Ilustrada no Cinema
 

Desliguem o Philip Glass

Desliguem o Philip Glass

 

Notas sobre um Escândalo”, que entrou em cartaz ontem no país, é um exemplo de como a música pode prejudicar um filme. O diretor Richard Eyre recorre à trilha instrumental e minimalista de Philip Glass para reforçar a dramaticidade de quase todas as cenas, mas o resultado não poderia ser mais asfixiante.

 

A história da professora inglesa casada que se envolve com um aluno adolescente e que estabelece uma relação de doentia cumplicidade com uma colega mais velha não precisaria da música de Glass, que se sobrepõe à imagem e muitas vezes antecipa desfechos da narrativa.

 

A trilha do compositor americano se torna ainda mais supérflua devido às ótimas interpretações em “Notas sobre um Escândalo”. Muitas vezes, a música serve de muleta para ajudar a resolver cenas em que os atores não dão conta do recado. Não é o caso aqui. Cate Blanchett, a professora adúltera, Bill Nighy, o marido traído, e Judi Dench, a velha cúmplice e carente, são capazes de segurar a tensão dramática a cada momento em que surgem na tela. Mas, em algumas passagens, são ofuscados pela música, tão obsessiva quanto a personagem de Dench.

 

Não é o único caso recente em que a música sobra na tela. Em “Babel”, a trilha de Gustavo Santaolalla é uma ferramenta essencial para o diretor Alejandro Gonzalez Iñárritu intensificar a dor de seus personagens, especialmente o do interpretado por Brad Pitt. É outro exemplo em que o acompanhamento sonoro mais repudia do que cativa, mas em menor escala do que em “Notas sobre um Escândalo”.

 

Para a Academia, no entanto, os dois são modelos a serem seguidos. Santaolalla faturou seu segundo Oscar de trilha sonora no domingo passado por “Babel”, e Glass foi um dos indicados por “Notas sobre um Escândalo”. Para fazer uma experiência, este blogueiro gostaria de assistir a uma versão de “Notas” sem a música. Mas desconfia que, quando lançado, o DVD do filme não terá tal recurso.

 

 

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Mudando de assunto, um rápido aviso. Começou na noite de ontem o Festival Internacional de Cinema de Miami. A abertura, um bom agouro, foi “Black Book”, o filme novo do holandês Paul Verhoeven, do ótimo “Tropas Estelares”. Oito longas-metragens brasileiros participam do festival, e três deles concorrem ao prêmio de melhor filme de ficção ibero-americano. A partir desta segunda, este blogueiro estará em Miami para acompanhar a mostra e escreverá de lá.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h41 AM

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Filmoteca - Evaldo Mocarzel

Filmoteca - Evaldo Mocarzel

O cineasta e jornalista Evaldo Mocarzel estreou como diretor em 1999, com o curta "Retratos no Parque". Desde então voltou-se totalmente ao cinema documental e realizou o curta "À Margem da Imagem" (transformado em longa em 2003) e os longas "Mensageiras da Luz", sobre as parteiras tradicionais do Amapá, "Do Luto à Luta", sobre a Síndrome de Down, e "À Margem do Concreto", documentário sobre os sem-teto e a ocupação de prédios em São Paulo. Este último, prêmio especial do júri e prêmio do júri popular no Festival de Brasília 2005, entra em cartaz em São Paulo nesta sexta-feira. A seguir, Evaldo gentilmente apresenta cinco filmes que mexeram com sua forma de ver o cinema.

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"Um Homem com uma Câmera" (Dziga Vertov, 1929, lançado em DVD)

Trata-se do maior documentário de toda a história do cinema. Na verdade, não é apenas um documentário, mas um autêntico tratado filosófico sobre as especificidades da linguagem do cinema e, principalmente, sobre o olhar da câmera, capaz de flagrar a essência da realidade sem os psicologismos do caótico olhar humano, por mais que esse último esteja por trás do visor da câmera. "Um Homem com uma Câmera" é também um libelo contra o cinema de ficção lacrimogêneo, contra a banalidade do drama burguês. É ainda um esplendoroso manifesto metalingüístico sobre as possibilidades da montagem, todo pontuado por seqüências antiilusionistas que desnudam o processo de manipulação do próprio cinema. Um filme seminal, realizado em 1929, com uma construção moderníssima que influenciou gerações e ainda influencia novos realizadores.

