Golpe no cinema brasileiro?

No ano passado, um único filme brasileiro fez inquestionável sucesso de bilheteria, "Se Eu Fosse Você" (foto acima), de Daniel Filho (3,6 milhões de espectadores). Nenhuma das demais 68 estréias com público contabilizado em 2006 é capaz de escapar do rótulo de fracasso de público sem recorrer a alguma matemática e uma conjunção condicional _se levarmos em conta o resultado geral do período; se observarmos o número de cópias e de cidades onde o filme foi lançado etc. etc. Convenhamos, é muita retórica para pouco resultado.
Neste ano, com 25 títulos brasileiros lançados, apenas "A Grande Família" se desempenhou realmente bem no teste das salas, com seus 2 milhões de espectadores.
Há, como é praxe quando o tema é a falta de público, várias hipóteses para explicar o fenômeno. Talvez, nenhuma delas isoladamente dê conta da questão. Ou você acha que o problema se explica por quê:
- Há excesso de produto _filmes demais estréiam ao mesmo tempo, e o espectador já não consegue ver todos que gostaria nem dispõe de orçamento para tanto. O que já é outra tese, que coloca o preço dos ingressos como vilão da história;
- O DVD (e a pirataria) tornaram menos "indispensável" a ida ao cinema. Agora, o espectador só sai de casa para ver os títulos que julga "urgentes" e esses são a exceção, não a regra;
- Há "defeito" no produto _safra que não faz sucesso é porque é ruim mesmo; quando o filme é bom, o espectador reconhece logo;
- O "nó" está na exibição, mais precisamente, no exíguo parque exibidor brasileiro, com suas menos de três mil salas, o que acarreta atropelo de estréias _filmes ficam menos tempo em cartaz do que deveriam ou acabam sendo lançados em condições desfavoráveis, por exemplo, em salas distantes de seu público-alvo;
- O "nó" brasileiro está na distribuição, que não consegue "vender" bem os filmes para seus respectivos públicos, o que inclui demarcar um circuito de cinemas adequado ao perfil de cada título.
Sobre esse último ponto, o cineasta Lírio Ferreira disse, durante um debate sobre seu (ótimo) "Cartola", na semana passada, que os filmes brasileiros "não estão sendo lançados, mas sim arremessados" ao mercado.
A hipótese mais atrevida, no entanto, foi formulada pelo roteirista Hilton Lacerda, co-diretor de "Cartola": "O cinema brasileiro está preparando um 'autogolpe'". A tese de Hilton é que, com tantos filmes sendo feitos (à custa das leis de incentivo) e tão pouco resultado aparecendo _seja porque os filmes mal estréiam ou porque estréiam francamente mal_, não tarda o momento em que a aplicação de dinheiro público na produção de cinema será posta em xeque. "Se esse quadro não for revertido, as pessoas poderão começar a achar que é melhor dar subsídio para fazer novelas, porque essas todo mundo vê. Ou seja, será uma inversão absoluta", diz Hilton.
No ano passado, Rodrigo Saturnino Braga, que comanda a Columbia/Buena Vista no Brasil, sugeriu que fosse imposta uma barreira às filmagens (com dinheiro incentivado) de projetos que não tivessem acordo prévio de distribuição, ou seja, de filmes sem garantia de lançamento. A proposta causa arrepios em muita gente que antevê nela uma rasteira no "cinema de autor" ou não-comercial.
O fato é que o sistema de financiamento ao cinema no Brasil é uma questão inesgotável; as saídas para suas travas não são óbvias, e o tema tem poucos consensos. Um deles é que o golpe de misericórdia de Collor na Embrafilme só foi possível porque houve, antes, o dilaceramento da "tribo do cinema" em relação àquele modo de produção, então hegemônico. Estaria Hilton Lacerda profetizando o esgotamento da outra era, a dos incentivos fiscais?
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Em tempo: "Cartola" estreou bem, no último fim de semana. Fez 10 mil espectadores, em 14 salas. Foi a terceira maior média, 717 espectadores por cópia, segundo os números do Filme B. Já "Caixa Doi$" teve público total de 79,1 mil espectadores e média inferior à de "Ó Paí, Ó", que está na segunda semana em cartaz _467 contra 508.