Ilustrada no Cinema

 

 

Sangue de Jesus tem poder

Sangue de Jesus tem poder

O "New York Times" de hoje noticia que Hollywood acordou de vez para o sucesso de filmes com mensagens religiosas, como "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson, e lança uma leva de produções para atingir principalmente o público cristão nos EUA.

Nos últimos meses, cinco filmes ligados à fé entraram em cartaz nos cinemas americanos, incluindo "One Night with the King", adaptação de passagem do Velho Testamento, com Peter O'Toole e Omar Sharif. Até o final do primeiro semestre de 2007, outros cinco filmes religiosos serão lançados _a aposta da New Line Cinema para este Natal é um filme sobre o nascimento de Jesus, para o qual os atores se prepararam em acampamentos que recriavam as condições de vida da época.

A onda religiosa é reforçada pela FoxFaith, braço criado pela Fox inicialmente para venda de produtos cristãos e vídeos para igrejas. Agora, a nova empresa lançou seu primeiro filme nos cinemas americanos.

Esses investimentos indicam a redescoberta por Hollywood de um filão que já explorou entre os anos 30 e 60, com seus grandes épicos religiosos, para atender à crescente demanda do público cristão americano, insatisfeito com a conteúdo "excessivamente libidinoso" da indústria atual. Um símbolo recente dessa carência foi "A Marcha dos Pinguins". A direita cristã da Bushlândia viu o documentário francês sobre os bichinhos da Antártida como uma parábola da criação divina e lotou os cinemas em 2005.

Escrito por Leonardo Cruz às 4h50 PM

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Problemas com Still Life

Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza neste ano, "Still Life", do chinês Jia Zhang-Ke, era uma dos filmes mais aguardados da Mostra de SP. Pois as duas projeções realizadas neste final de semana na cidade trouxeram uma surpresa desagradável: o filme foi exibido em cópia digital, o que significa alterações de cor, luz e resolução. Além disso, a janela de exibição também parecia mais estreita do que o normal.

Apesar de o catálogo do festival informar que a exibição seria em película, em nenhuma das sessões os espectadores foram informados sobre a alteração na projeção. Como o filme ainda será exibido mais duas vezes (nesta segunda e nesta terça), fica aqui o alerta para quem já comprou ou pretender comprar ingresso.

Em festivais do porte do de São Paulo, que exibe com muita competência mais de 400 filmes, é normal que problemas e mudanças ocorram, mas o público não pode deixar de ser informado.

*

Este blog encaminhou questões à Mostra para entender o que ocorreu no final de semana. As respostas de Leon Cakoff. 

  • Qual exatamente o tipo de cópia de "Still Life" em exibição em SP?

Para não perdermos a oportunidade de exibir o recém vencedor de Veneza, a produtora do filme Memento Films atendeu a Mostra com a cópia digital de STILL LIFE. Como até o fechamento do catálogo a previsão era a de receber cópia em 35mm., foi a informação que lá ficou impressa. Detalhe: este é o terceiro ano que publicamos a mídia dos filmes no catálogo. Para nós da Mostra, que recebe cada vez mais inscrições em suporte digital, o que vale é uma boa idéia e não os recursos com que eles foram finalizados.

  • Por que o público não foi informado sobre a não-exibição em 35 mm?

Como foi dito acima, o público está sendo informado. Neste caso, escapou do controle da produção da Mostra. O importante, repetimos, é que o filme está em nossa seleção, o que deixou muita gente feliz. Inclusive Daniela Thomas, que adorou ter assistido no sábado no cine Bombril.

  • A exibição de "Still Life" que acontece nesta segunda será em digital ou 35 mm? Se em digital, o público será previamente informado?

STILL LIFE não existe em película no Brasil. A Mostra só tem a cópia em DigiBeta, uma das mídias mais utilizadas que existe em digital. O que ocorreu foi que o técnico da Rain, que cuida das projeções digitais na Mostra, errou a janela para projetar o filme. Erro humano.

Escrito por Leonardo Cruz às 1h13 PM

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Uma bela surpresa italiana

Uma bela surpresa italiana

O italiano Kim Rossi Stuart consolidou sua fama internacional como ator em 2004 com uma comovente interpretação em "As Chaves de Casa", de Gianni Amelio. Sua atuação como o pai de um garoto com paralisia cerebral lhe rendeu um prêmio no Festival de Veneza e pavimentou o caminho para sua estréia como diretor.

"Anche Libero Va Bene", o primeiro filme de Rossi Stuart, foi bem-recebido neste ano em Cannes, onde ganhou um prêmio paralelo. Agradou também ao público da Mostra de SP e entrou na lista dos mais bem votados do festival. Os aplausos de Cannes e de SP são merecidos; Rossi Stuart conduz com delicadeza a história do esfacelamento de uma família de classe média italiana.

O próprio diretor interpreta Renato, o pai, homem intempestivo, debilitado pelos constantes sumiços da mulher e que atravessa os dias escorado na força moral de seu casal de filhos, Viola e o caçula Tommazo. Toda a narrativa é apresentada pela ótica do mais novo, o que faz com que, em certa medida, "Anche Libero" dialogue com o também belo "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias", de Cao Hamburger.

A narrativa sob perspectiva infantil garante ao filme de Rossi Stuart uma outra dimensão, além do mero drama familiar. Entre a infância e a pré-adolecência, Tommazo começa a descobrir o mundo, o amor, as mulheres e as decepções. As cenas em que o garoto sobe ao telhado de um prédio vizinho ao seu para observar a rua simbolizam essa curiosidade, a busca pelo novo.

