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Karim, Lázaro e o cérebro dos atores

Desde "Madame Satã", com as excelentes atuações de Lázaro Ramos e Flávio Bauraqui, sabemos que Karim Aïnouz é um ótimo diretor de atores. Além de ser um ótimo diretor. Ponto.
Em "O Céu de Suely", que chega agora aos cinemas, ele usou o artifício de fazer os atores emprestarem seus próprios nomes aos personagens, caso da protagonista Hermila Guedes (foto acima). Foi um dos jeitos que encontrou de "brincar com a verossimilhança" no filme. Karim sabe que o recurso não funcionaria com nomes famosos nos papéis principais. Imagine Mariana Ximenes brincando de ser... Mariana Ximenes no sertão. Pois é!
A pergunta então é: ainda há lugar para Lázaro Ramos, o hoje ultrapopular Foguinho da novela das sete, num filme de Karim Aïnouz? O cineasta responde:
"Lázaro Ramos, como qualquer ator de TV, é capaz de trabalhar num filme meu. Mas precisa fazer um trabalho de desconstrução. É verdade que não consegui nenhum ator global que quisesse ficar três meses no sertão comigo. Porque é preciso ter disponibilidade para isso, como as pessoas que fazem TV têm que ter disposição para ativar um lado do cérebro que é o da decoração."
Escrito por Silvana Arantes às 11h17 PM
Os documentários do Oscar
Foi divulgada ontem à noite a lista dos 15 documentários que disputarão as 5 indicações ao Oscar 2007. Como sempre, total domínio de produções americanas. Política dos EUA, Guerra do Iraque e religião marcam forte presença na relação, que tem desde já um favoritíssimo.

“The Ground Truth” (EUA): seis soldados americanos e a Guerra do Iraque. O recrutamento, a rotina no país e a dificuldade de adaptação no retorno aos EUA. Foi indicado ao prêmio do júri em Sundance 2006.
“The War Tapes” (EUA): outro sobre a Guerra do Iraque, agora observado pelas imagens registradas em câmeras digitais por soldados da Guarda Nacional Americana. Venceu o festival de Tribeca.
“Iraq in Fragments” (EUA): o palco da guerra visto por seus habitantes. Iraquianos falam sobre o conflito, a ocupação americana e as tensões éticas. Três prêmios em Sundance, inclusive melhor direção em documentário.
“My Country, My Country” (EUA): outro filme que aborda a ocupação americana vista pelos iraquianos. Segue os passos de um médico muçulmano sunita que se candidata nas eleições gerais de janeiro de 2005.
“An Unreasonable Man” (EUA): a vida e a carreira de Ralph Nader, o advogado e ativista político americano e candidato presidencial independente derrotado nas eleições de 2000.
“Can Mr. Smith Get to Washington Anymore?” (EUA): narra a campanha de um professor da Universidade de Washington que decide disputar as primárias do Partido Democrata por uma vaga no Congresso americano.
“Shut Up & Sing” (EUA): sobre o boicote organizado em 2003 contra a banda Dixie Chicks depois que sua vocalista Natalie Maines criticou a invasão americana no Iraque.
“Storm of Emotions” (Israel): a saída israelense de Gaza contada sob a ótica de soldados do Exército de Israel e oficiais da zona de fronteira responsáveis pela retirada de seus compatriotas da região.
“Deliver Us from Evil” (EUA): reconstitui a trajetória do padre pedófilo Oliver O'Grady, que atuou em dezenas de paróquias na Califórnia. O filme foi muito bem-recebido pela crítica americana.

