Ilustrada no Cinema

 

 

Os brasileiros em Sundance

Os brasileiros em Sundance

Notícia boa para o cinema nacional: dois filmes brasileiros estão entre os 64 que foram selecionados para o Sundance Film Festival, principal evento do cinema independente do planeta, organizado pelo ator e diretor Robert Redford.

Da lista que acaba de ser anunciada por Sundance, o "O Cheiro do Ralo", de Heitor Dhalia, entra na disputa por prêmios na categoria Cinema Mundial - Ficção. Já "Acidente", de Cao Guimarães e Pablo Lobato, foi escolhido para a seção Cinema Mundial - Documentário.

O filme de Heitor Dhalia, premiado no Festival do Rio e na Mostra Internacional de Cinema de SP deste ano, é uma excelente adaptação do romance homônimo de Lourenço Mutarelli, no qual Selton Mello (foto) interpreta um dono de um armazém de objetos usados, um antiquário meia-boca, que passa os dias comprando por ninharia as tralhas levadas por seus clientes. É um personagem sádico, que extrai prazer da falência e do desespero alheios. É um filme difícil, uma crítica ao consumo de massa, num universo cheio de angústia e inquietação.

Já "Acidente" é um interessante e ousado projeto na fronteira entre o cinema e a vídeo-arte. A dupla Cao Guimarães e Pablo Lobato compôs um poema com os nomes de 20 cidades mineiras. A partir daí, transformaram essa composição em um poema visual, interligando imagens e sons de cada um desses municípios.

A escolha desses dois filmes, com essas temáticas, é mais um indicativo forte de que Sundance mantém seu interesse pelo cinema independente, corajoso, que explora os limites do cinema no conteúdo e na forma.

Ainda da seleção de Sundance chama a atenção, na categoria Documentário, o filme "Send a Bullet", dirigido pelo americano Jason Kohn. Segundo a sinopse de Sundance, a obra é "um olhar sobre aspectos de corrupção e violência no Brasil contemporâneo".

Veja a relação completa de concorrentes aqui.

Escrito por Leonardo Cruz às 6h40 PM

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A China e suas contradições

A China e suas contradições

 

Um bom filme, inédito na cidade e de graça. Essa será a recompensa para quem for nesta noite, às 20h30, ao Centro Cultural São Paulo, que exibe "La Stella che Non c'É" (algo como "a estrela que não é"), de Gianni Amelio, que em 2004 já fizera o estupendo "As Chaves da Casa".

Neste novo filme, o cineasta mostra a jornada de Vincenzo Buonavolontá (Sergio Castellitto), encarregado do maquinário de uma fábrica italiana que fecha e vende seu alto-forno para empresários chineses. Vincenzo identifica um defeito na gigantesca máquina, mas só encontra a solução depois que o equipamento já foi despachado. Esse é o pretexto para o início da peregrinação do engenheiro pela China, em busca do alto-forno perdido.

A viagem de Vincenzo é o pretexto usado por Amelio para abordar o crescimento chinês, a força comunista que se entrega à economia de mercado, e as contradições naturais dessa fusão. A força chinesa fica evidente logo nos primeiros minutos do filme, quando os compradores inspecionam a fábrica e o produto a ser comprado. Juntos, cerca de 30 chineses "montam" no alto-forno, num belo plano geral que simboliza esse poderio financeiro.

Os pontos positivos e negativos desse crescimento são abordados em cada parada de Vincenzo, que sai de uma Xangai de arranha-céus futuristas e percorre a região das Três Gargantas, onde tudo está indo abaixo para a construção da maior barragem do mundo. Nesse ponto, Gianni Amelio complementa, com seu olhar entrangeiro, "Still Life", a impressionante obra de Jia Zhang-ke que se passa na mesma região.

O filme de Amelio integra a Mostra Venezia Cinema Italiano 2, que exibe a cada dia dois filmes da seleção deste ano do Festival de Veneza, um no Cine Bombril e outro no CCSP (veja a programação completa aqui). "La Stella che Non c'É" ainda não tem previsão de estréia no Brasil. O melhor é não arriscar e ver hoje à noite mesmo.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h40 PM

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A vitória da polêmica

A vitória da polêmica

                                                                       Aline Arruda

Fernando Adolfo, diretor do Festival de Brasília, era só sorrisos depois da acalorada reação da platéia à premiação de “Baixio das Bestas”, de Cláudio Assis (foto acima), como melhor filme, na noite desta terça. Anunciada a decisão, uns vaiavam e xingavam o júri, enquanto outros aplaudiam sem parar. “Sempre disse que o Festival de Brasília é político e polêmico. Repeti isso a semana toda. Essa divisão é salutar, é democrática, é importante. Ter metade da platéia apoiando e a outra metade vaiando é genial. É como uma partida de futebol, uma torcida. E agora estamos todos aqui, comemorando.”

Bem... nem todos estavam comemorando. Helvécio Ratton, que ficou com o Candango de melhor diretor, mas ambicionava mais para o seu “Batismo de Sangue”, tinha a decepção estampada no rosto. Para o seu azar, cruzou com Cláudio Assis na saída da sala Villa-Lobos do Teatro Nacional, onde ocorreu a premiação. Ratton agiu no melhor estilo mineiro. Não se pode dizer que ele não cumprimentou o colega. Mas também não se pode chamar exatamente de cumprimento aquela suave apalpadela no ombro de Assis, sem dizer uma palavra sequer...

Já o paraibano radicado em Brasília Vladimir Carvalho, com seu Prêmio Especial do Júri por “O Engenho de Zé Lins” nas mãos, foi tão efusivo com Cláudio Assis quanto permitiu sua gripe. “A gente comemora quando eu melhorar”, propôs. “Mas te digo uma coisa: eu ia ficar muuuuuuito puuuuuuuto se você saísse daqui sem esse prêmio. Ele é importante para você. É importante para nós”.

No palco, Carvalho foi divertido ao agradecer o prêmio em dinheiro (R$ 50 mil) da Câmara Legislativa do Distrito Federal, que considerou “O Engenho de Zé Lins” o melhor longa do Estado. “Sou uma ilha cercada de dívidas por todos os lados. Esse prêmio é bom pra mim e bom para os meus credores.”

Com os quatro prêmios de “Querô”, Carlos Cortez ficou no time dos contentes. Posou para fotos, muitas fotos, antes de sair para jantar com os garotos do elenco, que foram encantadores na premiação. Quando o nome de Maxwell Nascimento, o Querô, foi anunciado como melhor ator, ele foi da platéia ao palco chorando e praticamente carregado pelos três companheiros de elenco que vieram a Brasília. Em cima do palco, sempre abraçados e igualmente felizes com o prêmio que era de apenas um deles, os garotos dançaram, sorriram e ouviram Maxwell agradecer usando invariavelmente o plural: “esse nosso prêmio”, “o nosso filme”, “o que nós fizemos”. Em tempo: “Querô” é um filme sobre o abandono.

Mariah Teixeira correu tanto para agarrar seu Candango de melhor atriz que perdeu o sapato na entrada do palco. Voltou, recuperou o salto e alcançou o microfone: “Tô emocionada que só”. Homenageou os colegas de elenco e concluiu: “Quero agradecer minha avó, minha tia, meu pai, minha mãe. Obrigada, Claudão [Cláudio Assis]. Valeu, Brasília”.

Thomas Farkas, três vezes premiado pelo curta “Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba”, agradeceu seus pares cineastas: “A melhor coisa que tive aqui foi o prazer de ver filmes maravilhosos. Muito obrigado, meus colegas”.

E Lauro Escorel, melhor fotógrafo por “Batismo de Sangue”, com a elegância de sempre, não esqueceu ninguém da equipe e ainda foi breve, embora tenha “ameaçado”: “Sei que é chato, porque toma tempo, mas tenho que agradecer”.

*

Conheça todos os vencedores do Festival de Brasília na Ilustrada Online e leia um balanço sobre o evento na Ilustrada desta quinta.

Escrito por Silvana Arantes às 9h57 AM

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Vaias para Cristovam, aplausos para Milton Santos

Vaias para Cristovam, aplausos para Milton Santos

A platéia do Festival de Brasília guardou para a última noite da competição, ontem, os maiores aplausos desta edição e também as primeiras vaias. Ambos provocados por "Encontro com Milton Santos ou o Mundo Global Visto do Lado de Cá", perfil que Silvio Tendler traçou do geógrafo baiano, morto em 2001.

As vaias foram para o senador Cristovam Buarque (PDT-DF), que subiu ao palco acompanhando o diretor. Como a maioria do público é formada por estudantes da UnB, muita gente ficou sem entender qual era a bronca com Buarque, que tem na educação sua maior (ou única) bandeira.

O ex-governador do Distrito Federal e ex-ministro da Educação, candidato derrotado nas últimas eleições presidenciais, desfruta de popularidade em Brasília, onde alcançou boa votação. Por isso, ficou difícil entender qual era a bronca com Buarque que motivou a vaia. Mas ela houve e foi tão audível que Tendler interrompeu sua fala com um comentário: "Não abro mão dos amigos, gente. Amigos são amigos sempre, independentemente de bandeiras". Conseguiu silenciar o protesto. Uma hipótese para explicar o descontentamento com Buarque seria o fato de ele não ter dado apoio a Lula no segundo turno.

Se Buarque foi vaiado, o documentário de Tendler, no entanto, foi aplaudido em cena aberta, em diversos momentos, sobretudo nas frases mais contundentes de Milton Santos, como essa: "Não há cidadania no Brasil. Nós da classe média não queremos direitos, queremos privilégios. E os pobres não têm direitos".

Quando terminou o "Encontro com Milton Santos", com dados biográficos do geógrafo projetados sobre imagens de diversos períodos da sua vida, cobertas pelo som de "Terra", de Caetano Veloso, a platéia de Brasília se pôs de pé pela primeira vez neste festival, para aplaudir um filme da competição. O documentário de Tendler foi o últimos dos seis concorrentes a ser exibido. Hoje à noite sai a premiação dos júris oficial, da crítica e popular.

Escrito por Silvana Arantes às 3h53 PM

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O Oscar dos independentes

O Oscar dos independentes

Saiu a lista dos indicados ao Spirit Awards, prêmio americano que é uma espécie de Oscar do cinema independente. Há dois favoritos claros: a comédia "Pequena Miss Sunshine" (foto), em cartaz no país, e o drama "Half Nelson", cada um com cinco indicações, incluindo melhor filme, direção e primeiro roteiro.

"Miss Sunshine", o divertido filme da garotinha que faz sua família cruzar os EUA numa kombi para que ela participe de um concurso de beleza, é um caso curioso, pois também é cotado por especialistas para figurar entre os indicados ao Oscar, principalmente na categoria roteiro, e ao Globo de Ouro.

Dos filmes na disputa que já estrearam por aqui estão ainda "O Caminho para Guantánamo", de Michael Winterbottom, indicado a melhor documentário, e "Crônica de uma Fuga", do argentino Israel Adrián Caetano, o único sul-americano lembrado, concorrente a melhor filme estrangeiro.

Ainda do Spirit Awards, destaques para a indicação/homenagem a Robert Altman, pela direção de "A Última Noite", e ao prêmio especial, que será concedido ao cineasta David Lynch e à sua atriz-fetiche Laura Dern. Justíssimo.

A lista completa dos concorrentes, em inglês, pode ser conferida aqui. A cerimônia de premiação, como sempre, acontece um dia antes do Oscar, em 24 de fevereiro, em Los Angeles. Votam os 6.000 membros do Film Independent, a organização que apóia, inclusive financeiramente, a realização de filmes fora dos grandes estúdios.

Escrito por Leonardo Cruz às 3h30 PM

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O rei da Hollywood do asfalto

O rei da Hollywood do asfalto

Em fevereiro deste ano, Jece Valadão participou de um bate-papo no UOL para divulgar a série da HBO "Filhos do Carnaval". Respondendo na lata aos internautas, o ator revelou porque, no cinema, sempre foi o eterno cafajeste: "Sempre gostei [do tipo machão], porque condiz mais com meu temperamento. A única vez que fiz mocinho, me arrependi amargamente. Tenho 106 filmes e todos os personagens que fiz não são mocinhos nem galãs".

Essa foi a primeira das grandes frases do ator na conversa. A seguir, mais algumas.

