Ilustrada no Cinema

 

 

Mudanças no blog

Mudanças no blog

Um aviso importante aos navegantes deste blog: entro em férias da Folha hoje e ficarei cinco semanas fora do jornal. Por tabela, só voltarei a escrever neste espaço a partir de 7 de maio.

 

Mas, se eu paro, o blog continua. Durante minha ausência, o Ilustrada no Cinema ficará aos cuidados da jornalista Lúcia Valentim Rodrigues, chefe de reportagem da Ilustrada, e também terá colaborações da equipe do caderno, especialmente dos repórteres Bruno Yutaka Saito e Silvana Arantes.

 

Ou seja, ficará muito melhor.

 

Até a volta.

Escrito por Leonardo Cruz às 4h05 PM

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A ética no documentário

A ética no documentário

 

Começa hoje em São Paulo, dentro do festival É Tudo Verdade, a 7ª Conferência Internacional do Documentário, espaço já tradicional de discussão dos rumos da produção de filmes não-ficcionais.

 

O tema escolhido para este ano é ética no documentário _nada mais apropriado, dado que essa é uma questão central em alguns dos principais filmes deste É Tudo Verdade, como “Santiago”, de João Moreira Salles, e “Fabricando Polêmica – Desmascarando Michael Moore”, de Debbie Melnyk e Rick Caine.

 

A programação da conferência começa nesta quarta e vai até sexta-feira, com dois debates por dia. Um dos destaques deste ano é a conversa entre o diretor Jorge Bodansky, cujo “Iracema, uma Transa Amazônica” (1974, pôster acima) é um dos grandes filmes do cinema nacional, e o professor da USP Ismail Xavier, um dos principais estudiosos do assunto no Brasil.

 

Todos os debates acontecem na sede do Itaú Cultural, na avenida Paulista, e estão sendo acompanhados, já desde segunda, por projeções de filmes relacionados aos temas debatidos. Nesta quinta, por exemplo, o público poderá ver “Iracema” e o ainda inédito em circuito comercial “Serras da Desordem”, de Andrea Tonacci, grande vencedor do recém-criado Prêmio Jairo Ferreira.

 

A programação completa de filmes e debates está no site do É Tudo Verdade. Sobre “Fabricando Polêmica”, a capa da versão impressa da Ilustrada de hoje traz uma entrevista do repórter Lucas Neves com os diretores Debbie Melnyk e Rick Caine e uma crítica do filme, que aponta as distorções e meias-verdades nos documentários de Michael Moore. A entrevista pode ser lida aqui, e a crítica, aqui.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h56 AM

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Segunda chance para ver Santiago

Segunda chance para ver Santiago

A organização do Festival É Tudo Verdade acaba de anunciar que haverá uma nova oportunidade para quem não conseguiu assistir ontem a "Santiago", o novo documentário de João Moreira Salles.

A primeira exibição pública do filme em São Paulo causou alvoroço no Cinesesc no último domingo. A fila para retirar ingressos começou duas horas e meia antes da sessão e avançou rua Augusta acima. Com mais de 300 lugares, o cinema lotou, muita gente sentou no chão e dezenas de espectadores ficaram de fora.

Tal correria motivou a realização da sessão extra, que acontecerá nesta quinta, às 23h, no próprio Cinesesc. Vale lembrar que "Santiago" (foto), provavelmente o melhor documentário da carreira de João Moreira Salles, ainda não tem previsão de estréia em circuito comercial. Por isso, a reprise de quinta é imperdível.

Escrito por Leonardo Cruz às 7h28 PM

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A América sem máscara - Parte 1

A América sem máscara - Parte 1

Um dos destaques da programação do É Tudo Verdade nesta sexta é “Adeus, América” (veja o trailer), filme que abriu o festival de documentários em São Paulo e que volta a ser exibido às 19h. A versão impressa da Ilustrada de hoje publica trechos da entrevista do crítico da Folha Cássio Starling Carlos com o diretor Sergio Oksman. A seguir, o texto integral da conversa entre os dois.

 

*

 

A América sem máscara, por Cássio Starling Carlos

 

A face humana por trás do monstro. É a idéia central de “Adeus, América”, documentário dirigido pelo brasileiro (que vive há cerca de uma década na Espanha) Sergio Oksman. Focado em recordações do ator Al Lewis (o Vovô do seriado dos anos 60 “Os Monstros”, foto acima), o trabalho desvela uma outra América, avessa à beligerância imperial dos tempos de Bush e de muitos de seus antecessores.

Na entrevista abaixo, o diretor comenta a relação com seu personagem e detalha alguns métodos de trabalho neste documentário.

 

Como você chegou a Al Lewis?

[O produtor] Elias Querejeta me convidou para fazer um filme sobre a Pacifical Radio, uma rádio pacifista americana fundada em 1949 e que existe até hoje. Ela havia sido superimportante, por exemplo, para a geração beat. Allen Ginsberg ia lá ler seus primeiros poemas em programas. Nela se denunciaram as perseguições a artistas e intelectuais pelo macarthismo durante a caça às bruxas e foi também uma das rádios que promovia manifestações contra a Guerra do Vietnã. Foi num programa dessa rádio que surgiram os yippies [ativistas do Youth International Party]. Eu comecei a pesquisar personagens para contar essas histórias. Um dia marquei com Lewis, que, aos 92 anos, mantinha um programa na Pacifical, vociferando contra injustiças. Ele sabia que o monstro era um pouco o passaporte dele, um modo de se fazer ouvir.

 

Então o projeto não era centrado nele?

Quando comecei a gravar as entrevistas ele era um personagem a mais. Foi o roteirista que teve a idéia de criar um encontro entre o ativista político de quase cem anos e o monstro por meio de um espelho, pois seria uma boa forma de levá-lo a evocar os fantasmas. Foi o que a gente fez. Durante esse processo ele foi se apropriando do filme, como se tivesse se aproveitado da oportunidade para fazer uma despedida, e assim o filme se transformou numa espécie de memorial de Al Lewis e da América que ele viveu.

É uma situação ao mesmo tempo excitante e aterrorizante de fazer documentários, porque você nunca sabe exatamente onde está.

 

Nas gravações feitas diante do espelho você dirigiu o depoimento de Lewis, conduzindo-o por meio de perguntas?

Usei apenas o espelho como armadilha e sugeri assuntos.

((((((((continua abaixo))))))))

Escrito por Leonardo Cruz às 2h30 AM

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A América sem máscara - Parte 2

A América sem máscara - Parte 2

 

A seguir, a segunda parte da entrevista do crítico Cássio Starling Carlos com o documentarista Sergio Oksman, diretor de “Adeus, América”.

 

*

Você encenou a conversa com a figura do maquiador?

Trata-se mais ou menos de encenação. É claro que tudo é encenação e por isso eu tento não isolar documentários de ficções, pois são sempre filmes. Àquela altura, Lewis ganhava a vida viajando de feira em feira pelo interior dos EUA, fantasiando-se de seu célebre personagem. E nós o gravamos no camarim de um desses festivais de terror. O maquiador era o maquiador dele de fato.

 

O maquiador fazia perguntas que você suprimiu na montagem?

Não. O maquiador não está interessado no que está sendo dito. Só se interessa pelo personagem do monstro. E o filme é feito dessa fala dirigida para um espectador que é um cidadão americano médio e conta histórias que esse cidadão ignora. O maquiador funciona como um duplo do americano médio.

