Um dos destaques da programação do É Tudo Verdade nesta sexta é “Adeus, América” (veja o trailer), filme que abriu o festival de documentários em São Paulo e que volta a ser exibido às 19h. A versão impressa da Ilustrada de hoje publica trechos da entrevista do crítico da Folha Cássio Starling Carlos com o diretor Sergio Oksman. A seguir, o texto integral da conversa entre os dois.
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A América sem máscara, por Cássio Starling Carlos
A face humana por trás do monstro. É a idéia central de “Adeus, América”, documentário dirigido pelo brasileiro (que vive há cerca de uma década na Espanha) Sergio Oksman. Focado em recordações do ator Al Lewis (o Vovô do seriado dos anos 60 “Os Monstros”, foto acima), o trabalho desvela uma outra América, avessa à beligerância imperial dos tempos de Bush e de muitos de seus antecessores.
Na entrevista abaixo, o diretor comenta a relação com seu personagem e detalha alguns métodos de trabalho neste documentário.
Como você chegou a Al Lewis?
[O produtor] Elias Querejeta me convidou para fazer um filme sobre a Pacifical Radio, uma rádio pacifista americana fundada em 1949 e que existe até hoje. Ela havia sido superimportante, por exemplo, para a geração beat. Allen Ginsberg ia lá ler seus primeiros poemas em programas. Nela se denunciaram as perseguições a artistas e intelectuais pelo macarthismo durante a caça às bruxas e foi também uma das rádios que promovia manifestações contra a Guerra do Vietnã. Foi num programa dessa rádio que surgiram os yippies [ativistas do Youth International Party]. Eu comecei a pesquisar personagens para contar essas histórias. Um dia marquei com Lewis, que, aos 92 anos, mantinha um programa na Pacifical, vociferando contra injustiças. Ele sabia que o monstro era um pouco o passaporte dele, um modo de se fazer ouvir.
Então o projeto não era centrado nele?
Quando comecei a gravar as entrevistas ele era um personagem a mais. Foi o roteirista que teve a idéia de criar um encontro entre o ativista político de quase cem anos e o monstro por meio de um espelho, pois seria uma boa forma de levá-lo a evocar os fantasmas. Foi o que a gente fez. Durante esse processo ele foi se apropriando do filme, como se tivesse se aproveitado da oportunidade para fazer uma despedida, e assim o filme se transformou numa espécie de memorial de Al Lewis e da América que ele viveu.
É uma situação ao mesmo tempo excitante e aterrorizante de fazer documentários, porque você nunca sabe exatamente onde está.
Nas gravações feitas diante do espelho você dirigiu o depoimento de Lewis, conduzindo-o por meio de perguntas?
Usei apenas o espelho como armadilha e sugeri assuntos.
A seguir, a segunda parte da entrevista do crítico Cássio Starling Carlos com o documentarista Sergio Oksman, diretor de “Adeus, América”.
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Você encenou a conversa com a figura do maquiador?
Trata-se mais ou menos de encenação. É claro que tudo é encenação e por isso eu tento não isolar documentários de ficções, pois são sempre filmes. Àquela altura, Lewis ganhava a vida viajando de feira em feira pelo interior dos EUA, fantasiando-se de seu célebre personagem. E nós o gravamos no camarim de um desses festivais de terror. O maquiador era o maquiador dele de fato.
O maquiador fazia perguntas que você suprimiu na montagem?
Não. O maquiador não está interessado no que está sendo dito. Só se interessa pelo personagem do monstro. E o filme é feito dessa fala dirigida para um espectador que é um cidadão americano médio e conta histórias que esse cidadão ignora. O maquiador funciona como um duplo do americano médio.
No início da conversa Lewis se vangloria da sua lucidez, de se lembrar de tudo que viveu. Você crê que o documentário seja a melhor forma de apreender a memória?
Por isso eu gosto mais de documentários do que de reportagens televisivas. Em reportagens você tem uma tese e busca personagens ou pessoas que a confirmem. No documentário, o personagem pode ser uma pessoa, uma árvore, uma cidade. Quando realizei o documentário, tentei um pouco suprimir meu juízo moral e deixei Lewis evocar, falar, se equivocar. O que eu tentei foi seguir a rede mental desse senhor. E o filme é um pouco essa rede que ele vai criando com base em suas histórias.