A ânsia por descobertas de Tommazo acabará por se chocar com os dilemas de sua família. É nesse confronto em que a dramaticidade cresce, e "Anche Libero Va Bene" se confirma como um bom filme de estréia e uma bela surpresa italiana.

*

A Ilustrada desta terça publica interessante entrevista com Kim Rossi Stuart, feita pela repórter Silvana Arantes. Leia aqui (apenas assinantes Folha ou UOL).

"Anche Libero Va Bene" tem pelo menos mais duas sessões na Mostra, nesta terça e nesta quarta (programação aqui). Mas, como entrou entre os favoritos do público, pode aparecer nas sessões da repescagem do final de semana. Fique atento.

Escrito por Leonardo Cruz às 1h00 PM

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Abacaxi Paulista - Primeira Parcial

Abacaxi Paulista - Primeira Parcial

Começou animada a enquete sobre o pior filme da Mostra deste ano. Este blog recebeu seu recorde de mensagens até agora e apura aqui a primeira parcial, somados os comentários no post "As bombas da Mostra" e os e-mails recebidos.

Até o momento, o líder e mais forte candidato ao Troféu Abacaxi Paulista é "Aquanitis" (foto acima), produção italiana de Peter Mahlknecht, sobre um hoteleiro que, após um derrame, passa a se relacionar com o espírito feminino da água. Ainda é tempo de analisar se realmente "Aquanitis" merece o Troféu Abacaxi, já que o filme será exibido novamente na Mostra. Confira aqui a programação.

Também tem boas chances "Transe", da portuguesa Teresa Villaverde. Este blogueiro viu e confessa que também ficou decepcionado, principalmente porque tinha gostado bastante de "Água e Sal", filme que Teresa dirigiu em 2001.

A votação continua até quinta-feira, último dia da Mostra. Vote aqui ou no comentário deste post.

Escrito por Leonardo Cruz às 11h28 PM

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Leon e Renata negam tudo

Leon e Renata negam tudo

Há pouco mais de uma semana, na estréia deste blog, foi revelada aqui a lista de apostas de Leon Cakoff e Renata de Almeida para a Mostra. O casal que organiza o festival evita dizer em público seus favoritos, mas contou a um amigo deste blog quais eram os filmes em que apostavam suas fichas. Pois agora o casal mandou uma mensagem para cá, desmentindo a lista. Dá só uma olhada:

 [Leon Cakoff] [São Paulo - SP - Brasil]
Pessoal, um aviso importante. Esta lista é apócrifa. Como diretores da Mostra Internacional de Cinema em São Paulo nós não podemos cometer um ato anti-ético assim, destacando apenas alguns filmes da imensa e maravilhosa lista de filmes selecionados. Para nós, todos os filmes são iguais. O privilégio do destaque cabe ao público da Mostra que desde o primeiro ano do evento é o nosso principal júri. Bom festival a todos. Leon Cakoff e Renata de Almeida  27/10/2006 12:11

Este blog mantém o que foi publicado, confirma sua apuração e repete, para quem não viu na primeira vez, a lista das apostas da Mostra. Aí vai:

  • "Flutuando", de Boris Khlebnikov (Rússia, 2006, foto acima)
  • "Dong", de Jia Zhang-Ke (China, 2006)
  • "Nue Propriété", de Joachim Lafosse (Bélgica, 2006)
  • "Diários", de David Perlov (Israel, 1983)
  • "Fica Comigo", de Eric Khoo (Cingapura, 2004)
  • "Quatro Janelas", de Christian Moris Müller (Alemanha, 2006)
  • "Hedy Lamarr: Segredos de uma Estrela de Hollywood", de Donatello Dubini, Fosco Dubini e Barbara Obermaier (Suíça/Alemanha, 2005)
  • "A Verdade do Gato", de Jeremy Hamers (Bélgica, 2006) 
  • "A Estrada", de Jiarui Zhang (China, 2006)
  • "Andando em Má Companhia", de Han Jie (China/França, 2006) 
  • "Um Mundo Maravilhoso", de Luis Estrada (México, 2006) 
  • "Holly", de Guy Moshe (EUA, 2006) 
  • "A Audiência Vai Começar", de Vincenzo Marra (Itália, 2006) 
  • "A Cerca", de Ricardo Iscar e Nacho Martín (Espanha, 2005)  
  • "Cartas do Saara", de Vittorio De Seta (Itália, 2006) 
  • "Bonecas de Papel", de Tomer Heymann (Israel/Suíça, 2006) 
  • "American Combatant", de Charles Libin (EUA, 2006)
  • Escrito por Leonardo Cruz às 11h24 PM

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    As bombas da Mostra

    As bombas da Mostra

    Nem só de grandes filmes vive a Mostra de Cinema de SP. Claro, entre as centenas de filmes do festival, é inevitável que algumas bombas tenham aportado nas salas de cinema da cidade. Então, pergunto: qual o pior filme que você viu na Mostra até agora? Qual mereceria o Troféu Abacaxi Paulista de pior produção em cartaz na cidade?

    Este blogueiro aponta seu candidato: é o documentário mexicano "Maquilapolis". A intenção até era boa. Mostrar a realidade das mulheres que trabalham em péssimas condições nas linhas de produção de multinacionais na fronteira do México com os EUA. O resultado, no entanto, é constrangedor, amador mesmo.

    E você? Qual o pior filme que viu até agora? Responda aqui ou na área de comentários deste post. O ranking dos piores sai até o final da Mostra.