 

No início da conversa Lewis se vangloria da sua lucidez, de se lembrar de tudo que viveu. Você crê que o documentário seja a melhor forma de apreender a memória?

Por isso eu gosto mais de documentários do que de reportagens televisivas. Em reportagens você tem uma tese e busca personagens ou pessoas que a confirmem. No documentário, o personagem pode ser uma pessoa, uma árvore, uma cidade. Quando realizei o documentário, tentei um pouco suprimir meu juízo moral e deixei Lewis evocar, falar, se equivocar. O que eu tentei foi seguir a rede mental desse senhor. E o filme é um pouco essa rede que ele vai criando com base em suas histórias.

 

E assim constituir uma história?

Sim. Uma coisa me fascinou bastante. Eu estava diante de uma pessoa de quase cem anos e de Drácula, o personagem que ele fazia. O que é o Drácula? Um ser eterno que também viu tudo. Então, o ator e o personagem que ele fazia tinham essa coisa em comum. E tem também a história do medo. Ele encarnou um personagem-arquétipo do medo, e o medo é também uma força de controle, usada pelo poder, que ele como ativista sempre denunciou.

 

Mas há ali também a história de um país. Nesse sentido você quis fazer um filme político?

Não vejo o filme como político, muito menos como um filme anti-americano. O “adeus” do título é como se fosse uma despedida. Ele se olha no espelho e vê passar a vida na frente. Eu jogo muito com essa idéia do espelho na janela do trem, na janela da casa e na tela do cinema.

 

Como você escolheu as imagens de arquivos que acompanham alguns momentos do relato de Lewis?

Eu tentei fazer com que as imagens de arquivo não fossem ilustrativas, mas seguissem como se eu imaginasse o que ele estava imaginando, como parte da rede que ele tece enquanto recorda.

 

E as imagens de Lewis moribundo, foram feitas em hospital?

Não. Na casa dele. Ele estava muito mal, depois de ter uma perna amputada. Fui visitá-lo, três anos depois de termos registrado o longo depoimento. Tive muito pudor em filmá-lo naquela situação, mas ele pediu e daí eu me atrevi a gravar mais alguns dias. Mas preferi desta vez registrar apenas seus silêncios.

Escrito por Leonardo Cruz às 2h18 AM

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Filmoteca - Heitor Dhalia

Filmoteca - Heitor Dhalia

O pernambucano Heitor Dhalia, 37, construiu grande parte de sua carreira na publicidade, onde criou mais de cem campanhas. Chegou ao cinema em 1999, como assistente de direção de Aluísio Abranches em "Um Copo de Cólera". Sua estréia como diretor foi ainda naquele ano, com o curta "Conceição" (assista aqui). Cinco anos mais tarde, dirigiu seu primeiro longa, "Nina", versão paulistana de "Crime e Castigo", de Dostoiévski. Nesta sexta, Dhalia apresenta ao público brasileiro seu novo filme, "O Cheiro do Ralo", boa adaptação do romance homônimo de Lourenço Mutarelli e premiado no Festival do Rio e na Mostra de SP do ano passado. A seguir, o diretor gentilmente conta ao blog seus filmes favoritos. Ao final do post, o trailer da bunda, digo, de "O Cheiro do Ralo".

*

"Os Sete Samurais" (Akira Kurosawa, 1954, lançado em DVD)
Um dos melhores filmes de guerra já feitos na história do cinema por um de seus grandes mestres. O filme combina uma profunda discussão sobre estratégia militar e injustiça social e ainda reflete temas como o tempo e o nascimento, representados pela colheita de arroz, e a morte, presente na própria guerra. No meio disso, a trajetória de um grupo de samurais. No fundo, é a história de todos nós.

 

"Acossado" (Jean-Luc Godard, 1960, lançado em DVD)
Filme fundador da Nouvelle Vague francesa, "Acossado" é uma declaração de amor ao cinema. Jean Seberg e Jean-Paul Belmondo estão absolutamente cativantes neste filme, que resume uma das máximas de Godard: "Não faço filmes. Faço cinema." Lírico, sensual e divertido. Um filme para se apaixonar.

 

"Laranja Mecânica" (Stanley Kubrick, 1971, lançado em DVD)
Kubrick, meu diretor favorito, é o Shakespeare do cinema. Gênio absoluto, alia um profundo senso estético com uma análise rigorosa do ser humano. "Laranja Mecânica" é um soco no estômago ao tratar da perversão humana em sua forma mais pura. Mesmo no terreno arriscado da ultraviolência, Kubrick cria um filme impiedoso e ao mesmo tempo sublime e hipnótico.

 

 

"Touro Indomável" (Martin Scorsese, 1980, lançado em DVD)
A trajetória de um boxeador que acaba sendo nocauteado por sua própria ambição. Extremamente bem filmado, "Touro Indomável" é uma aula de cinema e mostra por que Scorsese continua a influenciar diretores até hoje, como Paul Thomas Anderson e Quentin Tarantino. O filme, amor ao cinema em sua forma mais pura, salvou a vida do diretor, que estava numa clínica de reabilitação de drogas quando De Niro entregou o roteiro para ele. Uma obra-prima que evidencia como o Oscar chegou atrasado em algumas décadas às mãos do cineasta.

 

O quinto filme...
Listas são sempre injustas porque filmes maravilhosos ficam de fora. Queria dividir esta posição com alguns dos filmes que eu adoro: "O Leopardo", de Visconti; "Barton Fink", dos irmãos Coen; "O Poderoso Chefão", de Francis Ford Coppola; "Jules e Jim", de Truffaut; "Playtime", de Jacques Tati; "Pulp Fiction", de Tarantino; "Boogie Nights" (foto), de Paul Thomas Anderson; "Blow Up", de Antonioni; "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles; "Cidadão Kane", de Orson Welles; e, por fim, "Crepúsculo dos Deuses", de Billy Wilder.

* 

Escrito por Leonardo Cruz às 6h06 PM

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Orson Welles, Fritz Lang e John Wayne juntos

Orson Welles, Fritz Lang e John Wayne juntos

O que Orson Welles, Eduardo Coutinho, Fritz Lang, Gianni Amelio e John Wayne têm em comum? Filmes de todos esses grandes nomes do cinema são analisados em artigos no recém-lançado livro "História e Cinema" e estão na programação da mostra homônima que a Cinemateca Brasileira prepara para o mês que vem em São Paulo.

"História e Cinema", lançamento da editora Alameda, reúne textos de 19 acadêmicos que discutem a forma como a história é representada no cinema, desde "Metrópolis" (1927, foto), de Lang, a "O Signo do Caos" (2005), de Rogério Sganzerla. A obra é organizada pelos professores da USP Maria Helena Capelato, Eduardo Morettin, Marcos Napolitano e Elias Thomé Saliba.

A mostra da Cinemateca tentará ser um espelho do livro e apresentará cerca de 25 filmes, quase todos analisados nos ensaios. A programação inclui raridades nas telas brasileiras, como "Golpe no Coração" (1982), de Gianni Amelio. O longa do diretor italiano é abordado no livro no artigo de Mariarosaria Fabris sobre a forma como as Brigadas Vermelhas foram tratadas em obras de três diretores: Amelio, Marco Bellochio ("Bom Dia, Noite") e Marco Tullio Giordana ("O Melhor da Juventude").

O ciclo terá ainda alguns filmes que não são citados diretamente na obra, mas que são fundamentais para pensar as representações da história pelo cinema, caso de "Shoah" (1985), o documentário de nove horas de Claude Lanzmann sobre o Holocausto.

