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Raridade de Kar-wai em SP

Dica rápida: a melhor balada cinéfila do final de semana acontece na próxima madrugada em São Paulo. O HSBC Belas Artes apresenta "Dias Selvagens" (foto), segundo longa do chinês Wong Kar-wai, diretor dos ótimos "Amores Expressos" (citado por Cássio Starling Carlos no post abaixo), "Amor à Flor da Pele" e "2046", há quase um ano em cartaz no mesmo cinema.
"Dias Selvagens", que até hoje só havia sido exibido no Brasil em festivais, abre o Noitão do Belas Artes, evento mensal que projeta três filmes madrugada adentro a partir da meia-noite. O pacote deste mês, batizada "Expresso do Oriente", tem ainda "Tóquio Porrada", do japonês Shin'ya Tsukamoto. Um filme-surpresa ambientado em Tóquio fecha o programa. Quem resistir à maratona ganha café da manhã ao amanhecer.
Mas os fãs de Kar-wai que perderem a sessão desta noite não precisam se desesperar _"Dias Selvagens" entra em cartaz no Belas Artes em 6 de janeiro e, se fizer o mesmo sucesso de "2046", ficará por um bom tempo.
Escrito por Leonardo Cruz às 11h39 AM
Filmoteca - Cássio Starling Carlos
Cássio Starling Carlos é jornalista, escritor e crítico de cinema da Folha, onde já foi editor do Folhateen, o suplemento juvenil do jornal, e da Ilustrada, o caderno de cultura. Acaba de lançar, pela Alameda Editorial, o livro "Em Tempo Real", ótima análise sobre séries de TV como "Lost" e "24 Horas" e suas relações com o mundo contemporâneo e as artes. Aqui, ele gentilmente apresenta cinco filmes que mudaram sua forma de ver o cinema.
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"Um Corpo que Cai" (Alfred Hitchcock, 1958, disponível em DVD)
A paixão é uma vontade de vida ou de morte? A pergunta é levada às últimas conseqüências na maior das obras-primas de Hitchcock. O fantasma pelo qual a certa altura da vida qualquer um de nós acaba se entregando é reproduzida aqui na relação do espectador com o próprio cinema. Madeleine/Judy é pura imagem, um simulacro, um abismo em que Scottie e nós nos jogamos quando necessitamos de vertigem.
"A Lira do Delírio" (Walter Lima Jr., 1978)
Uma câmera na mão, três atores entregues ao improviso e à perda de si num Carnaval e atrás deles um cineasta em busca de uma história. A liberação proclamada pelo Cinema Novo encontra um eco tardio neste filme que, além disso, não tem pudor de assumir a mescla de gêneros (do policial ao musical, passando pelo melodrama familiar e a comédia de costumes). É pura alegria ser conduzido nesse labirinto pela irresistível Anecy Rocha, guardada intacta como imagem de um Brasil que já existiu.
"Aos Nossos Amores" (Maurice Pialat, 1983)
Maurice Pialat era um tipo que não se enquadrava. Não integrou a turma da Nouvelle Vague e nenhuma outra turma. Homem de temperamento irascível, filmou pouco e ocasionalmente. "Aos Nossos Amores", além de ter revelado a beleza luminosa de Sandrine Bonnaire, reúne todo o impacto do seu cinema físico, com a câmera colada à pele e aos corpos, capturando a violência e a dor humana em detalhe. Nele arde um realismo inspirado em Renoir, mas tingido de brutalidade, que hoje se reflete no projeto estético dos belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne.
"O Raio Verde" (Eric Rohmer, 1986)
A solidão se resolve apenas quando se consegue companhia? O título, que integra a deliciosa série "Comédias e Provérbios", segue os infortúnios de uma garota solitária em busca de alguém. A filmagem livre, com equipamento levíssimo e totalmente sujeita ao improviso recupera as lições do ideário original da Nouvelle Vague e, 20 anos depois, ainda não adquiriu nenhuma ruga. Do erro em erro que tornam as férias de verão de sua heroína um calvário, Rohmer revela, com sua filosofia proverbial, como funciona a armadilha da falta.
"Amores Expressos" (Wong Kar-wai, 1994)
Quando as portas do Oriente se abriram aos olhos do Ocidente, do liquidificador do chinês Wong Kar-wai saiu essa mistura de Godard anos 60 + Resnais anos 50 + Antonioni de todos os tempos, em que o sentimento contemporâneo de desamor, a desconexão e a obsessão da tentativa encontram uma forma de representação no romantismo desencantado. Depois, seu diretor faria filmes até mais fortes, mas este guardou todo o impacto da surpresa.
Escrito por Leonardo Cruz às 5h23 PM
Os jogos de Von Trier

