Ilustrada no Cinema

 

 

Filmoteca - Alcino Leite Neto

Filmoteca - Alcino Leite Neto

Alcino Leite Neto, atual editor de Moda da Ilustrada e da Revista de Moda, é grande conhecedor de cinema e freqüentador de mostras e cineclubes. A seguir, elenca cinco produções para a "Filmoteca" entre novos filmes, "pois de velho já chega eu", brinca ele. Ao final, faz uma exceção fora da lista - e um pedido aos distribuidores do Brasil.

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"Plages" (2001) e todos os filmes de Dominique Gonzalez-Foester (acima foto de "Ryio")

"Plages" mostra os movimentos aleatórios de uma multidão na praia de Copacabana, numa manhã de Réveillon, e é uma das visões mais patéticas, sombrias e perturbadoras do Rio de Janeiro. Foi realizado pela francesa Dominique Gonzalez-Foester, que, além de notável artista plástica, deveria ser considerada um importante nome do cinema contemporâneo. Seus filmes registram as errâncias da artista por cidades do mundo _como Brasília ou Hong Kong_, captando os confrontos entre tempo e espaço, corpo e geografia, indivíduo e natureza, memória e instante, imaginário e realidade. Uma caixa de DVDs com os filmes da artista foi lançada no ano passado na França. É item obrigatório para cinéfilos. Em tempo: Dominique, que foi uma das artistas convidadas da última Bienal de São Paulo, comprou uma casa no Rio de Janeiro e está vivendo lá uma parte do ano.

"Serras da Desordem" (Andrea Tonnacci, 2006)

Há muito tempo o cinema brasileiro não faz um filme da envergadura deste "Serras da Desordem". O diretor parte de uma história real (a destruição de uma aldeia indígena e a separação de um pai e seu filho) para criar uma obra espantosa, tanto do ponto de vista cinematográfico quanto político-social. Valeu a pena esperar quase 20 anos para que Andrea Tonacci resolvesse voltar ao longa-metragem com este maravilhoso poema antropológico. Mas tomara que ele não nos faça esperar mais 20 pelo próximo filme.

"Síndromes e um Século", de Apichatpong Weerasethakul (2006)

Este diretor tailandês, de nome complicadíssimo, é hoje um dos grandes autores do cinema. Em "Síndromes e um Século", ele narra o cotidiano de um pequeno hospital. Os personagens são banais e as histórias que eles vivem também. Mas é da própria banalidade que Apichatpong extrai sua poesia e também o seu pensamento. No fundo, este filme é uma reflexão sobre a hipocondria contemporânea, a ordem hospitalar e, mais ainda, sobre a esperança de que as potências de vida possam prevalecer sobre o instinto de morte _e o desejo e o humor possam sobrepujar o tédio.

"Der Direktor/The Boss of it All" (2007)

"O Diretor" ou "O Chefe de Todos" (o filme ganhou nomes diferentes, dependendo do país em que foi exibido) é uma comédia terrível de Lars von Trier sobre as novas diabruras do capitalismo e da hierarquia e as maneiras atuais de servidão voluntária. É também uma farsa sobre o cinema e as relações perversas que ele estabelece entre diretor e atores _e entre ambos com o espectador.

"Inland Empire" (2007)

O novo filme de David Lynch é de arrepiar de espanto e de entusiasmo, pela maestria narrativa e cinematográfica deste diretor americano. A história se desdobra em várias outras, que se misturam e se complicam, lançando o espectador num labirinto de sensações, expectativas, suspeitas, medos e catarses estranhas.

"A Lira do Delírio" (1978)

E quando é que vão lançar em DVD este ótimo filme de Walter Lima Jr.?

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 12h13 PM

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O diretor de tudo

O diretor de tudo

A colaboradora de Paris Patrícia Klingl escreve sobre “O diretor”, de Lars von Trier. O filme, uma sátira ao mundo empresarial, antecede o terceiro episódio de sua trilogia americana (“Dogville”, “Manderlay” e, em breve, “Washington”) e serve novamente ao cineasta como terreno para a crítica e para a experimentação. Sua estréia no Brasil está prevista para o segundo semestre deste ano, pela Califórnia Filmes.