A mostra "História e Cinema" começa em 11 de abril, com a sessão de "Cabra Marcado para Morrer", de Eduardo Coutinho, que será seguida de um debate com os organizadores da coletânea. Muitos filmes serão exibidos em película; outros em DVD.

Abaixo, um trecho da apresentação do livro, que reflete bem a importância das relações entre esses dois objetos de estudo dos professores da USP.

"Depois de mais de cem anos de história do cinema, não há, praticamente, época, civilização, tema histórico, herói antigo ou moderno que não tenham sido encenados nas telas. Muitas vezes com um grau de realismo high-tech que propicia ao espectador uma experiência assombrosa e fascinante do passado. Além disso, mesmo quando não encena o passado, o produto audiovisual de cinema ou de televisão sempre é um documento de sua época, veiculando valores, projetos, ideologias. A luz projetada na tela, exercendo fascínio e efeito de realidade, muitas vezes faz com que a história escrita ou ensinada pareça menos monumental e atrativa, ao menos aos olhos do grande público não-especialista. O passado iluminado pelo cinema é como se Clio, a musa da história, além do clarim e do relógio d’água, portasse também uma lanterna, projetando sobre o passado seu foco artificial de luz."

Escrito por Leonardo Cruz às 7h44 AM

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As revelações de João Moreira Salles

As revelações de João Moreira Salles

 

Um surpreendente texto chegou à Redação da Folha na semana passada, logo após o anúncio que “Santiago”, de João Moreira Salles, abriria o É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentários.

 

Era uma carta de Salles aos principais jornais, explicando por que não concederia entrevistas para falar sobre a exibição de seu novo filme no festival. Dizia, resumidamente, que o filme é auto-explicativo, por ter sido feito na primeira pessoa, pelo fato de o documentarista ser também, na prática, personagem da obra.

 

Após assistir a “Santiago”, é fácil compreender os motivos de Salles para o silêncio. Em seus documentários anteriores, o cineasta sempre se manteve atrás da câmera, distanciado de seus personagens _vale lembrar uma cena dos extras do DVD de “Entreatos”, em que o diretor, ao notar que está sendo filmado, orienta imediatamente o câmera: “Eu não apareço no filme”.

 

Pois “Santiago” é o projeto mais pessoal de João Moreira Salles, que se expõe ao espectador de forma rara no cinema. O filme é um perfil de Santiago Badariotti Merlo (foto), mordomo da família Moreira Salles no casarão onde João passou sua infância. O diretor filmou o mordomo em 1993, ao longo de cinco dias, somando nove horas de material gravado.

 

Além das conversas com Santiago, Salles registrou cenas da casa onde morou, vazia, e produziu em estúdio imagens para ilustrar o discurso do mordomo. Mas não concluiu o longa à época.

 

No ano passado, após realizar os grandes documentários “Entreatos”, “Nelson Freire” e “Notícias de uma Guerra Particular”, Salles voltou às imagens de 1993. Numa auto-crítica do que havia filmado, fez “Santiago: uma Reflexão sobre o Material Bruto”.

 

Em 80 minutos, Salles apresenta as cenas, conta a história de Santiago e, principalmente, comenta impiedosamente seu trabalho na condução das entrevistas. Na busca pelo plano perfeito, interrompia o mordomo com frequência e o forçava a repetir depoimentos, em encenações constrangedoras. Revela ainda os exageros das produções de estúdio, como reforçar o suor de um lutador de boxe nas cenas para ilustrar o apreço de Santiago pelo esporte.

 

Além de expor e analisar seus próprios erros, Salles também traz a público detalhes da vida privada de sua família, uma das mais influentes na história recente do Brasil, por meio das declarações de Santiago, de seus próprios comentários e de uma seqüência de arquivo, em que toda a família aparece se divertindo na piscina do casarão.

 

A combinação dessa reflexão profissional com a exposição pessoal faz de “Santiago” o filme mais ousado de João Moreira Salles, possivelmente o melhor documentário de sua carreira.

 

A primeira exibição pública de “Santiago” no Brasil acontece na abertura do É Tudo Verdade no Rio, nesta sexta-feira, às 20h, no cine Odeon BR. Em São Paulo, onde o festival começa já na quinta, o filme passa no domingo, às 19h, no Cinesesc. O documentário seguirá nas itinerâncias do É Tudo Verdade e será exibido em Brasília (3/4), Campinas (9/4) e Porto Alegre (23/4). A programação completa está no site do festival. A seguir, a íntegra da carta de João Moreira Salles sobre seu novo filme.

 

*

"Santiago" tem uma peculiaridade: 14 anos separam a filmagem da edição. Sem esse intervalo de tempo, o filme não existiria. Não digo isso retoricamente. Ao longo desses 14 anos, minha juventude ficou para trás. Quando filmei, tinha 30 anos; quando montei, 44. Entre um momento e outro, me dei conta do tempo. Adquiri a consciência de que as coisas acabam _consciência aguda, não apenas compreensão intelectual. "Santiago" só existe por causa dessa consciência. Mudei muito desde a filmagem. Por exemplo: mudei minhas idéias sobre o documentário. A consciência do tempo e a da profissão vieram juntas.

 

Isso está refletido no filme que montei com Lívia Serpa e Eduardo Escorel. É um documentário que pensa cada uma de suas etapas às claras. E, sendo um filme na primeira pessoa, "Santiago" fala não só de Santiago, o personagem, mas também de mim, momento a momento. Personagem, processo, autor, tudo está dito no documentário. Depois que o concluí, deixou de existir para mim um fora-do-filme. Por essa razão, toda explicação adicional me parece redundante. "Santiago" é auto-explicativo.

 

João Moreira Salles

Escrito por Leonardo Cruz às 9h33 AM

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Gênios do jazz no cinema

Gênios do jazz no cinema

Miles Davis e Dave Brubeck são nomes que hoje aparecem em todas as listas de maiores da história do jazz. Em breve, os dois também passarão a integrar outra lista: a dos músicos retratados pelo cinema.

O trompetista, pai do clássico "Kind of Blue", será o tema de uma cinebiografia estrelada por Don Cheadle, ótimo ator de filmes como "Crash" e "Hotel Ruanda". Cheadle também será o diretor e o produtor do projeto, e o roteiro ficará nas mãos de Stephen J. Rivele e Chris Wilkinson, que juntos já escreveram as cinebiografias “Nixon” e “Ali”. Cheadle parece ser o intérprete ideal para viver um personagem tão complexo, que transformou a história do jazz com suas experimentações, se afundou em heroína e cocaína e morreu em 1991, precocemente, aos 65 anos.

Ainda não há previsão para início das filmagens. E deve demorar um pouco, já que Cheadle está envolvido em ao menos outros dois projetos neste ano. Dirigirá e estrelará um romance policial de Elmore Leonard e será o protagonista de “Toussaint”, filme sobre um líder revolucionário haitiano, dirigido por Danny Glover.

Já o pianista Dave Brubeck, autor de composições históricas como “Blue Rondo a la Turk”, será o tema de um documentário com produção-executiva de Clint Eastwood. O filme, com direção de Bruce Ricker, mesclará informações sobre a trajetória de Brubeck com cenas de seu mais recente trabalho, uma peça composta especialmente para a abertura do festival de jazz de Monterey do ano passado.