Uma das grandes personalidades do cinema contemporâneo, o dinamarquês Lars von Trier mais uma vez testa os limites de seu meio de expressão. Um dos autores do manifesto Dogma, que influenciou a forma de fazer cinema no mundo todo nos anos 90, e diretor dos tão radicais quanto fascinantes "Os Idiotas" (1998), "Dançando no Escuro" (2000) e "Dogville" (2003), Von Trier agora inventou um jogo da memória em seu novo filme.
Segundo a "Variety", chama-se "Lookey", e, diz o diretor, é uma forma de ampliar a relação com o espectador. Funciona assim: em "The Boss of It All", o cineasta inseriu algumas imagens que chama de "distúrbios visuais", cenas sem nenhuma relação com o contexto do filme. "The Boss" estréia na Dinamarca amanhã, e o primeiro espectador que identificar todos os "distúrbios" receberá um prêmio em dinheiro e um convite para fazer uma ponta no horror "The Anti-Christ", o próximo filme de Von Trier.
O "Lookey" não é a única nova invenção do diretor. Em "The Boss", ele criou um dispositivo chamado Automavision. Uma vez definida a posição da câmera, o computador decide quanto ela deve se mexer, quanto se inclinar ou quanto alterar a exposição dela. A máquina, não mais o operador, define o melhor ângulo.
"The Boss of It All" (foto acima) é uma comédia, em que o dono de uma empresa inventa um presidente imaginário que é sempre responsabilizado por medidas impopulares tomadas no dia-a-dia. Os problemas aumentam quando potenciais compradores da empresa querem negociar o tal presidente, e um ator falido é contratado para interpretá-lo.
O novo Von Trier ainda não tem previsão de lançamento no Brasil. Resta aguardar.
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Ainda hoje tem mais uma edição da Filmoteca do blog, pelo crítico Cássio Starling Carlos.
Escrito por Leonardo Cruz às 12h11 PM
"Turistas": boicotar ou não?

Reportagem na Ilustrada desta quarta (íntegra aqui, só para assinantes) relata a campanha iniciada na internet para boicotar o filme americano de terror "Turistas", que tem o Brasil como cenário de atuação de uma rede de tráfico de órgãos. Em blogs e correntes de e-mails, circula um mesmo texto comum, de autoria desconhecida, que protesta contra o tratamento dado ao país no filme, que vê o Brasil estritamente como um território de vale-tudo, de natureza exuberante, muita sensualidade e violência. A campanha de marketing que promoveu "Turistas" nos EUA seguiu esse mesmo tom, incluindo o impressionante site Paradise Brazil, um falso guia sobre o "verdadeiro Brasil" para viajantes, que traz dados sobre ações do PCC e de quadrilhas de "snuff movies".
O texto integral da carta-protesto é o seguinte:
"Estou aqui para iniciar uma campanha em massa, e conto com vocês, para BOICOTAR integralmente o filme americano TURISTAS, que estréia lá em 1º de Dezembro e aqui em Janeiro ou Fevereiro, distribuído pela Paris Filmes. Para quem não sabe, o filme conta a história de 6 jovens americanos que vêm ao Brasil de férias. Chegando aqui tomam uma caipirinha com 'boa noite cinderela', são assaltados, sequestrados, torturados e por fim têm os órgãos roubados por traficantes da industria negra dos transplantes. Alguns morrem e mesmo os que sobrevivem não têm um final feliz. O filme é classificado como TERROR, comparado ao filme 'O Alberge', e a EMBRATUR já está tão preocupada com a péssima repercussão do filme lá fora que, temendo uma queda brusca na receita do país vinda do turismo internacional, já está preparando campanhas intensas para serem veiculadas lá fora e tentar minimizar os estragos. Façamos então a nossa parte. Vamos fazer deste absurdo, pelo menos aqui no Brasil, um fracasso total de bilheteria.
NÃO ASSISTAM, NÃO DÊEM $$$ A UMA PRODUÇÃO QUE SÓ VISA DENEGRIR NOSSA IMAGEM. Só pra se ter uma idéia, o trailer começa com a frase: 'Num país onde vale tudo, tudo pode acontecer!!! '"
"Turistas" estréia no Brasil em 16 de fevereiro, e sobre essa polêmica toda, há ao menos dois pontos a considerar:
1) Além dos equívocos grosseiros como mostrar selvas ao lado de metrópoles, "Turistas" repete clichês sobre o país e carrega nas tintas, extrapola ao ficcionalizar o problema cotidiano, freqüente, dos golpes e assaltos a estrangeiros no Brasil.
2) Por outro lado, "Turistas" é uma obra de ficção, um filme de terror, e deve ser encarado como tal. Não dá para cobrar verossimilhança numa obra desse tipo, cuja natureza, por si só, pressupõe ir além, extrapolar a realidade, e não deve ser censurada por isso.
Fica então a pergunta: faz sentido boicotar o filme?
Escrito por Leonardo Cruz às 2h40 AM
O novo Lynch está chegando
Finalmente caiu na internet o trailer de "Inland Empire", novo filme de David Lynch, que dividiu a crítica no último Festival de Veneza, quando foi apresentado pela primeira vez. Rodado totalmente em digital, demorou dois anos e meio para ser feito e tem Laura Dern, Jeremy Irons e Justin Theroux como protagonistas.
Ainda durantes as filmagens, questionado sobre como seria sua nova obra, Lynch declarou: "é sobre uma mulher com problemas, e é um mistério. E é tudo o que eu quero dizer sobre o filme". O trailer abaixo deixa claro que Lynch mantém suas charadas e enigmas de filmes anteriores. "Inland Empire" estréia neste mês nos EUA e ainda não tem data para chegar ao Brasil, o que deve deixar muita gente angustiada.
Escrito por Leonardo Cruz às 2h33 AM
Conheça o príncipe da pirataria

