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Mais perto do céu

"O Céu de Suely", em exibição na Mostra e em cartaz a partir de 17/11, comprova o talento de Karim Aïnouz, já revelado em "Madame Satã". Como escreveu José Geraldo Couto na Ilustrada (leia aqui), o filme retrata como poucos no cinema recente a tal "modernidade torta brasileira".
Mas, mais do que comprovar o talento de Aïnouz, "O Céu de Suely" é um exemplo da geração de ótimos cineastas que se consolida no Brasil nesta década, em especial nos últimos três, quatro anos. São diretores que demonstram desenvoltura ao tratar não só da "modernidade torta" mas também de questões e personagens históricos nacionais.
Beto Brant, Sérgio Machado, Marcelo Gomes, Laís Bodansky, Paulo Sacramento, Kiko Goifman, José Padilha, Andrucha Waddington são apenas alguns exemplos de talento na atual geração (e fatalmente cometo alguma injustiça, dado que a memória é falha).
Tal cenário indica que as leis de incentivo, apesar de imperfeitas, funcionam e permitem a formação de uma cinematografia nacional consistente, recuperada da hecatombe provocada pelo governo Collor. É evidente que não chegamos ao Paraíso, mas já estamos a algumas léguas de distância do Inferno.
Escrito por Leonardo Cruz às 10h20 AM
Filmoteca - Inácio Araujo
Inácio Araujo é o decano dos críticos de cinema da Ilustrada _analisa filmes para a Folha desde 1983. É também professor de história do cinema e já foi montador, roteirista e assistente de direção. Justo, portanto, que ele inaugure a seção Filmoteca, indicando cinco obras que considera obrigatórias. Os americanos foram lançados em DVD no Brasil; os japoneses, não.
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Um prodígio de equilíbrio: as simetrias, os gestos, a harmonia. Para mim, o melhor de todos os filmes.
Um homem busca seu sangue, o último vestígio de sua família, de sua vida, entre os índios. A América mais dilacerada que já se viu, e o homem mais triste do cinema.
O filme é um só. O título muda. Um encontro de família, o mais melancólico, o mais encantador, o mais contestador dessa coisa autoritária que é o cinema.
Onde termina o fantástico, onde começa nossa vida? Onde termina a realidade e começa o sonho? Será o homem seu sonho?
O cinema é um truque que revela o real? Mas não será toda a vida um truque que produz o real?
Escrito por Leonardo Cruz às 4h52 PM
Adeus a Scorsese?

Martin Scorsese é hoje um dos poucos cineastas americanos ainda capazes de fazer excelentes filmes dentro da grande indústria do cinema, como prova "Os Infiltrados" (trailer), em cartaz neste final de semana na Mostra. Mas o diretor de "Taxi Driver" e "Touro Indomável" dá sinais de cansaço das amarras de Hollywood.
Ao apresentar "Os Infiltrados" nesta semana no Festival de Roma, Scorsese disse achar cada vez mais difícil trabalhar nas grandes produções. "Começo a perceber que, quanto maior o orçamento envolvido, menor é o risco que pode ser assumido [no filme]", declarou o cineasta, anunciando que quer uma pausa em sua relação com Hollywood. Seu próximo projeto, independente, será um filme sobre jesuítas no Japão imperial no século 17.
Scorsese não é o único. Outro que recentemente indicou que não voltará a dirigir grandes orçamentos é George Lucas. O criador de "Guerra nas Estrelas", que transformará a continuação de sua saga em uma série de TV, avalia que o futuro está na produção de filmes pequenos, que possam ser distribuídos pela internet. Os estúdios precisam se adaptar aos novos formatos, aponta Lucas.
Conseguirão? Há substitutos potenciais para Lucas e Scorsese na indústria do cinema hoje? Para Lucas é mais fácil, talvez Peter Jackson. E para Scorsese?
Escrito por Leonardo Cruz às 8h39 AM
Cinema em debate - Dália Negra (3)
Como prometido, o crítico de cinema da Ilustrada Sérgio Rizzo e o correspondente da Folha em Washington, Sérgio Dávila, encerram a discussão sobre o filme de Brian de Palma.