Ricker não é um novato no ramo. Já produziu um documentário sobre Thelonious Monk e atualmente filma outro sobre o cantor Tony Bennett, longa em que Clint também está envolvido, como produtor e condutor das entrevistas com Bennett. Vale lembrar ainda que o diretor de “Cartas de Iwo Jima” já foi o responsável por uma das grandes biografias no cinema: “Bird”, em que Forest Whitaker, como o saxofonista Charlie Parker, teve a melhor interpretação de sua carreira.

Além de produzir o filme sobre Brubeck, Clint assumiu uma cadeira no comitê honorário para preservação da obra do pianista na Universidade do Pacífico, na Califórnia. Clint sobre Brubeck: “Ele continua a fazer contribuições significativas para a música, introduziu uma nova geração ao mundo do jazz e continua a explorar a linguagem internacional da música”. Impossível discordar.

Escrito por Leonardo Cruz às 10h04 AM

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James Bond lê Saramago?

James Bond lê Saramago?

A revista especializada "Hollywood Reporter" anuncia hoje que o novo James Bond, Daniel Craig, e a talentosa Julianne Moore estão em negociações para compor o elenco de "Blindness", próximo filme do brasileiro Fernando Meirelles.

"Blindness" é a adaptação para as telas do romance "Ensaio sobre a Cegueira", do Nobel português José Saramago, que aborda a vida numa cidade que é vítima de uma epidemia em que a população perde a visão.

O projeto internacional, anunciado no ano passado no Festival de Toronto, é uma produção da Focus Features, também responsável por "O Jardineiro Fiel", o filme anterior de Meirelles.

Se confirmado esse elenco, a presença de Julianne Moore é ótima notícia, dado que a moça já desempenhou com habilidade papéis importantes em filmes como "Magnólia" (1999), "Fim de Caso" (1999), "Boogie Nights" (1997) e "Short Cuts" (1993).

Já Daniel Craig é uma incógnita. Com seu estilo brucutu pós-11 de Setembro, o ator deu novo fôlego ao agente 007, e sua interpretação em "Cassino Royale" representou uma renovação da série. Mas será que ele se encaixa num filme derivado do texto de Saramago, com todas as sutilezas características do autor?

Escrito por Leonardo Cruz às 12h09 PM

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Entrevista com Sofia Coppola - Parte 1

Entrevista com Sofia Coppola - Parte 1

A versão impressa da Ilustrada desta quarta publica trechos da entrevista que Teté Ribeiro, colaboradora freqüente da Folha nos EUA, fez em Los Angeles com a diretora Sofia Coppola, por conta do lançamento de "Maria Antonieta", com Kirsten Dunst (foto) no papel-título. A seguir, aqui no blog, a íntegra da boa conversa da repórter com a cineasta.

*

Perdida em Versalhes - Por Teté Ribeiro

O terceiro longa-metragem da cineasta Sofia Coppola, "Maria Antonieta", que estréia nesta sexta no Brasil, já veio ao mundo cheio de rótulos. Era o filme mais caro feito pela diretora e o primeiro projeto depois do enorme sucesso de "Encontros e Desencontros", pelo qual Sofia ganhou o Oscar de Melhor Roteiro em 2004 e se transformou na mulher mais jovem a receber esse prêmio, aos 32 anos.

Entre os muitos fãs do segundo filme de Sofia estava o diretor do Palácio de Versalhes, que deu autorização para que ela filmasse lá às segundas-feiras, único dia em que o Palácio não está aberto ao público para visitação. Nos outros dias da semana, Sofia e sua equipe podiam usar os jardins de Versalhes ou outros castelos da mesma época. Foi a primeira vez que um longa-metragem conseguiu essa autorização.

Depois, a bomba: "Maria Antonieta" foi vaiado em sua primeira exibição no Festival de Cannes do ano passado. A história da jovem austríaca que virou rainha da França ainda adolescente, contada de forma delicada e irônica ao som do pós-punk inglês dos anos 80, não caiu bem no estômago de parte da crítica francesa.

Quando chegou aos cinemas norte-americanos, "Maria Antonieta" dividiu a crítica, que amou e odiou o longa com a mesma ênfase. Já o público praticamente o ignorou – com orçamento de US$ 40 milhões, fez apenas US$ 56 milhões no mundo todo até agora.

Finalmente, em fevereiro, "Maria Antonieta" levou o Oscar de Melhor Figurino (única categoria a que foi indicado), anunciado com óbvia frustração por Emily Blunt e Anne Hathaway, de "O Diabo Veste Prada", considerado o favorito na categoria. Sofia não estava na platéia. A diretora, que divide seu tempo entre Nova York e Paris, cidade-natal de seu namorado, o cantor Thomas Mars, da banda Phoenix, preferiu ficar com a filha do casal, Romy, nascida no dia 28 de novembro, na capital francesa.

A recepção morna ao seu filme não intimidou a cineasta, que deve se aventurar pelo mundo da ópera em seguida. Ela vai dirigir a tragédia "Manon Lescault", do italiano Giacomo Puccini (1858-1924), na casa francesa Montpelier Opera House, com estréia prevista para 2009.

Leia a entrevista na íntegra:

O que a levou a fazer esse filme?

Queria mostrar a vida da Maria Antonieta do ponto de vista dela mesma. Todo mundo conhece a história, mas sempre poluída de mitos e clichês, quis mostrar como ela encarava aquela vida, sem filtros.

Mas isso é impossível, não? Você vai sempre ser um filtro, mesmo que não queira.

Sim, mas eu sou mulher, já fui uma adolescente perdida no meio de uma família bem-sucedida, convivi com perdas incríveis, como a morte do meu irmão [Gian Carlo Coppola, que morreu em um acidente de barco em 1986, aos 23 anos]. Acho que entendo a personagem, entendo as emoções dela.

Você se identifica com o fato de ela receber tantas críticas? Afinal, você recebeu muitas críticas negativas por seus trabalhos como atriz quando era mais jovem, especialmente por "O Poderoso Chefão 3", que fez aos 18 anos.

Mas eu não cresci rodeada de críticas, muito pelo contrário, cresci numa família muito próxima e que se protege muito. Minha adolescência foi muito normal, vivia no norte da Califórnia com os meus pais e meus irmãos, em uma cidade pequena, eu não tinha uma vida pública como essas famílias reais. E meus trabalhos como atriz eram feitos nas férias da escola, mais como um hobby. Mas passei pelas mesmas dúvidas de adolescente. Como todo mundo, não?

Como parte da família real do cinema, você não se sentiu intimidada quando resolveu dirigir seu primeiro filme?

Acho que eu tive que trabalhar mais duro do que outros diretores para não parecer uma menina mimada com um roteiro na mão. Mas também não posso negar que ser filha de um diretor e dono de produtora de cinema não tenha me facilitado muito a vida.

Seu pai declarou que você é a grande inspiração dele hoje em dia, e foi por causa do seu jeito independente de filmar "Encontros e Desencontros" que ele decidiu voltar a filmar, depois de muitos anos. Como isso a afeta?

Ele foi minha grande inspiração para entrar nesse mundo, então acho que o que ele sente é que eu lembro o jeito que ele era quando começou. Fico honrada, mas ao mesmo tempo ele é meu pai, sei que parte desse orgulho tem a ver com o jeito afetuoso e exagerado dele de me ver como a filhinha indefesa dele. Mas sou eu que peço conselhos a ele o tempo todo.

Ele nunca te pede conselhos?

Só sobre o que vestir [risos].

Você não teve medo de causar um incidente diplomático filmando no Palácio de Versalhes?

Claro que sim. Mas a equipe tomou o maior cuidado com tudo. A gente teve muita sorte de conseguir essa permissão, eu não deixaria que um descuido atrapalhasse a filmagem.