 

"M – O Vampiro de Dusseldorf" (Fritz Lang, 1931, lançado em DVD)

Primeiro filme sonoro do mestre alemão, é um mergulho na sociedade germânica comandada por um poder paralelo de criminosos e contrabandistas após a Primeira Guerra, que possibilitou a chegada ao poder do nazismo. "M" é um filme pós-expressionista, mas foi fortemente marcado pelo movimento. Sua fotografia contrastada é esplendorosa, sem meios-tons: o que é claro é claro, o que é escuro é nigérrimo. Estamos em busca do lado obscuro da alma humana através de um assassino em série de menininhas, vivido magistralmente por Peter Lorre. Uma das seqüências finais, em que o personagem de Lorre é julgado pelos bandidos, é um dos maiores tesouros dramatúrgicos do cinema mundial.

 

"Diário de um Padre" (Robert Bresson, 1951, lançado em DVD)

Foi o último filme no qual Bresson trabalhou com atores, passando em seguida a trabalhar apenas com modelos, como um pintor. "O Diário de um Padre" é um dos trabalhos mais doloridos do mestre francês, que criou uma nova sintaxe para a linguagem do cinema, pensando a imagem como pintura, e o som, como uma partitura musical. Guru de nomes como Jean-Luc Godard, Abbas Kiarostami, Bruno Dumont e Tsai Ming-liang, Bresson buscava, à maneira de um documentarista, a essência do real em seus filmes de ficção. Ele acreditava numa espécie de revelação, de epifania do real no automatismo dos corpos de seus modelos e em situações aparentemente banais do cotidiano. Bresson levou ao paroxismo as possibilidades do espectador de confeccionar imagens com o próprio imaginário, trabalhando as ações de suas narrativas nas bordas ou fora do quadro cinematográfico. Um artista único cuja obra ainda precisa ser muito estudada pelas novas gerações.

 

"Terra em Transe" (Glauber Rocha, 1967, lançado em DVD)

Um dos filmes mais importantes do cinema brasileiro e que contaminou cineastas de vários países com seu genial roteiro joyciano, construído como um fluxo de consciência de um personagem em agonia, dividido entre a política e a poesia. Um filme existencialmente político no seu sentido mais visceral. Martin Scorsese e Francis Ford Coppola já declararam que gostam de ver filmes de Glauber quando se sentem em marasmo criativo. Um transe cinematográfico brasileiríssimo e sem precedentes.

 

"O Sacrifício" (Andrei Tarkovski, 1986, lançado em DVD)

Um dos maiores filmes da história do cinema, que focaliza a impotência da arte em modificar a truculência de um regime autoritário. Só resta ao professor de estética vivido por Erland Josephson devanear com cenas de auto-imolação, como também aconteceu em "Nostalgia", do mesmo Tarkovski, em que um personagem lança fogo sobre o próprio corpo numa praça pública. "O Sacrifício" é um passo adiante. Talvez o grande legado desse escultor do tempo, apesar de tanto desencanto. O projeto contou com a ajuda de ninguém menos que Ingmar Bergman, que, admirador de Tarkovski e sensibilizado com sua luta contra o câncer, procurou viabilizar a produção, com direção de fotografia magnífica assinada pelo grande parceiro do mestre sueco: Sven Nykvst. Obra-prima visceral e arrebatadora.

Escrito por Leonardo Cruz às 10h55 AM

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O infiltrado em Hollywood

O Oscar de melhor roteiro adaptado para "Os Infiltrados" voltou a atenção da mídia americana a um roteirista que era quase desconhecido até um ano atrás. William Monahan é o autor que adaptou para Boston a trama policial encenada em Hong Kong no original "Conflitos Internos".

Seu trabalho rendeu dez prêmios, incluindo a estatueta conquistada no domingo, e o escritor virou o namoradinho de Hollywood. Mal encerrada a cerimônia, dois novos projetos envolvendo esse americano de 46 anos, romancista e ex-jornalista, foram anunciados, um com Leonardo DiCaprio, outro com Martin Scorsese.

