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"Turistas", o filme-polêmica do momento pela forma estereotipada como mostra o Brasil, estreou hoje nos EUA sob uma avalanche de críticas negativas. O filme de terror, que traz um grupo de turistas que são seqüestrados no Rio e caem nas mãos de uma quadrilha de tráfico de órgãos, tem coisas como cariocas falando espanhol e selvas ao lado de metrópoles (leia mais na Folha Online).
Os críticos americanos praticamente não abordaram a questão do retrato do Brasil _o ponto central da maioria das resenhas foi outro: o filme de John Stockwell é entediante. O site Metacritic, que atribui uma pontuação ao filme com base nas análises publicadas pela imprensa, deu a "Turistas" 34 pontos em 100 possíveis. Alguns exemplos do que disse a mídia gringa:
Los Angeles Times - "Mais da metade do filme é de um enfado crescente."
Hollywood Reporter - "Tudo começa a desmoronar no meio do caminho, quando o filme se torna uma tremenda bagunça."
New York Times - "Mortalmente entediante tentativa de ganhar dinheiro com o novo horror extremo, 'Turistas' utiliza um conceito tão batido quanto um truque de Freddy Krueger."
Village Voice - "O filme acaba por afundar em uma bagunça obscura."
Washington Post - "Fãs de horror vão ficar impacientes nos longos intervalos entre a mortes."
New York Post - "'Turistas' mostra maestria numa linguagem universal: a estupidez."
Não dá para afirmar ainda se "Turistas" terá algum impacto negativo real na imagem do Brasil no exterior, mas, se depender da crítica americana, o governo brasileiro e os agentes de viagem podem ficar tranqüilos. Resta ver agora como será a bilheteria do filme nos EUA neste final de semana de estréia.
Se não houver mudanças, "Turistas" chega ao Brasil em fevereiro. Mas o trailer pode ser visto aqui. Vai encarar?
Escrito por Leonardo Cruz às 2h49 PM
Cassavetes também em São Paulo

Na semana passada, este blog informou sobre a mostra completa de John Cassavetes no CCBB carioca e lamentou que os filmes de um dos principais autores do cinema independente americano ficassem restritos ao Rio de Janeiro.
Pois agora chega a notícia de que a parte mais importante da mostra, os 12 longas dirigidos por Cassavetes, serão exibidos também em São Paulo, em fevereiro, na Cinemateca Brasileira, de graça. Não será um evento tão grande quanto o do Rio, e as cópias serão exibidas em DVD, com legendas em espanhol. Ainda assim, como não há nada disponível do diretor no Brasil, qualquer iniciativa de apresentar publicamente seus filmes merece ser comemorada.
Méritos do curador Joel Pizzini e da Cinemateca Brasileira. Graças a eles, os paulistanos também poderão ver preciosidades como "Shadows" (foto), "Faces", "Husbands" e "A Woman under the Influence". No Rio, a mostra Faces de John Cassavetes começa já na próxima terça (programação completa aqui).
Escrito por Leonardo Cruz às 9h38 AM
Os brasileiros em Sundance

Notícia boa para o cinema nacional: dois filmes brasileiros estão entre os 64 que foram selecionados para o Sundance Film Festival, principal evento do cinema independente do planeta, organizado pelo ator e diretor Robert Redford.
Da lista que acaba de ser anunciada por Sundance, o "O Cheiro do Ralo", de Heitor Dhalia, entra na disputa por prêmios na categoria Cinema Mundial - Ficção. Já "Acidente", de Cao Guimarães e Pablo Lobato, foi escolhido para a seção Cinema Mundial - Documentário.
O filme de Heitor Dhalia, premiado no Festival do Rio e na Mostra Internacional de Cinema de SP deste ano, é uma excelente adaptação do romance homônimo de Lourenço Mutarelli, no qual Selton Mello (foto) interpreta um dono de um armazém de objetos usados, um antiquário meia-boca, que passa os dias comprando por ninharia as tralhas levadas por seus clientes. É um personagem sádico, que extrai prazer da falência e do desespero alheios. É um filme difícil, uma crítica ao consumo de massa, num universo cheio de angústia e inquietação.
