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Licença para cavar; licença para falar

Fui rever "Cassino Royale" ontem à noite e duas coisas extra-filme me chamaram a atenção.
1) ao assistir na semana passada à grande seqüência de perseguição do início do filme, em Madagascar, tinha achado um tanto esdrúxulo o uso por Bauer, digo Bond, de uma escavadeira para tentar alcançar o fabricante de bombas em fuga. Ontem, tudo ficou claro. Antes de "Cassino Royale" começar, foi exibida uma propaganda do veículo, com o slogan "James Bond dirige a escavadeira X". Até entendo a lógica comercial de usar o cinema para promover a marca A ou a marca B, mas alguma construtora, em sã consciência, vai comprar uma escavadeira só porque é "a escavadeira do 007"? Ou o veículo teria uma "licença especial para cavar"?
2) o colega e crítico Paulo Santos Lima já havia me alertado para isso e ontem pude comprovar. No vídeo de orientações ao público antes do filme, a rede Cinemark pede aos espectadores que, se quiserem conversar durante a projeção, que "falem baixo"! Como assim? Cinema é para ser visto em silêncio, certo?! Não faria mais sentido trocar para algo como "por favor, evite conversar durante o filme"? Infelizmente, o público que freqüenta as salas de shopping, onde a Cinemark está instalada, não é por tradição dos mais silenciosos. Se nem a rede colabora para educar a platéia, o resultado é o que foi visto ontem: além dos já disseminados "uuuuuhuuuuuuuu!!!" e comentários em voz alta nas principais cenas de ação, houve até palmas para Bond nos momentos decisivos. Um pouco demais, não? Ou será que eu sou mal-humorado?
Escrito por Leonardo Cruz às 8h49 AM
Apostas para o Globo de Ouro

Com a lista do Globo de Ouro divulgada na manhã de hoje, o blog Olha Só, de Ricardo Calil, começou uma campanha pró-Scorsese, na torcida pelo diretor de "Os Infiltrados" tanto no Globo de Ouro como no Oscar. Este blog também apóia o movimento e apresenta aqui sua relação de favoritos pessoais, totalmente passional, para o prêmio da Associação de Correspondentes Estrangeiros de Hollywood.
Melhor filme - drama: "Os Infiltrados" (mas "Babel" é um concorrente fortíssimo)
Melhor filme - comédia: "Borat" (mas deve dar "Dreamgirls")
Melhor diretor: Martin Scorsese (mas tem Clint em dose dupla)
Melhor ator - drama: Leonardo DiCaprio em dose dupla
Melhor atriz - drama: Penélope Cruz (mas Helen Mirren, com três indicações, é ultrafavorita)
Melhor ator - comédia/musical: Sacha Baron Cohen
Melhor atriz - comédia/musical: Meryl Streep
Melhor filme estrangeiro: "Letters from Iwo Jima", de Clint Eastwood
E os seus favoritos? Quais são?
Escrito por Leonardo Cruz às 5h14 PM
Convite aos navegantes
Daqui a algumas horas será divulgada a lista de indicados ao Globo de Ouro 2007. Participo de um bate-papo da Folha Online nesta quinta, às 17h, para comentar a relação de escolhidos. Quem estiver à toa na vida e quiser conversar um pouco sobre cinema pode dar uma passadinha lá. Basta entrar na Folha Online.
Escrito por Leonardo Cruz às 11h36 PM
O crédito a quem merece

Terminou com acordo, anunciado nesta tarde, a disputa pela autoria de "O Céu de Suely". Em reportagem na Ilustrada de hoje (leia íntegra aqui), a socióloga Simone Oliveira Lima reivindicava o crédito pelo argumento do filme de Karim Aïnouz _Simone é co-autora do roteiro de "Rifa-me", curta de 2000, também dirigido por Aïnouz, que conta a história de uma jovem cearense que rifa seu corpo para obter dinheiro para comprar uma passagem de ônibus que a leve para longe do sertão. Ou seja, praticamente a mesma trama de "O Céu de Suely".
Em nota enviada ao repórter Mário Magalhães, Simone afirma que não há mais divergências com Aïnouz, que é seu amigo. "Foi uma falta de comunicação, e, quando Karim soube da minha insatisfação, me atendeu prontamente", acrescenta a socióloga. A nota é assinada por Simone e por Aïnouz, que afirma: "Dediquei o filme a Simone e não imaginei que isso lhe chatearia. De qualquer modo, informei que não me oporia, de maneira nenhuma, em lhe dar o crédito solicitado. O que foi feito imediatamente".
Pedido atendido, as cópias em cartaz de "O Céu de Suely" serão alteradas para incluir o nome de Simone Oliveira Lima como co-autora do argumento do filme, ao lado de Aïnouz e de Maurício Zacharias.
Escrito por Leonardo Cruz às 5h34 PM
A aula de história de Silvio Da-Rin