    Escrito por Leonardo Cruz às 9h46 AM

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    Um filme imperdível

    Um filme imperdível

     

    Uma das perguntas que me fizeram ontem no bate-papo da Folha Online sobre cinema foi quais filmes são imprescindíveis na Mostra de SP. De bate-pronto, citei três grandes filmes em exibição, mas ainda não tinha visto "Cabiria". Se há um único programa obrigatório, imprescindível nesta Mostra, é a exibição de "Cabiria" com acompanhamento ao vivo de piano.

    Para quem não conhece, "Cabiria" foi a primeira superprodução do cinema mundial, filmada em 1914 pelo italiano Giovanni Pastrone. São mais de três horas de filme, uma saga que atravessa as Guerras Púnicas, no século 3 a.C. Em seu épico, Pastrone utiliza centenas de figurantes para recriar batalhas e rituais de sacrifícios, filma passagens na neve e no deserto, cria efeitos especiais para representar sonhos e delírios e coloca em cena até um tigre de verdade. Tudo isso, repito, em 1914!

    Outro mérito de "Cabiria" é o surgimento no cinema do personagem Maciste, que se tornou um ícone do cinema de aventura italiano, mote para cerca de 50 filmes. Força de Conan e espírito de Didi Mocó, Maciste é o musculoso servo do romano Fulvio Axilla. Para tirar seu senhor de enrascadas, ele enfrenta sozinho dezenas de adversários, arrebenta correntes de aço e destrói grades de celas. É também o protagonista das melhores cenas de humor do filme, ainda capazes de fazer rir a platéia.

    A obra exibida agora em São Paulo foi restaurada pelo Museu Nacional de Cinema de Turim, em um processo primoroso comandado pelo brasileiro João Sócrates de Oliveira. Com apoio de Martin Scorsese, a restauração roda o mundo para exibições em festivais e foi mostrada pela primeira vez em SP ontem à noite. Haverá ainda mais duas sessões na cidade.

    O filme é acompanhado pelo pianista Stefano Maccagno, que executa ao vivo a trilha original de "Cabiria". Toca por 195 minutos, sem interrupções, e conhece de cor a partitura. Foi merecidamente aplaudido de pé pelo público ao final da sessão de ontem do Cinesesc. Imperdível, inesquecível.

    *

    Para quem quer ler mais sobre "Cabiria", o colunista da Folha e vizinho de blog Marcelo Coelho publicou na Ilustrada deste sábado uma bela análise sobre o filme de Pastrone. Leia aqui (só para assinantes UOL ou Folha).

     

    Escrito por Leonardo Cruz às 9h22 AM

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    Dinheiro no deserto

    Dinheiro no deserto

    "Deserto Feliz", novo longa de ficção do pernambucano Paulo Caldas, é o único título brasileiro entre os 24 projetos que o fundo holandês Hubert Bals elegeu apoiar neste semestre, com 353 mil euros (divididos entre todos). "Deserto Feliz", que já está filmado, terá apoio na pós-produção. A grana não é muita, mas o selo Hubert Bals tem prestígio internacional e ajuda em outras buscas por patrocínio.

    A paraguaia Paz Encina, cujo "Hamaca Paraguaya" está em cartaz na Mostra de São Paulo, foi premiada para desenvolver o roteiro de seu segundo longa, que deve se chamar "A Beleza da Infância".

    Os argentinos, como sempre, lideram o time das apostas em novos talentos latino-americanos, com três nomes entre os selecionados: Ana Katz ("Una Novia Errante"), Milagros Mumenthale ("Ausencias") e Ernesto Baca ("Ganges").

    "Deserto Feliz" é a história de uma jovem que, para tentar escapar de um ambiente familiar deplorável no interior de Pernambuco, muda-se para Recife, onde acaba presa no universo da exploração sexual por turistas estrangeiros.

    João Miguel e Peter Ketnath (ambos de "Cinema, Aspirinas e Urubus") lideram o elenco masculino, enquanto a estreante Nash Laila faz o papel da protagonista, do qual Maria Flor declinou.

    *

    Em tempo: na próxima segunda-feira, Recife faz festa para comemorar os dez anos de lançamento de "Baile Perfumado", que projetou para o Brasil os nomes dos diretores Paulo Caldas e Lírio Ferreira.

    Escrito por Silvana Arantes

    Escrito por Leonardo Cruz às 8h07 AM

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    Convite ao navegante

    Convite ao navegante

    Tá à toa na vida? Quer conversar sobre cinema?

    Hoje, às 17h, participo do bate-papo semanal da Folha Online, para falar sobre os filmes da Mostra e da programação em cartaz na cidade. Dá um pulo lá.

     

    Escrito por Leonardo Cruz às 10h00 AM

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    O hip hop vai ao cinema

    O hip hop vai ao cinema

    A convite deste blog, Adriana Ferreira Silva, repórter de música da Ilustrada, escreve sobre "Antonia", filme novo de Tata Amaral, que será exibido nesta noite na Mostra. Confira a programação aqui.

    *

    Do samba ao funk carioca, passando pelo rock e a música eletrônica, todos os estilos musicais já serviram de pano de fundo para o cinema nacional. Agora, chegou a vez do rap. As quebradas paulistanas, onde o hip hop dita a moda, são o cenário de "Antonia", terceiro e mais recente longa-metragem da diretora Tata Amaral.

    Muito já se falou do filme, que primeiro estreará como série da Globo _substituindo "Cidade dos Homens"_, para só depois chegar ao circuito comercial do cinema. O blablablá se deve mais a isso do que as suas qualidades propriamente ditas.

