Ilustrada no Cinema
 

E o Oscar NÃO vai para... (Parte 2)

E o Oscar NÃO vai para... (Parte 2)

  

Na segunda parte da enquete "Qual filme NÃO merece o Oscar?", a vida continua dura para Brad Pitt e Cate Blanchett, pois os jornalistas consultados não morrem de amor pelo filme de Iñárritu. Mas, no fim, somando a primeira parte e esta, nenhuma obra passou incólume. Aos comentários:

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Naief Haddad – "Babel": Orson Welles era pretensioso, Godard é. Chaplin também era, assim como Hitchcock. Isso não é um problema quando o talento se iguala à presunção. Ou a supera. E o que pretende o mexicano Iñárritu em "Babel"? A partir de temas contemporâneos, como imigração ilegal e dificuldade de comunicação entre culturas, ele apresenta três histórias, em países diferentes, que acabam se entrelaçando; o vôo alto é por um cinema da globalização. O resultado? Algumas boas idéias prejudicadas por um estica-e-puxa do roteiro para ligar as tramas e uma afetação no trato das imagens e da música. Neste caso, a pretensão foi um tanto além do talento. Numa festa imodesta como o Oscar, o prêmio de melhor filme cairia melhor nas mãos de Scorsese ou Eastwood. 

Leonardo Cruz – "Pequena Miss Sunshine": A saga da Kombi amarela é uma espécie de Portuguesa do cinema: desperta a simpatia de todos e, com certeza, tem o mais baixo índice de rejeição entre os candidatos ao Oscar. Sua fórmula é simples: ótimas piadas, personagens engraçadinhos (pena que o melhor deles morre no meio) e um desfecho para deixar a platéia feliz da vida. Mas, no fim das contas, não passa de uma versão mais longa de uma boa sitcom, dessas que se multiplicam na TV paga. É como se dessem o Oscar para "A Grande Família - O Filme" ou para um longa-metragem de "Friends". Os fãs que me perdoem, mas não faz nenhum sentido.

Ricardo Calil – "Babel": Por apresentar uma moral cristã fatalista e antiquada (em que um Deus pune os homens com uma série de tragédias desproporcionais a seus pecados) e uma visão perversa e entreguista da globalização (americanos e japoneses sofrem com as cagadas de mexicanos e marroquinos - estes, quando não fazem na entrada, fazem na saída).

Sandro Macedo – "Babel": Há tempos o Oscar principal não estava tão equilibrado. É possível justificar o prêmio para qualquer um dos indicados, até para "Pequena Miss Sunshine", que começou a corrida como azarão e está num ótimo sprint final. No entanto, apesar de apresentar algumas qualidades, "Babel" é o trabalho mais fraco da dupla Iñárritu (o diretor)/Arriaga (o roteirista). Espero que eles ganhem... em outro ano, com um filme melhor.

Sérgio Dávila – "Babel", "A Rainha" e "Cartas de Iwo Jima": Com exceção de "Os Infiltrados", não o melhor, mas um dos grandes filmes da carreira de Martin Scorsese, e "Pequena Miss Sunshine", que prova ainda ser possível fazer um filme barato e simples apenas com um bom roteiro, uma direção segura e um elenco sem estrelas mas afiado, o resto nem merecia estar na categoria. "Babel" é de uma pretensão que não encontra eco no resto da trilogia de Iñárritu; "A Rainha", convenhamos, é um telefilme metido a besta; e "Cartas de Iwo Jima" é um belo filme, mas não o melhor de Clint Eastwood nem se o critério for "longas do diretor já indicados ao Oscar".

Cássio Starling Carlos – "Babel": A pose de indignação conduz o cinema discursivo de Iñárritu neste que disputa com "Crash" o lugar de um dos filmes mais insuportáveis dos últimos anos. A necessidade de submeter o espectador à demonstração de uma idéia inequívoca abole qualquer espaço para o uso de nossa inteligência. Iñárritu manipula os recursos elementares da linguagem, como a montagem paralela, para criar uma impressão de conexão, pior, de causa-efeito entre os três núcleos dramáticos do filme. Esse cinema de tese, a despeito de sua inventividade para a época, já havia sido avaliado com reservas quando Griffith lançou mão dele em "Intolerância" em... 1916. Mas o pior em "Babel" é o tipo de interpretação que o filme sugere de seus personagens. Enquanto retrata árabes, japoneses e mexicanos como tipos no mínimo irresponsáveis de seus atos, os americanos ocupam inequivocamente o lugar de vítimas (seja como turistas no Marrocos, seja como crianças se divertindo numa festa de casamento mexicana). A pretensão multicultural se dilui neste reducionismo, mas os olhos míopes de Hollywood devem ver "Babel" como exemplo máximo de filme engajado. Numa época em que muitos filmes voltam a confundir política com populismo, Iñárritu corre um grande risco de na próxima segunda-feira estar sorridente em sua casa lustrando seu troféu, graças à coragem de "denunciar as injustiças do mundo".

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E para você? Qual filme não merece o Oscar?

Escrito por Leonardo Cruz às 12h04 PM

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E o Oscar NÃO vai para...

E o Oscar NÃO vai para...

Quem ganhará o Oscar? Quem merece levar o prêmio de melhor filme? Tais perguntas são as mais freqüentes nesta época do ano, e todo jornal, revista, site, blog e fanzine de colégio já apresentou suas apostas para o domingo. Assim, esta coluna eletrônica resolveu fazer o caminho contrário e lançou a pergunta: Quem NÃO merece ganhar o Oscar? Como o semblante de Brad Pitt já entrega, o resultado foi um massacre contra "Babel", rejeitado pela maioria dos jornalistas consultados. A seguir, cinco repórteres e críticos da Folha espinafram seus desafetos.