"Faço a Hollywwod do asfalto. Isso cria uma satisfação muito grande." (sobre os filmes que fez ao longo da carreira)

"Sou evangélico, sou um servo de Deus, convicto do meu papel. Há dez anos recebi um chamamento. Eu era ateu por convicção. Era um privilegiado do mundo, era cercado de mulheres bonitas, tinha dinheiro, tudo. E materialista. Há dez anos, mudei os valores da vida." (sobre sua conversão religiosa)

"Não tenho nenhum. Não existe amizade no meio artístico. É uma disputa muito grande. Tenho muitos conhecidos de que gosto muito. Amigo mesmo, no mundo, se contar nos dedos, vão sobrar." (sobre suas relações com o meio artístico)

"Nula. Não fez nada pra teatro até hoje. Só cantou nas comemorações. Acho triste ter um artista no Ministério. E até agora ele não fez nada." (sobre a atuação de Gilberto Gil como ministro da Cultura)

Escrito por Leonardo Cruz às 8h03 PM

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A polêmica de Brasília

A polêmica de Brasília

"Baixio das Bestas", o segundo longa-metragem de Cláudio Assis ("Amarelo Manga", 2002), partiu o Festival de Brasília ao meio. A platéia da sessão de ontem à noite se dividiu entre os muito indignados com o filme e os que o julgam uma obra-prima.

Na porta do Cine Brasília, alguns espectadores corriam para o local de votação popular, enquanto outros diziam em alto e bom tom: "É sórdido! Esse filme me ofende!".

O "Baixio das Bestas" fica numa zona de cultura canavieira, em torno de um engenho desativado, onde o tempo se arrasta na vida de diversos personagens, cujas trajetórias se entrelaçam _uma garota criada pelo homem que é ao mesmo tempo seu pai e seu avô e que a explora sexualmente; um rapaz apaixonado pela garota, que constrói voluntariamente uma fossa ao lado da casa dela, quando não bebe até cair; um grupo de prostitutas da região, quase sempre sem clientes; artistas do maracatu rural e um trio de jovens abastados, que se divertem bebendo, dirigindo perigosamente, dando tiros em alvos incertos e, principalmente, submetendo mulheres a surras e abusos.

Filmado com elegância e inteligência, "Baixio das Bestas" resulta de uma beleza singular _é ao mesmo tempo ríspido e atraente. Vem daí o incômodo dos que o desaprovaram: "Cláudio, eu adoro 'Amarelo Manga' e odiei esse filme, porque ele fetichiza a violência. Vim aqui porque preciso ouvir de você uma explicação consistente para o que você fez", disse um espectador, no debate em torno do filme, hoje à tarde, resumindo um desconforto que é de muitos.

Cláudio Assis, de início, não queria falar nada, pretendendo que seu filme já tenha dito tudo. Aos poucos, foi se soltando e chorou duas vezes. A primeira, quando citou sua imagem folclórica de beberrão expansivo e arrematou: "Não pensem que estou me divertindo. Esse filme quer perguntar: Por que a gente é assim? Por que esses 500 anos de colonização? Não importa quem eu sou. Prestem atenção no que estou dizendo".

Ele se emocionou também quando contou como foram as negociações do produtor João Jr. com o cineasta Cláudio Cunha, de quem eles compraram imagens do longa pornô "Oh! Rebuceteio" (1984) , para a cena de "Baixio das Bestas" em que os rapazes vêem negativos num cinema desativado (o Cine Atlântico). "O Cláudio Cunha ficou feliz de vender, porque disse que queria comprar um presente para as filhas e estava sem dinheiro. Isso existe. Há pessoas que trabalharam pelo cinema brasileiro e estão nessa situação."

Quando finalmente respondeu a acusação de fetichizar a violência, Cláudio Assis disse: "O nazifascismo não acabou. Ele só mudou de pátria. Buhs é pior que Hitler. Estão matando gente todo dia. Isso passa às dez da manhã na TV e ninguém reage. Ninguém reage! E agora vem dizer que meu filme é violento?!? Tenha paciência!".

Dira Paes (que interpreta uma das prostitutas) e Matheus Nachtergaele (um dos abusadores) também se emocionaram muito durante o debate e pareceram ser pegos de surpresa ao saber da reação negativa ao filme.
Matheus encontrou uma explicação: "Entendo que esse filme possa provocar aquele incômodo do insone, ou do cara que acorda de um pesadelo e diz: 'Eu não sei o que sonhei, mas sei que foi ruim'. É quando ele acorda antes de ver o que tem de ver".

A grande questão no ar agora em Brasília é: como o júri vai reagir ao "Baixio das Bestas"? A premiação do festival sai amanhã à noite.

Escrito por Silvana Arantes às 5h21 PM

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Prêmios para Suely

Prêmios para Suely

Vai bem a carreira internacional de "O Céu de Suely". O segundo longa de Karïm Ainouz conquistou três troféus no Festival Internacional de Cinema de Salônica: melhor roteiro e prêmio de mérito artístico pelo júri e melhor filme pela crítica internacional que acompanhou o evento.

Encerrado ontem, o festival de Salônica teve o Brasil como um de seus eixos centrais. Além da exibição de "O Céu de Suely" em competição, o cinema nacional foi tema de um programa especial que exibiu obras como "O Invasor", de Beto Brant, "Cinema, Aspirinas e Urubus", de Marcelo Gomes, e "Cidade de Deus", de Fernando Meirelles. Na seção Masterclasses, Walter Salles debateu com Wim Wenders a importância dos "road movies" no cinema. O encontro dos dois diretores rendeu também uma interessante conversa registrada pelo repórter Marcos Strecker e publicada no Mais de ontem (íntegra aqui, só para assinantes).

Mas Salônica não foi só Brasil, e o grande vencedor do festival veio do Oriente. O sul-coreano "Family Ties" levou o prêmio principal, o de melhor atriz e o de melhor roteiro, dividido com "O Céu de Suely". É dirigido por Kim Tae-yong, cineasta que realiza apenas seu segundo longa. O resultado confirma a importância da Coréia do Sul no cinema mundial atual, que apresenta grandes filmes e grandes cineastas em todos os gêneros. Pena que no Brasil a divulgação da produção coreana seja limitada quase exclusivamente às obras do irregular Kim Ki-duk.

Escrito por Leonardo Cruz às 5h04 PM

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Os corações amargos de Resnais

Os corações amargos de Resnais

A colaboradora parisiense do blog Patricia Klingl escreve sobre “Cœurs”, mais recente obra de Alain Resnais, premiada com o Leão de Prata no Festival de Veneza de 2006, quarenta e cinco anos após o Leão de Ouro por “O Ano Passado em Marienbad”. O novo filme acaba de ser lançado na França.

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Corações amargos, por Patricia Klingl

Aos 84 anos, Alain Resnais adapta a peça “Private fears in public spaces”, de Alan Ayckbourg, o dramaturgo mais encenado na Inglaterra depois de Shakespeare. Para sua nova produção, o diretor se valeu de alguns de seus atores fetiches, três mulheres e três homens, que compartilham, em cena, a solidão e a busca desesperada pela felicidade.

 

Tudo se passa durante um inverno em Paris, no bairro de Bercy, com seus grandes conjuntos e espaços vagos. Thierry (André Dussolier) é um agente imobiliário que procura um apartamento para um casal em crise, Dan (Lambert Wilson) e Nicole (Laura Morante). Thierry trabalha na agência com Charlotte (Sabine Azéma), uma católica fiel que, nas horas vagas, faz o trabalho voluntário de acompanhante de idosos. Ela cuida do pai de Lionel (Pierre Arditi), barman num hotel de Bercy. Lionel serve bebidas a Dan, assíduo freqüentador do bar, que vê no garçom um confidente. Seguindo o conselho de Lionel, Dan resolve dar um tempo com Nicole e pôr um anúncio num site de encontros. Assim, ele encontrará Gaëlle (Isabelle Carré), irmã de Thierry, o agente imobiliário.

 

Ao descrever o enredo, Resnais recorre à visão dos personagens presos a uma teia de aranha. Desde que algum deles se mova ou tente dela sair, a teia vibra e um outro personagem, mesmo não tendo nada a ver com o primeiro, terá sua vida afetada. É a maneira como vivem que vai os aproximar, às vezes sem que ao menos se conheçam. A neve, que não pára de cair, é um elemento importante no filme. Todos os personagens entram ou saem de cena e estão sempre cobertos por flocos que não se fundem jamais. É a frieza, a mágoa, a melancolia e a desolação dos seis personagens que dançam esta triste quadrilha.

 

Para Resnais, o trabalho dos atores é um caso à parte. Cada um deles recebeu, junto ao roteiro, um envelope lacrado com um selo de “confidencial” contendo a biografia de seu personagem, o que talvez fosse sua vida anterior ao filme. Essa pré-história não é revelada em “Cœurs”, serve apenas como ajuda ao ator para a composição de seu papel. Outro elemento interessante é que sempre há apenas dois personagens em cena, ninguém mais. O diálogo ganha a força que talvez só o teatro pudesse dar. Para este grande diretor, o cinema ainda é um convite à liberdade.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h46 AM

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Querosene é o caralho!

Querosene é o caralho!

Sabe a mais famosa frase de "Cidade de Deus" _Dadinho é o caralho! Meu nome é Zé Pequeno!_ dita, quer dizer, esbravejada por Leandro Firmino da Hora? Pois bem. Ela fez eco ontem à noite num abarrotado Cine Brasília, que assistiu à primeira exibição pública de "Querô" (foto acima), de Carlos Cortez, em competição no 39o. Festival de Brasília.

O ambiente é o de boca de fumo. A cena, uma disputa verbal entre Querô (Maxwell Nascimento) e Mosca (Nildo Ferreira), ambos egressos da Febem. Mosca está armado e humilha Querô, chamando-o de Querosene, forma que ele abomina. Querô desarma Mosca e, no contra-ataque, dispara a frase: Querosene é o caralho! Agora pra tu é seu Querô.

Cortez teve o apoio e os conselhos de Fernando Meirelles para rodar "Querô" à la "Cidade de Deus" _com atores não-profissionais, que passaram por diversas oficinas e construíram suas interpretações sem conhecer o roteiro do filme_, além de consultoria de Bráulio Mantovani no roteiro, como ele conta em reportagem que a Ilustrada publica neste sábado. Só aqui, fica registrada a reação de Cortez à pergunta se deve ser compreendida como citação ou homenagem a frase de seu filme que faz lembrar a de "Cidade de Deus": "(Silêncio.) Não pensei nisso. Mas posso ter feito uma homenagem inconsciente, como acho que fiz também a ‘Pixote’ [de Hector Babenco] na abertura do filme".

Mais Festival de Brasília, entre aspas:

"É consenso na sociedade que filho de pobre é menor e filho de rico é jovem. Mostrando um olhar mais solidário, acho que já estamos fazendo uma coisa legal." (Carlos Cortez, no debate sobre "Querô", respondendo ao repórter que viu no filme uma incômoda abordagem da violência.)

"Nunca pensei que ia acontecer isso, gente. Andei de avião! Com medo, mas andei." (Samuel de Castro, um dos 45 jovens desfavorecidos de Santos selecionados para o elenco de "Querô")

"Sou Dinalva Paula. Tenho 23 anos. Fui mãe adolescente. Cursei até o segundo grau e sou formada em sonhadora." (Dinalva protagoniza o melhor momento de "Jardim Ângela", de Evaldo Mocarzel)

"Estou com a idéia fixa de fazer filmes entre amigos e tentar que eles sejam vistos por mais gente além dos amigos." (Kleber Mendonça Filho, apresentando "Noite de Sexta, Manhã de Sábado", o melhor curta em 35 mm visto na competição, até aqui)

Escrito por Silvana Arantes às 6h44 PM

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Prince e os pingüins

Prince e os pingüins

A Ilustrada de hoje publica reportagem de Eduardo Graça com o time que fez "Happy Feet", a animação dos pingüins que virou coqueluche nos EUA (íntegra aqui, só para assinantes). Questionado sobre os desafios para fazer a animação, o diretor George Miller contou ao Edu como foi a negociação com o cantor Prince para modificar a letra da emblemática "Kiss". Era necessário que a música fizesse sentido no contexto do filme, quando cantada pelos personagens dublados por Hugh Jackman e Nicole Kidman. Miller mandou uma cópia do filme para Minneapolis, bunker do genioso compositor, que não só aprovou a mudança - troca-se "sing" por "song" – como ensaiou alguns acordes em sua guitarra e pediu algumas semanas para compor "The Song of The Heart", canção inédita que encerra o filme. Detalhe: Prince se revelou, ele também, um fã ardoroso dos pingüins.

