| |
O ano do curta em Cannes

São Paulo assiste à mesma época do Festival de Cannes (de 16 a 27 de maio) ao curta "Saba" (foto), brasileiro incluído na "Cinéfondation", mostra dedicada a produções de estudantes. O curta de Thereza Menezes e Gregório Graziosi integra a mostra paralela do festival "Entretodos", que a Comissão Municipal dos Direitos Humanos promove no Centro Cultural São Paulo a partir do dia 13 de maio.
Uma câmera detalhista passeia pela casa onde vive um casal de idosos, Porfírio e Chiquinha, com cortes rápidos, embora sutis. Ele passa o tempo olhando (o que não se sabe) pela janela. Ela, deitada. Lava-se uma peça de roupa, seca-se o chão, a comida ferve, a torneira pinga. Nada mais banal. O tempo passa. Para chegar a hora de quê? Em close, a rotina deles vai sendo esquadrinhada. Nada de mais. O tempo segue. A vida passa lenta.
Ouvimos um diálogo, na verdade, só uma parte dele, já que estamos "do lado de cá" do telefone. É o suficiente. Há um entrever, mais do que ver, uma espécie de "desencaixe" do mundo. A música é leve, em nada alivia ou mascara essa realidade. Eles esperam o tempo passar, a vida, o fim. Parece triste. Mas eles estão de mãos dadas.
*
Outro participante de Cannes é "Saliva", de Esmir Filho, que está no Festival Cultura Inglesa (em 8 de maio) e também na Semana da Crítica do festival francês. Esmir Filho é também co-diretor do vídeo "Tapa na Pantera". Neste "Saliva", faz um inspirado retrato da necessidade de aceitação do adolescente.
Marina, de 12 anos, vive as angústias do primeiro beijo. Quanto tempo pode durar um beijo? Mas não é isso o principal neste curta, filmado no shopping Eldorado, em São Paulo, com trilha de John Ulhoa e Fernanda Takai, do Pato Fu. Aqui é a dúvida que vai permear os 14 minutos. As amigas, as bonecas, o mundo todo parece estar observando o que Marina vai fazer. Como vai fazer. E depois? Depois o mundo muda. Até a água se transforma.
Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 5h01 PM

Após o blockbuster "Homem-Aranha 3", da Sony, é a vez de a Disney fazer a sua grande estréia do ano. Ela lança no dia 25 de maio a terceira (e quem sabe última) parte de "Piratas do Caribe". Com o subtítulo de "No Fim do Mundo", Johnny Depp volta a encarnar o capitão picaresco Jack Sparrow.
Enquanto o Pérola Negra não aporta por aqui, vale mergulhar nos extras do segundo episódio, lançados em DVD duplo com "O Baú da Morte". No primeiro disco, há o filme em si e comentários. Mas a graça está no disco dois, só com documentários sobre a superprodução, que tem histórias bizarras como o fato de os ingressos para a última parte da trilogia começarem a ser vendidos nos EUA mesmo sem o filme ter sido terminado.
O primeiro longa foi muito bem-sucedido em aliar ação e comédia, embora as performances dos coadjuvantes Orlando Bloom e Keira Knightley tenham ficado a desejar. Já o segundo frustrou quem esperava que a franquia mantivesse o alto nível, porque ficou muito mais centrado em tramas rocambolescas para justificar pirotecnias e explosões.
Mas talvez essa decepção com a segunda parte tenha vindo de outro lugar: os roteiristas entregam que as seqüências não eram para ter existido. "Na época, era para ser um filme completo", diz Terry Rossio. Só que o filme fez tanto sucesso que a Disney encomendou o resto do pacote. E aí Rossio e seu parceiro Ted Elliott tiveram de se virar para fazer com que as duas continuações parecessem ter sido imaginadas desde o primeiro longa. Eles não conseguiram essa naturalidade em "O Baú da Morte". Mas a terceira parte promete.
Nos making ofs, dá para ter uma idéia do tamanho de uma produção com orçamento de US$ 225 milhões. Foram 200 dias de filmagem, a partir de fevereiro de 2005, sem o roteiro finalizado. "Entregue o roteiro em cima da hora, porque aí não vai dar tempo de fazer muitas mudanças e eles terão de filmar com o que têm na mão", brinca, falando a verdade Rossio. "É muito útil e para o bem deles."
Outra curiosidade: em um determinado dia, eles trabalharam 17 horas, direto, sem parar, sem ter filmado absolutamente nada. O trabalho era para posicionar os navios para as tomadas noturnas no cais.
Eles filmaram durante 1 ano, 5 dias e 38 minutos, conta meticulosamente o produtor Jerry Bruckheimer, emendando uma seqüência seguida da outra. Foram 475 celulares usados só no set da ilha de Dominica, no Caribe. E tiveram ainda de enfrentar um furacão. O Wilma passou rapidamente, em 24 horas, de tempestade tropical para furacão de categoria 5, atingindo em cheio os navios ancorados e a baía que eles tinham criado.
Dá para pensar: se eles enfrentaram um furacão, será que agüentam um simples ogro verde?
Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 4h53 PM
Filmoteca - Alcino Leite Neto
Alcino Leite Neto, atual editor de Moda da Ilustrada e da Revista de Moda, é grande conhecedor de cinema e freqüentador de mostras e cineclubes. A seguir, elenca cinco produções para a "Filmoteca" entre novos filmes, "pois de velho já chega eu", brinca ele. Ao final, faz uma exceção fora da lista - e um pedido aos distribuidores do Brasil.
*