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Um autor na indústria - Sérgio Rizzo
Brian de Palma, você sabe, é amigão de Steven Spielberg. Quando o amigão fazia “A Fogueira das Vaidades” (90), Spielberg resumiu assim os temores que De Palma provocava nos estúdios: “Um punhado de executivos lembra como Brian começou, fazendo filmes de Brian de Palma, que vêm da sua alma, que vêm de quem ele é. Agora, Brian precisa pegar quem ele é e impor essa marca em um filme que poderia ter sido feito por Sydney Pollack, ou Robert Benton, ou Roman Polanski, ou John Schlesinger. Cada um deles faria diferente, mas todos eles poderiam ter feito ‘A Fogueira das Vaidades’. Nenhum deles poderia ter feito ‘Trágica Obsessão’. Nenhum deles poderia ter feito ‘Vestida para Matar’, ou ‘Um Tiro na Noite’, ou ‘Irmãs Diabólicas’. Nenhum deles.”
A avaliação está no livro “The Devil’s Candy: The Bonfire of the Vanities Goes to Hollywood”, de Julie Salamon. Desde então, De Palma parece estar se esforçando para corresponder à expectativa do amigão. “Dália Negra”, o romance de James Ellroy, poderia ter sido filmado por Sydney Pollack, ou Robert Benton, ou Roman Polanski, ou Curtis Hanson (que entra aqui para substituir, na lista-exemplo de Spielberg, o inglês John Schlesinger, morto em 2003).
De Palma tentou filmar Ellroy a seu modo, como preconizava Spielberg. Parte do público queria Ellroy do jeito Ellroy, seja lá o que isso for (talvez algo como “Los Angeles, Cidade Proibida”). Outra parte não queria ver marca nenhuma de ninguém em lugar nenhum, só um filme de consumo rápido. De modo que a última vez em que De Palma manteve-se De Palma e ao mesmo tempo saiu abençoado pelo mercado foi “Missão Impossível” (96).
Querer impor marca na indústria não é mole, não. E os amigos ainda pressionam.
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Sorry, Brian, e até 2008 - Sérgio Dávila
É o seguinte e é paradoxal: quem já fez “Dublê de Corpo”, “Os Intocáveis”, “Scarface” e “Carrie, a Estranha” pode se dar ao luxo de fazer um filme menor como “Dália Negra”. É o que Brian de Palma fez. Mas quem já fez “Dublê de Corpo”, “Os Intocáveis”, “Scarface” e “Carrie, a Estranha” não pode ser o mesmo diretor de “Dália Negra”. Ainda mais com o material bruto que ele tinha em mãos: a história verdadeira da garota assassinada em Los Angeles, o livro de ficção de James Ellroy, a história verdadeira da própria mãe de James Ellroy…
O problema são dois. Roteiro, roteiro, roteiro, em primeiro lugar. De Palma acha que dá para “salvar na edição” –ou seja, contar com o imenso talento de diretor que ele tem para melhorar um roteiro que quer abraçar o mundo com as mãos ao tentar contar diversas histórias complexas ao mesmo tempo sem a elegância e o entrelaçamento quase imperceptível de “Short Cuts”, de Robert Altman/Raymond Carver.
E elenco, elenco, elenco. Josh Hartnett não tem competência para ser guarda de trânsito de porta de escola, quanto mais um tira durão com o código moral de Philip Marlowe. Sua química com Scarlett Johansson lembra a dos atores-mirins de “Bugsy Malone - Quando as Metralhadoras Cospem”. E Hillary Swank deveria voltar correndo aos papéis de “white trash”, que é o que faz melhor. E Aaron Eckhart é um bom ator, mas não pode querer ser uma versão piorada do Bud White de Russell Crowe em “L.A. Confidential”.
Sendo assim, só nos resta esperar por “Os Intocáveis”, a “preqüela”, que Brian De Palma prometeu para 2008…
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Salvo pedidos de réplicas e tréplicas, este debate termina aqui. Outros virão.
E amanhã tem: a estréia da Filmoteca, com Inácio Araujo, e o futuro de Scorsese.
Escrito por Leonardo Cruz às 6h54 PM
Cinema em debate - Dália Negra (2)

O debate sobre "Dália Negra" continua, com as análises do crítico da Folha Cássio Starling Carlos e do redator da Ilustrada Bruno Yutaka Saito.