Escrito por Leonardo Cruz às 11h37 AM

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Nos bastidores de Brasília

Nos bastidores de Brasília

Notas de um festival de cinema

Durou três horas (das 11h10 às 14h10 de hoje) o primeiro debate sobre os filmes concorrentes do 39o. Festival de Brasília. Em discussão, os curtas "Hibakusha: Herdeiros Atômicos no Brasil", de Maurício Kinoshita, em torno de sobreviventes de Hiroshima e Nagasaki que vivem no Brasil; "Noite de Sexta, Manhã de Sábado", de Kleber Mendonça Filho, sobre uma história de amor intercontinental; e o longa documental "Jardim Ângela" (foto), de Evaldo Mocarzel, todos apresentados em disputa na noite de quarta.

Duas das três horas de discussão foram gastas com o documentário de Mocarzel. A principal questão em pauta foi se, ao escolher como protagonista um jovem com histórico de delinqüência (Washington Silva), que se vangloria de suas ações criminosas, Mocarzel não terminou por fazer apologia da violência.

O crítico gaúcho Marcus Mello, da revista "Teorema", observou que Washington era o "personagem mais fácil, o clichê da periferia", enquanto Mocarzel tinha à disposição outros jovens, de trajetória menos óbvia e talvez mais interessante para o espectador, como as garotas Ana Cláudia Silva e Dinalva dos Santos (presentes ao debate) e que, segundo a edição que Mocarzel fez de seu filme, surgem como "antagonistas" de Washington, ao defender uma representação menos violenta da periferia na tela.

Mocarzel admitiu que se deixou seduzir por Washington: "Ele é carismático. Confesso que eu me fascinei com o menino. A gente criou uma cumplicidade sim. E demorei mais a vê-las [as garotas]." Mas disse também que teve "muito medo de fazer uma apologia da violência" e que buscou "desesperadamente" pelos antagonistas que pudessem oferecer o contraponto à visão de Washington.

Na opinião de Mocarzel, quando Washington descreve atos de violência como quem os saboreia, ele acaba expondo o lado cruel de sua personalidade e afasta o espectador, em vez de conquistá-lo _o que neutralizaria uma possível visão apologética do filme. Taí uma questão que não se esgota nem mesmo com duas horas de discussão. 
 
Veneno básico
"Ai, que saudades do Bressane!" foi o comentário de quem não apreciou nada nada o filme de Mocarzel, que só entrou na competição de Brasília porque "Cleópatra", de Julio Bressane, selecionado antes, anunciou sua desistência, com a justificativa de que a cópia não ficaria pronta a tempo do festival.

Ficção x documentário
No debate desta manhã surgiu, lateralmente, a dúvida se os documentários têm menos poder de atração junto ao público do que as ficções. Christian Saghaard, coordenador das oficinas Kinoforum (de produção audiovisual) oferecidas na periferia de São Paulo e que deram origem ao longa de Mocarzel, apresentou números informais. Disse que dos cerca de 500 jovens que já fizeram as oficinas, "muitos viram 'Carandiru' (Hector Babenco, ficção), mas poucos gostaram. Um número não muito pequeno viu 'O Prisioneiro da Grade de Ferro' (Paulo Sacramento, documentário) e não houve nenhum que não gostasse".
Mocarzel lembrou que seus alunos citaram também, favoravelmente, "Cidade de Deus" (Fernando Meirelles) e "Uma Onda no Ar" (Helvécio Ratton, que compete nesta edição com "Batismo de Sangue").

Vapor barato
E por falar em "Uma Onda no Ar", por que será que os corredores dos hotéis em que há festivais de cinema têm sempre esse odor de... orégano, como diriam "Wood & Stock"?

Escrito por Silvana Arantes às 3h22 PM

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Filmoteca - Sérgio Rizzo

Filmoteca - Sérgio Rizzo

Sérgio Rizzo, 41, é crítico de cinema da Folha e um dos principais especialistas do país no uso de filmes para fins pedagógicos. É professor na Universidade Mackenzie e na Casa do Saber, coordenador de um curso de cinema e educação da Universidade Estadual de Goiás e colunista das revistas "Educação", "Idéia Social" e "Viração". Também escreve sobre futebol no portal Yahoo! Esportes, para o qual cobriu a Copa da Alemanha. É dele a terceira Filmoteca deste blog.

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A lista abaixo é afetiva, por ordem cronológica de realização das obras. E, assim, tem certamente a ver também com as circunstâncias em que esses filmes e cineastas foram conhecidos (daí o relato que acompanha a seleção) e com o fato de, ao revisitá-los periodicamente, constatar que se mantêm especiais.

Não gosto do termo "obrigatório" e, portanto, o espírito desta seleção não é o de apontar obrigação nenhuma a ninguém. Prefiro sempre dizer que invejo quem ainda não assistiu a esses filmes (e a tantos outros que caberiam em mais dúzias de listas, e que poderiam ser reunidos a partir de períodos, gêneros, escolas, abordagens, afetos): terá o prazer inigualável, que para mim ficou em algum lugar do passado, de vê-los pela primeira vez.

Alfred Hitchcock (1899-1980)

Descoberta feita na TV, ainda na infância, depois reforçada com a reestréia nos cinemas, nos anos 80, de alguns clássicos que estavam fora de circulação havia décadas, como "Um Corpo que Cai" (Vertigo, 1958), com o lançamento pela Editora Brasiliense da primeira edição de "Hitchcock/Truffaut" e com a revisão possibilitada pelo videocassete e agora o DVD. Minha comissão de frente dessa obra extraordinária: "A Dama Oculta" (The Lady Vanishes, 1938), "A Sombra de uma Dúvida" (Shadow of a Doubt, 1943), "Pacto Sinistro" (Strangers on a Train, 1951), "Janela Indiscreta" (Rear Window, 1954), "Um Corpo que Cai" (em Portugal, "A Mulher que Viveu Duas Vezes" – falo sério), "Intriga Internacional" (North by Northwest, 1959), "Psicose" (Psycho, 1960) e "Os Pássaros" (The Birds, 1963).

"Rastros de Ódio" (The Searchers, EUA, 1956), de John Ford

Meu pai adorava faroestes, em especial o que chamava de "filmões", de que este aqui talvez seja o melhor exemplo. Não tenho certeza se foi ao lado dele, mas assisti pela primeira vez a "Rastros de Ódio" na TV, ainda muito criança. Sei disso porque ao revê-lo, já adulto, descobri de onde vinham imagens que haviam se impregnado na memória como se sempre tivessem feito parte dela. E, à medida que o tempo passa, Ethan Edwards (John Wayne) fica ainda mais dolorosamente grandioso, esfinge majestosa na história do cinema norte-americano.

"Deus e o Diabo na Terra do Sol" (1964), de Glauber Rocha

Antes do videocassete, do DVD e da internet, havia duas maneiras de conhecer filmes (ao menos para espectadores sem regalias): ou havia cópia em película na cidade e alguém disposto a exibi-la, ou os programadores das emissoras de TV (em São Paulo, durante a minha adolescência, seis canais) resolviam passar o dito cujo, na maioria dos casos em versão dublada. Nesse cenário, a morte precoce de Glauber representou, paradoxalmente, um achado: para homenageá-lo, organizou-se uma retrospectiva no antigo Cine Vitrine. De uma tacada só, aos 15 anos, vi o que havia disponível à época. Subi chapado a rua Augusta até a avenida Paulista por alguns dias, depois das sessões. "Deus e o Diabo na Terra do Sol" me fez chegar às aulas noturnas na Escola Técnica Federal, no Canindé, sem me lembrar direito de qual havia sido o caminho. Cinema brasileiro, muito prazer.

Francis Coppola, Martin Scorsese, Woody Allen

A década de 70, das mais ricas na história do cinema dos EUA, foi escrita por um punhado de gente talentosa naqueles anos selvagens em que se acreditava na reconstrução de Hollywood com um pé na tradição clássica e o outro no cinema de expressão autoral europeu. Dessa geração, os três senhores acima foram os que primeiro me impactaram, graças a carteirinhas de estudante falsas para burlar a censura. Desde então, se tornaram amigos a quem se visita periodicamente para jogar conversa fora. Primeiros contatos, quase simultâneos: de Coppola, "Apocalypse Now" (1979) em estréia no Cine Copan; de Scorsese, "Taxi Driver" (1976) em reprise no Cine Bijou e "Touro Indomável" (Raging Bull, 1980) em estréia no Cine Metro; de Allen, "Noivo Neurótico, Noiva Nervosa" (Annie Hall, 1977, foto acima) em reprise também no Bijou e "Manhattan" (1979) em estréia no Cine Barão. Todos esses cinemas fecharam. Saudades deles também.

"Decálogo" (Dekalog, Polônia, 1988-1989), de Krzysztof Kieslowski

Na 13ª. edição, em 1989, a Mostra Internacional de Cinema em São Paulo exibiu os 10 episódios dessa minissérie de TV, em pares, durante cinco dias consecutivos no Museu da Imagem e do Som. Outras subidas chapadas até a avenida Paulista. A programação daquele ano trouxe ainda os dois longas que se originaram de dois episódios, "Não Matarás" (Krótki film o zabijaniu, foto acima) e "Não Amarás" (Krótki film o milosci). A TV Cultura de São Paulo exibiu mais tarde essa obra-prima da ficção seriada, hoje disponível em DVD nos EUA (em versão crua, apenas com os episódios, e em uma caixa com um monte de extras). A herança cristã às vésperas do terceiro milênio, examinada pelas vidas cruzadas de moradores de um conjunto habitacional de Varsóvia. Roteiro de Kieslowski e de seu parceiro habitual, o advogado Krzysztof Piesiewicz.

Escrito por Leonardo Cruz às 9h51 AM

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Cassavetes no Brasil

Cassavetes no Brasil

A melhor notícia deste final de ano vem do Rio de Janeiro. O CCBB carioca realiza de 5 a 17 de dezembro uma mostra com todos, repito TODOS, os filmes do diretor John Cassavetes, ícone do cinema indepentente americano dos anos 60 e 70, autor de longas essenciais como "Faces" (1968), "Husbands" (1970) e "A Woman under the Influence" (1974, foto acima).

Além das 12 obras do cineasta, o festival no Rio apresentará dois documentários sobre Cassavetes, o média "Cinéastes de Notre Temps - John Cassavetes" e o longa "A Constant Forge". Também serão exibidos quatro filmes em que o diretor aparece como ator, incluindo "Os Doze Condenados" e "O Bebê de Rosemary".

Não há registro de um evento desse tamanho sobre Cassavetes no Brasil, onde assistir a seus filmes é um raro privilégio, já que nada foi lançado em DVD por aqui. Além da apresentação dos longas, haverá dois debates durante o festival, um sobre o método de trabalho do diretor e outro sobre as perspectivas da produção independente em cinema, ambos mediados pelo cineasta Joel Pizzini.

As cópias em película dos filmes dirigidos por Cassavetes vêm de Portugal e ficarão somente no Rio de Janeiro. Uma pena, dado que o CCBB também tem sedes em São Paulo e Brasília e normalmente estica seus eventos para outras cidades. Ainda assim, a iniciativa é louvável.

*

Para saber mais sobre Cassavetes, vale conferir o artigo de Paulo Santos Lima publicado na revista eletrônica Cinética.