Já "Acidente" é um interessante e ousado projeto na fronteira entre o cinema e a vídeo-arte. A dupla Cao Guimarães e Pablo Lobato compôs um poema com os nomes de 20 cidades mineiras. A partir daí, transformaram essa composição em um poema visual, interligando imagens e sons de cada um desses municípios.
A escolha desses dois filmes, com essas temáticas, é mais um indicativo forte de que Sundance mantém seu interesse pelo cinema independente, corajoso, que explora os limites do cinema no conteúdo e na forma.
Ainda da seleção de Sundance chama a atenção, na categoria Documentário, o filme "Send a Bullet", dirigido pelo americano Jason Kohn. Segundo a sinopse de Sundance, a obra é "um olhar sobre aspectos de corrupção e violência no Brasil contemporâneo".
Veja a relação completa de concorrentes aqui.
Escrito por Leonardo Cruz às 6h40 PM
A China e suas contradições

Um bom filme, inédito na cidade e de graça. Essa será a recompensa para quem for nesta noite, às 20h30, ao Centro Cultural São Paulo, que exibe "La Stella che Non c'É" (algo como "a estrela que não é"), de Gianni Amelio, que em 2004 já fizera o estupendo "As Chaves da Casa".
Neste novo filme, o cineasta mostra a jornada de Vincenzo Buonavolontá (Sergio Castellitto), encarregado do maquinário de uma fábrica italiana que fecha e vende seu alto-forno para empresários chineses. Vincenzo identifica um defeito na gigantesca máquina, mas só encontra a solução depois que o equipamento já foi despachado. Esse é o pretexto para o início da peregrinação do engenheiro pela China, em busca do alto-forno perdido.
A viagem de Vincenzo é o pretexto usado por Amelio para abordar o crescimento chinês, a força comunista que se entrega à economia de mercado, e as contradições naturais dessa fusão. A força chinesa fica evidente logo nos primeiros minutos do filme, quando os compradores inspecionam a fábrica e o produto a ser comprado. Juntos, cerca de 30 chineses "montam" no alto-forno, num belo plano geral que simboliza esse poderio financeiro.
Os pontos positivos e negativos desse crescimento são abordados em cada parada de Vincenzo, que sai de uma Xangai de arranha-céus futuristas e percorre a região das Três Gargantas, onde tudo está indo abaixo para a construção da maior barragem do mundo. Nesse ponto, Gianni Amelio complementa, com seu olhar entrangeiro, "Still Life", a impressionante obra de Jia Zhang-ke que se passa na mesma região.
O filme de Amelio integra a Mostra Venezia Cinema Italiano 2, que exibe a cada dia dois filmes da seleção deste ano do Festival de Veneza, um no Cine Bombril e outro no CCSP (veja a programação completa aqui). "La Stella che Non c'É" ainda não tem previsão de estréia no Brasil. O melhor é não arriscar e ver hoje à noite mesmo.
Escrito por Leonardo Cruz às 12h40 PM
A vitória da polêmica
Aline Arruda

Fernando Adolfo, diretor do Festival de Brasília, era só sorrisos depois da acalorada reação da platéia à premiação de “Baixio das Bestas”, de Cláudio Assis (foto acima), como melhor filme, na noite desta terça. Anunciada a decisão, uns vaiavam e xingavam o júri, enquanto outros aplaudiam sem parar. “Sempre disse que o Festival de Brasília é político e polêmico. Repeti isso a semana toda. Essa divisão é salutar, é democrática, é importante. Ter metade da platéia apoiando e a outra metade vaiando é genial. É como uma partida de futebol, uma torcida. E agora estamos todos aqui, comemorando.”
Bem... nem todos estavam comemorando. Helvécio Ratton, que ficou com o Candango de melhor diretor, mas ambicionava mais para o seu “Batismo de Sangue”, tinha a decepção estampada no rosto. Para o seu azar, cruzou com Cláudio Assis na saída da sala Villa-Lobos do Teatro Nacional, onde ocorreu a premiação. Ratton agiu no melhor estilo mineiro. Não se pode dizer que ele não cumprimentou o colega. Mas também não se pode chamar exatamente de cumprimento aquela suave apalpadela no ombro de Assis, sem dizer uma palavra sequer...