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Aproveitem a sessão, esta é apenas uma comédia, não será necessário fazer muito esforço para compreender seu enredo. Deixem-se levar.” A frase, dita logo no início de “O diretor”, é uma pista falsa. Mas não poderia ser diferente, vinda de Lars von Trier. Sentado em uma grua, refletido na janela do lado de fora do prédio onde se passa a história, o cineasta pede aos espectadores que não levem seu filme muito a sério. Mas é sempre bom desconfiar das explicações simplistas de Von Trier. “O Diretor” é na verdade um filme repleto de críticas, escondidas sob a máscara da comédia.

O filme conta a história de Ravn (Fridrik Thor Fridriksson), presidente de uma empresa de informática em vias de ser vendida a um grupo islandês. Porém, para concluir o negócio, Ravn enfrenta um problema: na época em que criou a companhia, inventou um diretor fictício, que seria o responsável pelas decisões impopulares como demissões ou cortes no orçamento. O “diretor de tudo”, que nunca apareceu na empresa (pois viveria nos Estados Unidos), servia para preservar sua boa imagem diante de seus funcionários. Só que agora este diretor deve aparecer para negociar com os potenciais compradores. Para isso, Ravn resolve contratar um ator desempregado, Kristoffer (Jens Albinus), que vê ali uma oportunidade para representar o papel de sua vida.

“O diretor”, uma crítica ao mundo cínico e cruel das empresas, utiliza a metalinguagem para também tratar da importância da direção no processo de realização de um filme. Durante a gravação, Von Trier utilizou o Automavision, um processo que consiste em retirar do diretor o controle dos chamados planos conceituais do filme. Uma vez definido o lugar da câmera, é um computador quem decide aleatoriamente a inclinação, a panorâmica, o foco, o diafragma, ou o posicionamento (horizontal ou vertical).

Através deste artifício, o cineasta pretende diminuir a interferência do diretor no processo de filmagem, para permitir uma maior autonomia a seus atores. Contudo, Von Trier apenas finge não dirigir seu filme, assim como o diretor da empresa de informática finge não gerenciá-la.

De volta ao filme: Kristoffer, o falso “diretor de tudo”, depois de perceber as verdadeiras intenções de Ravn, não sabe se segue suas ordens - o que certamente vai prejudicar “seus” funcionários - ou se toma suas próprias decisões, uma vez que está no papel de diretor. Esta postura obriga Ravn a mostrar quem verdadeiramente dirige a empresa.

O mesmo acontece com o cineasta, que aparentemente realiza um filme sem diretor, mas que deixa claro, a cada cena ou comentário que introduz ao longo da história, que este é mais um longa de Lars von Trier.

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 9h15 AM

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Cannes para americano ver

O Brasil ficou de fora de novo. O 60º Festival de Cannes anunciou ontem a lista de participantes, mas não tem nenhum longa nacional na disputa. Há nomes fortes e já premiados como Quentin Tarantino e seu fracasso de bilheteria (pelo menos até agora nos EUA) "Prova de Morte" em versão mais longa. Ou Gus Van Sant com "Paranoid Park", só para ficar em dois norte-americanos. Mas brasucas como "Cidade dos Homens", de Paulo Morelli, e "Tropa de Elite", de José Padilha, foram preteridos nesta edição.

Gilles Jacob resolveu deixar para lá a tal "mea culpa" por não ter colocado "Cidade de Deus" na disputa, mas a seleção está bem animada, com longas dos irmãos Coen, do sérvio Emir Kusturica, do russo Alexandr Sokúrov e do americano David "Clube da Luta" Fincher.

O festejado cinema latino-americano também flopou e tem apenas um representante: "Luz Silenciosa", do mexicano Carlos Reygadas, diretor já atacado em festivais por cenas fortes em "Batalla en el Cielo" e "Japão".

Correndo por fora da competição, há várias produções interessantes e que devem causar burburinho pela Croisette. Para festejar os latinos, podemos citar, por exemplo, "El Baño del Papa", produção da O2 de Fernando Meirelles com direção de César Charlone e Enrique Fernandez, na Un Certain Regard.