Escrito por Leonardo Cruz às 4h01 PM

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Altman e o Oscar

Altman e o Oscar

 

Aos 81, Robert Altman ainda era irresistível. E deu prova disso com a maneira inteligente e elegante com que recebeu, no último dia 6 de março, o Oscar pelo conjunto de sua obra.
Rotulado de "outsider" em Hollywood, preterido nas cinco vezes em que disputou a estatueta, Altman não fugiu do ponto no discurso de agradecimento: "Fiz um único longo filme. Sei que alguns de vocês gostaram de algumas partes e outros... bem, está tudo certo".
Aos jornalistas, negou que tenha feito questão de adotar o rótulo de cineasta antihollywoodiano, mas deixou clara suas diferenças com os estúdios. "Eles vendem sapatos, eu faço luvas. Mas isso não é nada. Apenas estamos em negócios ligeiramente diferentes."
Foi para a platéia do Teatro Kodak, na noite do Oscar, que Altman revelou ser transplantado. Com ironia e como término de seu discurso: "Dez, onze anos atrás, fiz um transplante de coração. Recebi o coração de uma mulher na casa dos 30. Pelas contas, vocês devem estar me dando esse prêmio cedo demais. Porque acho que tenho uns 40 anos de resto. E pretendo usá-los. Muito obrigado."
Como Altman conseguiu manter esse segredo em Los Angeles? Foi a primeira pergunta feita a ele logo após a entrega do Oscar. "Pensei que [se revelasse o fato] ninguém me contrataria de novo. Há um estigma sobre transplantados."
Altman falou longamente aos jornalistas. Respondeu a todas as perguntas com simpatia e sagacidade, como a do repórter de TV que, no ano da consagração de "O Segredo de Brokeback Mountain", quis saber dele de que forma dirigiria um filme gay.
"Não é diferente das outras histórias. Vejamos. Há homens e mulheres. E há [as combinações] homem e mulher; homem e homem e mulher e mulher. E há mulher e homem e mulher. Gosto muito dessa."
Altman sabia que seu Oscar tinha um sabor de "antes que seja tarde demais". E abordou isso também com a máxima elegância: "Quando a notícia chegou, fui pego de surpresa. Sempre pensei que esse tipo de prêmio quer dizer que chegou o fim. Quando aconteceu comigo, eu estava ocupado ensaiando uma peça, a última escrita por Arthur Miller, 'Resurrection Blues', que estreou ontem em Londres. E estava dando uma entrevista sobre meu novo filme, 'A Última Noite'. Então me dei conta de que ainda não é o fim".

Escrito por Silvana Arantes às 6h02 PM

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Homenagem a Altman

Homenagem a Altman

Logo no início de "O Jogador", executivos americanos discutem possíveis novos filmes e resvalam no modo de filmar em Hollywood. Um deles afirma que as produções mais parecem videoclipes da MTV, com muitos cortes, cenas excessivamente curtas. Outro, mais saudosista, lembra o longo plano-seqüência da abertura de "A Marca da Maldade", de Orson Welles. Mais tarde, são citados Hitchcock e seu "Festim Diabólico", inteirinho rodado para parecer não ter corte nenhum.

Essa cena inteira dura cerca de oito minutos e também não tem cortes. Era a primeira das muitas homenagens (e críticas) que Robert Altman faria à indústria do cinema naquele filme, o mais alto ponto de sua carreira e que lhe rendeu, entre outros prêmios, o de melhor direção no Festival de Cannes de 1992.

A morte de Altman foi anunciada há poucas horas nos EUA, de causas ainda não divulgadas. Aos 81 anos e com mais de 50 longas na carreira, o cineasta continuava ativo e concluíra neste ano mais um filme, atualmente em cartaz em uma única sala de São Paulo. Ir ao Belas Artes hoje para ver "A Última Noite" é a melhor homenagem que pode ser prestada a um dos grandes diretores da história do cinema.

Escrito por Leonardo Cruz às 3h24 PM

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O novo começo de Kar-wai

O novo começo de Kar-wai

O mais cultuado cineasta oriental do momento, Wong Kar-wai já edita seu primeiro longa totalmente rodado nos EUA. Em entrevista ao "New York Times", o diretor chinês define "My Blueberry Nights" como um "recomeço", depois dos quatro anos consumidos na preparação de "2046". O filme novo, ainda sem previsão de estréia, tem a cantora Norah Jones como a protagonista que atravessa quatro cidades americanas em busca de respostas para sua vida amorosa. Em suas andanças, ela contracena com Jude Law, Natalie Portman, David Strathairn, Rachel Weisz e Tim Roth _elenco que deixa claro o interesse que um projeto assinado por Kar-wai desperta hoje no Ocidente.

O cineasta afirma querer recuperar seu ritmo dos anos 90, quando realizou sete filmes em sete anos, e encerrou as gravações de "My Blueberry Nights" em sete semanas. Isso não significa que o diretor tenha abdicado do cuidado visual de suas outras obras: uma única seqüência, de um beijo entre Norah Jones e Jude Law, foi rodada ao longo de três dias, em dezenas de ângulos e velocidades diferentes. Foram necessários cerca de 150 beijos até que a cena estivesse pronta.

Além de ser a primeira vez de Kar-wai nos EUA, o cineasta enfrenta outras situações inéditas com "My Blueberry Nights": o diretor, que normalmente assina sozinho o roteiro, divide a história com Lawrence Block, autor de romances policiais como "O Ladrão que Achava que Era Bogart". Também é o primeiro filme do cineasta sem seu diretor de fotografia Christopher Doyle, que o acompanhava desde 1991, quando fizeram "Days of Being Wild". Para o lugar de Doyle, Kar-wai escalou o iraniano Darius Khondji, que já fez "Seven", "Evita" e, mais recentemente, a comédia romântica "Wimbledon". Resta saber o impacto que a troca provocará no aspecto visual da obra do diretor chinês.

Após "My Blueberry Nights", Kar-wai continuará a filmar nos EUA e não só nos EUA. Em seu próximo projeto, "The Lady From Shanghai", o diretor levará sua câmera a Nova York, Rússia e Xangai para rodar um drama de época que em tese teria Nicole Kidman no elenco, mas a presença da atriz não está confirmada.

Escrito por Leonardo Cruz às 9h32 AM

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A Romênia contra Borat

A Romênia contra Borat

Parece piada, mas é verdade: moradores de uma cidade na Romênia entraram com ação judicial nos EUA e na Alemanha contra o filme "Borat", o falso documentário sobre as peripécias de um desbocado repórter cazaque na sociedade americana. Segundo o "Los Angeles Times", os romenos de Glod, a maioria ciganos, querem US$ 30 milhões em indenização e que a comédia saia de cartaz se algumas cenas não forem alteradas.

Os ciganos romenos foram usados no filme como dublês dos cazaques, e imagens de Glod, como a da foto acima, ilustram o que seria uma aldeia do Cazaquistão. Tudo mote para as piadas do comediante inglês Sacha Baron Cohen, o intérprete de Borat. Os romenos dizem que não sabiam da verdadeira natureza do filme e que foram manipulados pela equipe de produção. Segundo os ciganos, o que estava sendo filmado era um documentário sobre a dura realidade de Glod, vilarejo no sul da Romênia sem esgoto nem água encanada.

Baron Cohen e seus colegas receberam hoje uma carta em que são orientados a, entre outras coisas, pedir desculpas em público. Têm uma semana para cumprir as exigências e evitar a continuidade da ação. Se não for gongado pela Justiça, "Borat" estréia no Brasil em 16 de fevereiro.

Escrito por Leonardo Cruz às 4h01 PM

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Não deu para Bond

Não deu para Bond

 

James Bond passou o final de semana atirando contra pingüins, mas não teve jeito. "Happy Feet", animação da Warner inspirada no documentário francês "A Marcha dos Pingüins", ficou em primeiro lugar nas bilheterias americanas no final de semana, superando "Cassino Royale", que teve melhor desempenho fora dos EUA.

A boa performance do desenho se deve em parte à recepção calorosa da crítica americana, que viu em "Happy Feet" mais do que um programa infantil sobre pingüins que sapateiam, com músicas divertidas. Para o "Chicago Tribune", "a arte e a ambição do filme o colocam a frente de quase todas as animações dos últimos dois anos". Para o "Los Angeles Times", nenhuma animação tinha mensagem ecológica tão forte desde "Princesa Mononoke", do japonês Miyazaki. Para o "New York Times", o filme também atrai por um aspecto "sombrio e profundo".

"Happy Feet" estréia no Brasil na próxima sexta, com as vozes de Hugh Jackman e Nicole Kidman na versão legendada.

Escrito por Leonardo Cruz às 2h59 PM

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Karim, Lázaro e o cérebro dos atores

Karim, Lázaro e o cérebro dos atores

Desde "Madame Satã", com as excelentes atuações de Lázaro Ramos e Flávio Bauraqui, sabemos que Karim Aïnouz é um ótimo diretor de atores. Além de ser um ótimo diretor. Ponto.

Em "O Céu de Suely", que chega agora aos cinemas, ele usou o artifício de fazer os atores emprestarem seus próprios nomes aos personagens, caso da protagonista Hermila Guedes (foto acima). Foi um dos jeitos que encontrou de "brincar com a verossimilhança" no filme. Karim sabe que o recurso não funcionaria com nomes famosos nos papéis principais. Imagine Mariana Ximenes brincando de ser... Mariana Ximenes no sertão. Pois é!

A pergunta então é: ainda há lugar para Lázaro Ramos, o hoje ultrapopular Foguinho da novela das sete, num filme de Karim Aïnouz? O cineasta responde:

"Lázaro Ramos, como qualquer ator de TV, é capaz de trabalhar num filme meu. Mas precisa fazer um trabalho de desconstrução. É verdade que não consegui nenhum ator global que quisesse ficar três meses no sertão comigo. Porque é preciso ter disponibilidade para isso, como as pessoas que fazem TV têm que ter disposição para ativar um lado do cérebro que é o da decoração."

Escrito por Silvana Arantes às 11h17 PM

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Os documentários do Oscar

Os documentários do Oscar

Foi divulgada ontem à noite a lista dos 15 documentários que disputarão as 5 indicações ao Oscar 2007. Como sempre, total domínio de produções americanas. Política dos EUA, Guerra do Iraque e religião marcam forte presença na relação, que tem desde já um favoritíssimo.

The Ground Truth” (EUA): seis soldados americanos e a Guerra do Iraque. O recrutamento, a rotina no país e a dificuldade de adaptação no retorno aos EUA. Foi indicado ao prêmio do júri em Sundance 2006.

The War Tapes” (EUA): outro sobre a Guerra do Iraque, agora observado pelas imagens registradas em câmeras digitais por soldados da Guarda Nacional Americana. Venceu o festival de Tribeca.

Iraq in Fragments” (EUA): o palco da guerra visto por seus habitantes. Iraquianos falam sobre o conflito, a ocupação americana e as tensões éticas. Três prêmios em Sundance, inclusive melhor direção em documentário.

My Country, My Country” (EUA): outro filme que aborda a ocupação americana vista pelos iraquianos. Segue os passos de um médico muçulmano sunita que se candidata nas eleições gerais de janeiro de 2005.

An Unreasonable Man” (EUA): a vida e a carreira de Ralph Nader, o advogado e ativista político americano e candidato presidencial independente derrotado nas eleições de 2000.

Can Mr. Smith Get to Washington Anymore?” (EUA): narra a campanha de um professor da Universidade de Washington que decide disputar as primárias do Partido Democrata por uma vaga no Congresso americano.

Shut Up & Sing” (EUA): sobre o boicote organizado em 2003 contra a banda Dixie Chicks depois que sua vocalista Natalie Maines criticou a invasão americana no Iraque.

“Storm of Emotions” (Israel): a saída israelense de Gaza contada sob a ótica de soldados do Exército de Israel e oficiais da zona de fronteira responsáveis pela retirada de seus compatriotas da região.

Deliver Us from Evil” (EUA): reconstitui a trajetória do padre pedófilo Oliver O'Grady, que atuou em dezenas de paróquias na Califórnia. O filme foi muito bem-recebido pela crítica americana.

Jesus Camp” (EUA): causou recente polêmica nos EUA ao retratar uma colônia de férias evangélica em que as crianças aprender a virar "soldados de Deus". Foi capa da Ilustrada na semana passada (leia aqui).

Jonestown: The Life and Death of People’s Temple” (EUA): imagens inéditas da ação na Guiana do missionário americano Jim Jones, que em 1978 levou cerca de 900 seguidores de seu Templo do Povo a cometer suicídio coletivo.

Sisters in Law” (Camarões/Reino Unido): o trabalho de duas juízas que lidam com casos de estupro, adultério e violência no sistema legal camaronês.

The Trials of Darryl Hunt” (EUA): o caso de Darry Hunt, preso durante 20 anos por um crime de estupro e assassinato que não foi cometido por ele. Também indicado ao prêmio do júri em Sundance.