“Jesus Camp” (EUA): causou recente polêmica nos EUA ao retratar uma colônia de férias evangélica em que as crianças aprender a virar "soldados de Deus". Foi capa da Ilustrada na semana passada (leia aqui).
“Jonestown: The Life and Death of People’s Temple” (EUA): imagens inéditas da ação na Guiana do missionário americano Jim Jones, que em 1978 levou cerca de 900 seguidores de seu Templo do Povo a cometer suicídio coletivo.
“Sisters in Law” (Camarões/Reino Unido): o trabalho de duas juízas que lidam com casos de estupro, adultério e violência no sistema legal camaronês.
“The Trials of Darryl Hunt” (EUA): o caso de Darry Hunt, preso durante 20 anos por um crime de estupro e assassinato que não foi cometido por ele. Também indicado ao prêmio do júri em Sundance.
"Blindsight” (Reino Unido): a história de seis adolescentes tibetanos que escalaram o monte Everest. O detalhe: os seis são cegos.
“An Inconvenient Truth” (EUA): por fim, o grande favorito. O documentário que é uma palestra ilustrada de Al Gore sobre o aquecimento global. O único da lista em cartaz em São Paulo.
Escrito por Leonardo Cruz às 10h34 AM
O canto do Inácio
Em uma busca na internet nesta semana sobre a obra de Carlos Reichenbach, tive uma boa e interessante surpresa. Encontrei um blog chamado Canto do Inácio. Inicialmente, pensei que o crítico de cinema da Ilustrada tivesse se rendido à blogsfera. Estava enganado. "Tudo isso para mim é grego", confessou Inácio sobre o mundo dos blogs. Na verdade, um leitor decidiu reunir num lugar os textos que Inácio escreve para a Folha e desde setembro compilou cerca de 30 artigos.
O leitor é Diego Assunção, 20, estudante de jornalismo, cinéfilo e colaborador da revista Cinética, onde assina a esperta coluna "Plantão do YouTube", em que indica vídeos legais perdidos no megasite. Sobre o critério de seleção dos textos do Canto do Inácio, Diego explica: "Após ver ou rever um filme, procuro críticas do Inácio a respeito. Geralmente encontro preciosidades em seus comentários, aí publico."
O próprio Inácio gostou da homenagem e já colaborou diretamente com seu cantinho. Vale a leitura.
Escrito por Leonardo Cruz às 8h42 AM
Matt Dillon e o peixe-boi

Em Manaus como convidado do 3º Amazonas Film Festival, o ator Matt Dillon, de "Crash", ganhou uma nova afilhada: é Mawa, fêmea recém-nascida de peixe-boi, batizada e amamentada pelo ator, que na tarde de ontem participou de um evento pela preservação da espécie promovido pela Associação Amigos do Peixe-Boi.
Fotos Herick Pereira/Divulgação

À noite, Dillon foi homenageado no festival, aplaudido pelo público e agraciado com uma placa com seu nome e uma singela escultura de onças, representando a fauna brasileira.
Escrito por Leonardo Cruz às 1h35 PM
O cinema áspero de Reichenbach (1)

A Folha de hoje publica reportagem de José Geraldo Couto sobre as filmagens de "Falsa Loura", novo longa-metragem de Carlos Reichenbach, que deve ficar pronto em 2007. A íntegra da reportagem também pode ser lida na Ilustrada Online. Nos textos a seguir, o próprio Zé Geraldo e o crítico de cinema Inácio Araujo analisam a obra de Carlão. As fotos que ilustram os dois posts são das gravações de "Falsa Loura", feitas por Luciana Benaduce Figueiredo.
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Carlos Reichenbach: o cosmo sangrento e a alma pura, por José Geraldo Couto
Não é por acaso que o veterano mais amado pelos jovens cineastas brasileiros é Carlos Reichenbach. Pode conferir: de Recife a Porto Alegre, de São Paulo a Brasília, Carlão é sinônimo de cinema vivo, urgente, imperfeito, caloroso. Entusiasta na discussão estética e política, generoso com o trabalho alheio, Carlão traz o cinema à vida com o mesmo empenho com que leva a vida ao cinema.
Por conta da sua inquietação e das suas múltiplas influências – que vão da poesia católica de Murilo Mendes ao terror grand-guignolesco de Mario Bava e Dario Argento, da filosofia de Kierkegaard ao erotismo da Boca do Lixo paulistana, passando pelo cinema japonês e pelos "Cahiers du Cinéma", pelo marxismo e pelo surrealismo –, a produção de Reichenbach trafega por inúmeros gêneros, temas e estilos. Cinema impuro, irregular, cheio de arestas, de uma poesia áspera como a voz de seu autor.
Na filmografia do diretor é possível identificar algumas vertentes. Uma divisão possível, cara ao próprio Reichenbach, é entre os seus filmes "femininos" ("Lilian M", "Anjos do Arrabalde", "Garotas do ABC", "Falsa Loura") e os "masculinos" ("Filme Demência", "Alma Corsária"), mas há muitos que misturam os dois universos ("Amor: Palavra Prostituta", "Dois Córregos").
Se é para classificar essa obra mutante e movediça, talvez seja melhor pensar em três categorias principais: os filmes que dialogam com o repertório popular da pornochanchada ("A Ilha dos Prazeres Proibidos", "Império do Desejo"), os mais próximos do melodrama realista ("Anjos do Arrabalde", "Dois Córregos", ‘Bens Confiscados") e os vôos de experimentação surrealista ("Filme Demência"). Alguns longas, como "Alma Corsária" e "Garotas do ABC", misturam esses vários registros.
A cultura cinematográfica de Carlão Reichenbach é tão onipresente em sua obra que sempre aflora em referências e citações mais ou menos identificáveis. Em "Falsa Loura", há um exemplo singelo: numa danceteria paulistana, a protagonista Silmara (Rosanne Holland) tira os sapatos de salto alto e desce uma escada dançando e batendo palmas em direção ao namorado, o que remete a uma cena do clássico "Férias de Amor" ("Picnic", 1956), de Joshua Logan.
Mas não se trata de citações acadêmicas ou exibicionistas, de erudição pela erudição. É uma transfusão entre arte e vida, um jogo constante que aparece também nas brincadeiras e homenagens que o cineasta faz a seus amigos pessoais. No mesmo "Falsa Loura", um dos protagonistas masculinos, o cantor de rock vivido por Cauã Reymond, chama-se Bruno de André, que é o nome de um jornalista e cineasta amigo de Reichenbach há mais de três décadas. Outro personagem importante, o cantor romântico encarnado por Mauricio Mattar, chama-se Luís Ronaldo, nome de um dos filhos de Carlão. E por aí vai.
A utopia de Carlos Reichenbach, que era também a de Rogério Sganzerla, é a de um cinema ao mesmo tempo popular e experimental, cosmopolita e profundamente brasileiro, radicalmente crítico e celebratório. Por isso ele ataca em várias frentes: não pára de filmar (muitas vezes cuidando pessoalmente da câmera, da montagem e da música), de produzir roteiros e projetos (enlouquecendo sua sócia, a produtora Sara Silveira), de escrever críticas (na imprensa e na internet) e de organizar eventos como as sessões do Comodoro, de exibição de filmes raros no Cinesesc. Como Mário de Andrade, Carlão não é um só, é "trezentos, trezentos e cinqüenta". Só assim para viver de cinema e manter uma integridade a toda prova num país tão acanalhado como o Brasil.
Escrito por Leonardo Cruz às 12h29 AM
O cinema áspero de Reichenbach (2)