Já o paraibano radicado em Brasília Vladimir Carvalho, com seu Prêmio Especial do Júri por “O Engenho de Zé Lins” nas mãos, foi tão efusivo com Cláudio Assis quanto permitiu sua gripe. “A gente comemora quando eu melhorar”, propôs. “Mas te digo uma coisa: eu ia ficar muuuuuuito puuuuuuuto se você saísse daqui sem esse prêmio. Ele é importante para você. É importante para nós”.
No palco, Carvalho foi divertido ao agradecer o prêmio em dinheiro (R$ 50 mil) da Câmara Legislativa do Distrito Federal, que considerou “O Engenho de Zé Lins” o melhor longa do Estado. “Sou uma ilha cercada de dívidas por todos os lados. Esse prêmio é bom pra mim e bom para os meus credores.”
Com os quatro prêmios de “Querô”, Carlos Cortez ficou no time dos contentes. Posou para fotos, muitas fotos, antes de sair para jantar com os garotos do elenco, que foram encantadores na premiação. Quando o nome de Maxwell Nascimento, o Querô, foi anunciado como melhor ator, ele foi da platéia ao palco chorando e praticamente carregado pelos três companheiros de elenco que vieram a Brasília. Em cima do palco, sempre abraçados e igualmente felizes com o prêmio que era de apenas um deles, os garotos dançaram, sorriram e ouviram Maxwell agradecer usando invariavelmente o plural: “esse nosso prêmio”, “o nosso filme”, “o que nós fizemos”. Em tempo: “Querô” é um filme sobre o abandono.
Mariah Teixeira correu tanto para agarrar seu Candango de melhor atriz que perdeu o sapato na entrada do palco. Voltou, recuperou o salto e alcançou o microfone: “Tô emocionada que só”. Homenageou os colegas de elenco e concluiu: “Quero agradecer minha avó, minha tia, meu pai, minha mãe. Obrigada, Claudão [Cláudio Assis]. Valeu, Brasília”.
Thomas Farkas, três vezes premiado pelo curta “Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba”, agradeceu seus pares cineastas: “A melhor coisa que tive aqui foi o prazer de ver filmes maravilhosos. Muito obrigado, meus colegas”.
E Lauro Escorel, melhor fotógrafo por “Batismo de Sangue”, com a elegância de sempre, não esqueceu ninguém da equipe e ainda foi breve, embora tenha “ameaçado”: “Sei que é chato, porque toma tempo, mas tenho que agradecer”.
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Conheça todos os vencedores do Festival de Brasília na Ilustrada Online e leia um balanço sobre o evento na Ilustrada desta quinta.
Escrito por Silvana Arantes às 9h57 AM
Vaias para Cristovam, aplausos para Milton Santos

A platéia do Festival de Brasília guardou para a última noite da competição, ontem, os maiores aplausos desta edição e também as primeiras vaias. Ambos provocados por "Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá", perfil que Silvio Tendler traçou do geógrafo baiano, morto em 2001.
As vaias foram para o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que subiu ao palco acompanhando o diretor. Como a maioria do público é formada por estudantes da UnB, muita gente ficou sem entender qual era a bronca com Buarque, que tem na educação sua maior (ou única) bandeira.
O ex-governador do Distrito Federal e ex-ministro da Educação, candidato derrotado nas últimas eleições presidenciais, desfruta de popularidade em Brasília, onde alcançou boa votação. Por isso, ficou difícil entender qual era a bronca com Buarque que motivou a vaia. Mas ela houve e foi tão audível que Tendler interrompeu sua fala com um comentário: "Não abro mão dos amigos, gente. Amigos são amigos sempre, independentemente de bandeiras". Conseguiu silenciar o protesto. Uma hipótese para explicar o descontentamento com Buarque seria o fato de ele não ter dado apoio a Lula no segundo turno.