    Tata Amaral, que já freqüentou o universo do hip hop no curta "VinteDez", foi mais ousada em seu primeiro longa, "Um Céu Estrelas", e mais inspirada no segundo, "Através da Janela". Comparado aos dois, "Antonia" é um filminho daqueles que o público assiste com um sorriso nos lábios, mas do qual se esquece logo que sai da sala do cinema (e isso não é exatamente um defeito).

    A história é manjada: quatro meninas da periferia formam um grupo de rap e enfrentam diversas adversidades (gravidez, prisão, brigas, falta de dinheiro etc.). A graça está no fato de serem elas as cantoras/rappers Negra Li, Cindy, Leilah Moreno e Quelynah, velhas conhecidas da cena black paulistana, que aparecem interpretando... elas mesmas.

    Não se trata de uma autobiografia. A história toda é ficção. Mas, quem já viu as moças no palco, ou conversou dois minutos com elas, sabe que, ao vivo e em cores, elas falam daquele jeitinho meio rimado do filme. Como atrizes, o quarteto deixa a desejar _com exceção de Leilah Moreno, que surpreende como Barbarah_, mas, quando encarnam as rimadoras, se saem superbem. Seja quando estão cantando rap, interpretando Roberta Flack (no hit "Killing me Softly") ou ainda nas ótimas cenas de "composição" das rimas.

    Elas não foram as únicas personagens "da noite" fisgadas pela diretora. O rapper Thaíde _pioneiro do hip hop ao lado do DJ Hum_ é um empresário que fala igual ao Thaíde... Outros que entram em cena são Max B.O., MC conhecido no hip hop por sua habilidade no "freestyle", que aparece improvisando; o rapper Kamau e os DJs Hadji e Negro Rico, que tocam com as meninas no início do filme; Maionezi, MC da banda SP Funk, como um marido machista; e o grupo de rap Z'África Brasil, que dá uma palhinha em um show.

    Para completar, a trilha sonora é parceria de Beto Villares e Parteum. Este último é um dos mais destacados produtores do hip hop, além de ser autor de algumas das melhores letras do rap nacional.

    A presença dos manos e minas é obrigatória. (ADRIANA FERREIRA SILVA)

    Escrito por Leonardo Cruz às 9h33 AM

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    Quanto vale um olho?

    Quanto vale um olho?

    Lourenço Mutarelli apareceu pra valer no mundo do quadrinho nacional em 1991, com "Transubstanciação", história da reintegração social de Thiago, sujeito que passou oito anos na cadeia por matar o próprio pai. Além desse plot, o que impressionava na época era o universo criado por Mutarelli, que mostrava uma realidade opressiva de periferia de grande cidade e, mais do que isso, um personagem psicologicamente transtornado, tomado por crises e angústia. Até então, não havia nada parecido com isso na HQ brasileira.

    Esse ambiente quase depressivo continuou a aparecer nas obras seguintes de Mutarelli, não só nas HQs mas também no teatro ("O que Você Foi Quando Era Criança?") e em sua estréia como romancista, com o "Cheiro do Ralo". Daí que o grande mérito do novo filme de Heitor Dhalia, "O Cheiro do Ralo", é transportar ao cinema com fidelidade esse universo de incômodo, de inquietação com o mundo que transborda na obra de Mutarelli.

    Selton Mello consegue construir um personagem ao mesmo tempo irônico e angustiado. Ele interpreta Lourenço, dono de um armazém de objetos usados, um antiquário meia-boca, que passa os dias comprando por ninharia as tralhas levadas por seus clientes. Sádico, extrai prazer da falência e do desespero alheios. Nessa crítica à sociedade de consumo, um revólver vale mais do que um Stradivarius, um olho de vidro vale mais do que um revólver, e poucas coisas valem mais do que um olho.

    Como a própria obra de Mutarelli, "O Cheiro do Ralo" não é um filme fácil. O mundo de taras e perversões de Lourenço, que degringola conforme o longa avança, tem como metáfora a merda que vaza do ralo do banheiro do protagonista. Se a ironia de Lourenço arranca gargalhadas da platéia no início do filme, aos poucos esse riso vai ficando amarelo, conforme os espectadores percebem que não há limites para o personagem.

    Repito: "O Cheiro do Ralo" não é um filme fácil. É um filme necessário. Ou, simplesmente e para manter o espírito de Mutarelli, um puta filme.

    *

    "O Cheiro do Ralo" estréia comercialmente nos cinemas em março, mas já pode ser visto na Mostra de SP. Ainda terá três sessões, com certeza muito concorridas, hoje, amanhã e sábado. Confira os detalhes na página especial da Mostra na Folha Online.

     

    Escrito por Leonardo Cruz às 9h35 AM

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    100% nacional

    100% nacional

     

    O dia é fortíssimo para o cinema nacional na Mostra.

    Os três filmes que concentraram os principais prêmios de ficção no último Festival do Rio passam hoje em São Paulo. Além de "O Céu de Suely", sobre o qual escrevi alguns posts abaixo, serão exibidos hoje "O Cheiro do Ralo" (site oficial), de Heitor Dhalia, e o filme da foto acima, "O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias" (trailer), de Cao Hamburger. Também tem sessão nesta noite "Fabricando Tom Zé" (trailer), melhor documentário pelo júri popular do festival carioca.

    Todos altamente recomendados por este blogueiro.

