caro leitor? O que achou da seleção? Qual é melhor: "Cidade de Deus" ou "Acossado"? Para refrescar a memória, aí vai um trechinho de cada um.

Escrito por Leonardo Cruz às 7h18 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Caetano Veloso, programador de cinema

Caetano Veloso, programador de cinema

 

 

Caetano Veloso escolhe os filmes, e o Espaço Unibanco de Cinema monta a programação. É o ciclo Carta Branca, evento promovido em parceria com a Folha e que estréia na próxima terça em São Paulo. O compositor baiano é o primeiro convidado desse projeto semestral, no qual uma personalidade terá seus filmes favoritos transformados em uma mostra na capital paulista.

 

Caetano estará no Espaço Unibanco na terça, às 20h, para apresentar "As Grandes Manobras", filme de 1955 do francês René Clair escolhido para abrir seu ciclo, que incluirá ainda clássicos nacionais e internacionais, como "Terra em Transe", de Glauber Rocha, "O Bandido da Luz Vermelha" (foto), de Rogério Sganzerla, "Noites de Cabíria", de Federico Fellini, e "Passageiro Profissão: Repórter", de Michelangelo Antonioni.

 

A seleção do músico, que está em cartaz neste final de semana em São Paulo com o show "Cê", não se restringe às obras mais antigas: estão confirmados no ciclo Carta Branca filmes mais recentes, como "Brown Bunny", de Vincent Gallo, e "Houve uma Vez Dois Verões", de Jorge Furtado. A lista completa de filmes estará na versão impressa da Ilustrada desta sexta-feira.

 

Depois da exibição de "As Grandes Manobras", o restante da mostra acontecerá de 18 a 24 de maio, no Espaço Unibanco, sempre com entrada franca. Os horários das sessões ainda estão sendo definidos. A seguir, um trechinho de "Noites de Cabíria", com uma belíssima seqüência de Giulieta Masina, a quem Caetano já homenageou em uma música.

 

Escrito por Leonardo Cruz às 4h45 PM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

As bestas de Cláudio Assis

As bestas de Cláudio Assis

 

Os personagens criados por Cláudio Assis em “Baixio das Bestas” falam pelos cotovelos, comentam quase tudo, quase o tempo todo, sublinhando cenas, explicando idéias e teses que as imagens do filme, isoladas, já seriam capazes de sustentar. A verborragia excessiva me parece a única ressalva a ser feita a esse muito bom filme nacional que estréia nesta sexta-feira no país.

 

“Baixio” mostra a vida em um pequeno povoado da zona da mata pernambucana. Nessa terra do plantio de cana, há Heitor (Fernando Teixeira), o velho que ganha dinheiro de caminhoneiros da região ao explorar a nudez de sua neta adolescente, Auxiliadora (Mariah Teixeira). E há Everardo (Matheus Nachtergaele) e Cícero (Caio Blat), jovens que matam o tempo em orgias com putas regadas a muito álcool e muita porrada.

 

Grande vencedor do último Festival de Brasília, em dezembro passado, o filme dividiu  o público do evento _parte vaiou e parte aplaudiu Cláudio Assis na cerimônia de premiação, quando o diretor subiu ao palco para pegar seu Candango.

 

Os que vaiaram consideraram absurdo o festival premiar uma obra que apresenta chocantes e violentas cenas de sexo, que trata a mulher como coisa, como objeto de consumo, e que é dominado por um tom pessimista, de pessoas moralmente falidas e sem perspectiva.

 

Para esse último ponto, cabe a pergunta: é papel do cineasta apontar saídas, soluções para a sociedade fraturada e contraditória que retrata? Tenho cá minhas dúvidas e creio que a crítica social incisiva é um dos grandes méritos dos filmes de Cláudio Assis _já desde “Amarelo Manga” e num tipo de cinema em sintonia com a obra de Sergio Bianchi (“Cronicamente Inviável”, "Quanto Vale ou É por Quilo?").

 

As curras e os estupros de “Baixio das Bestas” têm efeito ainda mais demolidor sobre a platéia graças ao mais uma vez excelente trabalho de Walter Carvalho. O diretor de fotografia constrói belas cenas nas passagens mais repugnantes, num aparente paradoxo que amplifica o horror. Seu trabalho também é admirável no registro do maracatu rural e dos canaviais na colheita e na queimada, em imagens que colam na retina do espectador e lá ficam por horas e horas.

