“Vamos celebrar as novas produções brasileiras! Curta a música, a atmosfera e o gosto da autêntica caipirinha!” É esse o texto do convite para a festa brasileira em Berlim, que acontece neste sábado, a partir das 23h, no Palais Veranstaltungs, diz o flyer, todo escrito em inglês. Uma setinha apontando para o cartaz de “Antônia”, com seu quarteto de protagonistas, sinaliza que vai haver “show musical com as atrizes/cantoras”. As Antônias prometem abalar Berlim. Aliás, deixaram bem clara sua disposição já na festa de abertura do festival, na quinta à noite, protagonizando uma cena que o diretor-executivo da Globo Filmes, Carlos Eduardo Rodrigues, filmou em seu celular e promete colocar no Youtube.
Foi assim (como contou Rodrigues, em outra festa, ontem, na Embaixada do Brasil, oferecida às equipes dos quatro filmes brasileiros que participam do festival): a banda alemã oficialmente contratada para animar os convidados cantava standards dos 70. As Antônias ferviam na pista. Sabe aquele momento em que o vocalista da banda resolve tornar o show mais interativo e aproxima o microfone de uma pessoa do público que aparenta muita animação? Pois é, aconteceu que a band leader alemã apontou o microfone exatamente na direção das meninas do Brasil, que não pestanejaram _tomaram posse do show, subindo ao palco e cantando três músicas, inclusive “Antônia”, o tema do filme de Tata Amaral protagonizado por elas.
Ontem, na residência do embaixador, as moças rodearam o piano e cantaram desde música de serenata até bossa nova, na maior animação. Tata Amaral acompanhou a cantoria. Estava felicíssima com a primeira sessão de “Antônia” em Berlim, que ocorreu às 17h de sexta, inaugurando a mostra Generation 14Plus. O cinema estava abarrotado de gente, e Tata abriu o coração para a platéia alemã _contou que o filme estreava no Brasil naquele mesmo dia e que ela esperava que as salas estivessem tão lotadas lá como cá. Circulando pelo jantar na embaixada brasileira, o diretor Paulo Caldas, de “Deserto Feliz”, aproveitava para distribuir outro convite _para a festa exclusiva de seu filme, no dia 15. Vai ser no Bar KMS36, que vem a ser na Karl Marx Allee 36.
Daniel Rezende, o montador de “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias”, que também é DJ ocasional, avisou que não vai poder tocar na festa deste sábado. “Só trouxe o meu Ipod. Não tenho mais nada aqui.” É pena, mas, se depender do pique das Antônias, ninguém vai reclamar. Da música, pelo menos. Quanto à caipirinha, é melhor os organizadores garantirem o gelo necessário a consumidores exigentes. Muito discretamente, no salão da embaixada, ontem, ouviam-se comentários de que caipirinha sem gelo, francamente, não dá!
Escrito por Silvana Arantes (em Berlim) às 9h23 AM
Alerta cinéfilo! Se você está em São Paulo e pretende ir ao Cinesesc neste final de semana para assistir aos filmes de John Cassavetes, chegue cedo. A mostra com cinco filmes do fundador do cinema independente americano começou hoje e já teve bom público em suas duas primeiras sessões.
Não que o Cinesesc estivesse lotado (longe disso), mas tinha muito mais gente para ver "Sombras" (foto) e "Faces" do que costuma aparecer nas sessões vespertinas da sala da rua Augusta. Sinal da importância do diretor e da diferença que faz ter filmes raros exibidos no cinema, em película.
Para quem está se programando, daqui a pouco tem "Uma Mulher sob Influência", às 19h, e "A Morte de um Bookmaker Chinês", às 21h50. A programação completa do ciclo, que acontece até a próxima quinta, está aqui.
Um dos principais nomes do cinema marginal brasileiro, Ozualdo Candeias morreu nesta tarde. Aos 88 anos, estava internado havia uma semana no Hospital Brigadeiro em São Paulo. Sofria de câncer de próstata.
Em seu filme de estréia, "A Margem" (1967, foto), o diretor já deixava claro os elementos que marcariam sua obra: o foco nos excluídos, a produção de recursos mínimos e o interesse pela vanguarda, pelo experimental. O restante de sua obra, concluída em 1992 com "O Vigilante", confirma esse repertório temático e estético.
Atualmente, pouca gente conhece a obra de Candeias. Seus filmes não estão em DVDs e raramente eram reexibidos nos cinemas (exceção para a retrospectiva de 2002 com seus 32 longas no CCBB paulistano). É um cineasta que precisa ser descoberto.