Qual era o plano B, no caso de você não conseguir filmar lá? Reconstruir o Palácio em um estúdio?

Eu nunca penso em planos B, boto uma idéia na minha cabeça e dou um jeito de fazer acontecer. Mas com certeza eu daria um jeito, o filme não ia deixar de existir se as filmagens não fossem feitas em Versalhes. Acredito na minha criatividade, e acredito que quando as situações se apresentam você é obrigado a pensar em uma solução. Essa é uma das coisas que mais gosto como diretora, resolver problemas de forma criativa.

Todas as cenas que se passam em Versalhes foram filmadas lá?

Não, a gente só podia filmar lá dentro às segundas-feiras, os outros dias funciona como um museu, aberto ao público. Filmamos algumas cenas em outros castelos do mesmo período. Não tem nenhuma cena de estúdio nesse filme.

(((((((a entrevista continua no post abaixo)))))))

Escrito por Leonardo Cruz às 11h15 PM

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Entrevista com Sofia Coppola - Parte 2

Entrevista com Sofia Coppola - Parte 2

A seguir, a segunda parte da entrevista de Sofia Coppola (foto) a Teté Ribeiro. Ao final, o trailer de "Maria Antonieta".

*

Esse filme teve um orçamento muito maior que os dois anteriores. Isso ajuda ou atrapalha?

As duas coisas. Sem dinheiro eu não teria como fazer o filme que queria, mas com mais dinheiro tem mais pressão, tudo fica maior, alguns sets eram gigantescos, cheios de figurantes, você tem que ficar mais atenta, mais coisas podem dar errado. Mas eu procuro não pensar sobre isso, minha única preocupação é ser fiel à minha visão artística.

Teve alguma cena particularmente difícil para você no filme?

As cenas de festa, cheias de gente, com mil roupas e cabelos, eram bem complicadas. É fácil se distrair com tudo isso, e eu tinha que prestar atenção nas atuações, nas emoções dos personagens, mas também não podia deixar de notar se algum figurante olhava para a câmera, ou se tinha deixado sem querer um relógio moderno no pulso. E havia turistas visitando, o Palácio não foi completamente fechado para as filmagens, e claro que eles reconheciam a Kirsten Dunst, então a gente tinha que constantemente pedir silêncio, o que era constrangedor, afinal eles tinham todo direito de estar ali.

Você parece tão calma, se altera muito quando está na cadeira de diretora?

Às vezes eu fico estressada, mas nunca demonstro. Sempre fui assim, posso mudar de sentimento sem mudar meu jeito de agir. Então você nunca vai me ver gritando ou roendo as unhas, não dou sinais de estresse ou de nervoso. Talvez tudo isso mude depois que eu virar mãe, mas duvido, sou muito serena, o contrário do meu pai, que parece que vai explodir quando o molho do macarrão fica mais salgado do que ele gostaria [risos].

Você ficou muito surpresa quando o filme foi vaiado em Cannes?

O filme foi aplaudido em pé em Cannes. Algumas pessoas vaiaram, alguns franceses acham que a história só podia ser contada por um francês, um jornalista me disse que continuava odiando a Maria Antonieta, mas que tinha gostado muito da personagem do meu filme. Para os franceses, é um assunto cheio de emoções, mas para mim ela é apenas uma personagem da história, que eu li mais a respeito e achei fascinante. O que me surpreendeu foi que a imprensa só falou sobre a vaia, o filme agora está rotulado como "o que foi vaiado em Cannes".

Você acha que o público de Cannes não é o público do filme?

Quem é o público de Cannes? Eu não faço idéia. Sei que há críticos de cinema do mundo inteiro, e a crítica foi muito dividida, tem gente que adora e gente que odeia, e também tem gente que gosta de algumas coisas e não de outras. Não fiz o filme pensando em nenhum público específico, mas espero que as meninas gostem. Sempre faço os filmes pensando no que eu gostaria de ver, e sei que tenho um gosto meio diferente, então a reação das pessoas é sempre uma surpresa, seja para o bem ou para o mal.

Diferente como?

Gosto de coisas não usuais, não comuns e muito pessoais. Não sou fã do cinema americano atual, que tem essa necessidade de explicar tudo o que acontece o tempo inteiro. Gosto de filmes que deixam perguntas sem respostas.

A sua Maria Antonieta tem muito em comum com a personagem do seu filme anterior, "Encontros e Desencontros", as duas são jovens que não têm muito que fazer, estão em um país estranho, são casadas com homens que não lhes dão a mínima, parecem meio perdidas no mundo. Foi de propósito?

Nunca tinha pensado nisso, mas você tem razão. As duas estão procurando alguma coisa por que se apaixonar. Talvez a personagem de "Encontros e Desencontros" viva apenas parte da trajetória da Maria Antonieta, que vira uma adulta no curso do filme.

Você se identifica com isso também?

Claro. Durante um período, não sabia se ia ser atriz, se queria trabalhar com moda, se queria ter uma banda, ou escrever um livro, nem se era mesmo capaz de fazer alguma coisa direito. Não sabia o que eu poderia fazer com a minha vida, e sabia que eu só precisava gostar da coisa e ter algum talento, já que eu não estava destinada a trabalhar em um Starbucks pro resto da vida se não descobrisse a minha paixão verdadeira. Todos os meus filmes refletem alguma coisa pessoal da minha vida. "As Virgens Suicidas" foi feito muito por causa da morte do meu irmão, que aconteceu muito antes, mas que me marcou muito.

O que mudou na sua vida depois do sucesso de "Encontros e Desencontros"?

Bom, eu consegui fazer esse filme, com orçamento muito maior. Comecei a trabalhar nesse roteiro logo depois de "As Virgens Suicidas". Estava procurando uma história que me interessasse e minha mãe me deu o livro da Antonia Fraser, e eu li, adorei e comecei a pensar em adaptar. No meio do caminho achei que era tudo muito complicado, e escrevi "Encontros e Desencontros", que era uma história fictícia, mas baseada no que eu estava sentindo no final do meu casamento com o Spike Jonze. E o sucesso desse filme me fez pensar que eu podia ousar um pouco mais, então voltei a pensar em Maria Antonieta.

Por que decidiu terminar o filme antes do fim da vida da Maria Antonieta, que já é tão curta?

Meus primeiros roteiros iam até a guilhotina, mas achei que ia ter que correr com o resto da história para chegar até lá, já que ela passa vários anos na cadeia antes de ser morta. E o que me interessava mais era o tempo dela em Versalhes, então decidi terminar o filme quando ela é obrigada a deixar o Palácio. Todo mundo sabe como essa história termina, não? Quem não sabe pode procurar nos livros de história, não é um mistério.

*

Escrito por Leonardo Cruz às 11h13 PM

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Pensar o cinema

Pensar o cinema

Dois eventos quase simultâneos nesta noite em São Paulo abrem espaço para pensar o cinema e refletir sobre seu modo de produção.

A partir das 19h, no Espaço Unibanco de Cinema, a jornalista Denise Mota lança "Vizinhos Distantes", uma análise das condições de realização de cinema no Brasil, na Argentina, no Uruguai e no Paraguai. O livro, extensão da tese de mestrado de Denise, aborda as diferentes políticas de incentivos desses países e a inserção das produções nacionais em mercados dominados pelo cinema comercial norte-americano.