E assim constituir uma história?
Sim. Uma coisa me fascinou bastante. Eu estava diante de uma pessoa de quase cem anos e de Drácula, o personagem que ele fazia. O que é o Drácula? Um ser eterno que também viu tudo. Então, o ator e o personagem que ele fazia tinham essa coisa em comum. E tem também a história do medo. Ele encarnou um personagem-arquétipo do medo, e o medo é também uma força de controle, usada pelo poder, que ele como ativista sempre denunciou.
Mas há ali também a história de um país. Nesse sentido você quis fazer um filme político?
Não vejo o filme como político, muito menos como um filme anti-americano. O “adeus” do título é como se fosse uma despedida. Ele se olha no espelho e vê passar a vida na frente. Eu jogo muito com essa idéia do espelho na janela do trem, na janela da casa e na tela do cinema.
Como você escolheu as imagens de arquivos que acompanham alguns momentos do relato de Lewis?
Eu tentei fazer com que as imagens de arquivo não fossem ilustrativas, mas seguissem como se eu imaginasse o que ele estava imaginando, como parte da rede que ele tece enquanto recorda.
E as imagens de Lewis moribundo, foram feitas em hospital?
Não. Na casa dele. Ele estava muito mal, depois de ter uma perna amputada. Fui visitá-lo, três anos depois de termos registrado o longo depoimento. Tive muito pudor em filmá-lo naquela situação, mas ele pediu e daí eu me atrevi a gravar mais alguns dias. Mas preferi desta vez registrar apenas seus silêncios.
O pernambucano Heitor Dhalia, 37, construiu grande parte de sua carreira na
publicidade, onde criou mais de cem campanhas. Chegou ao cinema em 1999, como
assistente de direção de Aluísio Abranches em "Um Copo de Cólera". Sua estréia
como diretor foi ainda naquele ano, com o curta "Conceição" (assista
aqui). Cinco anos mais tarde,
dirigiu seu primeiro longa, "Nina", versão paulistana de "Crime e Castigo", de
Dostoiévski. Nesta sexta, Dhalia apresenta ao público brasileiro seu novo filme,
"O Cheiro do Ralo", boa adaptação
do romance homônimo de Lourenço Mutarelli e premiado no Festival do Rio e na
Mostra de SP do ano passado. A seguir, o diretor gentilmente conta ao blog seus
filmes favoritos. Ao final do post, o trailer da bunda, digo, de "O Cheiro do
Ralo".
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Os Sete Samurais" (Akira
Kurosawa, 1954, lançado em DVD) Um dos melhores filmes de guerra já feitos na
história do cinema por um de seus grandes mestres. O filme combina uma profunda
discussão sobre estratégia militar e injustiça social e ainda reflete temas como
o tempo e o nascimento, representados pela colheita de arroz, e a morte,
presente na própria guerra. No meio disso, a trajetória de um grupo de samurais.
No fundo, é a história de todos nós.
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Acossado" (Jean-Luc Godard,
1960, lançado em DVD) Filme fundador da Nouvelle Vague francesa, "Acossado" é
uma declaração de amor ao cinema. Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo estão
absolutamente cativantes neste filme, que resume uma das máximas de Godard: "Não
faço filmes. Faço cinema." Lírico, sensual e divertido. Um filme para se
apaixonar.
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Laranja Mecânica" (Stanley
Kubrick, 1971, lançado em DVD) Kubrick, meu diretor favorito, é o Shakespeare
do cinema. Gênio absoluto, alia um profundo senso estético com uma análise
rigorosa do ser humano. "Laranja Mecânica" é um soco no estômago ao tratar da
perversão humana em sua forma mais pura. Mesmo no terreno arriscado da
ultraviolência, Kubrick cria um filme impiedoso e ao mesmo tempo sublime e
hipnótico.
