“300”, o primeiro blockbuster do ano, estreou ontem aqui nos EUA em 3.100 salas, uma enormidade até para os padrões americanos. E, com a estréia, veio uma avalanche de críticas sobre a adaptação de Zack Snyder para a HQ de Frank Miller sobre a histórica batalha de espartanos contra persas na Grécia Antiga.
Grosso modo, a megaprodução dividiu a imprensa americana. O site Metacritic, que atribui uma pontuação aos filmes com base nas resenhas publicadas na mídia, deu 53 pontos em 100 possíveis a “300”, com base em 32 análises. Já no site Rotten Tomatoes, que faz o mesmo trabalho, mas com número maior de textos, a cotação do filme subiu para 61.
Apesar do resultado ligeiramente favorável ao filme no geral, as opiniões negativas prevalecem entre os grandes jornais e revistas do país. A seguir, um resumo do que de melhor e de pior se falou sobre “300” nestes dias.
A FAVOR
“ ‘300’ é um filme embebido em sangue de sua exuberância artística. Pessoas de todas as idades e sexos não conseguirão resistir a ele.” – Rolling Stone
“O diretor Zack Snyder usa seu computador para criar pinturas ferozes, com muita atenção a cada frame, como se fosse um painel feito à mão.” – Seattle Post-Intelligencer
“O resultado é um delirante rugido turbinado de um filme que funciona como um ‘Spartacus’ sob efeito de drogas estranhas.” – FilmFour.com
CONTRA
“‘300’ é tão violento quanto ‘Apocalypto’ e duas vezes mais estúpido.” – The New York Times
“‘300’, mesmo com suas impressionantes imagens de soldados criados por computador, é apenas um épico descartável.” – Salon.com
“Imagine um enorme elenco preso em uma série de espetaculares protetores de telas. Poderia ser a Grécia Antiga. Poderia ser o computador de alguém.” – Boston Globe
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Este blogueiro está mais com os detratores do que com os admiradores de “300”. A trama é rasa, os personagens são maniqueístas, e as falas são tão impostadas que mais parecem peças de oratória do que diálogos. O aspecto visual do filme realmente impressiona, mas é bem menos original e impactante do que “Sin City”, essa sim uma boa adaptação de HQ de Frank Miller para o cinema. E realmente parece um produto mais feito para o computador (ou videogame) do que para o cinema.
Dentro do que seu papel permite, o maligno rei Xerxes, Rodrigo Santoro está bem. Fisicamente transfigurado e com a voz alterada por efeito de computador, ele consegue transmitir a força e a aura de divindade que seu personagem carrega. “300”, cujo trailer segue abaixo, estréia no Brasil no próximo dia 30 de março.
Dois importantes nomes do cinema brasileiro começam a trabalhar nos próximos meses uma versão para as telas de um dos melhores contos de Edgar Allan Poe, “O Homem da Multidão”.
Marcelo Gomes, de “Cinema, Aspirinas e Urubus”, e Cao Guimarães, de “Acidente” (foto), irão se reunir para dar forma ao roteiro que transportará para uma cidade brasileira a trama originalmente situada em Londres. O encontro entre os dois acontecerá em Berlim, onde Gomes passará seis meses em um programa de intercâmbio acadêmico, a convite do governo alemão.
Para quem não conhece o conto, é a história do narrador que, ao observar a multidão que caminha pelas ruas de Londres, se interessa por um homem em especial e passa a segui-lo em suas andanças pela cidade. Em um texto curto, Allan Poe realizou ao mesmo tempo uma análise sobre os costumes da sociedade londrina em meados do século 19 e um pequeno tratado sobre a solidão humana. Leia um trechinho (a íntegra está disponível aqui):
Com a testa na vidraça, estava deste modo ocupado em perscrutar a massa, quando de repente apareceu um rosto (o de um velho decrépito, de uns sessenta e cinco, setenta anos de idade) — um rosto que imediatamente chamou e absorveu toda a minha atenção, por causa da absoluta idiossincrasia de sua expressão. Eu nunca tinha visto nada nem de longe parecido com esta expressão. Lembro bem que a primeira coisa em que pensei, ao avistá-la, foi que Retzch, se a houvesse contemplado, a teria muitíssimo preferido às suas próprias incarnações pictóricas do demônio. Como eu tentasse, durante o breve instante de meu inusitado estudo, formar uma análise daquilo que ela me transmitia, em minha mente despontavam, confusa e paradoxalmente, as imagens de imensa capacidade mental, cautela, indigência, avareza, frieza, maldade, sede sanguinária, triunfo, alegria, terror excessivo, intenso — supremo desespero. Me senti estranhamente desperto, maravilhado, fascinado. “Que história fantástica”, pensei comigo mesmo, “não estará escrita neste peito!” Me veio então um ardente desejo de não perder o homem de vista — de saber mais sobre ele. Vestindo precipitadamente um sobretudo e apanhando meu chapéu e minha bengala, me dirigi para a rua e abri caminho pela multidão na direção que eu o vira tomar; pois ele já tinha sumido. Com alguma dificuldade finalmente o avistei, me aproximei e o segui de perto, mas cautelosamente, de modo a não chamar sua atenção.