DiCaprio e Monahan estarão juntos em “Confessions of Pain”, segundo informa a “Hollywood Reporter”, mais um remake de um filme policial de Hong Kong (sim, os americanos continuam a explorar a mina de ouro). O original, lançado no ano passado, teve Alan Mak e Andrew Law na direção e Tony Leung no elenco, mesmo time de “Conflitos Internos”. DiCaprio, que deve interpretar um investigador de polícia na refilmagem, será também um dos produtores. Ainda não há diretor definido.

Com Scorsese, William Monahan fará “Long Play”, filme definido pela “Variety” como um “épico do rock ‘n’ roll”, que acompanha a relação de dois amigos na indústria fonográfica ao longo de 40 anos. Para apimentar um pouco a história toda, a produção será de Mick Jagger (e sua Jagged Films), com quem Scorsese trabalha atualmente em um documentário sobre os Rolling Stones.

Tudo isso sem falar nos projetos em que o roteirista já estava envolvido antes do Oscar. Neste momento, Monahan e Scorsese estudam um novo filme sobre “Os Infiltrados”, e o autor já entregou um roteiro para “Penetration”, próxima direção de Ridley Scott (os dois haviam trabalhado juntos em “Cruzada”). Além disso, o roteirista prepara o texto de “Marco Polo”, em que Matt Damon deve interpretar o personagem histórico, e, segundo o IMDB, escreve o roteiro de “Jurassic Park 4”. Como o cara consegue tocar tantos projetos ao mesmo tempo? Seu discurso no Oscar dá uma pista: “Valium funciona!”

Escrito por Leonardo Cruz às 8h17 AM

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A voz de uma nação

A voz de uma nação

A colaboradora de Paris Patrícia Klingl escreve sobre "La Vie en Rose", biografia da cantora francesa Edith Piaf. O filme, que abriu o 57º Festival de Berlim, tem sua estréia no Brasil prevista para 27 de abril.

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La Vie em Rose, por Patrícia Klingl

O que faz a diferença entre uma cantora popular e a voz de uma nação? Olivier Dahan tenta responder a essa pergunta em seu mais recente filme, "La Vie en Rose", uma biografia da lendária cantora francesa Edith Piaf.

Filha de um acrobata de circo e de uma cantora de rua, Edith teve uma infância difícil no bairro parisiense de Belleville. Aos quatro anos, abandonada pelos pais, foi viver com a avó paterna num bordel da Normandia. Adolescente, de volta a Paris, começou a cantar nas ruas, até ser descoberta pelo proprietário de um cabaré nos Champs-Elysées. Batizada por ele de "la môme Piaf" (que em gíria quer dizer "pardalzinho", devido a seu aspecto frágil), a cantora começaria a ter ali o reconhecimento de seu talento. Contudo não deixaria de conhecer a decadência e o sofrimento, que culminariam na sua morte precoce aos 47 anos.

Dahan não conta a história da cantora de forma linear. Sua opção foi apresentar fragmentos desconexos, que ao final ajudam a compor um personagem fascinante. Dessa forma, ele não escolhe um momento determinante de sua vida e contorna o que poderia transformar o filme em um grande melodrama.

"La vie em rose" entra para a lista dos filmes que retratam cantores símbolos de uma geração, como os premiados "The Doors", "Ray", e "Johnny e June". Todos estes filmes têm em comum a enorme capacidade de transformação de seus atores nos personagens fortes que representam.

O papel de Piaf coube à jovem atriz Marion Cotillard (de "Um Bom Ano", de Ridley Scott, "Eterno Amor", de Jean-Pierre Jeunet, e "Peixe Grande", de Tim Burton). A atriz soube encarnar toda fragilidade física e instabilidade emocional da cantora francesa. Bastante elogiada pelos críticos, Cotillard já é forte candidata ao prêmio de melhor atuação no César 2008.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h18 PM

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Venceu o melhor, de hoje e de ontem

Venceu o melhor, de hoje e de ontem

 

“Estar aqui no ano em que Martin Scorsese recebe o Oscar é um prazer tão grande! Tão grande!” A frase, do produtor Graham King ao receber o prêmio de melhor filme por “Os Infiltrados”, foi a que mais bem definiu o desfecho do Oscar 2007. Quando Steven Spielberg, George Lucas e Francis Ford Coppola subiram juntos ao palco para entregar a estatueta de direção, ficou claro que o jejum acabara e este finalmente era o ano de Scorsese, amigo dos três e indicado pela sexta vez ao prêmio.