Também serão exibidos "A Mighty Heart" (foto), do inglês Michael Winterbottom, baseado na vida da viúva do jornalista norte-americano Daniel Pearl, decapitado por terroristas islâmicos no Paquistão, e "Sicko", do sempre polêmico Michael Moore, sobre o sistema de saúde americano.

Nos curtas, o Brasil se deu melhor, com "The Last 15", do americano filho de brasileiros Antonio Campos, já premiado com "Buy it Now", que está na competição principal, e "Saba", de Thereza Menezes e Gregorio Graziosi, dois alunos da Faap, que está na Cinefondation.

Vamos esquecer o bairrismo e acompanhar a briga num dos maiores (certamente o mais charmoso) festivais do mundo.

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 2h49 PM

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Jogo rápido

Jogo rápido

Este post traz algumas notícias curtas e que acontecem nos próximos dias, vale avisar logo o leitor.

A primeira: o Cine Morumbi, em São Paulo, vai virar a partir desta sexta (dia 20), Cine TAM. Patrocinado pela empresa aérea, o cinema vai mudar o lounge da entrada e a fachada. A idéia, segundo a assessoria de imprensa, é fazer uma "releitura da década de 60, época do glamour da aviação". No site www.cinetam.com.br, vão colocar a programação, que segue a mesma, e possibilitar a compra de ingressos pela internet.

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Outra: após ter sido previsto para março, com divulgação até na programação do Canal Brasil, o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro vai acontecer no próximo domingo (dia 22), no Rio. São 20 prêmios, entre longas e curtas. No ano passado, o vencedor foi "Cazuza - O Tempo Não Pára", de Sandra Werneck e Walter Carvalho.

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O CCBB do Rio faz de 1º a 13 de maio uma retrospectiva de Ingmar Bergman, um dos grandes nomes do cinema mundial, chamada "Bem-Vindo, Sr. Bergman".

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O Istituto Europeo di Design abre inscrições para três cursos complementares de animação: animação básica, stop motion e técnicas experimentais, todos ministrados pelo crítico Fábio Yamaji. As turmas começam em maio. Mais informações pelo site www.iedbrasil.com.br.

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 4h46 PM

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Filmoteca - Bruno Barreto

Filmoteca - Bruno Barreto

Agora em cartaz com "Caixa Doi$", Bruno Barreto é o cineasta que muitos adoram odiar. Desde seu bem-sucedido "Dona Flor e Seus Maridos" (1976), o filme mais visto da história do cinema nacional, com cerca de 10 milhões de espectadores, nunca mais conseguiu alcançar tamanha repercussão. E é sempre muito cobrado por causa disso.

"Caixa Doi$" não é tão pretensioso, ao verter para o cinema a peça de Juca Ferreira que conta a história de um banqueiro envolvido em um escândalo com R$ 50 milhões.

No currículo, o cineasta ainda conta com (goste-se ou não) "O Casamento de Romeu e Julieta" (2005), "Bossa Nova" (2000), "O que É Isso, Companheiro?" (97) e "Gabriela, Cravo e Canela" (83), para citar alguns.

A seguir, sua lista de cinco grandes filmes, com o adendo de um sexto "penetra": "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade.

"Um clássico em todos os sentidos, que continua mais moderno do que nunca."

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"A Mulher do Lado" (François Truffaut, 1981)

Vi esse filme pelo menos umas 5 vezes. E cada vez gosto mais. Acho que é definitivamente um dos melhores do Truffaut. O que eu mais gosto é o tom da narrativa. Irônica e emcionante. Na mão de outro diretor essa história poderia ter virado um melodrama barato. Mas é impressionante como o filme abraça e afasta o espectador nas horas certas. E a Fanny Ardant que está simplesmente MARAVILHOSA. Truffaut estava no auge da sua paixão por ela.

