O diretor de tudo

A colaboradora de Paris Patrícia Klingl escreve sobre “O diretor”, de Lars von Trier. O filme, uma sátira ao mundo empresarial, antecede o terceiro episódio de sua trilogia americana (“Dogville”, “Manderlay” e, em breve, “Washington”) e serve novamente ao cineasta como terreno para a crítica e para a experimentação. Sua estréia no Brasil está prevista para o segundo semestre deste ano, pela Califórnia Filmes.
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“Aproveitem a sessão, esta é apenas uma comédia, não será necessário fazer muito esforço para compreender seu enredo. Deixem-se levar.” A frase, dita logo no início de “O diretor”, é uma pista falsa. Mas não poderia ser diferente, vinda de Lars von Trier. Sentado em uma grua, refletido na janela do lado de fora do prédio onde se passa a história, o cineasta pede aos espectadores que não levem seu filme muito a sério. Mas é sempre bom desconfiar das explicações simplistas de Von Trier. “O Diretor” é na verdade um filme repleto de críticas, escondidas sob a máscara da comédia.
O filme conta a história de Ravn (Fridrik Thor Fridriksson), presidente de uma empresa de informática em vias de ser vendida a um grupo islandês. Porém, para concluir o negócio, Ravn enfrenta um problema: na época em que criou a companhia, inventou um diretor fictício, que seria o responsável pelas decisões impopulares como demissões ou cortes no orçamento. O “diretor de tudo”, que nunca apareceu na empresa (pois viveria nos Estados Unidos), servia para preservar sua boa imagem diante de seus funcionários. Só que agora este diretor deve aparecer para negociar com os potenciais compradores. Para isso, Ravn resolve contratar um ator desempregado, Kristoffer (Jens Albinus), que vê ali uma oportunidade para representar o papel de sua vida.
“O diretor”, uma crítica ao mundo cínico e cruel das empresas, utiliza a metalinguagem para também tratar da importância da direção no processo de realização de um filme. Durante a gravação, Von Trier utilizou o Automavision, um processo que consiste em retirar do diretor o controle dos chamados planos conceituais do filme. Uma vez definido o lugar da câmera, é um computador quem decide aleatoriamente a inclinação, a panorâmica, o foco, o diafragma, ou o posicionamento (horizontal ou vertical).
Através deste artifício, o cineasta pretende diminuir a interferência do diretor no processo de filmagem, para permitir uma maior autonomia a seus atores. Contudo, Von Trier apenas finge não dirigir seu filme, assim como o diretor da empresa de informática finge não gerenciá-la.
De volta ao filme: Kristoffer, o falso “diretor de tudo”, depois de perceber as verdadeiras intenções de Ravn, não sabe se segue suas ordens - o que certamente vai prejudicar “seus” funcionários - ou se toma suas próprias decisões, uma vez que está no papel de diretor. Esta postura obriga Ravn a mostrar quem verdadeiramente dirige a empresa.
O mesmo acontece com o cineasta, que aparentemente realiza um filme sem diretor, mas que deixa claro, a cada cena ou comentário que introduz ao longo da história, que este é mais um longa de Lars von Trier.