O filme inspirado em “O Homem da Multidão” será a estréia de Cao na ficção, e o projeto concluirá o que o diretor chama de sua Trilogia da Solidão, integrada ainda pelos documentários “Alma do Osso” e “Andarilho”, este exibido na última Bienal de São Paulo.
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“Acidente”, de Cao e Pablo Lobato, teve sua segunda e última exibição na noite de ontem no Festival de Miami. Poema visual formado a partir dos nomes de 20 cidades mineiras, o documentário foi visto por cerca de cem pessoas. Na conversa com o público após a exibição, o diretor falou das motivações para registrar o dia-a-dia dessas cidades e foi questionado por um espectador porque não contara um pouco mais sobre o filme antes da sessão. A resposta de Cao Guimarães: “A obra de arte fala por si só. Ela não precisa ser explicada. E ela se forma de uma maneira diferente na cabeça de cada espectador, que é também um co-autor”.
São Paulo no Cinema. Esse é o nome da promoção que acontecerá na capital paulista no próximo mês de abril, num modelo semelhante ao da Festa do Cinema, realizada anualmente na França. Durante três dias, o público poderá assistir a até nove filmes nas salas da cidade por um valor com um megadesconto.
Funcionará assim: em 15, 16 e 17 de abril (domingo a terça), quem comprar uma entrada inteira em uma das salas participantes fará um cartão de sócio com seu nome e RG. Essa carteirinha valerá para nove sessões, em qualquer cinema, durante esses três dias. Com ela em mãos, cada ingresso custará apenas R$ 3.
A operação é uma iniciativa do sindicato dos exibidores do Estado de São Paulo, com apoio financeiro da prefeitura, e envolverá o circuito da capital e da Grande SP. São 43 complexos participantes, incluindo Cinemark, Espaço Unibanco, Arteplex, Kinoplex, HSBC Belas Artes, UCI e Playarte. No total, 251 salas. Os últimos detalhes estão sendo acertados, e o programa será anunciada oficialmente até o final deste mês.
Segundo Eli Jorge Lins de Lima, presidente do sindicato, se a iniciativa for bem-sucedida, a intenção dos organizadores é ampliar a promoção São Paulo no Cinema para todo o Estado no ano que vem.
A expectativa é que se torne um evento anual tradicional como na França, onde 22 edições já foram realizadas e mais de 50 milhões de entradas foram vendidas desde 1985. É uma ação nacional, da qual fazem parte as 5.300 salas de cinema francesas. Que a iniciativa pegue por aqui também.
Escrito por Leonardo Cruz e Lúcia Valentim às 5h40 PM
“A Casa de Alice”, de Chico Teixeira, já havia recebido críticas positivas das revistas especializadas “Screen” e “Variety” e da imprensa alemã, quando exibido numa mostra paralela do Festival de Berlim, no mês passado. Naquela mostra, o filme foi aplaudido ao final de sua sessão oficial e boa parte da platéia ficou para o debate com diretor e elenco.
Cena semelhante ocorreu aqui no Festival de Miami na noite desta segunda, quando “A Casa de Alice” teve sua segunda sessão para o público. Assistido por cerca de 160 pessoas, o longa voltou a receber aplausos e segurou metade da platéia para uma conversa com os atores Carla Ribas e Vinicius Zinn e os produtores Patrick Leblanc e Zita Carvalhosa.
Estréia na ficção de Chico Teixeira, autor dos documentários “Criaturas que Nasciam em Segredo” e “Carrego Comigo”, o novo filme acompanha a rotina de uma família paulistana de classe média baixa, tendo Alice, a mãe manicure, no centro da ação. Além dela, estão em cena Lindomar, o marido taxista, Jacira, a avó, e os três filhos do casal, Lucas, Edinho e Júnior.
Todos vivem num apartamento no centro de São Paulo, onde se passa a maior parte das cenas, nas quais Chico Teixeira aos poucos revela os segredos, as traições e as desavenças de seu núcleo familiar. Para tanto, o diretor adota um registro quase documental, de interpretações naturalistas e sem música incidental. Dialoga esteticamente com “O Céu de Suely”, de Karim Aïnouz, e tematicamente com “O Pântano”, de Lucrecia Martel.
Como disse o diretor numa recente entrevista ao UOL Cinema, “é um filme em que não acontece muita coisa”. É sem mostrar “muita coisa”, contido, sem ações mirabolantes, que “A Casa de Alice” se torna um ótimo retrato da vida real no Brasil, no qual estão presentes o individualismo, a cultura machista e as dificuldades financeiras.
Num elenco inteiro coeso e bem preparado por Fátima Toledo, a estreante no cinema Carla Ribas (foto) se destaca como Alice ao conseguir traduzir para a tela a solidão, a insatisfação, os desejos e a fúria de sua personagem.
“A Casa de Alice” estréia no Brasil neste ano, mas ainda não há uma data exata fechada. Aqui nos EUA, o filme já tem sua distribuição acertada, deve rodar o circuito de festivais e entrar em cartaz no final de 2007, provavelmente outubro. Neste Festival de Miami, o longa de Chico Teixeira disputa na categoria melhor longa ficcional ibero-americano. O resultado será anunciado no sábado à noite e o prêmio principal pagará US$ 25 mil ao vencedor.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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