O lançamento do livro será seguido por um debate do qual participarão a autora, os distribuidores André Sturm e Adhemar Oliveira e o professor da Unicamp Fernão Ramos. Depois da conversa, haverá uma pré-estréia de "Aura" (foto), do diretor argentino Fabián Bielinsky, o mesmo de "Nove Rainhas" e que morreu precocemente em junho do ano passado.

Pertinho dali, no Cinesesc, a partir das 20h30, acontece a entrega do 1º Prêmio Jairo Ferreira, operação conjunta de cinco revistas nacionais de cinema: as eletrônicas Cinética, Contracampo e Cinequanon e as impressas Paisà e Teorema. A partir da lista de indicados, o grupo de 33 críticos escolherá o melhor longa brasileiro de 2006, o melhor lançamento em cinema, o melhor lançamento em DVD e a melhor mostra de audiovisual.

O nome do prêmio é um tributo ao crítico Jairo Ferreira, que analisou filmes na imprensa paulista dos anos 60 aos 90, com passagens pela "Folha", pelo "Estado de S.Paulo", pelo "Jornal da Tarde" e pelo "São Paulo Shinbum". Jairo morreu há quatro anos e seu trabalho influenciou a formação dos editores e redatores dessas publicações que agora o homenageiam.

Após o anúncio dos vencedores serão exibidos o curta "O Guru e os Guris", dirigido pelo próprio Jairo, e o longa "Cão sem Dono", novo trabalho de Beto Brant ("O Invasor"), ainda inédito no circuito comercial.

As duas iniciativas são alvissareiras, e a lamentar apenas o fato de ocorrerem na mesma noite, quase no mesmo horário.

Escrito por Leonardo Cruz às 1h21 PM

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Brasileiros premiados em Miami

Brasileiros premiados em Miami 

 

O Festival de Miami anunciou na noite deste sábado seus vencedores, e dois filmes brasileiros saíram com prêmios do Gusmán Center, o palco das sessões de gala da mostra.

 

A atriz carioca Carla Ribas recebeu menção especial do júri por sua interpretação como a protagonista de “A Casa de Alice”, de Chico Teixeira. Carla faz sua estréia no cinema como uma manicure e mãe de uma família de classe média-baixa paulistana que aos poucos se mostra em crise, arruinada por pequenas traições. Ao justificar o prêmio, o júri avaliou a performance da atriz como “um retrato realista de uma mulher forte em circunstâncias difíceis”.

 

O outro brasileiro premiado da noite foi “Sonhos de Peixe” (foto), do russo Kirill Mikhanovsky, que recebeu o troféu Heineken Red Star por seu “naturalismo poético”. Exibido na última Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, o longa acompanha o cotidiano e as ambições de um pescador no litoral do Rio Grande do Norte. No palco do Gusmán Center, Kirill dedicou o prêmio aos moradores do vilarejo onde as filmagens foram realizadas e disse esperar que a conquista ajude a viabilizar a distribuição de seu filme no Brasil.

 

Os brasileiros em competição não foram lembrados nos prêmios principais da noite. O grande vencedor na categoria ficção ibero-americana, a principal do festival, foi o filme mexicano “O Violino”, de Francisco Vargas. O longa, história de uma família de músicos de rua no México, já foi exibido no circuito comercial de São Paulo e também premiado na última Mostra de SP. Pela vitória em Miami, receberá US$ 25 mil.

 

Na categoria ficção de outros países, o vencedor foi “Marcas da Vida” (“Red Road”), filme britânico de Andrea Arnold que já havia sido premiado pelo júri no Festival de Cannes do ano passado. “Marcas da Vida”, que estréia no Brasil em 4 de maio, também venceu aqui em Miami o prêmio da federeção internacional de críticos de cinema, a Fipresci. Entre os documentários, o vencedor foi “Banished”, de Marco Williams, sobre um episódio de conflito racial da história americana.

 

O Festival de Miami termina neste domingo, e a lista completa de seus vencedores está disponível aqui.

Escrito por Leonardo Cruz (em Miami) às 11h00 AM

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300: filme ou videogame?

300: filme ou videogame?

300”, o primeiro blockbuster do ano, estreou ontem aqui nos EUA em 3.100 salas, uma enormidade até para os padrões americanos. E, com a estréia, veio uma avalanche de críticas sobre a adaptação de Zack Snyder para a HQ de Frank Miller sobre a histórica batalha de espartanos contra persas na Grécia Antiga.

 

Grosso modo, a megaprodução dividiu a imprensa americana. O site Metacritic, que atribui uma pontuação aos filmes com base nas resenhas publicadas na mídia, deu 53 pontos em 100 possíveis a “300”, com base em 32 análises. Já no site Rotten Tomatoes, que faz o mesmo trabalho, mas com número maior de textos, a cotação do filme subiu para 61.

 

Apesar do resultado ligeiramente favorável ao filme no geral, as opiniões negativas prevalecem entre os grandes jornais e revistas do país. A seguir, um resumo do que de melhor e de pior se falou sobre “300” nestes dias.

 

A FAVOR

 “ ‘300’ é um filme embebido em sangue de sua exuberância artística. Pessoas de todas as idades e sexos não conseguirão resistir a ele.” – Rolling Stone

 

“O diretor Zack Snyder usa seu computador para criar pinturas ferozes, com muita atenção a cada frame, como se fosse um painel feito à mão.” – Seattle Post-Intelligencer

 

“O resultado é um delirante rugido turbinado de um filme que funciona como um ‘Spartacus’ sob efeito de drogas estranhas.” – FilmFour.com

 

CONTRA

“‘300’ é tão violento quanto ‘Apocalypto’ e duas vezes mais estúpido.” – The New York Times

 

“‘300’, mesmo com suas impressionantes imagens de soldados criados por computador, é apenas um épico descartável.” – Salon.com

 

“Imagine um enorme elenco preso em uma série de espetaculares protetores de telas. Poderia ser a Grécia Antiga. Poderia ser o computador de alguém.” – Boston Globe

 

*

 

Este blogueiro está mais com os detratores do que com os admiradores de “300”. A trama é rasa, os personagens são maniqueístas, e as falas são tão impostadas que mais parecem peças de oratória do que diálogos. O aspecto visual do filme realmente impressiona, mas é bem menos original e impactante do que “Sin City”, essa sim uma boa adaptação de HQ de Frank Miller para o cinema. E realmente parece um produto mais feito para o computador (ou videogame) do que para o cinema.

 

Dentro do que seu papel permite, o maligno rei Xerxes, Rodrigo Santoro está bem. Fisicamente transfigurado e com a voz alterada por efeito de computador, ele consegue transmitir a força e a aura de divindade que seu personagem carrega. 300”, cujo trailer segue abaixo, estréia no Brasil no próximo dia 30 de março.

Escrito por Leonardo Cruz (em Miami) às 12h14 PM

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Dois cineastas na multidão

Dois cineastas na multidão

Dois importantes nomes do cinema brasileiro começam a trabalhar nos próximos meses uma versão para as telas de um dos melhores contos de Edgar Allan Poe, “O Homem da Multidão”.

 

Marcelo Gomes, de “Cinema, Aspirinas e Urubus”, e Cao Guimarães, de “Acidente” (foto), irão se reunir para dar forma ao roteiro que transportará para uma cidade brasileira a trama originalmente situada em Londres. O encontro entre os dois acontecerá em Berlim, onde Gomes passará seis meses em um programa de intercâmbio acadêmico, a convite do governo alemão.