"Blindsight” (Reino Unido): a história de seis adolescentes tibetanos que escalaram o monte Everest. O detalhe: os seis são cegos.

An Inconvenient Truth” (EUA): por fim, o grande favorito. O documentário que é uma palestra ilustrada de Al Gore sobre o aquecimento global. O único da lista em cartaz em São Paulo.

Escrito por Leonardo Cruz às 10h34 AM

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O canto do Inácio

O canto do Inácio

Em uma busca na internet nesta semana sobre a obra de Carlos Reichenbach, tive uma boa e interessante surpresa. Encontrei um blog chamado Canto do Inácio. Inicialmente, pensei que o crítico de cinema da Ilustrada tivesse se rendido à blogsfera. Estava enganado. "Tudo isso para mim é grego", confessou Inácio sobre o mundo dos blogs. Na verdade, um leitor decidiu reunir num lugar os textos que Inácio escreve para a Folha e desde setembro compilou cerca de 30 artigos.

O leitor é Diego Assunção, 20, estudante de jornalismo, cinéfilo e colaborador da revista Cinética, onde assina a esperta coluna "Plantão do YouTube", em que indica vídeos legais perdidos no megasite. Sobre o critério de seleção dos textos do Canto do Inácio, Diego explica: "Após ver ou rever um filme, procuro críticas do Inácio a respeito. Geralmente encontro preciosidades em seus comentários, aí publico."

O próprio Inácio gostou da homenagem e já colaborou diretamente com seu cantinho. Vale a leitura.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h42 AM

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Matt Dillon e o peixe-boi

Matt Dillon e o peixe-boi

Em Manaus como convidado do 3º Amazonas Film Festival, o ator Matt Dillon, de "Crash", ganhou uma nova afilhada: é Mawa, fêmea recém-nascida de peixe-boi, batizada e amamentada pelo ator, que na tarde de ontem participou de um evento pela preservação da espécie promovido pela Associação Amigos do Peixe-Boi.

                                           Fotos Herick Pereira/Divulgação

À noite, Dillon foi homenageado no festival, aplaudido pelo público e agraciado com uma placa com seu nome e uma singela escultura de onças, representando a fauna brasileira.

Escrito por Leonardo Cruz às 1h35 PM

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O cinema áspero de Reichenbach (1)

O cinema áspero de Reichenbach (1)

A Folha de hoje publica reportagem de José Geraldo Couto sobre as filmagens de "Falsa Loura", novo longa-metragem de Carlos Reichenbach, que deve ficar pronto em 2007. A íntegra da reportagem também pode ser lida na Ilustrada Online. Nos textos a seguir, o próprio Zé Geraldo e o crítico de cinema Inácio Araujo analisam a obra de Carlão. As fotos que ilustram os dois posts são das gravações de "Falsa Loura", feitas por Luciana Benaduce Figueiredo. 

*

Carlos Reichenbach: o cosmo sangrento e a alma pura, por José Geraldo Couto

Não é por acaso que o veterano mais amado pelos jovens cineastas brasileiros é Carlos Reichenbach. Pode conferir: de Recife a Porto Alegre, de São Paulo a Brasília, Carlão é sinônimo de cinema vivo, urgente, imperfeito, caloroso. Entusiasta na discussão estética e política, generoso com o trabalho alheio, Carlão traz o cinema à vida com o mesmo empenho com que leva a vida ao cinema.

Por conta da sua inquietação e das suas múltiplas influências – que vão da poesia católica de Murilo Mendes ao terror grand-guignolesco de Mario Bava e Dario Argento, da filosofia de Kierkegaard ao erotismo da Boca do Lixo paulistana, passando pelo cinema japonês e pelos "Cahiers du Cinéma", pelo marxismo e pelo surrealismo –, a produção de Reichenbach trafega por inúmeros gêneros, temas e estilos. Cinema impuro, irregular, cheio de arestas, de uma poesia áspera como a voz de seu autor.

Na filmografia do diretor é possível identificar algumas vertentes. Uma divisão possível, cara ao próprio Reichenbach, é entre os seus filmes "femininos" ("Lilian M", "Anjos do Arrabalde", "Garotas do ABC", "Falsa Loura") e os "masculinos" ("Filme Demência", "Alma Corsária"), mas há muitos que misturam os dois universos ("Amor: Palavra Prostituta", "Dois Córregos").

Se é para classificar essa obra mutante e movediça, talvez seja melhor pensar em três categorias principais: os filmes que dialogam com o repertório popular da pornochanchada ("A Ilha dos Prazeres Proibidos", "Império do Desejo"), os mais próximos do melodrama realista ("Anjos do Arrabalde", "Dois Córregos", ‘Bens Confiscados") e os vôos de experimentação surrealista ("Filme Demência"). Alguns longas, como "Alma Corsária" e "Garotas do ABC", misturam esses vários registros.

A cultura cinematográfica de Carlão Reichenbach é tão onipresente em sua obra que sempre aflora em referências e citações mais ou menos identificáveis. Em "Falsa Loura", há um exemplo singelo: numa danceteria paulistana, a protagonista Silmara (Rosanne Holland) tira os sapatos de salto alto e desce uma escada dançando e batendo palmas em direção ao namorado, o que remete a uma cena do clássico "Férias de Amor" ("Picnic", 1956), de Joshua Logan.

Mas não se trata de citações acadêmicas ou exibicionistas, de erudição pela erudição. É uma transfusão entre arte e vida, um jogo constante que aparece também nas brincadeiras e homenagens que o cineasta faz a seus amigos pessoais. No mesmo "Falsa Loura", um dos protagonistas masculinos, o cantor de rock vivido por Cauã Reymond, chama-se Bruno de André, que é o nome de um jornalista e cineasta amigo de Reichenbach há mais de três décadas. Outro personagem importante, o cantor romântico encarnado por Mauricio Mattar, chama-se Luís Ronaldo, nome de um dos filhos de Carlão. E por aí vai.

A utopia de Carlos Reichenbach, que era também a de Rogério Sganzerla, é a de um cinema ao mesmo tempo popular e experimental, cosmopolita e profundamente brasileiro, radicalmente crítico e celebratório. Por isso ele ataca em várias frentes: não pára de filmar (muitas vezes cuidando pessoalmente da câmera, da montagem e da música), de produzir roteiros e projetos (enlouquecendo sua sócia, a produtora Sara Silveira), de escrever críticas (na imprensa e na internet) e de organizar eventos como as sessões do Comodoro, de exibição de filmes raros no Cinesesc. Como Mário de Andrade, Carlão não é um só, é "trezentos, trezentos e cinqüenta". Só assim para viver de cinema e manter uma integridade a toda prova num país tão acanalhado como o Brasil.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h29 AM

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O cinema áspero de Reichenbach (2)

O cinema áspero de Reichenbach (2)

Um cinema de contrastes, por Inácio Araujo 

"A questão central do cinema de Carlos Reichenbach é encontrar o homogêneo no seio do heterogêneo. Suas personagens, no interior de um mesmo filme, são as mais diversas possíveis. Um professor cultíssimo e niilista namora uma operária especializada e batalhadora ("Amor, Palavra Prostituta"), uma garota negra é apaixonada por um branco nazista ("Garotas do ABC"), duas adolescentes deixam-se fascinar por um refugiado político ("Dois Córregos"). Etc. Estilisticamente, os filmes apresentam o mesmo tipo de contraste, podendo variar do drama existencial à chanchada no espaço de alguns fotogramas, para depois passar ao musical ou ao policial.

Essa operação não é simples, nem é raro o espectador ficar um tanto perplexo diante do que vê, sem saber ao certo se deve rir ou não, porque Carlão não apenas transtorna a lei dos gêneros como também os hábitos de nossa percepção.

Ninguém deve sentir-se desconcertado diante disso – muitos especialistas já ficaram e não à toa que sua obra levou anos a ser descoberta. Chamo a atenção para ela, porque esse tipo de mise-en-scène me parece exprimir, no mais alto grau de inteligência cinematográfica, o Brasil, seus abismos sociais, seus contrastes gritantes, e, sobretudo, a principal característica deles, que é a contiguidade.

Nos filmes de Carlão Reichenbach, o bom e o mau gosto, o homem culto e o cafajeste rematado, o torturado existential e o vigarista são invariavelmente contiguos, não raro convivem no mesmo bairro ou rua. Pode-se dizer que isso não é raro em outras cinematografias. Vejamos um caso banal: homem rico encontra órfã, conversa com ela, convida-a para uma festa, faz amizade, começa a paquerá-la. Ou ainda: dramaturgo de sucesso na Broadway topa, incógnito, com garçonete com ambição a escritora, que despreza os sucessos da Broadway. Existe um evidente contraste entre esses personagens. No entanto, sabemos que fazem parte do mesmo mundo, que seu falar, seus rostos, seus hábitos de algum modo os identifica, os aproxima, na medida em que participam de um mesmo mundo.

Essa solidariedade que podemos encontrar na sociedade americana ou européia (onde a riqueza não implica necessariamente diferenças culturais acentuadas) está longe de existir nos filmes brasileiros, e me parece mesmo uma das razões por que o espectador custa a se identificar com eles. Ou não se identifica nunca, porque busca uma solidariedade que existe nas convenções cinematográficas, mas, no nosso caso, não se dá na vida cotidiana, em que vigora uma espécie de apartheid social. Daí, quando os personagens de Carlão dialogam, eles em geral falam em dois níveis distintos, de certa forma irredutíveis um ao outro, o que lhes dá uma aspereza particular."

Leio, releio e não vejo muito o que modificar ou acrescentar a esses parágrafos que abrem um dos artigos que escrevi para o livro "Ilha Deserta – Filmes", lançado pelo Publifolha há alguns anos. Vejo que às vezes as pessoas falam de um "problema" do cinema brasileiro, como se ele existisse à parte dos problemas do Brasil. Carlão é, felizmente, um pouco autista. Embora aspire falar ao público mais amplo possível, é incapaz de abrir mão de seu pensamento. Não se dobra à estética saída das novelas da Globo e que, se faz sucesso no cinema nacional de hoje, é porque se trata da única que o público local identifica como linguagem ficcional possível. Não é fácil fazer cinema no Brasil atual, no sentido em que fazer cinema não é gritar "roda", e sim pensar as imagens, seu destino. Reichenbach ainda faz.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h27 AM

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O grande truque de Woody Allen

O grande truque de Woody Allen

A colaboradora parisiense do blog, Patricia Klingl, comenta "Scoop", o novo filme de Woody Allen, previsto para estrear no Brasil em fevereiro.

 

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O grande truque de Woody Allen, por Patricia Klingl

 

 

Para Woody Allen, um processo de investigação criminal pode se tornar mais eficiente quando os detetives contam com uma ajuda do além, o que não implica necessariamente a punição dos culpados. Em "Match Point", nem mesmo a aparição _em um sonho do investigador_ das mulheres assassinadas, conseguiu mudar o curso da história: a sorte estava mesmo ao lado do suspeito. Em "Scoop", é novamente um fantasma que fornece os vestígios de um crime aos investigadores.

 

Como no filme anterior, a história se passa em Londres, na companhia de Scarlett Johansson. Há ainda um sedutor aristocrata inglês (Hugh Jackman, o Wolwerine de "X-Men"), suspeito de ser um assassino. Mas as semelhanças entre os dois filmes param por aí. Em "Scoop", o diretor elimina a sensualidade e o suspense e opta pela comédia.

 

 

Neste filme, Allen está de novo em cena, no papel do mágico-judeu-neurótico Sidney Waterman, ou melhor, Splendini. Será em seu show que a estudante de jornalismo Sondra Pransky, voluntária no número do desaparecimento, receberá de um fantasma as pistas que podem desmascarar o assassino do tarô, serial-killer que vem aterrorizando impunemente a capital inglesa. Esta ajuda paranormal é do jornalista Joe Strombel (Ian McShane), que, depois de morto, obtém preciosas informações sobre o criminoso e resolve passá-las adiante. Como em “Um Misterioso Assassinato em Manhattan”, a dupla de amadores decide apurar o possível crime. A jovem Sondra espera, assim, dar seu primeiro furo de reportagem (scoop).