Um dos capítulos mais importantes da ditadura militar no Brasil é agora revisto em um documentário impecável: "Hércules 56", de Silvio Da-Rin, reconstitui o seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick em setembro de 1969 pelos grupos revolucionários Ação Libertadora Nacional e MR-8, que resultou na troca do refém por 15 presos políticos do regime.
O mesmo episódio já fora tratado pelo cinema no ficcional "O que É Isso, Companheiro?", dirigido por Bruno Barreto com base no livro do hoje deputado Fernando Gabeira, participante do seqüestro. Agora, no filme de Da-Rin, o caso é abordado de forma objetiva, com dois eixos centrais que se intercalam: no primeiro, os protagonistas da ação se encontram ao redor de uma mesa para relembrar os preparativos e a execução da empreitada; no segundo, os nove remanescentes dos 15 presos trocados, incluindo o petista José Dirceu, detalham como foram detidos e relatam a viagem ao exílio, para o México, a bordo do Hércules 56 da Força Aérea Brasileira. Da-Rin amarra esses dois eixos com muitas imagens de arquivo e uma narração em off, explicativa, contextualizadora.
Das diferentes opiniões sobre o seqüestro, Da-Rin consegue recuperar com muita competência o espírito da época e obter de seus entrevistados reflexões sobre o impacto daquela ação, de profunda repercussão dentro e fora do país. Tanto ex-seqüestradores quanto ex-prisioneiros da ditadura ponderam, sem consenso, se a luta armada era o caminho a seguir naquele período e se a captura de Elbrick foi estrategicamente correta. Do conflito entre esses depoimentos, o diretor extrai uma aula de história, que merece ser vista e discutida.
"Hércules 56" será exibido hoje, às 20h, no Rio de Janeiro, dentro da mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, que já passou por São Paulo e Brasília e acontece ainda em Recife. O filme de Da-Rin ainda não tem previsão de estréia em circuito comercial.
Escrito por Leonardo Cruz às 10h28 AM
Cinema x Séries de TV

Em ótima entrevista na Ilustrada desta terça, o mestre dos roteiristas americanos Robert McKee analisa o ofício de contar histórias no cinema e chega a algumas interessantes conclusões, que merecem reflexão. Na mais provocadora, McKee afirma que as séries de TV, de produção mais barata, dominarão o futuro da narrativa audiovisual, superando o cinema, que, "como forma de arte, está em grande perigo". Aponta ainda um abuso da reciclagem de temas e histórias por Hollywood e "a ênfase na superfície em relação à substância". Faltam filmes que retratem "a rica complexidade da natureza humana", conclui o autor.
As séries de TV americanas atravessam hoje seu melhor momento, seu apogeu, como afirma McKee, e parecem realmente mais ágeis e capazes de traduzir a tal "natureza humana" do que o cinema produzido pelos grandes estúdios dos EUA. Essas produções de TV conseguem absorver com agilidade grandes momentos históricos, como a guerra ao terror de Bush refletida em "24 Horas", e pequenos acontecimentos cotidianos, como o amor e o sexo na vida das garotas de "Sex and the City". Como bem escreveu o crítico Cássio Starling Carlos no livro "Em Tempo Real", a ousadia da temática nas séries também é um forte atrativo. Exemplo: um dos grandes sucessos da TV americana é "Dexter", série em que o protagonista é um charmoso perito da polícia de Miami que, nas horas vagas, é também um serial killer justiceiro.
Voltando à indústria, a escassez de boas histórias inéditas salta aos olhos quando observamos os filmes mais cotados até agora ao Oscar 2007. "Os Infiltrados" é uma versão de um filme de ação de Hong Kong; "Cartas de Iwo Jima", uma releitura de um episódio histórico; "Dreamgirls", uma adaptação de um musical da Broadway. Por mais espetaculares que sejam, não trazem novas histórias. Quem são os grandes criadores de Hollywood hoje?
E aí chegamos à segunda conclusão de McKee: olhem para o Oriente. "Chineses e coreanos estão hoje definindo novos padrões de excelência para o cinema mundial", afirma o roteirista. E está coberto de razão. A obra dos chineses é um pouquinho mais difundida no Brasil _os filmes de Kar-wai entram em circuito comercial, e os de Jia Zhang-ke passam nos festivais (sem falar da profusão de adagas voadoras). Mas a produção sul-coreana recente é tão instigante quanto rara por aqui. Hong Sang-soo, que já há algum tempo estréia seus filmes em Cannes, é inédito nos cinemas brasileiros. Quem quiser conhecer sua obra precisa recorrer aos DVD importados ou à internet. Uma lástima.
A íntegra da entrevista com Robert McKee está disponível na Ilustrada Online. Para saber um pouco mais sobre o cinema coreano, vale conferir o extenso dossiê produzido pela revista Contracampo no ano passado.
Escrito por Leonardo Cruz às 6h51 PM
O melhor do Brasil