Uma boa porta de entrada para compreender melhor sua importância é o documentário "Candeias: Da Boca pra Fora", de Celso Gonçalves, disponível na íntegra no site Porta-Curtas. Outro caminho é o site sobre o cineasta, organizado por Eugênio Puppo, com biografia, análises dos filmes, ensaios e depoimentos. A terceira alternativa, que acabo de saber, é a melhor de todas. O Canal Brasil fará, a partir de segunda-feira, um ciclo em homenagem ao diretor.
A cineasta Tata Amaral é diretora de importantes títulos do curta-metragem brasileiro, como o premiado "Viver a Vida" (1991). Sua estréia no longa-metragem aconteceu em 1996, com o ótimo "Um Céu de Estrelas", eleito em pesquisa da Folha como um dos três filmes mais importantes daquela década. Assina ainda "Através da Janela" (2000), longa vencedor de dez premiações no Brasil e no exterior, incluindo cinco prêmios de melhor atriz para Laura Cardoso, videodocumentários (como "VinteDez", de 2001) e videoinstalações (como "Ecos", de 2003). Sua mais recente produção é "Antônia", que entra em cartaz nesta sexta e cujo trailer está no final deste post. A seguir, ela lista seus filmes favoritos.
Filme integralmente passado na sala de um júri. Assisti na televisão, nos início dos anos 80. A sequência inicial, se não me falha a memória, traz um juiz orientando os jurados, que acabam de ouvir os argumentos da defesa e da acusação. Pede ao júri _composto por Henri Fonda e grande elenco_ que se recolha para deliberar com ponderação e justiça e que tenha em mente que podem absolver um assassino ou condenar à morte um inocente. Nesse momento, tarde da noite, eu decidi: no primeiro flashback, desligo a televisão e vou dormir. Não desliguei até o final. A partir dessa experiência, descobri que um bom cinema pode se fazer com um bom roteiro, bons atores e boa direção.
Impossível esquecer Belmondo acariciando os lábios grossos, chapéu jogado para trás. A liberdade da decupagem e da narrativa, no filme, são um marco do cinema contemporâneo. O filme, que conheci nos anos 70, me trouxe a idéia de contemporâneo, moderno, atual.
"Rota ABC" (Francisco Cesar Filho, 1991, assista aqui)
Nunca um filme foi tão simples e tão belo. Inesquecível a cena dos meninos descendo a Serra do Mar de carrinho de rolimã. Ao lado de "Ilha das Flores", um dos maiores curtas-metragens brasileiros.
A estrutura do filme, em dez episódios de histórias dentro de um carro, me deixou chocada. Saímos do cinema, o professor Jean-Claude Bernardet e eu, em tal estado de excitação que não conseguíamos ir para casa, antes de falarmos das nossas impressões do filme.
O Festival de Berlim começa hoje com quatro longas brasileiros em exibição. "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger, é o primeiro filme do país a disputar o Urso de Ouro desde que "Central do Brasil", de Walter Salles, levou o troféu, em 1998. "Antônia", de Tata Amaral, abre a mostra paralela Generation 14 Plus, voltada ao público jovem. "Deserto Feliz", de Paulo Caldas, e "A Casa de Alice", de Chico Teixeira, integram a seção Panorama.
Para levar para casa o cobiçado ursinho, "O Ano" terá de superar 21 concorrentes, e só gente grande. Serão exibidos os novos filmes de François Ozon, Robert de Niro, Jacques Rivette, Stephen Soderberg, entre outros cineastas de respeito.
Ao longo dos próximos dias, a repórter Silvana Arantes, enviada especial da Folha a Berlim, contará aqui no blog (e no jornal também, claro) algumas boas histórias do festival alemão. Fique atento.
Neo, Trinity e o agente Smith escolheram um novo palco para seus duelos futuristas: a laje de um dos prédios do Crusp, o conjunto residencial da Universidade de São Paulo. Os três personagens são os protagonistas de "Matrix: Baixo Orçamento", curta que já foi visto mais de 28 mil vezes desde que entrou no YouTube em novembro último. Não, não tem Keanu Reeves. Ele foi trocado por Bruno Sauer. Quem? E ao fundo aparece a paisagem do bairro paulistano do Butantã.
Com quase três minutos, o filmete é na verdade um trabalho de cinco alunos do curso de Audiovisual da ECA para uma disciplina que pedia a refilmagem de uma cena. Além de fazer a lição de casa, os estudantes da ECA criaram um pequeno portal no YouTube para desovar sua produção. Ou seja, uma idéia simples e boa. Já são 25 filmes por lá, com releituras de trechos de "Grease", "Os Normais" e até "Blow Up". No total, somados, foram vistos cerca de 100 mil vezes.