"Novecento" (Bernardo Bertolucci, 1976)

Acho que é de longe o melhor filme dele. Aliás, acho que é um dos melhores épicos da história do cinema porque a sua grandiosidade está sobretudo no coração dos personagens e não nas cenas com muitos figurantes em grandes espaços abertos. Tive o privilégio de ver a versão original de 5 horas e 20 minutos que é muito melhor do que a de 4 horas e meia (a mais conhecida). A direção do Bertolucci é inspirada, conseguindo um balé entre a camera e os atores raramente visto no cinema. Destaque especial para a belíssima trilha de Ennio Morricone e a fotografia de Vitorio Storaro. Outro detalhe importante: "Novecento" foi a última colaboração entre Franco Arcalli e o Bertolucci. O Franco foi uma espécie de pai artístico para o Bertolucci, tendo feito a montagem e participado do roteiro (às vezes sem ter crédito) de quase todos os seus filmes até "Novecento".

 

"Vidas Amargas" (Elia Kazan, 1955, lançado em DVD)

Para mim, ele foi o maior diretor do cinema americano. E a partir deste filme ele conseguiu injetar poesia na tradição/prisão do realismo, na dramaturgia americana. Nunca chorei tanto num filme. E James Dean nunca esteve tão bem.

"Seduzida e Abandonada" (Pietro Germi, 1964)

Um dos maiores diretores italianos que nunca teve o reconhecimento que merecia. Fellini, que foi assistente dele, dizia que Germi não teve a fama que devia porque não era simpatizante do PCI (Partido Comunista Italiano). Eu gosto de vários filmes dele, mas "Sedotta e Abandonata" simboliza o estilo Germi: a TRAGICOMÉDIA ITALIANA. Penso que nenhum outro diretor entendeu tão bem como a tragédia e a comédia são inseparáveis. Destaque para a interpretação da Stefania Sandrelli e o uso de músicas populares italianas como contraponto dramático na trilha sonora. Almodóvar bebeu muito desta fonte.

"Terra em Transe" (Glauber Rocha, 1967, lançado em DVD)

Realmente acho "Terra em Transe" um dos melhores filmes já feitos. O único do Glauber que eu gosto. Poucas vezes no cinema houve um casamento tão perfeito entre forma e conteúdo. E se você levar em conta que este filme foi feito em 1965!!!! Obrigatório ver e rever. Destaque para uma fala do personagem Porfirio Diaz (interpretado magistralmente por Jardel Filho) quando diz tapando a boca de um camponês que falava sem parar: "Vocês já imaginaram o que seria o povo no poder?".

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 4h16 PM

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Domingo no cinema

Domingo no cinema

O blog "Ilustrada no Cinema" adiantou e agora é a hora que vai rolar a "Festa do Cinema" brasileira. Vai funcionar assim: de domingo até a próxima terça, 300 salas terão um passaporte para assistir a 14 filmes por R$ 3 cada um. O projeto "São Paulo no Cinema" inclui diferentes redes exibidoras presentes na capital, Grande ABC, Guarulhos, Mauá, Osasco e Taboão da Serra (a relação completa está no site http://www.saopaulonocinema.com.br).

É uma boa iniciativa para baixar o preço dos ingressos, nem que seja apenas por três dias, que vai servir para mostrar que o público quer ir ao cinema, mas os preços estão altos demais.

Não tem limitação para o cinema brasileiro. A idéia é aumentar o público geral das salas. Quem sabe não dá tão certo que vire um evento habitual da cidade, como a promoção da Cinemark para o cinema nacional a preços mais em conta.

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 12h15 PM

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Tarantino no Brasil

Os fãs podem comemorar: Quentin Tarantino e Robert Rodriguez virão ao Brasil para divulgar o projeto "Grindhouse" (foto). A data ainda não foi confirmada, porque vai depender da agenda de cada um e do lançamento de cada filme, mas as estréias devem contar com a presença dos cineastas no segundo semestre.

O longa, já comentado aqui no blog, tem três horas e 15 minutos de duração, custou US$ 53 milhões (R$ 108 milhões) e arrebatou apenas US$ 11,6 milhões (R$ 23,5 milhões) e o quarto lugar no último final de semana, quando estreou, perdendo para a comédia "Escorregando para a Glória", com Will Ferrell.