 

Scarlet Johansson _de roupas largas, cabelos presos, aparelho ortodôntico e óculos à moda de John Lennon_ não lembra em nada sua voluptuosa personagem de "Match Point", exceto quando, incentivada pelo mágico, vai à piscina do clube onde o suspeito pratica natação, para tentar conquistá-lo. Mesmo assim, não se trata de uma sedução comum: a atriz, de maiô vermelho, faz lembrar as loiras da série "SOS Malibu".

 

A sensação que temos é de que o filme foi rodado num clima de total descontração. O diretor parece se divertir em cena e nos leva com ele. Tudo funciona à perfeição: as piadas, as situações inusitadas e as neuroses de seu alter ego.

 

Aos 70 anos e após mais de 40 filmes, o cinema não envelhece para Woody Allen, como num toque de mágica.

 

*

 

- O próximo filme de Woody Allen, também rodado em Londres, está em fase de pós-produção. Desta vez sem Scarlet Johansson, o diretor conta com Ewan McGregor e Colin Farrell.

 

- Hugh Jackman e Scarlet Johansson atuam novamente juntos em "O Grande Truque", de Christopher Nolan (de Amnésia, Insônia e Batman Begins), em cartaz no Brasil.

 

Escrito por Leonardo Cruz às 8h30 AM

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"Os Infiltrados" x "Os Infiltrados"

"Os Infiltrados" x "Os Infiltrados"

A estréia hoje de "Os Infiltrados", de Martin Scorsese, permite uma rara oportunidade de comparar como duas escolas de cinema filmam a mesma história. A obra de Scorsese é uma releitura de "Conflitos Internos", produção de 2002 de enorme sucesso na Ásia e lançado em DVD no Brasil pela Miramax. A seguir, um rápido tête-a-tête das duas produções.

São dois grandes policiais envoltos por discussões morais, cada um com seus próprios méritos. "Conflitos Internos" é um típico filme de ação de Hong Kong, enxuto (101 min), com edição ágil e totalmente centrado no embate entre Leung e Lau, sem muito espaço para os coadjuvantes. Já Scorsese vai além do confronto entre tira e mafioso infiltrados e transforma em protagonista o chefe da máfia, figura menor no original chinês.

Ao optar por um filme mais longo (152 min), o diretor americano amplia o espaço para Jack Nicholson compor um personagem grandioso, quase caricatural de tão cafajeste. Martin Sheen, o comissário de polícia, é o exato contrapeso moral a Nicholson, o que faz da cena do encontro entre os dois um dos pontos altos do filme.

Se Scorsese se sai melhor no desenvolvimento dos personagens, os diretores Andrew Law e Alan Mak são mais bem-sucedidos no desfecho de sua narrativa _a cena final do original chinês condiz melhor com a trama do que o encerramento da refilmagem americana.

Escrito por Leonardo Cruz às 2h54 PM

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A febre Almodóvar

A febre Almodóvar

"Volver", o filme novo de Pedro Almodóvar, causou furor na Espanha quando estreou por lá, em abril último. Nada mais natural, já que o espanhol é um dos grandes diretores em atividade no mundo. Cartazes como este acima, de Penélope Cruz, estavam espalhados pelo país. Em quase todos os cinemas, bancas de jornal, pontos de ônibus e estações de metrô havia a imagem da bela moça com flor no cabelo. A avalanche de Penélopes foi tanta que um clube gay de Barcelona decidiu fazer uma brincadeira, inventou a festa "Vuelve" e distribuiu pelas ruas da cidade o cartaz abaixo, com sua própria "moça com flor no cabelo". Este blogueiro prefere a versão original.

A festa "Vuelve" não chegou por aqui, mas "Volver" estréia hoje no país e é um dos filmes obrigatórios deste final de semana. O outro é "Os Infiltrados", sobre o qual haverá um post aqui ainda nesta sexta-feira.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h15 AM

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Filmoteca - José Geraldo Couto

Filmoteca - José Geraldo Couto

O colunista da Folha José Geraldo Couto é um dos poucos jornalistas do país capazes de escrever com a mesma desenvoltura sobre cinema, literatura e futebol. É um dos principais críticos de cinema da Ilustrada, assina uma coluna sobre o mundo da bola aos sábados no Esporte e também traduz romances. Abaixo, ele gentilmente indica cinco favoritos para a Filmoteca deste blog.

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Muitos filmes fizeram minha cabeça. Estes fizeram cabeça, tronco e membros.

"Limite" (Brasil, 1930), de Mário Peixoto.

É quase um milagre que esse filme tenha sido feito no Brasil em 1930, por um rapaz de 19 anos. Um barco à deriva com três náufragos: um homem e duas mulheres. A partir dessa imagem forte, a recriação, pela memória e pelo sonho, das trajetórias dos três. Cada plano é de uma beleza espantosa e sua organização é de uma invenção sem limites. Com uma irreprimível ânsia pelo absoluto, a cabeça repleta de filmes de vanguarda europeus e a ajuda inestimável do fotógrafo Edgar Brasil, que inventou engenhosas traquitanas para compensar a inexistência de uma indústria cinematográfica entre nós, o jovem Mário Peixoto fez uma ode inigualável ao poder da criação.

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"A Regra do Jogo" (La Règle du Jeu, França, 1939), de Jean Renoir.

Um clássico absoluto sem a fixidez cerimoniosa dos clássicos. Um fim-de-semana de caça na casa de campo de um casal abastado, às vésperas da Segunda Guerra Mundial, serve a Renoir para um estudo sagaz das contradições de classe, do teatro da sociedade, das fugidias relações entre os sexos. Dois mundos que se entrecruzam – o dos aristocratas que caçam, festejam e traem uns aos outros e o dos criados, que trabalham e parodiam a ação dos patrões – numa dança de infinita graça e frescor. Tudo parece acontecer de improviso diante dos nossos olhos, e só depois da última fala nos damos conta da maestria de Renoir em trançar com precisão diabólica todos os fios.

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"A Palavra" (Ordet, Suécia, 1955), de Carl Dreyer.

Cineasta da espiritualidade, autor de obras-primas como A Paixão de Joana d’Arc e Vampyr, o dinamarquês Dreyer realiza em A Palavra o prodígio de, em nossos dias de ceticismo e desesperança, nos fazer crer num milagre: a ressurreição de uma moça do campo morta durante um parto, por força da fé torta e pura do louco da aldeia, que se contrapõe à religião instituída. Obra de espantosa coragem e integridade, exemplo máximo da capacidade do cinema de revelar o invisível por trás da superfície das coisas.

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"Rastros de Ódio" (The Searchers, EUA, 1956), de John Ford.

Grandioso, melancólico, crepuscular, a autêntica Odisséia americana, em que a epopéia da conquista – tema de tantos filmes do próprio Ford – dá lugar à tragédia da derrota e da perda. O índio, eterno "outro" da cultura americana, tratado pela primeira vez de igual para igual, com ódio mas também com respeito. No final, o herói solitário se perde na imensidão, condenado à liberdade sem descanso e sem rumo.

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"O Bandido da Luz Vermelha" (Brasil, 1968), de Rogério Sganzerla.

Dois brasileiros numa seleção de cinco é muito? Que seja. O Bandido de Sganzerla, que ele caracterizava como "um faroeste do Terceiro Mundo" é uma síntese exuberante de muitas fontes criativas: Orson Welles, a Nouvelle Vague, o policial americano, a chanchada brasileira. Tomando um caso da crônica policial, o cineasta, então com 22 anos, fez um retrato vivo do caos social, político e cultural do Brasil no final dos anos 60 e apontou um caminho, infelizmente abortado, de conciliação entre arte de vanguarda e gosto popular. Um filme visionário e inventivo como poucos do cinema mundial. Sganzerla matou de um só golpe o Cinema Novo, preservando e elevando a um nível superior aquilo que este tinha de melhor (leia-se Glauber Rocha).

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Os filmes estrangeiros estão disponíveis em DVD. Os nacionais, apenas em VHS.

Escrito por Leonardo Cruz às 2h48 PM

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Michel, eu te amo

Michel, eu te amo

Na terça à noite, a Folha e o Espaço Unibanco promoveram uma sessão especial de "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger, seguida de debate com a equipe do filme.  A platéia derreteu-se em declarações de amor. "Esse filme é tão bom que vocês podiam fazer logo ‘O Ano... 2’. Sei lá, com o mês em que ele sai de férias...", pediu um espectador.

Mais enfática entre todos foi uma moça de voz rouca que viu semelhanças entre "O Ano..." e "Os Incompreendidos" (1959), de François Truffaut. Quis saber do diretor se um é inspirado no outro, mas pediu licença para, antes, dizer algo ao ator Michel Joelsas, 11:

"Mauro [o nome do personagem de Michel no filme], estou completamente apaixonada por você!". Michel e Daniela Piepszyk, a Hanna, deram show de simpatia e desenvoltura e contaram histórias que fizeram o público se derreter ainda mais por eles. Daniela fez comentários como esses: "Adoro meu personagem, mas não sou tão neurótica por dinheiro quanto a Hanna. Também não sou tão ciumenta como ela"; "Coincidentemente, eu estava estudando sobre a ditadura no colégio. Então não precisei estudar isso para o filme". Michel disse que as cenas que mais gostou de filmar foram "a do ovo frito" e aquela em que ele chora. "No primeiro dia não consegui chorar, mas, no segundo, acho que chorei muito bem." Os dois falaram também da cena em que dançam ao som de "Eu Sou Terrível", que foi uma das que Cao usou no teste para a seleção de atores. Filmada para valer, a seqüência foi apelidada de "a cena da dança maluca", e os dois terminavam de repeti-la tão zonzos que acabaram adaptando a letra para:

Eu tô terrível/Vou lhe dizer

Se eu continuar/Eu vou morrer

Para fugir à unanimidade, um espectador disse que viu um defeito no filme. Só um, mas ainda assim um defeito. Achou que, na cena do jogo de futebol em que Mauro descobre seu sonho de ser goleiro, "a figuração mandou mal". Ele quis saber que outros defeitos o diretor vê em seu próprio filme. "Você acha que eu vou dizer?!?", respondeu Cao. Já que o diretor vê falhas em seu filme, mas não conta, a revelação da noite ficou com o produtor Fabiano Gullane: 500 mil espectadores é a projeção de público do filme, que arrancou no fim de semana com 71 mil espectadores (para 70 cópias em cartaz). "Mas estamos preparados para uma boa surpresa", disse Fabiano.

Especialistas no mercado de cinema brasileiro dizem que o público é mais reticente às estréias nacionais do que às estrangeiras, o que explica o fato de que raramente filmes brasileiros tenham um público de abertura impressionante. Mas, se não corre para ver um filme nacional, por outro lado o espectador brasileiro é mais sensível ao boca-a-boca de um título feito aqui. É como se ele achasse que raramente o cinema brasileiro acerta, mas acerta em cheio quando consegue.

Escrito por Silvana Arantes

Escrito por Leonardo Cruz às 5h14 PM

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Mais longe de Clint

Mais longe de Clint

Os cinéfilos brasileiros terão de esperar um pouco mais para assistir a "A Conquista da Honra", lançado nos EUA no último dia 20. O aguardado filme novo de Clint Eastwood deveria chegar aos cinemas do país em 1 de dezembro, mas sua distribuidora adiou o lançamento para 2 de fevereiro, sob o argumento de que assim "A Conquista da Honra" estreará no Brasil mais perto de seu filme-complemento, "Cartas de Iwo Jima", previsto para março.

Clint é um dos mais consistentes diretores em atividade, e "A Conquista da Honra" e "Cartas de Iwo Jima" formam seu ambicioso projeto de contar o mesmo episódio histórico em dois filmes, sob a ótica de dois protagonistas diferentes. "Conquista" narra a história por trás dos soldados americanos que ergueram a bandeira americana na ilha de Iwo Jima, marco de triunfo dos EUA na luta contra os japoneses no Pacífico na Segunda Guerra Mundial. "Cartas" analisa o episódio aos olhos dos orientais derrotados.

A intenção de aproximar a data dos dois lançamentos pode até ser boa, mas, na prática, os espectadores brasileiros terão de esperar mais do que o resto do mundo. Se corretas as informações do IMDB, o Brasil será um dos últimos países onde o filme será lançado. Em 2 de fevereiro, depois de já estar em cartaz nos EUA, na Europa e na Ásia, "A Conquista da Honra" aporta por aqui, no mesmo dia em que estréia na Estônia.