Se Buarque foi vaiado, o documentário de Tendler, no entanto, foi aplaudido em cena aberta, em diversos momentos, sobretudo nas frases mais contundentes de Milton Santos, como essa: "Não há cidadania no Brasil. Nós da classe média não queremos direitos, queremos privilégios. E os pobres não têm direitos".
Quando terminou o "Encontro com Milton Santos", com dados biográficos do geógrafo projetados sobre imagens de diversos períodos da sua vida, cobertas pelo som de "Terra", de Caetano Veloso, a platéia de Brasília se pôs de pé pela primeira vez neste festival, para aplaudir um filme da competição. O documentário de Tendler foi o últimos dos seis concorrentes a ser exibido. Hoje à noite sai a premiação dos júris oficial, da crítica e popular.
Escrito por Silvana Arantes às 3h53 PM
O Oscar dos independentes

Saiu a lista dos indicados ao Spirit Awards, prêmio americano que é uma espécie de Oscar do cinema independente. Há dois favoritos claros: a comédia "Pequena Miss Sunshine" (foto), em cartaz no país, e o drama "Half Nelson", cada um com cinco indicações, incluindo melhor filme, direção e primeiro roteiro.
"Miss Sunshine", o divertido filme da garotinha que faz sua família cruzar os EUA numa kombi para que ela participe de um concurso de beleza, é um caso curioso, pois também é cotado por especialistas para figurar entre os indicados ao Oscar, principalmente na categoria roteiro, e ao Globo de Ouro.
Dos filmes na disputa que já estrearam por aqui estão ainda "O Caminho para Guantánamo", de Michael Winterbottom, indicado a melhor documentário, e "Crônica de uma Fuga", do argentino Israel Adrián Caetano, o único sul-americano lembrado, concorrente a melhor filme estrangeiro.
Ainda do Spirit Awards, destaques para a indicação/homenagem a Robert Altman, pela direção de "A Última Noite", e ao prêmio especial, que será concedido ao cineasta David Lynch e à sua atriz-fetiche Laura Dern. Justíssimo.
A lista completa dos concorrentes, em inglês, pode ser conferida aqui. A cerimônia de premiação, como sempre, acontece um dia antes do Oscar, em 24 de fevereiro, em Los Angeles. Votam os 6.000 membros do Film Independent, a organização que apóia, inclusive financeiramente, a realização de filmes fora dos grandes estúdios.
Escrito por Leonardo Cruz às 3h30 PM
O rei da Hollywood do asfalto

Em fevereiro deste ano, Jece Valadão participou de um bate-papo no UOL para divulgar a série da HBO "Filhos do Carnaval". Respondendo na lata aos internautas, o ator revelou porque, no cinema, sempre foi o eterno cafajeste: "Sempre gostei [do tipo machão], porque condiz mais com meu temperamento. A única vez que fiz mocinho, me arrependi amargamente. Tenho 106 filmes e todos os personagens que fiz não são mocinhos nem galãs".
Essa foi a primeira das grandes frases do ator na conversa. A seguir, mais algumas.
"Faço a Hollywwod do asfalto. Isso cria uma satisfação muito grande." (sobre os filmes que fez ao longo da carreira)
"Sou evangélico, sou um servo de Deus, convicto do meu papel. Há dez anos recebi um chamamento. Eu era ateu por convicção. Era um privilegiado do mundo, era cercado de mulheres bonitas, tinha dinheiro, tudo. E materialista. Há dez anos, mudei os valores da vida." (sobre sua conversão religiosa)
"Não tenho nenhum. Não existe amizade no meio artístico. É uma disputa muito grande. Tenho muitos conhecidos de que gosto muito. Amigo mesmo, no mundo, se contar nos dedos, vão sobrar." (sobre suas relações com o meio artístico)
"Nula. Não fez nada pra teatro até hoje. Só cantou nas comemorações. Acho triste ter um artista no Ministério. E até agora ele não fez nada." (sobre a atuação de Gilberto Gil como ministro da Cultura)
Escrito por Leonardo Cruz às 8h03 PM
A polêmica de Brasília

"Baixio das Bestas", o segundo longa-metragem de Cláudio Assis ("Amarelo Manga", 2002), partiu o Festival de Brasília ao meio. A platéia da sessão de ontem à noite se dividiu entre os muito indignados com o filme e os que o julgam uma obra-prima.