Um cinema de contrastes, por Inácio Araujo
"A questão central do cinema de Carlos Reichenbach é encontrar o homogêneo no seio do heterogêneo. Suas personagens, no interior de um mesmo filme, são as mais diversas possíveis. Um professor cultíssimo e niilista namora uma operária especializada e batalhadora ("Amor, Palavra Prostituta"), uma garota negra é apaixonada por um branco nazista ("Garotas do ABC"), duas adolescentes deixam-se fascinar por um refugiado político ("Dois Córregos"). Etc. Estilisticamente, os filmes apresentam o mesmo tipo de contraste, podendo variar do drama existencial à chanchada no espaço de alguns fotogramas, para depois passar ao musical ou ao policial.
Essa operação não é simples, nem é raro o espectador ficar um tanto perplexo diante do que vê, sem saber ao certo se deve rir ou não, porque Carlão não apenas transtorna a lei dos gêneros como também os hábitos de nossa percepção.
Ninguém deve sentir-se desconcertado diante disso – muitos especialistas já ficaram e não à toa que sua obra levou anos a ser descoberta. Chamo a atenção para ela, porque esse tipo de mise-en-scène me parece exprimir, no mais alto grau de inteligência cinematográfica, o Brasil, seus abismos sociais, seus contrastes gritantes, e, sobretudo, a principal característica deles, que é a contiguidade.
Nos filmes de Carlão Reichenbach, o bom e o mau gosto, o homem culto e o cafajeste rematado, o torturado existential e o vigarista são invariavelmente contiguos, não raro convivem no mesmo bairro ou rua. Pode-se dizer que isso não é raro em outras cinematografias. Vejamos um caso banal: homem rico encontra órfã, conversa com ela, convida-a para uma festa, faz amizade, começa a paquerá-la. Ou ainda: dramaturgo de sucesso na Broadway topa, incógnito, com garçonete com ambição a escritora, que despreza os sucessos da Broadway. Existe um evidente contraste entre esses personagens. No entanto, sabemos que fazem parte do mesmo mundo, que seu falar, seus rostos, seus hábitos de algum modo os identifica, os aproxima, na medida em que participam de um mesmo mundo.
Essa solidariedade que podemos encontrar na sociedade americana ou européia (onde a riqueza não implica necessariamente diferenças culturais acentuadas) está longe de existir nos filmes brasileiros, e me parece mesmo uma das razões por que o espectador custa a se identificar com eles. Ou não se identifica nunca, porque busca uma solidariedade que existe nas convenções cinematográficas, mas, no nosso caso, não se dá na vida cotidiana, em que vigora uma espécie de apartheid social. Daí, quando os personagens de Carlão dialogam, eles em geral falam em dois níveis distintos, de certa forma irredutíveis um ao outro, o que lhes dá uma aspereza particular."
Leio, releio e não vejo muito o que modificar ou acrescentar a esses parágrafos que abrem um dos artigos que escrevi para o livro "Ilha Deserta – Filmes", lançado pelo Publifolha há alguns anos. Vejo que às vezes as pessoas falam de um "problema" do cinema brasileiro, como se ele existisse à parte dos problemas do Brasil. Carlão é, felizmente, um pouco autista. Embora aspire falar ao público mais amplo possível, é incapaz de abrir mão de seu pensamento. Não se dobra à estética saída das novelas da Globo e que, se faz sucesso no cinema nacional de hoje, é porque se trata da única que o público local identifica como linguagem ficcional possível. Não é fácil fazer cinema no Brasil atual, no sentido em que fazer cinema não é gritar "roda", e sim pensar as imagens, seu destino. Reichenbach ainda faz.
Escrito por Leonardo Cruz às 12h27 AM
O grande truque de Woody Allen
A colaboradora parisiense do blog, Patricia Klingl, comenta "Scoop", o novo filme de Woody Allen, previsto para estrear no Brasil em fevereiro.
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O grande truque de Woody Allen, por Patricia Klingl