Até mesmo o produtor Harvey Weinstein se disse decepcionado com o resultado, apesar de a fita ter entrado em 2.624 salas. São dois filmes pelo preço de um, mas pelo jeito a estratégia matemática não ajudou nas bilheterias. Weinstein até pensa em relançar os filmes nos EUA em separado "para agradar à audiência". "Acho que o público não entendeu o que estávamos querendo fazer", disse ele ao site Pagesix.com.

No Brasil, a idéia da distribuidora Europa Filmes é desmembrar "Grindhouse", formado por trailers falsos, "Prova de Morte" (Death Proof), de Tarantino, e "Planeta Terror" (Planet Terror), de Rodriguez.

O primeiro dos dois filmes seria lançado em agosto ou setembro. Três meses depois, seria lançada a "continuação". A ordem dependeria dos compromissos dos diretores, que, por contrato, viriam ao Brasil para, no jargão do setor, "trabalhar a divulgação" dos filmes e, portanto, teriam de estar disponíveis para viajar. Cerca de 150 salas devem receber cada filme no país.

Que os fãs não se revoltem com a distribuidora, entretanto, até porque o lançamento nos EUA --e talvez a exibição no Festival de Cannes-- é que é a exceção. A grande parte dos países em que o filme será lançado deve contar com a separação e a "janela" entre as duas estréias. A Finlândia, por exemplo, que já tem as datas marcadas, assiste a "Prova de Morte" em 1º de junho e, em 21 de setembro, entra em cartaz "Planeta Terror".

Segundo a assessoria da Europa Filmes, alguns cinemas brasileiros devem ter sessões duplas para ver "Grindhouse" de uma vez após o lançamento do pacote completo. "Lançar um Tarantino & Rodriguez é uma enorme alegria, tanto pelo que representa o trabalho dos diretores para seus muitos fãs e o mundo do cinema quanto pelo desafio, devido ao seu típico caráter desafiador e polêmico", afirmou o diretor da empresa Marco Aurélio Marcondes.

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 9h14 AM

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Golpe no cinema brasileiro?

Golpe no cinema brasileiro?

 

No ano passado, um único filme brasileiro fez inquestionável sucesso de bilheteria, "Se Eu Fosse Você" (foto acima), de Daniel Filho (3,6 milhões de espectadores). Nenhuma das demais 68 estréias com público contabilizado em 2006 é capaz de escapar do rótulo de fracasso de público sem recorrer a alguma matemática e uma conjunção condicional _se levarmos em conta o resultado geral do período; se observarmos o número de cópias e de cidades onde o filme foi lançado etc. etc. Convenhamos, é muita retórica para pouco resultado.

Neste ano, com 25 títulos brasileiros lançados, apenas "A Grande Família" se desempenhou realmente bem no teste das salas, com seus 2 milhões de espectadores.

Há, como é praxe quando o tema é a falta de público, várias hipóteses para explicar o fenômeno. Talvez, nenhuma delas isoladamente dê conta da questão. Ou você acha que o problema se explica por quê:

- Há excesso de produto _filmes demais estréiam ao mesmo tempo, e o espectador já não consegue ver todos que gostaria nem dispõe de orçamento para tanto. O que já é outra tese, que coloca o preço dos ingressos como vilão da história;

- O DVD (e a pirataria) tornaram menos "indispensável" a ida ao cinema. Agora, o espectador só sai de casa para ver os títulos que julga "urgentes" e esses são a exceção, não a regra;

- Há "defeito" no produto _safra que não faz sucesso é porque é ruim mesmo; quando o filme é bom, o espectador reconhece logo;

- O "nó" está na exibição, mais precisamente, no exíguo parque exibidor brasileiro, com suas menos de três mil salas, o que acarreta atropelo de estréias _filmes ficam menos tempo em cartaz do que deveriam ou acabam sendo lançados em condições desfavoráveis, por exemplo, em salas distantes de seu público-alvo;

- O "nó" brasileiro está na distribuição, que não consegue "vender" bem os filmes para seus respectivos públicos, o que inclui demarcar um circuito de cinemas adequado ao perfil de cada título.