Na porta do Cine Brasília, alguns espectadores corriam para o local de votação popular, enquanto outros diziam em alto e bom tom: "É sórdido! Esse filme me ofende!".
O "Baixio das Bestas" fica numa zona de cultura canavieira, em torno de um engenho desativado, onde o tempo se arrasta na vida de diversos personagens, cujas trajetórias se entrelaçam _uma garota criada pelo homem que é ao mesmo tempo seu pai e seu avô e que a explora sexualmente; um rapaz apaixonado pela garota, que constrói voluntariamente uma fossa ao lado da casa dela, quando não bebe até cair; um grupo de prostitutas da região, quase sempre sem clientes; artistas do maracatu rural e um trio de jovens abastados, que se divertem bebendo, dirigindo perigosamente, dando tiros em alvos incertos e, principalmente, submetendo mulheres a surras e abusos.
Filmado com elegância e inteligência, "Baixio das Bestas" resulta de uma beleza singular _é ao mesmo tempo ríspido e atraente. Vem daí o incômodo dos que o desaprovaram: "Cláudio, eu adoro 'Amarelo Manga' e odiei esse filme, porque ele fetichiza a violência. Vim aqui porque preciso ouvir de você uma explicação consistente para o que você fez", disse um espectador, no debate em torno do filme, hoje à tarde, resumindo um desconforto que é de muitos.
Cláudio Assis, de início, não queria falar nada, pretendendo que seu filme já tenha dito tudo. Aos poucos, foi se soltando e chorou duas vezes. A primeira, quando citou sua imagem folclórica de beberrão expansivo e arrematou: "Não pensem que estou me divertindo. Esse filme quer perguntar: Por que a gente é assim? Por que esses 500 anos de colonização? Não importa quem eu sou. Prestem atenção no que estou dizendo".
Ele se emocionou também quando contou como foram as negociações do produtor João Jr. com o cineasta Cláudio Cunha, de quem eles compraram imagens do longa pornô "Oh! Rebuceteio" (1984) , para a cena de "Baixio das Bestas" em que os rapazes vêem negativos num cinema desativado (o Cine Atlântico). "O Cláudio Cunha ficou feliz de vender, porque disse que queria comprar um presente para as filhas e estava sem dinheiro. Isso existe. Há pessoas que trabalharam pelo cinema brasileiro e estão nessa situação."
Quando finalmente respondeu a acusação de fetichizar a violência, Cláudio Assis disse: "O nazifascismo não acabou. Ele só mudou de pátria. Buhs é pior que Hitler. Estão matando gente todo dia. Isso passa às dez da manhã na TV e ninguém reage. Ninguém reage! E agora vem dizer que meu filme é violento?!? Tenha paciência!".
Dira Paes (que interpreta uma das prostitutas) e Matheus Nachtergaele (um dos abusadores) também se emocionaram muito durante o debate e pareceram ser pegos de surpresa ao saber da reação negativa ao filme. Matheus encontrou uma explicação: "Entendo que esse filme possa provocar aquele incômodo do insone, ou do cara que acorda de um pesadelo e diz: 'Eu não sei o que sonhei, mas sei que foi ruim'. É quando ele acorda antes de ver o que tem de ver".
A grande questão no ar agora em Brasília é: como o júri vai reagir ao "Baixio das Bestas"? A premiação do festival sai amanhã à noite.
Escrito por Silvana Arantes às 5h21 PM
Prêmios para Suely

Vai bem a carreira internacional de "O Céu de Suely". O segundo longa de Karïm Ainouz conquistou três troféus no Festival Internacional de Cinema de Salônica: melhor roteiro e prêmio de mérito artístico pelo júri e melhor filme pela crítica internacional que acompanhou o evento.