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De Palma e suas assombrações - Cássio Starling Carlos
Fantasma, dublê e obsessão poderiam ser apenas palavras soltas de títulos de filmes de Brian de Palma. Elas guardam, porém, mais que apelo. São chaves do cinema do diretor, se não do cinema como um todo. Considerado em sua primeira fase um imitador de Hitchcock, De Palma depois convenceu seus ingênuos detratores que nem toda simulação se reduz à cópia, e que o simulacro pode ser a tal ponto "fiel" que contamina e destrói a "originalidade" do modelo.
"Dália Negra" é, portanto, mais um momento desse programa. Nele se encontra a duplicação do filme noir, mas não como a réplica banal que se fez em larga escala do gênero nos anos 80. Em vez de fetiche, De Palma prefere o fantasma. Nesse universo, em que tudo é encenação, dos crimes aos desvendamentos, não espanta que o diretor filme cenários e atores como se fossem assombrações. Em vez do "nada é o que parece", do noir clássico, aqui vigora o "nada é".
Esse esvaziamento chega ao ponto de impor aos atores desempenhos ausentes, reduzindo-os a um automatismo espiritual cuja função é desnutrir os personagens de quaisquer traços de emoção humana. Daí resulta uma impressão de "frieza", que deixa o espectador um tanto afastado. Mas não se pode acusar De Palma de não se manter fiel a seu programa estético e de executá-lo, se não com o brilhantismo do espetáculo, com extremo rigor.
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O kitsch e o noir - Bruno Yutaka Saito
Quem procura histórias (e quem acha que um filme bom necessita de historinhas) vai logo reclamar que o longa de Brian de Palma é enrolado demais. O que não deixa de ser verdade. Pode até parecer que é até mais um filminho qualquer sobre a investigação de um assassinato. Extremamente sombrio, "Dália Negra" tem um humor sutil, quase imperceptível e ambíguo, como piadas internas.
De Palma une o clichê e o humor, numa espécie de sátira/homenagem a Hollywood. E esta indústria, seja a da era clássica, seja a dos dias atuais, é indissociável da idéia de clichê _um molde para reproduções infinitas, feitas ao gosto do espectador. Assim, relê o filme noir e seu imaginário, numa estrutura que caminha para o kitsch. Tudo em "Dália Negra" tem a ver com o excesso, a irrealidade das ações, das falas, das verdades e mentiras da imagem.
De Palma volta ao universo de tintas B de "Vestida para Matar", "Dublê de Corpo" e "Um Tiro na Noite". A diferença é que, agora, trata-se de um cineasta com pleno domínio dos seus recursos. Com este filme, fica ao lado de cineastas que estão no auge, como Lynch e Almodóvar. E, como eles, mantém um pé nada reprimido no "mau gosto" de seu passado, e encarna outro estereótipo, o do velho que perde de vez seus pudores.
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Daqui a pouco, Sérgio Rizzo e Sérgio Dávila encerram o assunto.
Escrito por Leonardo Cruz às 3h31 PM
Cinema em debate - Dália Negra (1)

Brian de Palma já anunciou: voltará ao cinema noir e aos "Intocáveis" em 2008. Em "Capone Rising", mostrará a chegada de Al Capone a Chicago e sua ascensão ao poder. Enquanto o mafioso não volta, temos "Dália Negra" em cartaz no país. Também uma incursão no noir, foi definido na Ilustrada como "o mais profundo De Palma desde o começo dos anos 80" (leia aqui, só para assinantes do UOL e da Folha). A convite, seis críticos amigos enviaram suas opiniões sobre o filme. O debate começa com Sylvia Colombo e Ricardo Calil.
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Excesso de fidelidade - Sylvia Colombo
Quando se propôs emular diferentes gêneros do cinema, Stanley Kubrick o fez com maestria e, o mais importante, pervertendo um pouco cada um. Foi assim com o terror em "O Iluminado", com a ficção científica em "2001", com o romance de época em "Barry Lyndon", com o filme de guerra em "Nascido para Matar", com o thriller sexual em "De Olhos Bem Fechados" e por aí vai.
Com esses antecedentes, a tentativa de Brian de Palma de fazer um filme noir nos dias de hoje surge fracassada, pois nada acrescenta ao que se fazia nos anos 40, muito menos tira algo do diálogo entre o cinema de hoje e o de então. O diretor de "Scarface" e "Vestida para Matar", em vez de flexibilizar o estilo, tentou ser o mais fiel possível, desde os detalhes de caracterização até o modo como desenrola o suspense do misterioso "whodunit".