     

    Escrito por Leonardo Cruz às 7h12 AM

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    Os mistérios de Helena

    Os mistérios de Helena

    Hoje à tarde será a segunda exibição na Mostra de "Helena Zero", curta de Joel Pizzini sobre a atriz Helena Ignez _cujo talento e trajetória valem não um, mas vários filmes.

    A exibição na Mostra custou a "Helena Zero" seu lugar na competição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (21 a 28 de novembro). O curta de Pizzini chegou a ser anunciado na disputa brasiliense, que adotou o critério de "100% de ineditismo". Acabou substituído por "Hibakusha: Herdeiros Atômicos no Brasil", de Mauricio Kinoshita. Pizzini diz que fez a escolha pesaroso. "Como já havia inscrito [o filme] na Mostra anteriormente, tive de abrir mão de Brasília, embora goste muito desse festival."

    Pizzini é também autor de outros filmes como "Enigma de um Dia", "500 Almas" e, no ano passado, "Dormente". Atualmente, co-dirige o projeto de restauração da obra de Glauber Rocha, que já lançou em DVD "Terra em Transe" e "Deus e o Diabo na Terra do Sol". O próximo será "O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro".

    Mais quatro curtas fazem parte do programa em que "Helena Zero" será exibido: "Maré Capoeira", de Paola Barreto Leblanc, "Boneca do Minhocão", de Marcelo Presotto de Castro e Ana Paula Nero, "Meus Amigos Chineses", de Sergio Sbragia, e "Primeira Vez", de Fabrício Bittar.

    Escrito por Silvana Arantes e Leonardo Cruz

    Escrito por Leonardo Cruz às 6h46 AM

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    Os rivais de Marcelo Gomes

    Os rivais de Marcelo Gomes

     

    A Academia de Hollywood começou nos últimos dias sua maratona anual de filmes estrangeiros. Neste ano, representantes de 61 países disputam as cinco indicações ao Oscar. Quem abriu a maratona? "Cinema, Aspirinas e Urubus", de Marcelo Gomes, o concorrente brazuca. Para quem ficou com inveja da Academia, é possível fazer em SP uma minimaratona de filmes que buscam a estatueta. Alguns dos candidatos a melhor estrangeiro estão na Mostra. Os rivais de Marcelo Gomes em cartaz em SP são:

    1. Argélia: "Dias de Glória", de Rachid Bouchareb
    2. Argentina: "As Leis de Família", de Daniel Burman
    3. Austrália: "Dez Canoas", de Rolf de Heer 
    4. Dinamarca: "After the Wedding", de Susanne Bier
    5. Egito: "O Edifício Yacoubian", de Marwan Hamed
    6. Espanha: "Volver", de Pedro Almodóvar 
    7. Itália: "Mundo Novo", de Emanuele Crialese
    8. México: "El Laberinto del Fauno", de Guillermo del Toro
    9. Romênia: "Como Eu Festejei o Fim do Mundo", de Catalin Mitulescu
    10. Sérvia: "Amanhã Cedo", de Oleg Novkovic
    11. Suíça: "Vitus", de Fredi M. Murer

    Ainda é cedo para tentar prever quem serão os cinco finalistas e quem levará a estatueta de filme estrangeiro, mas este blogueiro tem uma certeza: Almodóvar, que já beliscou dois Oscars (roteiro, por "Fale com Ela", e filme estrangeiro, por "Tudo sobre Minha Mãe"), é franco favorito. E Emanuele Crialese, cineasta revelação em Veneza por "Mundo Novo" (trailer), pode surpreender.

    *

    Ainda sobre o Oscar, dá uma olhadinha no post abaixo.

    Escrito por Leonardo Cruz às 10h52 AM

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    Um diretor contra o Oscar

    Um diretor contra o Oscar

     

    A repórter de cinema da Ilustrada, Silvana Arantes, conta a seguir o barraco armado pelo indicado da Finlândia ao Oscar e o impacto disso no lançamento do filme no Brasil.

    *

    O bafafá você já deve saber: a Finlândia apresentou o novo longa de Aki Kaurismaki, "Luzes na Escuridão" (trailer), como seu aspirante à disputa do Oscar 2007 de melhor filme estrangeiro. Kaurismaki, quando soube da notícia, desautorizou a candidatura. Disse que competir não lhe interessa. Pode ser, mas o filme disputou a Palma de Ouro em Cannes em maio passado...

    Foi lá que o distribuidor André Sturm (Pandora Filmes) o comprou para o Brasil. E daí que vem a novidade: com a confusão armada, o lançamento de "Luzes na Escuridão", que só deveria acontecer a partir de março de 2007, com cinco ou seis cópias, poderá ser antecipado para janeiro, quando saem as indicações ao Oscar, usando a propaganda ao avesso, de ser "o filme que não quis ser indicado".

    Sturm não acha que Kaurismaki tenha provocado a polêmica para lucrar com ela. "Sinceramente, acho que ele não fez isso [a recusa] com esse objetivo. Não sou amigo, mas o conheço pessoalmente. Ele é os filmes dele, sombrio e pessimista. Não é um Lars von Trier, que vive fazendo golpes de marketing." Mas Sturm admite que, "do ponto de vista do distribuidor, isso acaba gerando um oba-oba interessante". Talvez até mais do que uma eventual indicação à estatueta. "Há vários filmes estrangeiros indicados ao Oscar que nunca foram lançados no Brasil". (SILVANA ARANTES)

    *

    Daqui a pouco tem mais Oscar: os rivais de Marcelo Gomes estão na Mostra.