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Touro Indomável" (Martin
Scorsese, 1980, lançado em DVD) A trajetória de um boxeador que acaba sendo
nocauteado por sua própria ambição. Extremamente bem filmado, "Touro Indomável"
é uma aula de cinema e mostra por que Scorsese continua a influenciar diretores
até hoje, como Paul Thomas Anderson e Quentin Tarantino. O filme, amor ao cinema
em sua forma mais pura, salvou a vida do diretor, que estava numa clínica de
reabilitação de drogas quando De Niro entregou o roteiro para ele. Uma
obra-prima que evidencia como o Oscar chegou atrasado em algumas décadas às mãos
do cineasta.
O quinto filme... Listas são sempre injustas
porque filmes maravilhosos ficam de fora. Queria dividir esta posição com alguns
dos filmes que eu adoro: "O Leopardo", de Visconti; "Barton Fink", dos irmãos
Coen; "O Poderoso Chefão", de Francis Ford Coppola; "Jules e Jim", de Truffaut;
"Playtime", de Jacques Tati; "Pulp Fiction", de Tarantino; "Boogie Nights"
(foto), de Paul Thomas Anderson; "Blow Up", de Antonioni; "Cidade de Deus", de
Fernando Meirelles; "Cidadão Kane", de Orson Welles; e, por fim, "Crepúsculo dos
Deuses", de Billy Wilder.
O que Orson Welles, Eduardo Coutinho, Fritz Lang, Gianni Amelio e John Wayne têm em comum? Filmes de todos esses grandes nomes do cinema são analisados em artigos no recém-lançado livro "
"História e Cinema", lançamento da editora Alameda, reúne textos de 19 acadêmicos que discutem a forma como a história é representada no cinema, desde "Metrópolis" (1927, foto), de Lang, a "O Signo do Caos" (2005), de Rogério Sganzerla. A obra é organizada pelos professores da USP Maria Helena Capelato, Eduardo Morettin, Marcos Napolitano e Elias Thomé Saliba.
A mostra da Cinemateca tentará ser um espelho do livro e apresentará cerca de 25 filmes, quase todos analisados nos ensaios. A programação inclui raridades nas telas brasileiras, como "Golpe no Coração" (1982), de Gianni Amelio. O longa do diretor italiano é abordado no livro no artigo de Mariarosaria Fabris sobre a forma como as Brigadas Vermelhas foram tratadas em obras de três diretores: Amelio, Marco Bellochio ("Bom Dia, Noite") e Marco Tullio Giordana ("O Melhor da Juventude").
O ciclo terá ainda alguns filmes que não são citados diretamente na obra, mas que são fundamentais para pensar as representações da história pelo cinema, caso de "Shoah" (1985), o documentário de nove horas de Claude Lanzmann sobre o Holocausto.
A mostra "História e Cinema" começa em 11 de abril, com a sessão de "Cabra Marcado para Morrer", de Eduardo Coutinho, que será seguida de um debate com os organizadores da coletânea. Muitos filmes serão exibidos em película; outros em DVD.
Abaixo, um trecho da apresentação do livro, que reflete bem a importância das relações entre esses dois objetos de estudo dos professores da USP.
"Depois de mais de cem anos de história do cinema, não há, praticamente, época, civilização, tema histórico, herói antigo ou moderno que não tenham sido encenados nas telas. Muitas vezes com um grau de realismo high-tech que propicia ao espectador uma experiência assombrosa e fascinante do passado. Além disso, mesmo quando não encena o passado, o produto audiovisual de cinema ou de televisão sempre é um documento de sua época, veiculando valores, projetos, ideologias. A luz projetada na tela, exercendo fascínio e efeito de realidade, muitas vezes faz com que a história escrita ou ensinada pareça menos monumental e atrativa, ao menos aos olhos do grande público não-especialista. O passado iluminado pelo cinema é como se Clio, a musa da história, além do clarim e do relógio d’água, portasse também uma lanterna, projetando sobre o passado seu foco artificial de luz."
Um surpreendente texto chegou à Redação da Folha na semana passada, logo após o anúncio que “Santiago”, de João Moreira Salles, abriria o É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários.