Sobre esse último ponto, o cineasta Lírio Ferreira disse, durante um debate sobre seu (ótimo) "Cartola", na semana passada, que os filmes brasileiros "não estão sendo lançados, mas sim arremessados" ao mercado.

A hipótese mais atrevida, no entanto, foi formulada pelo roteirista Hilton Lacerda, co-diretor de "Cartola": "O cinema brasileiro está preparando um 'autogolpe'". A tese de Hilton é que, com tantos filmes sendo feitos (à custa das leis de incentivo) e tão pouco resultado aparecendo _seja porque os filmes mal estréiam ou porque estréiam francamente mal_, não tarda o momento em que a aplicação de dinheiro público na produção de cinema será posta em xeque. "Se esse quadro não for revertido, as pessoas poderão começar a achar que é melhor dar subsídio para fazer novelas, porque essas todo mundo vê. Ou seja, será uma inversão absoluta", diz Hilton.

No ano passado, Rodrigo Saturnino Braga, que comanda a Columbia/Buena Vista no Brasil, sugeriu que fosse imposta uma barreira às filmagens (com dinheiro incentivado) de projetos que não tivessem acordo prévio de distribuição, ou seja, de filmes sem garantia de lançamento. A proposta causa arrepios em muita gente que antevê nela uma rasteira no "cinema de autor" ou não-comercial.

O fato é que o sistema de financiamento ao cinema no Brasil é uma questão inesgotável; as saídas para suas travas não são óbvias, e o tema tem poucos consensos. Um deles é que o golpe de misericórdia de Collor na Embrafilme só foi possível porque houve, antes, o dilaceramento da "tribo do cinema" em relação àquele modo de produção, então hegemônico. Estaria Hilton Lacerda profetizando o esgotamento da outra era, a dos incentivos fiscais?

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Em tempo: "Cartola" estreou bem, no último fim de semana. Fez 10 mil espectadores, em 14 salas. Foi a terceira maior média, 717 espectadores por cópia, segundo os números do Filme B. Já "Caixa Doi$" teve público total de 79,1 mil espectadores e média inferior à de "Ó Paí, Ó", que está na segunda semana em cartaz _467 contra 508.

Escrito por Silvana Arantes às 10h17 AM

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Filmoteca - Lírio Ferreira

O pernambucano Lírio Ferreira começou sua carreira como diretor com os curtas "O Crime da Imagem" (1992) e "That’s a Lero-Lero" (em 16 mm, de 1995). Em 1997, ganhou seu primeiro grande prêmio com "Baile Perfumado", considerado o melhor longa-metragem em Brasília. Em seguida, lançou "Árido Movie" (2005), uma história meio amalucada com grande elenco envolvido.

Agora, envereda um pouco pelo gênero documental com seu (e de Hilton Lacerda) "Cartola", que chega nesta sexta aos cinemas do Brasil com 16 cópias. A estréia será em sete capitais: Rio, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Goiânia, Curitiba e Porto Alegre.

No embalo, da estréia de "Cartola", o Cine Santander Cultural (r. Sete de Setembro, 1.028, tel. 0/xx/51/3287-5940), em Porto Alegre, exibe até o dia 19 de abril uma mostra de curtas pernambucanos em que é possível ver o início da vida artística de Lírio Ferreira: "O Crime da Imagem", sobre um líder religioso do interior do Ceará, e "That’s a Lero-Lero" (1995), sobre a vinda de Orson Welles ao Brasil em 1942 que resultou em "It’s All True".

A seguir, Lírio economiza nas palavras para comentar os cinco filmes que não saem de sua prateleira (e da cabeça, claro).