Johnny Ray Gasca. Ator latino fazendo sucesso em Hollywood? Não. Jovem diretor italiano emergente? Tampouco. Mas anote esse nome, pois ele é um personagem central do mundo do cinema atual. Gasca foi a primeira pessoa na história da Justiça americana a ser condenada por gravar ilegalmente filmes em sessões de cinema privadas, numa vitória inédita de Hollywood e do governo dos EUA contra a pirataria. A sentença saiu na última sexta-feira, e o réu foi condenado a sete anos de prisão por filmar, em 2002 e 2003, sessões de "O Núcleo", "8 Mile" e "Tratamento de Choque", e também por falsificar documentos e outros delitos menores.
Apelidado pela polícia americana de o "Príncipe da Pirataria", Gasca era um profossional da contravenção. Segundo o site do FBI, ele atuava da seguinte forma: conseguia entrar em pré-estréias de filmes em Los Angeles, fingindo se passar por alguém da indústria. Assim que as luzes se apagavam, Gasca colocava sua câmera no ombro e começava a gravar. Com equipamento de ponta, garantia sempre uma cópia de boa qualidade. Em casa, com um sistema de 11 vídeo-cassetes interligados, repassava o lançamento para o computador e _bingo!_ para a internet. Ao jogar na rede filmes que ainda estavam inéditos em circuito comercial, atraía cinéfilos e lucrava 4.500 dólares por semana. Ou seja, aproximadamente R$ 40 mil por mês.
Quando Gasca foi detido, a polícia encontrou em sua casa, além dos 11 vídeos, duas câmeras, dois gravadores de DVD e uma microcâmera adaptada a um cinto (foto acima). O "príncipe" foi preso pela primeira vez no início de 2003. Sua condenação saiu em abril daquele ano, quando Gasca foi colocado sob custódia de seu advogado até que sua sentença fosse definida. E fugiu. Passou dois anos desaparecido até que agentes do FBI o capturassem em um hotel na Flórida, onde Gasca já estava, de novo, copiando filmes.

Johnny Ray Gasca é uma das pontas de uma rede que desafia os direitos autorais, distribui ilegalmente filmes pelo mundo e vai muito, muito além de quem usa programas como o Soulseek e Emule para baixar músicas e filmes em casa, sem intenções lucrativas. Exemplo recente: três dias após o lançamento mundial de "Cassino Royale", cópias piratas já estavam na rede e o novo filme de 007 já havia sido baixado 200 mil vezes. As primeiras cópias surgiram na Europa _na Rússia e na Itália, câmeras de vídeo foram usadas para gravar o filme em sessões de cinema. Sinal evidente que não há só um "príncipe da pirataria".
E obviamente tal rede se estende ao Brasil. Ou você nunca reparou que hoje muitos lançamentos de Hollywood estréiam antes nas bancas de DVDs piratas dos camelôs e depois nas salas de cinema? Quem procurar um pouco acha "Cassino Royale" em São Paulo. Fácil, fácil.
Escrito por Leonardo Cruz às 4h43 PM
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PERFIL
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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