Coincidência ou não, o filme estreará no país poucos dias depois do anúncio dos indicados ao Oscar, ao qual Clint e cia. são candidatos fortíssimos.

Escrito por Leonardo Cruz às 9h24 AM

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Um cazaque conquista a América

Um cazaque conquista a América

Cabe a um gigante cazaque de 34 anos o título de maior surpresa das bilheterias dos Estados Unidos no ano. Borat Sagdiyev é o repórter enviado pelo governo do Cazaquistão para contar a seu povo como vivem os americanos, sua história, suas tradições e seus costumes. Misto de Ernesto Varela com a turma do Pânico, ele surpreende seus entrevistados com perguntas tão ingênuas quanto embaraçosas, conta histórias como a urina de cavalo fermentada ser a bebida oficial de seu país e estabelece uma meta na América: casar-se com Pamela Anderson. Seu relato resulta no documentário "Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan". Obviamente, é tudo uma farsa.

Borat é o comediante inglês Sacha Baron Cohen, até então conhecido nos EUA pela série da HBO "Da Ali G Show", da qual o gigante cazaque era apenas um personagem secundário. Não mais. O filme fez US$ 26,4 milhões no último final de semana, na maior bilheteria já obtida por um lançamento "pequeno" nos EUA. Por pequeno entenda-se exibição em menos de mil salas.

Para ser mais preciso, "Borat" estreou com 837 cópias, e ainda assim bateu lançamentos como "Flushed Away", animação da parceria DreamWorks/Aardman, que entrou em cartaz com mais de 3.400 cópias. Fez sucesso não só nas mais liberais costas Leste e Oeste como também no miolão conservador da Bushlândia. O sucesso surpreendeu a própria Fox, distribuidora do filme nos EUA, que no próximo final de semana pretende ampliar para 2.200 o número de salas de exibição.

O bom resultado da estréia não foi só nos EUA. O filme entrou em cartaz em mais 17 países, arrecadou US$ 18,6 milhões e ficou em primeiro lugar também no ranking internacional de bilheterias.

Os executivos gringos ainda tentam entender as razões para tal sucesso surpreendente. A resposta, ou ao menos parte dela, está na hilariante campanha de marketing que envolve "Borat". Após ser bem recebidos nos festivais de Cannes e Toronto, Baron Cohen e a Fox criaram um site que simula o do Ministério da Informação cazaque, fizeram uma pré-estréia para internautas cadastrados na página de Borat no myspace e liberaram a divulgação no YouTube de dezenas de vídeos com trailers do filme e trechos das "reportagens" de Borat já exibidas no "Da Ali G Show".

Além disso, o próprio Borat/Baron Cohen aproveitou uma visita do presidente cazaque a Washington no mês passado para se promover. Convocou uma entrevista coletiva na qual descreveu as maravilhas de seu país e o conteúdo de seu filme aos jornalistas presentes e depois tentou invadir a Casa Branca para entregar um convite para a première de "Borat" ao "premiê George Walter Bush".

Borat e suas peripécias chegam ao Brasil só em 2007. A estréia nacional está prevista para 16 de fevereiro. Enquanto isso, Baron Cohen já prepara seu próximo longa, que terá como protagonista Bruno, um afetado austríaco que dá dicas de moda, também criado originalmente para o "Da Ali G Show".

Enquanto nem uma coisa nem outra aportam por aqui, fique com vídeo abaixo, um aperitivo do estilo de Baron Cohen.

Escrito por Leonardo Cruz às 9h00 AM

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A Alma da Nouvelle Vague

A Alma da Nouvelle Vague

A convite, a jornalista mineira Patricia Klingl, que já organizou mostras de cinema no Brasil e atualmente faz mestrado em políticas culturais na Universidade Paris VII, escreve sobre "Dans Paris", de Christophe Honoré, em cartaz na França e sucesso de público e crítica. Infelizmente, ainda sem previsão de estréia no Brasil.

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A Alma da Nouvelle Vague, por Patricia Klingl

"Dans Paris", terceiro filme de Christophe Honoré, em cartaz atualmente na França, foi apresentado pela primeira vez em Cannes, na Quinzena dos Realizadores. O filme inventa, através de seus próprios códigos, uma criativa homenagem à Nouvelle Vague, pela qual estabelece um acordo entre o passado e o presente.

Trata-se do relato de um dia na vida de dois irmãos, Jonathan (Louis Garrel, de "Os Sonhadores" e "Os Amantes Constantes") e Paul (Romain Duris, de "Bonecas Russas" e "De Tanto Bater Meu Coração Parou"), o primeiro vivendo a doçura de conhecer o amor, e o segundo, a desilusão de tê-lo perdido. O filme percorre estes sentimentos díspares localizados em espaços distintos: o apartamento se fecha para a dor, enquanto as ruas de Paris permitem a explosão de vida através de encontros casuais e efêmeros.

Desde o prólogo, quando Jonathan se dirige aos espectadores para dizer que ele não é o herói do filme e sim seu narrador, vemos que se trata do relato de algo íntimo que nos será compartilhado. Seu personagem aparecerá ainda em algumas cenas para pontuar, através de sorrisos ou de pequenos comentários, a narração de sua história.

Nos dez primeiros minutos do filme, conhecemos o amor de Paul e Anna (Joana Preiss) _ou o fim dele_ numa sucessão de cenas que vão da ternura e da paixão ao ódio e à indiferença. Terminada a relação, Paul volta para a casa de seu pai (Guy Marchand) e ocupa o quarto de seu irmão mais novo, onde o veremos chorar, rir e mesmo murmurar em inglês uma canção dos anos 80, tal e qual um adolescente. Lá também veremos uma das mais belas cenas do filme, quando ele e Anna cantam juntos, pelo telefone, uma canção que explica o fim de tudo que viveram, numa clara referência a "Os Guarda-Chuvas do Amor", de Jacques Demy. Ainda encontraremos outras pistas que nos farão lembrar dos filmes de Godard ("O Demônio das Onze Horas" e "Acossado") e Truffaut (sobretudo a saga de Antoine Doinel).

Em síntese, podemos dizer que a energia de Jonathan nos remete a Doinel, personagem burlesco de Truffaut, enquanto que a introspecção de Paul nos faz lembrar dos personagens de Godard. Encontrar estas referências transforma o filme em um divertido jogo para iniciados no cinema francês.

"Dans Paris" apresenta algo novo, mas que olha continuamente para trás, valendo-se da Nouvelle Vague para contar uma história extremamente atual. É a modernidade daqueles filmes _sim, eles continuam modernos_ para nos fazer entender a solidão e a tristeza dos nossos dias.

Em tempo, para aqueles que conhecem a saga Doinel, o jogo de referências chega ao ápice quando conhecemos a mãe dos rapazes, Colette (Marie-France Pisier), o primeiro amor de Antoine.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h24 AM

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A "Amostra" e outros babados

A "Amostra" e outros babados

Em dia de chuva e feriado, o encerramento da Mostra teve um bom número de lugares vazios nas laterais do auditório Ibirapuera, na quinta à noite. Fora isso, aconteceu tudo que sempre acontece. Veja o que rolou na entrega de prêmios (e na festa depois deles).

A foto: Selton Mello e Heitor Dhalia, com os prêmios do Júri e da Crítica (crédito: Agência Foto/30ª Mostra).

A gafe: Uma representante da Califórnia Filmes, que subiu ao palco para receber o prêmio de melhor longa estrangeiro (na escolha do público) dado ao italiano "Rosso Come Il Cielo", de Cristiano Bortone, parabenizou Leon e Renata pelos "30 anos da Amostra".

A saia justa: Chamados ao palco para receber o prêmio de público por seu média-metragem "Deus e o Diabo em Cima da Muralha", os cineastas Tocha Alves e Daniel Lieff deixaram aquele vaziiiiio no ar. Os apresentadores Marina Person e Serginho Groisman não gostaram do que (não) viram:

Serginho: O prêmio será entregue.

Marina: Ah, não! Esses vão ter que vir buscar. Afinal, eles não moram fora do Brasil.

Serginho: Então não vamos nem dar. Os caras não vêm...

A piadinha: De Leon Cakoff passando a palavra à homenageada Tomie Otake: "Tomie, sinta-se em casa!"

A ficha caindo: Emocionada com o prêmio de R$ 200 mil que "Antonia" ganhou da Petrobras (dividido com "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias"), Tata Amaral agradeceu em etapas: "Estou feliz demais." (pausa) "Obrigada ao público." pausa. "À Mostra". (pausa) "À Petrobras".

O agradecimento que ninguém esperava: "Obrigada por não terem me dado uma vaia na minha queda aqui." Da atriz e jurada Florinda Bolkan, que tropeçou no salto ao entrar no palco.

A divisão: Assim como deixou claro que o prêmio de "O Cheiro do Ralo" foi decidido "por unanimidade", o júri demarcou que "O Violino" recebia o Prêmio Especial "por decisão da maioria".

O troca-troca: O filme-com-título-que-todo-mundo-confunde "O Ano em que meus Pais Saíram de Férias" foi chamado de "O Ano em que Nossos Pais Saíram de Férias" e "O Ano em que Saímos de Férias". É dura a vida de goleiro...

O grande encontro: Quando Carlos Augusto Calil encontrou Paulo Sacramento e perguntou como iam as coisas, Sacramento, bem-humoradíssimo, saiu-se com essa: "Calil, no cinema brasileiro vale a regra: começa bem, depois piora."

As lembranças: "Participei de todos aqueles almoços. Ouvi todas aquelas propostas para mudar o nome do filme. E a gente nunca tinha dinheiro para pagar." Do roteirista Marçal Aquino, que entregou o livro "O Cheiro do Ralo" a Heitor Dhalia com a "ordem": "Você deve filmar isso". Com as mãos no troféu Bandeira Paulista, Dhalia ergueu-o bem alto, contou a história e dedicou a vitória: "Marçal, é teu!".

A frase: "Isso é só o começo!". De Selton Mello.

A dúvida: "Gente, empate é empate! Se houvesse diferença seria primeiro e segundo lugares!". Era Renata Almeida, argumentando com alguns reticentes em acreditar que "O Ano em que meus Pais Saíram de Férias" e "Antonia" cravaram exatamente a mesma nota na avaliação do público. Renata jura que, na tarde de quinta, todos os votos foram recontados, e o resultado foi o que se viu: empate entre os dois e divisão dos R$ 400 mil que a Petrobras daria ao melhor longa de ficção.

O segredo (Revelado aqui. Sorry, rapazes): Leon Cakoff e José Carlos Oliveira (Warner) começaram a tramar um plano para estender as exibições da Mostra à periferia de São Paulo, a partir do ano que vem.

E, por fim, o comentário que não quer calar (ou paz entre os povos): E não é que um filme distribuído pelo Estação ganhou a Mostra do Cakoff...

Escrito por Silvana Arantes

Escrito por Leonardo Cruz às 5h06 PM

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E o Abacaxi vai para...

E o Abacaxi vai para...

Após mais de uma centena de mensagens (no blog e por e-mail), o Troféu Abacaxi Paulista para o pior filme da Mostra chega agora ao seu momento decisivo.  No total, 45 filmes foram citados pelos internautas votantes, o que reflete a multiplicidade de opiniões dos leitores do Ilustrada no Cinema. Mas, assim como no Oscar, em Cannes e em Veneza, o prêmio máximo é um só. Portanto, o Abacaxi Paulista vai para:

"TRANSE"

O filme da portuguesa Teresa Villaverde já aparecia bem votado desde a primeira parcial e atropelou na reta de chegada. A história da garota que é seqüestrada por uma rede de tráfico de mulheres provocou reações exaltadas nos internautas. "Cabecice insuportável", escreveu um. "O pior filme da minha vida", exclamou outro. A cena (sugerida) de zoofilia também incomodou a platéia ("filminho estranho e bizarro, com direito a sexo com animais"). Este blogueiro também não morre de amores por "Transe", mas não acha o filme tão mau assim. No mínimo, no mínimo, é visualmente muito interessante, com seqüências belíssimas, principalmente a que a personagem principal se perde na floresta. Mas o resultado das urnas é soberano, e este blog respeita a decisão dos eleitores/internautas.