Encerrado ontem, o festival de Salônica teve o Brasil como um de seus eixos centrais. Além da exibição de "O Céu de Suely" em competição, o cinema nacional foi tema de um programa especial que exibiu obras como "O Invasor", de Beto Brant, "Cinema, Aspirinas e Urubus", de Marcelo Gomes, e "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles. Na seção Masterclasses, Walter Salles debateu com Wim Wenders a importância dos "road movies" no cinema. O encontro dos dois diretores rendeu também uma interessante conversa registrada pelo repórter Marcos Strecker e publicada no Mais de ontem (íntegra aqui, só para assinantes).

Mas Salônica não foi só Brasil, e o grande vencedor do festival veio do Oriente. O sul-coreano "Family Ties" levou o prêmio principal, o de melhor atriz e o de melhor roteiro, dividido com "O Céu de Suely". É dirigido por Kim Tae-yong, cineasta que realiza apenas seu segundo longa. O resultado confirma a importância da Coréia do Sul no cinema mundial atual, que apresenta grandes filmes e grandes cineastas em todos os gêneros. Pena que no Brasil a divulgação da produção coreana seja limitada quase exclusivamente às obras do irregular Kim Ki-duk.
Escrito por Leonardo Cruz às 5h04 PM
Os corações amargos de Resnais
A colaboradora parisiense do blog Patricia Klingl escreve sobre “Cœurs”, mais recente obra de Alain Resnais, premiada com o Leão de Prata no Festival de Veneza de 2006, quarenta e cinco anos após o Leão de Ouro por “O Ano Passado em Marienbad”. O novo filme acaba de ser lançado na França.
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Corações amargos, por Patricia Klingl
Aos 84 anos, Alain Resnais adapta a peça “Private fears in public spaces”, de Alan Ayckbourg, o dramaturgo mais encenado na Inglaterra depois de Shakespeare. Para sua nova produção, o diretor se valeu de alguns de seus atores fetiches, três mulheres e três homens, que compartilham, em cena, a solidão e a busca desesperada pela felicidade.
Tudo se passa durante um inverno em Paris, no bairro de Bercy, com seus grandes conjuntos e espaços vagos. Thierry (André Dussolier) é um agente imobiliário que procura um apartamento para um casal em crise, Dan (Lambert Wilson) e Nicole (Laura Morante). Thierry trabalha na agência com Charlotte (Sabine Azéma), uma católica fiel que, nas horas vagas, faz o trabalho voluntário de acompanhante de idosos. Ela cuida do pai de Lionel (Pierre Arditi), barman num hotel de Bercy. Lionel serve bebidas a Dan, assíduo freqüentador do bar, que vê no garçom um confidente. Seguindo o conselho de Lionel, Dan resolve dar um tempo com Nicole e pôr um anúncio num site de encontros. Assim, ele encontrará Gaëlle (Isabelle Carré), irmã de Thierry, o agente imobiliário.
Ao descrever o enredo, Resnais recorre à visão dos personagens presos a uma teia de aranha. Desde que algum deles se mova ou tente dela sair, a teia vibra e um outro personagem, mesmo não tendo nada a ver com o primeiro, terá sua vida afetada. É a maneira como vivem que vai os aproximar, às vezes sem que ao menos se conheçam. A neve, que não pára de cair, é um elemento importante no filme. Todos os personagens entram ou saem de cena e estão sempre cobertos por flocos que não se fundem jamais. É a frieza, a mágoa, a melancolia e a desolação dos seis personagens que dançam esta triste quadrilha.
Para Resnais, o trabalho dos atores é um caso à parte. Cada um deles recebeu, junto ao roteiro, um envelope lacrado com um selo de “confidencial” contendo a biografia de seu personagem, o que talvez fosse sua vida anterior ao filme. Essa pré-história não é revelada em “Cœurs”, serve apenas como ajuda ao ator para a composição de seu papel. Outro elemento interessante é que sempre há apenas dois personagens em cena, ninguém mais. O diálogo ganha a força que talvez só o teatro pudesse dar. Para este grande diretor, o cinema ainda é um convite à liberdade.
Escrito por Leonardo Cruz às 8h46 AM
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PERFIL
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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