Para Woody Allen, um processo de investigação criminal pode se tornar mais eficiente quando os detetives contam com uma ajuda do além, o que não implica necessariamente a punição dos culpados. Em "Match Point", nem mesmo a aparição _em um sonho do investigador_ das mulheres assassinadas, conseguiu mudar o curso da história: a sorte estava mesmo ao lado do suspeito. Em "Scoop", é novamente um fantasma que fornece os vestígios de um crime aos investigadores.
Como no filme anterior, a história se passa em Londres, na companhia de Scarlett Johansson. Há ainda um sedutor aristocrata inglês (Hugh Jackman, o Wolwerine de "X-Men"), suspeito de ser um assassino. Mas as semelhanças entre os dois filmes param por aí. Em "Scoop", o diretor elimina a sensualidade e o suspense e opta pela comédia.

Neste filme, Allen está de novo em cena, no papel do mágico-judeu-neurótico Sidney Waterman, ou melhor, Splendini. Será em seu show que a estudante de jornalismo Sondra Pransky, voluntária no número do desaparecimento, receberá de um fantasma as pistas que podem desmascarar o assassino do tarô, serial-killer que vem aterrorizando impunemente a capital inglesa. Esta ajuda paranormal é do jornalista Joe Strombel (Ian McShane), que, depois de morto, obtém preciosas informações sobre o criminoso e resolve passá-las adiante. Como em “Um Misterioso Assassinato em Manhattan”, a dupla de amadores decide apurar o possível crime. A jovem Sondra espera, assim, dar seu primeiro furo de reportagem (scoop).
Scarlet Johansson _de roupas largas, cabelos presos, aparelho ortodôntico e óculos à moda de John Lennon_ não lembra em nada sua voluptuosa personagem de "Match Point", exceto quando, incentivada pelo mágico, vai à piscina do clube onde o suspeito pratica natação, para tentar conquistá-lo. Mesmo assim, não se trata de uma sedução comum: a atriz, de maiô vermelho, faz lembrar as loiras da série "SOS Malibu".
A sensação que temos é de que o filme foi rodado num clima de total descontração. O diretor parece se divertir em cena e nos leva com ele. Tudo funciona à perfeição: as piadas, as situações inusitadas e as neuroses de seu alter ego.
Aos 70 anos e após mais de 40 filmes, o cinema não envelhece para Woody Allen, como num toque de mágica.
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- O próximo filme de Woody Allen, também rodado em Londres, está em fase de pós-produção. Desta vez sem Scarlet Johansson, o diretor conta com Ewan McGregor e Colin Farrell.
- Hugh Jackman e Scarlet Johansson atuam novamente juntos em "O Grande Truque", de Christopher Nolan (de Amnésia, Insônia e Batman Begins), em cartaz no Brasil.
Escrito por Leonardo Cruz às 8h30 AM
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PERFIL
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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