Como diz Jotagá Crema, um dos cinco autores de "Matrix: Baixo Orçamento", as produções "são cruas e tecnicamente primitivas". É verdade. É tudo meio tosco mesmo, mas não deixa de ser curioso. Para quem quiser conferir, aqui vai o
link para o miniportal do Audiovisual 2006. E, a seguir, a versão uspiana da obra dos irmãos Wachowski.
A obra ficcional do cineasta polonês Krzysztof Kieslowski é bastante difundida no Brasil. Seus trabalhos fundamentais _"Decálogo", "A Trilogia das Cores" e "A Dupla Vida de Véronique"_ entraram em circuito comercial ou foram exibidos em mostras e festivais a partir dos anos 80. Nos próximos meses, o Kieslowski documentarista chega ao Brasil. Os filmes não-ficcionais do diretor serão o foco da retrospectiva internacional do É Tudo Verdade, principal festival de documentários do país.
Serão mais de dez filmes (o número exato não está definido ainda, mas eu apostaria em cerca de 15), entre curtas e médias-metragens, como "Da Cidade de Lodz" (1968) e "Curriculum Vitae" (1975, foto). Morto em 1996, o diretor polonês concentrou sua carreira na produção documental até o início dos anos 80, quando passou a se dedicar quase integralmente à ficção. Entre 1966 e 1988, Kieslowski assinou 22 docs, com foco, sobretudo, na rotina dos trabalhadores poloneses.
O É Tudo Verdade acontece em março e abril, em quatro cidades do país. Em São Paulo, vai de 22/3 a 1º/4; no Rio, de 23/3 a 1º/4; em Brasília, de 3 a 15/4; e em Campinas, de 9 a 15/4. Em sua 12ª edição, o festival apresentará, além dos filmes de Kieslowski, competições nacionais e internacionais de longas e de curtas, além das mostras paralelas "O Estado das Coisas", "Horizonte", "Foco Latino-Americano" e "Retrospectiva Brasileira". Em São Paulo, durante o evento, acontecerá também a sexta Conferência Internacional do Documentário, um porto de debate sobre a produção no setor.
A colaboradora de Paris Patrícia Klingl escreve sobre "A Vida dos Outros", de Florian Henckel von Donnersmarck, candidato ao Oscar de melhor filme estrangeiro e vencedor do European Film Awards nas categorias filme, ator e roteiro. O filme deve entrar em cartaz no Brasil ainda neste primeiro semestre.
*
"A vida dos outros", por Patrícia Klingl
A história alemã do século 20 é marcada por eventos sombrios, que serviram como fonte de inspiração para grandes filmes. É assim com "A Vida dos Outros", primeiro longa-metragem de Florian Henckel von Donnersmarck.
Em 1984, no centro de detenção da Stasi (Ministério da Segurança de Estado, espécie de DOPS da Alemanha Oriental), o capitão Wiesler (Ulrich Mühe, foto acima) é encarregado de espionar o autor teatral Georg Dreymann (Sebastian Koch). Sua missão, desvendar um inimigo do socialismo, é um pedido pessoal do ministro da Cultura, que na verdade pretende incriminar o dramaturgo para ficar com sua esposa, a atriz Christa Maria Sieland (Martina Gedeck). Como em "Doutor Jivago", de David Lean, uma história de amor serve para tratar da desilusão política em tempos de revolução.
Wiesler instala equipamentos de escuta no apartamento do casal. Escondido no sótão do prédio, ele acompanha tudo o que se passa ali. Ao longo de sua vigilância, o agente descobre algo maior que o envolvimento do escritor em ações clandestinas: ele conhece a arte, a amizade e o amor, mundos até então ignorados por ele. É a partir desse contato que o agente se confronta com o desejo de mudar sua vida e não mais colaborar com o sistema. De informante, o personagem se transforma em protetor.
A escolha do diretor pelo ponto de vista daquele que talvez fosse o personagem de menor empatia faz a história ganhar força. Parte dessa identificação se deve ao ator Ulrich Mühe, que empresta sua fisionomia frágil (e sobretudo a tristeza de seu olhar) a este homem tocado pela vida e pelo amor.
O diretor, que também é roteirista de "A Vida dos Outros", mergulhou nos arquivos da Stasi para preparar seu primeiro filme. Donnersmarck, de apenas 33 anos, formado em filosofia em Oxford e em cinema em Munique, gastou cerca de uma década para preparar este que parece ser um filme de um diretor em plena maturidade.
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.