 

Sim, a grande onda que se formava nos últimos dias arrebentou na costa de Los Angeles, e “Os Infiltrados”, de Martin Scorsese, saiu como o grande vencedor da noite, com quatro estatuetas. Além de melhor filme e direção, faturou também roteiro adaptado e montagem, prêmio que levou Martin às lágrimas durante o discurso de agradecimento de sua parceira Thelma Schoonmaker.

 

Se o Oscar 2007 teve em Scorsese sua grande estrela, a palavra de ordem da noite foi “diversidade”. Um negro foi escolhido melhor ator, uma lésbica venceu canção, e outra apresentou a cerimônia. E os resultados confirmaram em parte o que as indicações já apontavam: a internacionalização do prêmio. Das 26 estatuetas entregues no teatro Kodak, 10 foram para não-americanos, incluindo o prêmio honorário para Ennio Morricone, que fez um belo discurso em italiano com direito à tradução quase simultânea e quase literal de Clint Eastwood. E essa conta não inclui os dois principais prêmios, concedidos a uma refilmagem de uma produção de Hong Kong.

 

Mas a internacionalização teria sido maior se o êxito dos mexicanos tivesse sido confirmado. “Babel”, que concorria em seis categorias, ficou apenas com o Oscar de trilha sonora, para o argentino Gustavo Santaolalla. E “O Labirinto do Fauno”, que conquistou três estatuetas logo na primeira metade da cerimônia, perdeu a mais importante, de filme estrangeiro, para o alemão “A Vida dos Outros”, numa das poucas zebras (ou quase-zebras) da noite.

 

Falando em quase-zebras, a justa vitória de Alan Arkin como coadjuvante foi uma delas. E a derrota de Eddie Murphy foi um dos fracassos do enfadonho “Dreamgirls”, que será lembrado como o musical que não conseguir ganhar nem melhor canção, mesmo tendo feito três dos cinco indicados.

 

Ellen DeGeneres, a apresentadora, acertou uma ou outra piada, fez Spielberg tirar uma foto dela com Clint, deu um roteiro a Scorsese. Foi pouco. E fez sentir saudades do humor politicamente incorreto e muito mais anárquico de Jon Stewart no ano passado.

 

Mas deixemos a moça de lado, pois o Oscar 2007 foi mesmo de Scorsese. Que tinha o melhor filme entre os cinco na disputa e apenas por isso já merecia o prêmio. Mas venceu com uma obra muito inferior às que fizeram seu nome nos anos 70 e 80. A Academia, no fim das contas, também premiou Martin para corrigir injustiças passadas.

 

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A lista completa dos vencedores do Oscar está na Ilustrada Online. Leia mais sobre o Oscar também na versão impressa da Ilustrada desta segunda.

Escrito por Leonardo Cruz às 2h28 AM

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Oscar sem cortes

Oscar sem cortes

Já está virando tradição. Como o ano passado, a Globo transmite o Oscar... retalhado. Apesar de a cerimônia começar às 22h30, a rede de TV aberta entra no ar apenas às 23h15, depois de "Fantástico" e "Big Brother". E depois de algumas estatuetas já estarem com seus donos. Para os felizes proprietários de TV paga, a TNT é a saída, com comentários de Rubens Ewald Filho, a partir das 22h. Quem não for fã de Rubens Ewald, há ainda outra opção: colocar a TV na tecla SAP para ter o som original e ligar o rádio na BandNews FM (96,9 em SP), onde o crítico da Folha Sérgio Rizzo comentará a premiação.

Este blogueiro, que acha que este é o ano de "Os Infiltrados" e de Scorsese, volta na madrugada para comentar o resultado. Até lá.

Escrito por Leonardo Cruz às 7h19 AM

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O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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