Além de soar artificial, contou com o desserviço prestado pelos atores Josh Hartnett e Scarlett Johansson (que não anda se aguentando de tanto hype em torno de sua beleza), em interpretações frágeis. O único foco de interesse do filme _a obsessão mórbida do investigador pela garota assassinada_ infelizmente se perde no meio de tanta busca por criar uma ilusão apenas a partir de ferramentas do cinema, e não de idéias.
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Jogo de espelhos - Ricardo Calil
Há muito tempo Brian de Palma não tinha uma base tão sólida para construir um filme como em "Dália Negra": o romance policial de mesmo nome escrito por James Ellroy, sobre o brutal assassinato da aspirante a atriz Elizabeth Short na Hollywood de 1947.
Por um lado, isso resulta no filme mais consistente do cineasta em anos, muito mais satisfatório que os irregulares "Olhos de Serpente", "Missão: Marte" e "Femme Fatale". Com suas reflexões sobre o mundo do crime e do cinema, seus jogos de espelhos entre ficção e realidade, o enredo cai como uma luva para o estilo de De Palma, um cineasta de gêneros, que se mostra confortável para recriar a tradição do filme "noir".
Por outro lado, a forte base literária podou em parte os arroubos visuais de De Palma, obrigou-o a recorrer menos às imagens e mais às palavras para dar conta de uma história extremamente intrincada. Mas é preciso reconhecer que o filme tem duas das seqüências mais brilhantes da obra do cineasta (e, por extensão, do cinema recente): a da descoberta do corpo de Short em um terreno baldio e a do assassinato de um dos personagens centrais no hall de um prédio. Puro De Palma.
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O debate continua daqui a pouco.
Escrito por Leonardo Cruz às 11h13 AM
As apostas da Mostra
Seja bem-vindo. Esta sessão de cinema não tem trailer. O filme começa agora.
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Este blog estréia hoje para coincidir com o evento cinematográfico mais importante do país. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo faz sua sessão inaugural para convidados nesta noite no auditório Ibirapuera, com "Os Estados Unidos Contra John Lennon" (veja o trailer aqui). Vai bombar, pode apostar.
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Leon Cakoff e Renata de Almeida podem até negar, mas o casal que faz a Mostra tem suas apostas para o festival. Contaram a um amigo comum deste blog quais são os filmes não tão badalados que podem surpreender o público neste ano.
As indicações da dupla:
- "Flutuando", de Boris Khlebnikov (Rússia, 2006)
- "Dong", de Jia Zhang-Ke (China, 2006)
- "Nue Propriété", de Joachim Lafosse (Bélgica, 2006)
- "Diários", de David Perlov (Israel, 1983)
- "Fica Comigo", de Eric Khoo (Cingapura, 2004)
- "Quatro Janelas", de Christian Moris Müller (Alemanha, 2006)
- "Hedy Lamarr: Segredos de uma Estrela de Hollywood", de Donatello Dubini, Fosco Dubini e Barbara Obermaier (Suíça/Alemanha, 2005)
- "A Verdade do Gato", de Jeremy Hamers (Bélgica, 2006)
- "A Estrada", de Jiarui Zhang (China, 2006)
- "Andando em Má Companhia", de Han Jie (China/França, 2006)
- "Um Mundo Maravilhoso", de Luis Estrada (México, 2006)
- "Holly", de Guy Moshe (EUA, 2006)
- "A Audiência Vai Começar", de Vincenzo Marra (Itália, 2006)
- "A Cerca", de Ricardo Iscar e Nacho Martín (Espanha, 2005)
- "Cartas do Saara", de Vittorio De Seta (Itália, 2006)
- "Bonecas de Papel", de Tomer Heymann (Israel/Suíça, 2006)
- "American Combatant", de Charles Libin (EUA, 2006)
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Ainda hoje, seis críticos convidados analisam "Dália Negra", de Brian de Palma.
Escrito por Leonardo Cruz às 11h05 PM
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PERFIL
O blog "Ilustrada no Cinema" apresenta uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha, um espaço para notícias, curiosidades, críticas e análises sobre o mundo cinematográfico. É coordenado pelos editores-assistentes da Ilustrada, Leonardo Cruz e Bruno Yutaka Saito, e tem como colunistas fixos os críticos Cássio Starling Carlos e Sérgio Rizzo. O blog também abre espaço para colaborações de toda a equipe do caderno.
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