Nesta semana e na próxima, o Cinesesc realiza em São Paulo sua retrospectiva anual do cinema brasileiro. É a sétima edição do evento, que começa hoje e vai até o dia 23, com 43 filmes que passaram pelo circuito comercial de novembro do ano passado até agora. Em geral, são quatro sessões por dia, por apenas R$ 4 por filme ou R$ 30 para ver o festival todo.
Entre os filmes obrigatórios de 2006, apenas "O Céu de Suely", ainda em cartaz na cidade, não está na mostra. Da seleção do Cinesesc, são muito bons e merecem serem revistos: as ficções "Árido Movie", de Lírio Ferreira, "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger, "Crime Delicado", de Beto Brant, e "O Maior Amor do Mundo", de Cacá Diegues, e os documentários "Soy Cuba - O Mamute Siberiano", de Vicente Ferraz (foto), e "Estamira", de Marcos Prado.
A programação completa da Retrospectiva do Cinema Brasileiro 2005-2006 está disponível aqui.
Escrito por Leonardo Cruz às 12h00 PM
O Dogma vai à Escócia
A colaboradora parisiense Patricia Klingl escreve sobre “Red Road”, ganhador do prêmio de júri em Cannes 2006. Espécie de Dogma escocês, o filme foi exibido no Festival do Rio e na Mostra de SP e tem estréia comercial prevista para janeiro no Brasil.

Big Brother escocês, por Patricia Klingl
“Red Road”, primeiro longa-metragem de Andrea Arnolds, inaugura o coletivo escocês “Advance Party”, com produção do dinamarquês Lars von Trier. A proposta do grupo é rodar uma trilogia, cada filme produzido por um diretor diferente. Como regra, as três histórias se passam em Glasgow com os mesmos nove atores, ora como personagens principais, ora como coadjuvantes.
Nestas condições, o filme que abre a série conta a historia de Jackie (Kate Dickie), funcionária em uma empresa de segurança de Glasgow, responsável por monitorar o bairro de Red Road. Jackie observa diariamente, através de um sistema de câmeras de vigilância, a rotina de seus moradores _pela vivência dos outros, preenche o vazio de sua própria vida.
O espectador compartilha de seu voyeurismo e compreende, através de imagens fragmentadas, quem são as pessoas que vivem ali. Mesmo Jackie tem sua história revelada através daqueles monitores, quando reconhece o rosto de Clyde (Tony Currain), o homem acusado de ter matado sua filha e seu marido. Jackie segue os passos do assassino, estuda seus hábitos e tenta se aproximar dele. Seu objetivo não é claro; aparenta planejar uma vingança, tal qual a personagem de Jeanne Moreau em “A noiva estava de preto”, de François Truffaut. Mas seu plano é virtual, semelhante às imagens difusas e incompletas que monitora. Jackie vive o paradoxo de tudo saber, tudo ver, mas ao mesmo tempo nada controlar.
O filme usa o conceito do coletivo dinamarquês “Dogma”, onde a indefinição da imagem e a falta de luz ajudam a compor toda a perturbação, a inquietude e o sofrimento dos personagens. A escolha do vídeo como suporte também colabora na composição da mise-en-scène. Como em “Caché”, de Michael Haneke, o espectador deve preencher as lacunas criadas pela fragmentação da narrativa e das imagens gravadas em baixa resolução.
Andrea Arnold consegue tirar poesia dos grandes espaços urbanos. Os impressionantes prédios populares servem de cenário para esta história de desolação. “Red Road” é um filme intenso, de onde o espectador sai silencioso.
Escrito por Leonardo Cruz às 8h26 AM
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PERFIL
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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