O segundo colocado no Abacaxi Paulista foi o filme italiano "Aquanitis", que liderou boa parte do concurso e foi definido por um leitor como "constrangedor". Na mesma linha, outra internauta afirmou: "O espectador sente o tempo todo o que eu chamo de 'vergonha alheia'".

A organização do Troféu Abacaxi Paulista decidiu, após muito deliberar, que esta primeira edição do prêmio terá três menções honrosas. Vamos a elas:

"Fonte da Vida": o filme foi o que mais motivou o debate na lista de comentários. Votado como pior da Mostra, foi arduamente defendido por seus fãs. Enquanto um internauta escreveu que a obra de Darren Aronofsky "é de doer", outra leitora rebateu indignada: "Como assim 'Fonte da Vida'? É o melhor filme dos 57 que vi no Festival do Rio". Polêmica!!

Governo Lula: um leitor aproveitou o Abacaxi para atacar o Planalto, devido "aos episódios de corrupção marcante e ao desafinado esquema de propinas". Quem assina o comentário é Alckmin, de SP. Será o ex-governador? Bem possível, já que, desde o último final de semana, ele está com tempo de sobra para pegar um cineminha.

Ilustrada no Cinema: isso mesmo! Este blog também recebe uma menção especial por ter criado um prêmio considerado por alguns internautas como "deselegante, de mau gosto" e um "tremendo vexame". Este blogueiro aceita seu abacaxi com muita alegria e promete descascá-lo com carinho.

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A Mostra divulgou na noite de ontem seus vencedores oficiais. A notícia do triunfo de "O Cheiro do Ralo" é alvissareira e confirma duas coisas já escritas neste blog: 1) Heitor Dhalia fez um puta filme; 2) consolida-se uma geração de bons diretores nacionais, da qual Dhalia faz parte.

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A crítica independente, formada por 27 críticos da revista Paisà e dos sites Cinetica, Cinequanon, Contracampo e Almanaque Virtual, elegeu também seus favoritos na Mostra. É uma lista de respeito.

"Juventude em Marcha" (foto), de Pedro Costa, foi escolhido melhor filme, enquanto "Serras da Desordem", de Andrea Tonacci, venceu entre os nacionais. "Anche Libero Va Benne", de Kim Rossi Stuart, abocanhou o prêmio de revelação. "Síndromes e um Século", de Apichatpong Weeresathakul, teve menção honrosa. As projeções em digital de "Still Life" e "Dong", de Jia Zhang-ke, ganharam menção desonrosa.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h14 AM

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Os melhores da Mostra - Parte 1

Os melhores da Mostra - Parte 1

Qual o melhor filme da Mostra? Depois de dezenas de obras vistas, críticos amigos se antecipam ao festival, que anuncia seus vencedores nesta noite, e apontam aqui seus favoritos.

 

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“Fica Comigo”, por Bruno Yutaka Saito

 

Três histórias sobre a incomunicabilidade e a busca pelo outro e pelo amor. Mas, no mundo do diretor Eric Khoo, as pessoas se escondem de uma maneira ou de outra; o contato nunca é direto, precisa de intermediários. Ao final do quase documentário sobre a melhor personagem, a mulher cega e surda, temos um daqueles momentos que reafirmam o poder do cinema. Quando ela saboreia os deliciosos pratos de comida que lhe são enviados, sentimos na pele a impossibilidade da perda de um dos sentidos. Nunca foi tão difícil ficarmos sem o olfato para sentir o cheiro daquelas suculentas e vistosas comidas.

 

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“Síndromes e um Século”, por Leonardo Cruz

 

Apichatpong Weerasethakul hipnotiza o espectador ao sobrepor a mesma história em camadas e repetir diálogos como mantras. Acima de tudo, explora a capacidade do cinema de captar momentos banais do cotidiano, como a rotina de um hospital e uma aula de ginástica em praça pública, e transformá-los em algo sublime.

 

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“Juventude em Marcha”, por Paulo Santos Lima

 

Este filme de Pedro Costa é das experiências cinematográficas mais dramáticas que tive nos últimos tempos. Desde o primeiro plano que apresenta uma cena irmã do expressionismo alemão até os enquadramentos rigorosos, a sensação ao assisti-lo é quase inédita. Com imagens firmemente enquadradas mas com significados incertos, o filme mostra personagens sendo arrancados de seu norte, de sua história, e lançados numa outra realidade, fabricada, vazia e sem identidade. E como retratar esse desgarramento se não com essas imagens primorosamente desconfortáveis?

 

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"A Estrada", por Sandro Macedo


O destaque da Mostra é oriental, e não é de medalhões como Tsai Ming-liang ou Jia Zhang-ke, mas do desconhecido Jiarui Zhang. Com sensibilidade, o chinês apresenta dois personagens, um motorista de ônibus e sua jovem cobradora, dos anos 60 até hoje. Como pano de fundo, as intensas transformações políticas e sociais pelas quais o país passou.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h34 AM

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Os melhores da Mostra - Parte 2

Os melhores da Mostra - Parte 2

“Síndromes e um Século”, por Pedro Butcher

 

Um filme que confirma o cineasta tailandês de nome impronunciável Apichatpong Weerasethakul como um dos maiores talentos do cinema contemporâneo. "Síndromes e um Século" é original e surpreendente, enigmático do ponto de vista "narrativo", mas muito claro na construção de atmosferas e nas sensações que quer transmitir. Um filme de imenso frescor, em que o cineasta parece dizer o tempo todo como, apesar de tudo, a vida pode ser muito boa. Salve!

 

“O Crocodilo”, por Naief Haddad

 

O casamento de cinema e política é sempre perigoso. Não raro, filmes políticos se acomodam no discurso fácil e esquecem a complexidade e o mistério; a arte acaba abandonada em algum lugar entre as boas intenções e o maniqueísmo. Nanni Moretti fez um filme sobre Berlusconi??? Uhmmm... O que esperar? Muito: "O Crocodilo", sobre o ex-premiê italiano, é um excelente filme, o ápice da carreira do diretor de "O Quarto do Filho" e “Caro Diário".

 

É a história de um produtor fracassado que, quase sem querer, se envolve na realização de um filme sobre Berlusconi. Moretti questiona simultaneamente a criação de um personagem e a invenção de um líder político. Antes de avaliar os jogos do poder, o cineasta coloca a própria linguagem do cinema em debate. E discute a capacidade de persuasão, na qual cinema e política se aproximam. Além disso, Moretti intercala gêneros com a habilidade que não se vê no cinema italiano desde Fellini. Há cenas de "O Crocodilo" que homenageiam "E la Nave Va". Em suma, o melhor filme da Mostra. 

 

 

 

“Mundo Novo” e “Anche Libero Va Bene”, por Sérgio Rizzo

 

Na Mostra em que o cinema político italiano dos anos 60 e 70 foi homenageado (e assim descoberto por novas gerações), esses dois filmes notáveis simbolizam outro período vigoroso na produção do país. “Mundo Novo” (foto), de Emanuele Crialese, combina visão político-histórica com olhar humanista ao tratar da Itália rural e atrasada do início do século 20. “Anche Libero Va Bene”, de Kim Rossi Stuart, examina uma família da Itália urbana e contemporânea, microcosmo da sociedade, com emoção e generosidade. Cada um à sua maneira, impecáveis no que se propõem a fazer, mais ou menos como a diferença entre um líbero e um meia-atacante lembrada no fim de “Anche Libero...”: são jogadores complementares em uma equipe equilibrada.

 

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E você? Qual o melhor filme que viu na Mostra?

 

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Amanhã, este blog anunciará o vencedor de seu prêmio, o Troféu Abacaxi Paulista para o pior filme da Mostra, cuja disputa continua acirrada. Vote aqui.

Escrito por Leonardo Cruz às 12h34 AM

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Dicas para o fim da Mostra

Dicas para o fim da Mostra

A Mostra termina oficialmente amanhã, em pleno feriado, e este blog apresenta algumas dicas do que ver nestes últimos dois dias. A programação de hoje é especialmente forte. Vamos aos filmes.

 

A Mostra termina oficialmente amanhã, em pleno feriado, e este blog apresenta algumas dicas do que ver nestes últimos dois dias. A programação de hoje é especialmente forte. Vamos aos filmes.

HOJE

Vale a pena passar a quarta no Unibanco Arteplex, que concentra algumas belas opções. Dois bons filmes nacionais serão exibidos no meio da tarde: às 14h40, "Antonia", filme novo de Tata Amaral, a diretora de "Um Céu de Estrelas", e, às 15h10, "Serras da Desordem", de Andrea Tonacci, um dos vencedores do último Festival de Gramado. Ainda no Arteplex, à noite, duas sessões certamente estarão superconcorridas: às 23h30, "Shortbus", do americano John Cameron Mitchell (que os mais pudicos devem evitar dadas as animadas cenas de sexo), e, às 22h30, "Babel", que rendeu a Alejandro González Iñarritu o prêmio de melhor diretor em Cannes. Se essas duas sessões já estiverem lotadas, vale conferir "The Bridge", às 22h40, interessante documentário sobre a Golden Gate de San Francisco, local preferido para suicídio atualmente.

No Cine Bombril, dá pra fazer sessão tripla a partir das 18h, com "Paris, Te Amo" (pequenas histórias sobre a cidade contadas por 21 diretores, incluindo Walter Salles e Daniela Thomas), "Proibido Proibir" (segundo longa do chileno radicado no Brasil Jorge Durán) e "Eu Não Quero Dormir Sozinho" (de Tsai Ming-Liang).

Longe do circuito Paulista-Jardins, lá na Vila Mariana, a Sala Cinemateca exibe às 19h40 "Cabiria", de Giovanni Pastrone. Esta não é a versão com acompanhamento de piano, mas é a última chance de ver este clássico de 1914. No Memorial da América Latina, às 19h, tem "Bye Bye Berlusconi" (foto acima), sátira ao ex-premiê italiano (qualquer filme que satirize Berlusconi merece ser visto).

Por fim, para os fãs, tem Sokúrov na Sala UOL, às 21h50. "O Sol", sobre a derrocada de Hirohito no Japão, encerra a trilogia de poder do diretor russo, formada ainda por "Moloch" e "Taurus". É outra sessão com certeza concorridíssima.

AMANHÃ

O último dia da Mostra tem a cerimônia de premiação no Auditório Ibirapuera, às 21h, onde será exibida a cópia restaurada de "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade. Vale tentar trocar um ingresso por dois quilos de alimentos não-perecíveis na Central da Mostra no Conjunto Nacional.

Mais cedo, às 18h10, no Cinesesc, tem "Juventude em Marcha", do português Pedro Costa, que encantou muitos e chocou alguns no último Festival de Cannes. É outro filme que terá casa cheia.

No Unibanco Arteplex, destaque para dois nacionais que têm suas últimas exibições: às 14h50, "Fabricando Tom Zé", documentário de Decio Matos Jr. sobre o compositor, e "Os 12 Trabalhos", segundo longa de Ricardo Elias, que já mostrara talento em "De Passagem".

E um bom jeito de encerrar a mostra é com "Fuck", às 21h40, também no Arteplex. Documentário sobre a origem da palavra...

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Amanhã, críticos convidados deste blog escolhem os filmes que mais gostaram na Mostra.

Escrito por Leonardo Cruz às 8h31 AM

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Abacaxi Paulista - segunda parcial

Abacaxi Paulista - segunda parcial

O Troféu Abacaxi Paulista para o pior filme da Mostra de Cinema de SP chega à sua reta final com dois filmes na primeira colocação e outros seis empatados em segundo lugar.

A liderança é dividida entre os dois que já despontavam na primeira parcial: "Aquanitis", produçao italiana de Peter Mahlknecht, e "Transe", da portuguesa Teresa Villaverde.

Dividem o segundo lugar: o mexicano "El Cielo Dividido" (foto), o americano "A Sensação de Ver", o australiano "Amor Moderno", o argentino "Solos", o americano "Fonte da Vida" e o mexicano-brasileiro "Só Deus Sabe".

Viu algum desses filmes? Ou algum outro que mereça o prêmio? Ainda dá tempo de votar. É só deixar um comentário neste post ou neste e-mail. O resultado final sai na noite de quinta/madrugada de sexta, depois do anúncio dos vencedores oficiais da Mostra. Fique ligado.

Escrito por Leonardo Cruz às 7h29 AM

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