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"O Passageiro: Profissão Repórter" (Michelangelo Antonioni, 1975, lançado em DVD)

Árido movie

"Laranja Mecânica" (Stanley Kubrick, 1971, lançado em DVD)

Porque cinema não é uma grande diversão

"Terra em Transe" (Glauber Rocha, 1967, lançado em DVD)

A Semana de Arte Moderna chega ao cinema brasileiro

"Solaris" (Andrei Tarkovski, 1972, lançado em DVD)

Mar de histórias

"Cinema, Aspirinas e Urubus" (Marcelo Gomes, 2005)

O cinema começou com os irmãos Lumière

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 4h13 PM

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Corra para ver

Uma boa dica para hoje é "A Margem" (foto), de Ozualdo Candeias, que é homenageado em retrospectiva no Museu da Imagem e do Som (av. Europa, 158). O filme é de 1967 e é um dos clássicos do diretor, morto em fevereiro deste ano. A pequena mostra vai até o dia 8 ainda traz alguns curtas institucionais do cineasta e documentários sobre a Boca do Lixo de que participa. Tudo isso faz parte do acervo do MIS, que deveria ser mais mostrado --e visitado também.

A programação completa está em http://www.mis.sp.gov.br.

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Amanhã, dia 5, começa uma promoção no Circuito Unibanco (de que fazem parte o Espaço Unibanco e o Frei Caneca Unibanco Arteplex), em São Paulo, em que todas as sessões das quintas-feiras terão ingressos a R$ 4 em qualquer uma das salas.

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Na segunda, dia 9, o cineasta João Moreira Salles fala pela primeira vez sobre seu "Santiago", às 20h30, na sessão de abertura do É Tudo Verdade em Campinas. O evento acontece no Espaço Cultural CPFL, na rua Jorge Figueiredo, 1.632, tel. (19) 3756-8000. A entrada é franca.

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 1h18 PM

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Leona e Bia

Depois da performance da atriz Leona Cavalli como mestre de cerimônias da abertura do Festival Sesc Melhores Filmes de 2006, ontem à noite, no Cinesesc, nem o anfitrião da noite resistiu a um comentário: "Pelo jeito estamos inovando realmente. Nosso festival estava com uma apresentação muito igual _o diretor vem e fala um pouco. Desta vez, inovamos", desabafou ao microfone Danilo Santos de Miranda, diretor regional do Sesc São Paulo, primeiro a subir ao palco depois da entrada em cena de Leona.

Foi assim: num vestido verde e preto rodado, a atriz cruzou a sala (lotada) cantando à capela os versos "Dê bom dia a quem é de bom dia; dê boa noite a quem é de boa noite". À medida que se aproximava do palco, a saudação de Leona também avançava: "Diga sim ao sol. Diga sim a tudo que vive _mineral, vegetal". Houve, claro, um sim ao cinema brasileiro _e ao estrangeiro também, como convinha numa noite de premiação de títulos nacionais e internacionais.

Se não causou, com sua inovação, as mesmas reações acaloradas que Bia Lessa provocou deitando quadros ao chão em exposição na cidade, Leona também não ficou livre de alguma crítica. Risos e frases sucintas como "Ah, os atores!" foram ouvidos aqui e ali. Mais ainda quando, antes de anunciar o filme da noite, "Querô" (a ótima adaptação que Carlos Cortez fez da obra homônima de Plínio Marcos e que está na foto no alto), Leona decidiu cantar outra música, que ela mesma compôs, em homenagem ao dramaturgo morto em 1999.

Antes de "Querô" encher a tela, diretores e atores brasileiros eleitos como os melhores de 2006 por público e crítica receberam seus prêmios, num tom de descontração.

Cao Hamburger (melhor direção e filme, "O Ano em que meus Pais Saíram de Férias"), na escolha do público, disse que sua formação em cinema conta com um único curso, feito no Sesc Pompéia. "O Sesc, para nós paulistas... Não sei nem o que falar". Enquanto Cao procurava as palavras, o produtor Caio Gullane atalhou: "O Sesc é sem palavras. Muito obrigado a todos."

Karim Aïnouz também foi duas vezes ao palco, recolher os troféus de melhor diretor e filme ("O Céu de Suely"), na votação da crítica. "Fazendo um filme, a gente sempre tem dúvidas. É muito bom receber um prêmio, que confirma nossas intuições", disse Karim.

Hermila Guedes, a melhor atriz tanto para o público como para a crítica, confessou que "O Céu de Suely" marca definitivamente sua vida "para o lado bom e o ruim". Está em dúvida sobre qual é o lado ruim? Eis a resposta: "Todo mundo vai comparar ‘O Céu de Suely’ com todos os trabalhos que eu fizer na vida".