 

Para quem não conhece o conto, é a história do narrador que, ao observar a multidão que caminha pelas ruas de Londres, se interessa por um homem em especial e passa a segui-lo em suas andanças pela cidade. Em um texto curto, Allan Poe realizou ao mesmo tempo uma análise sobre os costumes da sociedade londrina em meados do século 19 e um pequeno tratado sobre a solidão humana. Leia um trechinho (a íntegra está disponível aqui):

 

Com a testa na vidraça, estava deste modo ocupado em perscrutar a massa, quando de repente apareceu um rosto (o de um velho decrépito, de uns sessenta e cinco, setenta anos de idade) — um rosto que imediatamente chamou e absorveu toda a minha atenção, por causa da absoluta idiossincrasia de sua expressão. Eu nunca tinha visto nada nem de longe parecido com esta expressão. Lembro bem que a primeira coisa em que pensei, ao avistá-la, foi que Retzch, se a houvesse contemplado, a teria muitíssimo preferido às suas próprias incarnações pictóricas do demônio. Como eu tentasse, durante o breve instante de meu inusitado estudo, formar uma análise daquilo que ela me transmitia, em minha mente despontavam, confusa e paradoxalmente, as imagens de imensa capacidade mental, cautela, indigência, avareza, frieza, maldade, sede sanguinária, triunfo, alegria, terror excessivo, intenso — supremo desespero. Me senti estranhamente desperto, maravilhado, fascinado. “Que história fantástica”, pensei comigo mesmo, “não estará escrita neste peito!” Me veio então um ardente desejo de não perder o homem de vista — de saber mais sobre ele. Vestindo precipitadamente um sobretudo e apanhando meu chapéu e minha bengala, me dirigi para a rua e abri caminho pela multidão na direção que eu o vira tomar; pois ele já tinha sumido. Com alguma dificuldade finalmente o avistei, me aproximei e o segui de perto, mas cautelosamente, de modo a não chamar sua atenção.

 

O filme inspirado em “O Homem da Multidão” será a estréia de Cao na ficção, e o projeto concluirá o que o diretor chama de sua Trilogia da Solidão, integrada ainda pelos documentários “Alma do Osso” e “Andarilho”, este exibido na última Bienal de São Paulo.

 

*

 

“Acidente”, de Cao e Pablo Lobato, teve sua segunda e última exibição na noite de ontem no Festival de Miami. Poema visual formado a partir dos nomes de 20 cidades mineiras, o documentário foi visto por cerca de cem pessoas. Na conversa com o público após a exibição, o diretor falou das motivações para registrar o dia-a-dia dessas cidades e foi questionado por um espectador porque não contara um pouco mais sobre o filme antes da sessão. A resposta de Cao Guimarães: “A obra de arte fala por si só. Ela não precisa ser explicada. E ela se forma de uma maneira diferente na cabeça de cada espectador, que é também um co-autor”.

Escrito por Leonardo Cruz (em Miami) às 10h58 AM

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SP terá sua Festa do Cinema

SP terá sua Festa do Cinema

São Paulo no Cinema. Esse é o nome da promoção que acontecerá na capital paulista no próximo mês de abril, num modelo semelhante ao da Festa do Cinema, realizada anualmente na França. Durante três dias, o público poderá assistir a até nove filmes nas salas da cidade por um valor com um megadesconto.

 

Funcionará assim: em 15, 16 e 17 de abril (domingo a terça), quem comprar uma entrada inteira em uma das salas participantes fará um cartão de sócio com seu nome e RG. Essa carteirinha valerá para nove sessões, em qualquer cinema, durante esses três dias. Com ela em mãos, cada ingresso custará apenas R$ 3.

 

A operação é uma iniciativa do sindicato dos exibidores do Estado de São Paulo, com apoio financeiro da prefeitura, e envolverá o circuito da capital e da Grande SP. São 43 complexos participantes, incluindo Cinemark, Espaço Unibanco, Arteplex, Kinoplex, HSBC Belas Artes, UCI e Playarte. No total, 251 salas. Os últimos detalhes estão sendo acertados, e o programa será anunciada oficialmente até o final deste mês.

 

Segundo Eli Jorge Lins de Lima, presidente do sindicato, se a iniciativa for bem-sucedida, a intenção dos organizadores é ampliar a promoção São Paulo no Cinema para todo o Estado no ano que vem.

 

A expectativa é que se torne um evento anual tradicional como na França, onde 22 edições já foram realizadas e mais de 50 milhões de entradas foram vendidas desde 1985. É uma ação nacional, da qual fazem parte as 5.300 salas de cinema francesas. Que a iniciativa pegue por aqui também.

Escrito por Leonardo Cruz e Lúcia Valentim às 5h40 PM

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Alice através do espelho

Alice através do espelho

 

“A Casa de Alice”, de Chico Teixeira, já havia recebido críticas positivas das revistas especializadas “Screen” e “Variety” e da imprensa alemã, quando exibido numa mostra paralela do Festival de Berlim, no mês passado. Naquela mostra, o filme foi aplaudido ao final de sua sessão oficial e boa parte da platéia ficou para o debate com diretor e elenco.

 

Cena semelhante ocorreu aqui no Festival de Miami na noite desta segunda, quando “A Casa de Alice” teve sua segunda sessão para o público. Assistido por cerca de 160 pessoas, o longa voltou a receber aplausos e segurou metade da platéia para uma conversa com os atores Carla Ribas e Vinicius Zinn e os produtores Patrick Leblanc e Zita Carvalhosa.

 

Estréia na ficção de Chico Teixeira, autor dos documentários “Criaturas que Nasciam em Segredo” e “Carrego Comigo”, o novo filme acompanha a rotina de uma família paulistana de classe média baixa, tendo Alice, a mãe manicure, no centro da ação. Além dela, estão em cena Lindomar, o marido taxista, Jacira, a avó, e os três filhos do casal, Lucas, Edinho e Júnior.

 

Todos vivem num apartamento no centro de São Paulo, onde se passa a maior parte das cenas, nas quais Chico Teixeira aos poucos revela os segredos, as traições e as desavenças de seu núcleo familiar. Para tanto, o diretor adota um registro quase documental, de interpretações naturalistas e sem música incidental. Dialoga esteticamente com “O Céu de Suely”, de Karim Aïnouz, e tematicamente com “O Pântano”, de Lucrecia Martel.

 

Como disse o diretor numa recente entrevista ao UOL Cinema, “é um filme em que não acontece muita coisa”. É sem mostrar “muita coisa”, contido, sem ações mirabolantes, que “A Casa de Alice” se torna um ótimo retrato da vida real no Brasil, no qual estão presentes o individualismo, a cultura machista e as dificuldades financeiras.

 

Num elenco inteiro coeso e bem preparado por Fátima Toledo, a estreante no cinema Carla Ribas (foto) se destaca como Alice ao conseguir traduzir para a tela a solidão, a insatisfação, os desejos e a fúria de sua personagem.

 

“A Casa de Alice” estréia no Brasil neste ano, mas ainda não há uma data exata fechada. Aqui nos EUA, o filme já tem sua distribuição acertada, deve rodar o circuito de festivais e entrar em cartaz no final de 2007, provavelmente outubro. Neste Festival de Miami, o longa de Chico Teixeira disputa na categoria melhor longa ficcional ibero-americano. O resultado será anunciado no sábado à noite e o prêmio principal pagará US$ 25 mil ao vencedor.