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Pedro Butcher – "Babel": É verdade que a boa direção de Alejandro González Iñárritu evita um resultado tão constrangedor quanto o vencedor do ano passado ("Crash"). Mas os dois filmes seguem exatamente a mesma lógica: põem em cena uma pequena multidão de personagens pobremente desenvolvidos, escravos de um roteiro com uma tese. Para que essa tese funcione, eles são "forçados" a tomar decisões estúpidas e absolutamente ilógicas. Pouco importa, porém. O que vale, apenas, é a engrenagem de uma história dispersa e supostamente "profunda", mas na verdade tola e superficial.

Sérgio Rizzo – "A Rainha": Está certo que o Oscar não é parâmetro de criação artística, e sim ferramenta de divulgação da indústria, mas os outros quatro concorrentes têm algo que os diferencie claramente do ramerrão atual. "A Rainha" faz muito bem aquilo a que se propõe, mas aquilo a que se propõe, com todo o respeito e a reverência à liturgia dos cargos públicos envolvidos, parece muito convencional diante do que oferece, por exemplo, "Cartas de Iwo Jima".

Inácio Araujo – "Babel": Este é o tipo de filme "poeira nos olhos", que nos engana usando certos artifícios (p. ex.: as histórias passadas em várias partes do mundo e se comunicando entre si, apesar de todos os tipos de distância) e apelando a certos recursos (ex.: mostrar os EUA como rejeitados pelo resto do mundo) que reconhecemos como "inteligentes". É o tipo de filme sem talento e mau caráter. Como, além do mais, é dirigido por um estrangeiro, tem tudo para ganhar.

Amir Labaki – "Os Infiltrados": Quantos filmes de gânsgsters melhores o próprio Scorsese já dirigiu? O que "Os Infiltrados" nos mostra do submundo norte-americano que já não vimos com maior complexidade em filmes dele próprio? Qual a originalidade da visão de mundo apresentada pelo filme? Quem duvida que "Babel" é mais urgente, "Pequena Miss Sunshine" mais coeso, "Cartas de Iwo Jima" mais denso, "A Rainha" mais sutil?

Bruno Saito – "Babel": É tão "filmaço" quanto o vencedor do ano passado ("Crash"). Consegue ser igualmente cretino na estrutura desgastada do roteiro de histórias interligadas e na lição de moral pedante. No final das contas, consegue ser apenas racista, já que investe em idéias/símbolos de estereótipos nacionais. O pior de tudo é que o conjunto acaba se passando por profundo.

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Ainda hoje no blog, a malhação continua, com a opinião dos outros jornalistas consultados. E o que você acha? Qual filme não merece o Oscar?

Escrito por Leonardo Cruz às 7h45 AM

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Scorsese e seu tsunami

Scorsese e seu tsunami

Uma enorme onda tomou forma no mar que banha Los Angeles e está pronta para arrebentar na praia. Chama-se "Os Infiltrados". Sites e blogs americanos que acompanham o Oscar e fazem suas previsões começam a afirmar, mais enfaticamente, que o filme de Martin Scorsese será o vencedor na noite de domingo. E já cravam que o cineasta, em sua sexta indicação, finalmente receberá a estatueta de melhor diretor.

Exemplos não faltam: a "Entertainment Weekly", que até o início de fevereiro dava um ligeiro favoritismo a "Pequena Miss Sunshine", agora coloca "Os Infiltrados" na frente. O blog "The Envelope", do "Los Angeles Times", fez o mesmo e passou ao topo o filme de Scorsese, na média de opiniões de seus 12 especialistas.

Pelo menos em teoria, esses jornalistas não são chutadores profissionais. Têm fontes e conversam com quem vota no Oscar. E daí tentam captar a onda que se aproxima. Então a questão está resolvida? Mais ou menos. Esses mesmos especialistas não foram capazes de identificar a surpresa "Crash" no ano passado e todos eles juraram que "Dreamgirls" estaria entre os indicados a melhor filme neste ano.

O caráter científico de tais previsões é tão exato que é melhor, como fez o blog Cinematical, recorrer a especialistas, digamos, alternativos. No ano passado, o site apontou as previsões de uma tarântula chamada Klaus, que acreditava na vitória de "Munique". Neste ano, um dos autores do blog colocou os nomes dos indicados dentro de um chapéu e pediu aos filhos que sorteassem.

De acordo com os pequenos, "Cartas de Iwo Jima" será o melhor filme, Stephen Frears, o melhor diretor, Judi Dench, a melhor atriz, e Ryan Gosling, o melhor ator. Simples, não?

Escrito por Leonardo Cruz às 4h03 PM

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E o Oscar foi para...

E o Oscar foi para...

Passado o Festival de Berlim (e o Carnaval), as atenções do blog se voltam ao Oscar, que acontece no próximo domingo. Mas antes das habituais especulações e previsões equivocadas, um pouco de nostalgia. Desenterrado do YouTube, um vídeo que relembra todos os vencedores do prêmio principal da Academia, desde 1927, ao som do "Bolero" de Ravel. Além de refrescar a memória, serve para mostrar como Hollywood já entregou a estatueta para alguns filmes apenas razoáveis, como "Coração Valente" e "Shakespeare Apaixonado". Conforme o curta avança, serve também para mostrar como o cinema continua sendo um reflexo de sua época, social e esteticamente, vide a vitória de "Perdidos na Noite" em 1969 e a de "Crash" no ano passado. Divirta-se.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h07 AM

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O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.

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