     

    Escrito por Leonardo Cruz às 8h32 AM

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    Mais perto do céu

    Mais perto do céu

    "O Céu de Suely", em exibição na Mostra e em cartaz a partir de 17/11, comprova o talento de Karim Aïnouz, já revelado em "Madame Satã". Como escreveu José Geraldo Couto na Ilustrada (leia aqui), o filme retrata como poucos no cinema recente a tal "modernidade torta brasileira".

    Mas, mais do que comprovar o talento de Aïnouz, "O Céu de Suely" é um exemplo da geração de ótimos cineastas que se consolida no Brasil nesta década, em especial nos últimos três, quatro anos. São diretores que demonstram desenvoltura ao tratar não só da "modernidade torta" mas também de questões e personagens históricos nacionais.

    Beto Brant, Sérgio Machado, Marcelo Gomes, Laís Bodansky, Paulo Sacramento, Kiko Goifman, José Padilha, Andrucha Waddington são apenas alguns exemplos de talento na atual geração (e fatalmente cometo alguma injustiça, dado que a memória é falha).

    Tal cenário indica que as leis de incentivo, apesar de imperfeitas, funcionam e permitem a formação de uma cinematografia nacional consistente, recuperada da hecatombe provocada pelo governo Collor. É evidente que não chegamos ao Paraíso, mas já estamos a algumas léguas de distância do Inferno.

    Escrito por Leonardo Cruz às 10h20 AM

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    Filmoteca - Inácio Araujo

    Filmoteca - Inácio Araujo

    Inácio Araujo é o decano dos críticos de cinema da Ilustrada _analisa filmes para a Folha desde 1983. É também professor de história do cinema e já foi montador, roteirista e assistente de direção. Justo, portanto, que ele inaugure a seção Filmoteca, indicando cinco obras que considera obrigatórias. Os americanos foram lançados em DVD no Brasil; os japoneses, não.
     
    *
    "Rio Bravo - Onde Começa o Inferno", de Howard Hawks (EUA, 1959)
    Um prodígio de equilíbrio: as simetrias, os gestos, a harmonia. Para mim, o melhor de todos os filmes.
     
    "Rastros de Ódio", de John Ford (EUA, 1956)
    Um homem busca seu sangue, o último vestígio de sua família, de sua vida, entre os índios. A América mais dilacerada que já se viu, e o homem mais triste do cinema.
     
    O filme é um só. O título muda. Um encontro de família, o mais melancólico, o mais encantador, o mais contestador dessa coisa autoritária que é o cinema.
     
    "Contos da Lua Vaga", de Kenji Mizoguchi (Japão, 1953)
    Onde termina o fantástico, onde começa nossa vida? Onde termina a realidade e começa o sonho? Será o homem seu sonho?
     
    "A Marca da Maldade", de Orson Welles (EUA, 1958)
    O cinema é um truque que revela o real? Mas não será toda a vida um truque que produz o real?

    Escrito por Leonardo Cruz às 4h52 PM

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    Adeus a Scorsese?

    Adeus a Scorsese?

    Martin Scorsese é hoje um dos poucos cineastas americanos ainda capazes de fazer excelentes filmes dentro da grande indústria do cinema, como prova "Os Infiltrados" (trailer), em cartaz neste final de semana na Mostra. Mas o diretor de "Taxi Driver" e "Touro Indomável" dá sinais de cansaço das amarras de Hollywood.

    Ao apresentar "Os Infiltrados" nesta semana no Festival de Roma, Scorsese disse achar cada vez mais difícil trabalhar nas grandes produções. "Começo a perceber que, quanto maior o orçamento envolvido, menor é o risco que pode ser assumido [no filme]", declarou o cineasta, anunciando que quer uma pausa em sua relação com Hollywood. Seu próximo projeto, independente, será um filme sobre jesuítas no Japão imperial no século 17.

    Scorsese não é o único. Outro que recentemente indicou que não voltará a dirigir grandes orçamentos é George Lucas. O criador de "Guerra nas Estrelas", que transformará a continuação de sua saga em uma série de TV, avalia que o futuro está na produção de filmes pequenos, que possam ser distribuídos pela internet. Os estúdios precisam se adaptar aos novos formatos, aponta Lucas.

    Conseguirão? Há substitutos potenciais para Lucas e Scorsese na indústria do cinema hoje? Para Lucas é mais fácil, talvez Peter Jackson. E para Scorsese?

    Escrito por Leonardo Cruz às 8h39 AM

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    Cinema em debate - Dália Negra (3)

    Cinema em debate - Dália Negra (3)

     

    Como prometido, o crítico de cinema da Ilustrada Sérgio Rizzo e o correspondente da Folha em Washington, Sérgio Dávila, encerram a discussão sobre o filme de Brian de Palma.

     

    *

     

    Um autor na indústria - Sérgio Rizzo

     

    Brian de Palma, você sabe, é amigão de Steven Spielberg. Quando o amigão fazia “A Fogueira das Vaidades” (90), Spielberg resumiu assim os temores que De Palma provocava nos estúdios: “Um punhado de executivos lembra como Brian começou, fazendo filmes de Brian de Palma, que vêm da sua alma, que vêm de quem ele é. Agora, Brian precisa pegar quem ele é e impor essa marca em um filme que poderia ter sido feito por Sydney Pollack, ou Robert Benton, ou Roman Polanski, ou John Schlesinger. Cada um deles faria diferente, mas todos eles poderiam ter feito ‘A Fogueira das Vaidades’. Nenhum deles poderia ter feito ‘Trágica Obsessão’. Nenhum deles poderia ter feito ‘Vestida para Matar’, ou ‘Um Tiro na Noite’, ou ‘Irmãs Diabólicas’. Nenhum deles.”