Escrito por Leonardo Cruz (em Miami) às 12h28 PM

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Desliguem o Philip Glass

Desliguem o Philip Glass

 

Notas sobre um Escândalo”, que entrou em cartaz ontem no país, é um exemplo de como a música pode prejudicar um filme. O diretor Richard Eyre recorre à trilha instrumental e minimalista de Philip Glass para reforçar a dramaticidade de quase todas as cenas, mas o resultado não poderia ser mais asfixiante.

 

A história da professora inglesa casada que se envolve com um aluno adolescente e que estabelece uma relação de doentia cumplicidade com uma colega mais velha não precisaria da música de Glass, que se sobrepõe à imagem e muitas vezes antecipa desfechos da narrativa.

 

A trilha do compositor americano se torna ainda mais supérflua devido às ótimas interpretações em “Notas sobre um Escândalo”. Muitas vezes, a música serve de muleta para ajudar a resolver cenas em que os atores não dão conta do recado. Não é o caso aqui. Cate Blanchett, a professora adúltera, Bill Nighy, o marido traído, e Judi Dench, a velha cúmplice e carente, são capazes de segurar a tensão dramática a cada momento em que surgem na tela. Mas, em algumas passagens, são ofuscados pela música, tão obsessiva quanto a personagem de Dench.

 

Não é o único caso recente em que a música sobra na tela. Em “Babel”, a trilha de Gustavo Santaolalla é uma ferramenta essencial para o diretor Alejandro Gonzalez Iñárritu intensificar a dor de seus personagens, especialmente o do interpretado por Brad Pitt. É outro exemplo em que o acompanhamento sonoro mais repudia do que cativa, mas em menor escala do que em “Notas sobre um Escândalo”.

 

Para a Academia, no entanto, os dois são modelos a serem seguidos. Santaolalla faturou seu segundo Oscar de trilha sonora no domingo passado por “Babel”, e Glass foi um dos indicados por “Notas sobre um Escândalo”. Para fazer uma experiência, este blogueiro gostaria de assistir a uma versão de “Notas” sem a música. Mas desconfia que, quando lançado, o DVD do filme não terá tal recurso.

 

 

*

 

Mudando de assunto, um rápido aviso. Começou na noite de ontem o Festival Internacional de Cinema de Miami. A abertura, um bom agouro, foi “Black Book”, o filme novo do holandês Paul Verhoeven, do ótimo “Tropas Estelares”. Oito longas-metragens brasileiros participam do festival, e três deles concorrem ao prêmio de melhor filme de ficção ibero-americano. A partir desta segunda, este blogueiro estará em Miami para acompanhar a mostra e escreverá de lá.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h41 AM

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Filmoteca - Evaldo Mocarzel

Filmoteca - Evaldo Mocarzel

O cineasta e jornalista Evaldo Mocarzel estreou como diretor em 1999, com o curta "Retratos no Parque". Desde então voltou-se totalmente ao cinema documental e realizou o curta "À Margem da Imagem" (transformado em longa em 2003) e os longas "Mensageiras da Luz", sobre as parteiras tradicionais do Amapá, "Do Luto à Luta", sobre a Síndrome de Down, e "À Margem do Concreto", documentário sobre os sem-teto e a ocupação de prédios em São Paulo. Este último, prêmio especial do júri e prêmio do júri popular no Festival de Brasília 2005, entra em cartaz em São Paulo nesta sexta-feira. A seguir, Evaldo gentilmente apresenta cinco filmes que mexeram com sua forma de ver o cinema.

*

"Um Homem com uma Câmera" (Dziga Vertov, 1929, lançado em DVD)

Trata-se do maior documentário de toda a história do cinema. Na verdade, não é apenas um documentário, mas um autêntico tratado filosófico sobre as especificidades da linguagem do cinema e, principalmente, sobre o olhar da câmera, capaz de flagrar a essência da realidade sem os psicologismos do caótico olhar humano, por mais que esse último esteja por trás do visor da câmera. "Um Homem com uma Câmera" é também um libelo contra o cinema de ficção lacrimogêneo, contra a banalidade do drama burguês. É ainda um esplendoroso manifesto metalingüístico sobre as possibilidades da montagem, todo pontuado por seqüências antiilusionistas que desnudam o processo de manipulação do próprio cinema. Um filme seminal, realizado em 1929, com uma construção moderníssima que influenciou gerações e ainda influencia novos realizadores.

 

"M – O Vampiro de Dusseldorf" (Fritz Lang, 1931, lançado em DVD)

Primeiro filme sonoro do mestre alemão, é um mergulho na sociedade germânica comandada por um poder paralelo de criminosos e contrabandistas após a Primeira Guerra, que possibilitou a chegada ao poder do nazismo. "M" é um filme pós-expressionista, mas foi fortemente marcado pelo movimento. Sua fotografia contrastada é esplendorosa, sem meios-tons: o que é claro é claro, o que é escuro é nigérrimo. Estamos em busca do lado obscuro da alma humana através de um assassino em série de menininhas, vivido magistralmente por Peter Lorre. Uma das seqüências finais, em que o personagem de Lorre é julgado pelos bandidos, é um dos maiores tesouros dramatúrgicos do cinema mundial.

 

"Diário de um Padre" (Robert Bresson, 1951, lançado em DVD)

Foi o último filme no qual Bresson trabalhou com atores, passando em seguida a trabalhar apenas com modelos, como um pintor. "O Diário de um Padre" é um dos trabalhos mais doloridos do mestre francês, que criou uma nova sintaxe para a linguagem do cinema, pensando a imagem como pintura, e o som, como uma partitura musical. Guru de nomes como Jean-Luc Godard, Abbas Kiarostami, Bruno Dumont e Tsai Ming-liang, Bresson buscava, à maneira de um documentarista, a essência do real em seus filmes de ficção. Ele acreditava numa espécie de revelação, de epifania do real no automatismo dos corpos de seus modelos e em situações aparentemente banais do cotidiano. Bresson levou ao paroxismo as possibilidades do espectador de confeccionar imagens com o próprio imaginário, trabalhando as ações de suas narrativas nas bordas ou fora do quadro cinematográfico. Um artista único cuja obra ainda precisa ser muito estudada pelas novas gerações.

 

"Terra em Transe" (Glauber Rocha, 1967, lançado em DVD)

Um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro e que contaminou cineastas de vários países com seu genial roteiro joyciano, construído como um fluxo de consciência de um personagem em agonia, dividido entre a política e a poesia. Um filme existencialmente político no seu sentido mais visceral. Martin Scorsese e Francis Ford Coppola já declararam que gostam de ver filmes de Glauber quando se sentem em marasmo criativo. Um transe cinematográfico brasileiríssimo e sem precedentes.

 

"O Sacrifício" (Andrei Tarkovski, 1986, lançado em DVD)

Um dos maiores filmes da história do cinema, que focaliza a impotência da arte em modificar a truculência de um regime autoritário. Só resta ao professor de estética vivido por Erland Josephson devanear com cenas de auto-imolação, como também aconteceu em "Nostalgia", do mesmo Tarkovski, em que um personagem lança fogo sobre o próprio corpo numa praça pública. "O Sacrifício" é um passo adiante. Talvez o grande legado desse escultor do tempo, apesar de tanto desencanto. O projeto contou com a ajuda de ninguém menos que Ingmar Bergman, que, admirador de Tarkovski e sensibilizado com sua luta contra o câncer, procurou viabilizar a produção, com direção de fotografia magnífica assinada pelo grande parceiro do mestre sueco: Sven Nykvst. Obra-prima visceral e arrebatadora.

Escrito por Leonardo Cruz às 10h55 AM

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