 

Repito, essa força visual de “Baixio” dispensa muitas de suas palavras, especialmente as do avô Heitor e algumas do porra-louca Everardo. Mas é um excesso de palavras até compreensível, pois um evidente reflexo da personalidade explosiva do diretor Cláudio Assis. Para quem não a conhece, vale conferir o vídeo abaixo, gravado no último sábado, numa sessão do filme em Aracaju, e colocado ontem no YouTube por Gabriela Caldas. Em seguida, o trailer. 

Escrito por Leonardo Cruz às 4h31 AM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Cinema em debate | PermalinkPermalink #

As sensações do cinema

As sensações do cinema

 

O que você sente quando vai ao cinema? Que filmes mais te emocionaram?

 

Livros com listas de filmes não são uma novidade no mercado editorial. Há, tanto aqui quanto lá fora, um bom punhado de publicações que compilam os melhores de todos os tempos, deste e daquele gênero, deste e daquele país. Por isso, à primeira vista, “1000 Films to Change your Life” parace só mais um desses catálogos canônicos. Não é bem assim.

 

A chave que torna “1000 Films” mais saboroso e informativo que a média é o recorte de sua seleção. A equipe da “Time Out” inglesa, a melhor revista semanal de entretenimento do mundo, fez uma lista de filmes norteada pelas sensações. Explico: o livro é dividido em partes dedicadas às emoções mais comuns despertadas na platéia da sala escura.

 

São nove emoções, em nove capítulos: Alegria, Raiva, Desejo, Medo, Tristeza, Excitação, Remorso, Desprezo e Fascinação. No início de cada segmento, um crítico da revista faz uma análise sobre a representação do sentimento em questão ao longo da história do cinema.

 

Em Alegria, por exemplo, o crítico Trevor Johnston elenca os filmes capazes de “tirar do sério, arrancar sorrisos, levantar o humor, elevar o espírito” e cita clássicos do bem-estar, como “O Diabo a Quatro”, dos Irmãos Marx, “Cantando na Chuva”, de Gene Kelly e Stanley Donen, e “Quanto Mais Quente Melhor”, de Billy Wilder. Mas também tenta fugir do óbvio e apresenta uma lista de 20 filmes que “você deveria ver porque são maravilhosos mesmo que você nunca tenha ouvido falar deles”. Há raridades no Brasil, como “Meu Vizinho Totoro” (foto acima), animação de 1988 de Hayao Miyazaki (“O Castelo Animado”), e filmes bastante rodados por aqui, como o encantador “Meu Tio”, de Jacques Tati.

 

Outro ponto positivo de “1000 Films” é a seção “Moving Picture”, em que gente do cinema relata experiências marcantes que tiveram ao assistir a um filme. Michael Mann conta o impacto de “Dr. Strangelove”, de Kubrick, em sua decisão de se tornar cineasta. E Takeshi Kitano relembra a primeira vez, ainda criança, que viu um filme ocidental: “Il Ferroviere”, do italiano Pietro Germi. Levado por seu irmão mais velho a um cinema de Tóquio, Kitano não entendeu nada e na saída os dois ainda levaram uma surra de uns garotos mais velhos.

 

“1000 Filmes para Mudar sua Vida” não é um lançamento. Saiu na Inglaterra em maio do ano passado e desde então pode ser comprado pela internet (no próprio site da Time Out e também na Amazon). Mas agora a obra está disponível em algumas livrarias brasileiras, como a Saraiva Megastore, que também vende on-line. Esbarrei nele por acaso, no início de abril, no começo das minhas férias, das quais retorno hoje. Custou R$ 40 e valeu cada centavo.

 

*

 

Em tempo, na lista de filmes do capítulo Alegria está “Tampopo”, divertido filme japonês em cartaz até quinta no ciclo Cama e Mesa do cineclube do HSBC Belas Artes. Vale dar um pulo lá.

 

*

 

E, para voltar bem ao trabalho, o inesquecível solo de Donald O’Connor em “Cantando na Chuva”. Faça-os rir. Faça-os rir.

 

Escrito por Leonardo Cruz às 9h04 AM

Comentários (Comente) | Enviar por e-mail | Notícias e curiosidades | PermalinkPermalink #

Ver mensagens anteriores

PERFIL

O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

BUSCA NO BLOG


ARQUIVO


Ver mensagens anteriores
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.