Matheus Nachtergaele, escolhido melhor ator ("Tapete Vermelho"), não pôde vir a São Paulo, mas enviou bilhete de agradecimento, lido por sua colega de elenco Gorete Milagres. Luiz Alberto Pereira, o Gal, diretor de "Tapete Vermelho", aproveitou a ocasião para louvar a longevidade do festival, que está na 33ª edição. Para Gal, "33 anos, no Brasil, nem Cristo agüenta".


Por falar em festivais, começa hoje e vai até 15 de abril o Bafici, festival do cinema independente de Buenos Aires. Esta nona edição da mostra traz em torno de 400 filmes, entre eles alguns brasileiros, como a ficção "A Casa de Alice" e os documentários "Fabricando Tom Zé", "Onde a Coruja Dorme", "Oscar Niemeyer - A Vida É um Sopro", "Pro Dia Nascer Feliz", "Vocação do Poder" e "Santiago", o novo de João Moreira Salles que encantou o público do recém-concluído É Tudo Verdade.

Escrito por Silvana Arantes às 1h54 PM

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Premiação estranha

Com cerimônia no último sábado, o Festival É Tudo Verdade anunciou seus vencedores. O grande ganhador da noite foi "Elevado 3.5", sobre o Minhocão. Feito dentro do projeto DocTV, retrata o Elevado Costa e Silva através de depoimentos de alguns moradores.

Além do troféu, o documentário de João Sodré, Maíra Bühler e Paulo Pastorelo levou para casa R$ 100 mil, patrocinados pela CPFL Energia, e o Prêmio Embaixada da França para o melhor documentário de estréia, que permite participar, como convidado, de um festival na França.

É uma escolha esquisita, para dizer o mínimo, por um simples motivo: o filme não é bom. Começa com uma boa imagem de arquivo de Paulo Maluf divulgando a inauguração do Minhocão. Você até se ajeita na cadeira para assistir a um bom filme, mas não é isso o que vem. Seguimos um personagem do qual não conheceremos a história. Ouvimos uma fileira de depoimentos sentimentais e nostálgicos, mas é como se o Minhocão nem estivesse ali, interferindo naquelas vidas com seu trânsito ruidoso, apesar de às vezes ser mostrado por alguns ângulos inusitados.

É pena porque o objeto do filme tem muito interesse, tanto que estão em produção muitos curtas-metragens sobre o Elevado, e a discussão sobre sua manutenção ou demolição é boa. Mas não vai ser neste longa que a veremos aprofundada.

Entre os estrangeiros, "Manhã no Mar", de Ines Thomsen, sobre três velhinhos e sua relação com o mar, levou a melhor e R$ 15 mil. O festival ainda deu menções honrosas para "Nas Terras do Bem-Virá", de Alexandre Rampazzo, e "O Longo Amanhecer - Cinebiografia de Celso Furtado", de José Mariani.

O É Tudo Verdade (http://www.etudoverdade.com.br) entra em cartaz agora em Brasília (até o dia 15) e depois segue para Campinas (de 9 a 15) e Porto Alegre (de 23 a 29).

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Enquanto isso, lá fora, o bom cinema nacional segue conquistando troféus pelos festivais internacionais. Foram cinco prêmios no Festival de Guadalajara, terminado na última sexta. "A Casa de Alice" (já comentado aqui pelo Leonardo Cruz), de Chico Teixeira, ganhou o Prêmio do Júri, enquanto "Acidente", de Cao Guimarães e Pablo Lobato, recebeu o Prêmio do Júri de Documentário Longa-Metragem Ibero-americano.

Paulo Caldas, de "Deserto Feliz", levou a melhor na categoria de diretor estreante. Selton Mello ganhou pela atuação como Lourenço em "O Cheiro do Ralo", e Carla Ribas foi escolhida a melhor atriz em filme de estreante por "A Casa de Alice".

Escrito por Lúcia Valentim Rodrigues às 2h58 PM

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