"Plages" (2001) e todos os filmes de Dominique Gonzalez-Foester (acima foto de "Ryio")
"Plages" mostra os movimentos aleatórios de uma multidão na praia de Copacabana, numa manhã de Réveillon, e é uma das visões mais patéticas, sombrias e perturbadoras do Rio de Janeiro. Foi realizado pela francesa Dominique Gonzalez-Foester, que, além de notável artista plástica, deveria ser considerada um importante nome do cinema contemporâneo. Seus filmes registram as errâncias da artista por cidades do mundo _como Brasília ou Hong Kong_, captando os confrontos entre tempo e espaço, corpo e geografia, indivíduo e natureza, memória e instante, imaginário e realidade. Uma caixa de DVDs com os filmes da artista foi lançada no ano passado na França. É item obrigatório para cinéfilos. Em tempo: Dominique, que foi uma das artistas convidadas da última Bienal de São Paulo, comprou uma casa no Rio de Janeiro e está vivendo lá uma parte do ano.

"Serras da Desordem" (Andrea Tonnacci, 2006)
Há muito tempo o cinema brasileiro não faz um filme da envergadura deste "Serras da Desordem". O diretor parte de uma história real (a destruição de uma aldeia indígena e a separação de um pai e seu filho) para criar uma obra espantosa, tanto do ponto de vista cinematográfico quanto político-social. Valeu a pena esperar quase 20 anos para que Andrea Tonacci resolvesse voltar ao longa-metragem com este maravilhoso poema antropológico. Mas tomara que ele não nos faça esperar mais 20 pelo próximo filme.

"Síndromes e um Século", de Apichatpong Weerasethakul (2006)
Este diretor tailandês, de nome complicadíssimo, é hoje um dos grandes autores do cinema. Em "Síndromes e um Século", ele narra o cotidiano de um pequeno hospital. Os personagens são banais e as histórias que eles vivem também. Mas é da própria banalidade que Apichatpong extrai sua poesia e também o seu pensamento. No fundo, este filme é uma reflexão sobre a hipocondria contemporânea, a ordem hospitalar e, mais ainda, sobre a esperança de que as potências de vida possam prevalecer sobre o instinto de morte _e o desejo e o humor possam sobrepujar o tédio.

"Der Direktor/The Boss of it All" (2007)
"O Diretor" ou "O Chefe de Todos" (o filme ganhou nomes diferentes, dependendo do país em que foi exibido) é uma comédia terrível de Lars von Trier sobre as novas diabruras do capitalismo e da hierarquia e as maneiras atuais de servidão voluntária. É também uma farsa sobre o cinema e as relações perversas que ele estabelece entre diretor e atores _e entre ambos com o espectador.

"Inland Empire" (2007)
O novo filme de David Lynch é de arrepiar de espanto e de entusiasmo, pela maestria narrativa e cinematográfica deste diretor americano. A história se desdobra em várias outras, que se misturam e se complicam, lançando o espectador num labirinto de sensações, expectativas, suspeitas, medos e catarses estranhas.
"A Lira do Delírio" (1978)
E quando é que vão lançar em DVD este ótimo filme de Walter Lima Jr.?
Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 12h13 PM
Ver mensagens anteriores
|
|
PERFIL
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
|
|