Era uma carta de Salles aos principais jornais, explicando por que não concederia entrevistas para falar sobre a exibição de seu novo filme no festival. Dizia, resumidamente, que o filme é auto-explicativo, por ter sido feito na primeira pessoa, pelo fato de o documentarista ser também, na prática, personagem da obra.
Após assistir a “Santiago”, é fácil compreender os motivos de Salles para o silêncio. Em seus documentários anteriores, o cineasta sempre se manteve atrás da câmera, distanciado de seus personagens _vale lembrar uma cena dos extras do DVD de “Entreatos”, em que o diretor, ao notar que está sendo filmado, orienta imediatamente o câmera: “Eu não apareço no filme”.
Pois “Santiago” é o projeto mais pessoal de João Moreira Salles, que se expõe ao espectador de forma rara no cinema. O filme é um perfil de Santiago Badariotti Merlo (foto), mordomo da família Moreira Salles no casarão onde João passou sua infância. O diretor filmou o mordomo em 1993, ao longo de cinco dias, somando nove horas de material gravado.
Além das conversas com Santiago, Salles registrou cenas da casa onde morou, vazia, e produziu em estúdio imagens para ilustrar o discurso do mordomo. Mas não concluiu o longa à época.
No ano passado, após realizar os grandes documentários “Entreatos”, “Nelson Freire” e “Notícias de uma Guerra Particular”, Salles voltou às imagens de 1993. Numa auto-crítica do que havia filmado, fez “Santiago: uma Reflexão sobre o Material Bruto”.
Em 80 minutos, Salles apresenta as cenas, conta a história de Santiago e, principalmente, comenta impiedosamente seu trabalho na condução das entrevistas. Na busca pelo plano perfeito, interrompia o mordomo com frequência e o forçava a repetir depoimentos, em encenações constrangedoras. Revela ainda os exageros das produções de estúdio, como reforçar o suor de um lutador de boxe nas cenas para ilustrar o apreço de Santiago pelo esporte.
Além de expor e analisar seus próprios erros, Salles também traz a público detalhes da vida privada de sua família, uma das mais influentes na história recente do Brasil, por meio das declarações de Santiago, de seus próprios comentários e de uma seqüência de arquivo, em que toda a família aparece se divertindo na piscina do casarão.
A combinação dessa reflexão profissional com a exposição pessoal faz de “Santiago” o filme mais ousado de João Moreira Salles, possivelmente o melhor documentário de sua carreira.
A primeira exibição pública de “Santiago” no Brasil acontece na abertura do É Tudo Verdade no Rio, nesta sexta-feira, às 20h, no cine Odeon BR. Em São Paulo, onde o festival começa já na quinta, o filme passa no domingo, às 19h, no Cinesesc. O documentário seguirá nas itinerâncias do É Tudo Verdade e será exibido em Brasília (3/4), Campinas (9/4) e Porto Alegre (23/4). A programação completa está no site do festival. A seguir, a íntegra da carta de João Moreira Salles sobre seu novo filme.
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"Santiago" tem uma peculiaridade: 14 anos separam a filmagem da edição. Sem esse intervalo de tempo, o filme não existiria. Não digo isso retoricamente. Ao longo desses 14 anos, minha juventude ficou para trás. Quando filmei, tinha 30 anos; quando montei, 44. Entre um momento e outro, me dei conta do tempo. Adquiri a consciência de que as coisas acabam _consciência aguda, não apenas compreensão intelectual. "Santiago" só existe por causa dessa consciência. Mudei muito desde a filmagem. Por exemplo: mudei minhas idéias sobre o documentário. A consciência do tempo e a da profissão vieram juntas.
Isso está refletido no filme que montei com Lívia Serpa e Eduardo Escorel. É um documentário que pensa cada uma de suas etapas às claras. E, sendo um filme na primeira pessoa, "Santiago" fala não só de Santiago, o personagem, mas também de mim, momento a momento. Personagem, processo, autor, tudo está dito no documentário. Depois que o concluí, deixou de existir para mim um fora-do-filme. Por essa razão, toda explicação adicional me parece redundante. "Santiago" é auto-explicativo.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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