     

    A avaliação está no livro “The Devil’s Candy: The Bonfire of the Vanities Goes to Hollywood”, de Julie Salamon. Desde então, De Palma parece estar se esforçando para corresponder à expectativa do amigão. “Dália Negra”, o romance de James Ellroy, poderia ter sido filmado por Sydney Pollack, ou Robert Benton, ou Roman Polanski, ou Curtis Hanson (que entra aqui para substituir, na lista-exemplo de Spielberg, o inglês John Schlesinger, morto em 2003).

     

    De Palma tentou filmar Ellroy a seu modo, como preconizava Spielberg. Parte do público queria Ellroy do jeito Ellroy, seja lá o que isso for (talvez algo como “Los Angeles, Cidade Proibida”). Outra parte não queria ver marca nenhuma de ninguém em lugar nenhum, só um filme de consumo rápido. De modo que a última vez em que De Palma manteve-se De Palma e ao mesmo tempo saiu abençoado pelo mercado foi “Missão Impossível” (96).

     

    Querer impor marca na indústria não é mole, não. E os amigos ainda pressionam.

     

    *

    Sorry, Brian, e até 2008 - Sérgio Dávila

    É o seguinte e é paradoxal: quem já fez “Dublê de Corpo”, “Os Intocáveis”, “Scarface” e “Carrie, a Estranha” pode se dar ao luxo de fazer um filme menor como “Dália Negra”. É o que Brian de Palma fez. Mas quem já fez  “Dublê de Corpo”, “Os Intocáveis”, “Scarface” e “Carrie, a Estranha” não pode ser o mesmo diretor de “Dália Negra”. Ainda mais com o material bruto que ele tinha em mãos: a história verdadeira da garota assassinada em Los Angeles, o livro de ficção de James Ellroy, a história verdadeira da própria mãe de James Ellroy…

    O problema são dois. Roteiro, roteiro, roteiro, em primeiro lugar. De Palma acha que dá para “salvar na edição” –ou seja, contar com o imenso talento de diretor que ele tem para melhorar um roteiro que quer abraçar o mundo com as mãos ao tentar contar diversas histórias complexas ao mesmo tempo sem a elegância e o entrelaçamento quase imperceptível de “Short Cuts”, de Robert Altman/Raymond Carver.

    E elenco, elenco, elenco. Josh Hartnett não tem competência para ser guarda de trânsito de porta de escola, quanto mais um tira durão com o código moral de Philip Marlowe. Sua química com Scarlett Johansson lembra a dos atores-mirins de “Bugsy Malone - Quando as Metralhadoras Cospem”. E Hillary Swank deveria voltar correndo aos papéis de “white trash”, que é o que faz melhor. E Aaron Eckhart é um bom ator, mas não pode querer ser uma versão piorada do Bud White de Russell Crowe em “L.A. Confidential”.

    Sendo assim, só nos resta esperar por “Os Intocáveis”, a “preqüela”, que Brian De Palma prometeu para 2008…

    *

    Salvo pedidos de réplicas e tréplicas, este debate termina aqui. Outros virão.

    E amanhã tem: a estréia da Filmoteca, com Inácio Araujo, e o futuro de Scorsese.

    Escrito por Leonardo Cruz às 6h54 PM

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    Cinema em debate - Dália Negra (2)

    Cinema em debate - Dália Negra (2)

    O debate sobre "Dália Negra" continua, com as análises do crítico da Folha Cássio Starling Carlos e do redator da Ilustrada Bruno Yutaka Saito.

    *

    De Palma e suas assombrações - Cássio Starling Carlos

    Fantasma, dublê e obsessão poderiam ser apenas palavras soltas de títulos de filmes de Brian de Palma. Elas guardam, porém, mais que apelo. São chaves do cinema do diretor, se não do cinema como um todo. Considerado em sua primeira fase um imitador de Hitchcock, De Palma depois convenceu seus ingênuos detratores que nem toda simulação se reduz à cópia, e que o simulacro pode ser a tal ponto "fiel" que contamina e destrói a "originalidade" do modelo.

    "Dália Negra" é, portanto, mais um momento desse programa. Nele se encontra a duplicação do filme noir, mas não como a réplica banal que se fez em larga escala do gênero nos anos 80. Em vez de fetiche, De Palma prefere o fantasma. Nesse universo, em que tudo é encenação, dos crimes aos desvendamentos, não espanta que o diretor filme cenários e atores como se fossem assombrações. Em vez do "nada é o que parece", do noir clássico, aqui vigora o "nada é".

    Esse esvaziamento chega ao ponto de impor aos atores desempenhos ausentes, reduzindo-os a um automatismo espiritual cuja função é desnutrir os personagens de quaisquer traços de emoção humana. Daí resulta uma impressão de "frieza", que deixa o espectador um tanto afastado. Mas não se pode acusar De Palma de não se manter fiel a seu programa estético e de executá-lo, se não com o brilhantismo do espetáculo, com extremo rigor.

    *

    O kitsch e o noir - Bruno Yutaka Saito

    Quem procura histórias (e quem acha que um filme bom necessita de historinhas) vai logo reclamar que o longa de Brian de Palma é enrolado demais. O que não deixa de ser verdade. Pode até parecer que é até mais um filminho qualquer sobre a investigação de um assassinato. Extremamente sombrio, "Dália Negra" tem um humor sutil, quase imperceptível e ambíguo, como piadas internas.

    De Palma une o clichê e o humor, numa espécie de sátira/homenagem a Hollywood. E esta indústria, seja a da era clássica, seja a dos dias atuais, é indissociável da idéia de clichê _um molde para reproduções infinitas, feitas ao gosto do espectador. Assim, relê o filme noir e seu imaginário, numa estrutura que caminha para o kitsch. Tudo em "Dália Negra" tem a ver com o excesso, a irrealidade das ações, das falas, das verdades e mentiras da imagem.

    De Palma volta ao universo de tintas B de "Vestida para Matar", "Dublê de Corpo" e "Um Tiro na Noite". A diferença é que, agora, trata-se de um cineasta com pleno domínio dos seus recursos. Com este filme, fica ao lado de cineastas que estão no auge, como Lynch e Almodóvar. E, como eles, mantém um pé nada reprimido no "mau gosto" de seu passado, e encarna outro estereótipo, o do velho que perde de vez seus pudores.

    *

    Daqui a pouco, Sérgio Rizzo e Sérgio Dávila encerram o assunto.

     

    Escrito por Leonardo Cruz às 3h31 PM

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    Cinema em debate - Dália Negra (1)

    Cinema em debate - Dália Negra (1)

    Brian de Palma já anunciou: voltará ao cinema noir e aos "Intocáveis" em 2008. Em "Capone Rising", mostrará a chegada de Al Capone a Chicago e sua ascensão ao poder. Enquanto o mafioso não volta, temos "Dália Negra" em cartaz no país. Também uma incursão no noir, foi definido na Ilustrada como "o mais profundo De Palma desde o começo dos anos 80" (leia aqui, só para assinantes do UOL e da Folha). A convite, seis críticos amigos enviaram suas opiniões sobre o filme. O debate começa com Sylvia Colombo e Ricardo Calil.

    *

    Excesso de fidelidade - Sylvia Colombo

    Quando se propôs emular diferentes gêneros do cinema, Stanley Kubrick o fez com maestria e, o mais importante, pervertendo um pouco cada um. Foi assim com o terror em "O Iluminado", com a ficção científica em "2001", com o romance de época em "Barry Lyndon", com o filme de guerra em "Nascido para Matar", com o thriller sexual em "De Olhos Bem Fechados" e por aí vai.

    Com esses antecedentes, a tentativa de Brian de Palma de fazer um filme noir nos dias de hoje surge fracassada, pois nada acrescenta ao que se fazia nos anos 40, muito menos tira algo do diálogo entre o cinema de hoje e o de então. O diretor de "Scarface" e "Vestida para Matar", em vez de flexibilizar o estilo, tentou ser o mais fiel possível, desde os detalhes de caracterização até o modo como desenrola o suspense do misterioso "whodunit".

    Além de soar artificial, contou com o desserviço prestado pelos atores Josh Hartnett e Scarlett Johansson (que não anda se aguentando de tanto hype em torno de sua beleza), em interpretações frágeis. O único foco de interesse do filme _a obsessão mórbida do investigador pela garota assassinada_ infelizmente se perde no meio de tanta busca por criar uma ilusão apenas a partir de ferramentas do cinema, e não de idéias.

    *

    Jogo de espelhos - Ricardo Calil

    Há muito tempo Brian de Palma não tinha uma base tão sólida para construir um filme como em "Dália Negra": o romance policial de mesmo nome escrito por James Ellroy, sobre o brutal assassinato da aspirante a atriz Elizabeth Short na Hollywood de 1947.

    Por um lado, isso resulta no filme mais consistente do cineasta em anos, muito mais satisfatório que os irregulares
    "Olhos de Serpente", "Missão: Marte" e "Femme Fatale". Com suas reflexões sobre o mundo do crime e do cinema, seus jogos de espelhos entre ficção e realidade, o enredo cai como uma luva para o estilo de De Palma, um cineasta de gêneros, que se mostra confortável para recriar a tradição do filme "noir".

    Por outro lado, a forte base literária podou em parte os arroubos visuais de De Palma, obrigou-o a recorrer menos às imagens e mais às palavras para dar conta de uma história extremamente intrincada. Mas é preciso reconhecer que o filme tem duas das seqüências mais brilhantes da obra do cineasta (e, por extensão, do cinema recente): a da descoberta do corpo de Short em um terreno baldio e a do assassinato de um dos personagens centrais no hall de um prédio. Puro De Palma.

    *

    O debate continua daqui a pouco.

    Escrito por Leonardo Cruz às 11h13 AM

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    As apostas da Mostra

    As apostas da Mostra

    Seja bem-vindo. Esta sessão de cinema não tem trailer. O filme começa agora.

    *

    Este blog estréia hoje para coincidir com o evento cinematográfico mais importante do país. A Mostra Internacional de Cinema de São Paulo faz sua sessão inaugural para convidados nesta noite no auditório Ibirapuera, com "Os Estados Unidos Contra John Lennon" (veja o trailer aqui). Vai bombar, pode apostar.

    *

    Leon Cakoff e Renata de Almeida podem até negar, mas o casal que faz a Mostra tem suas apostas para o festival. Contaram a um amigo comum deste blog quais são os filmes não tão badalados que podem surpreender o público neste ano.

    As indicações da dupla:

    *

    Ainda hoje, seis críticos convidados analisam "Dália Negra", de Brian de Palma.

    Escrito por Leonardo Cruz às 11h05 PM

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