Ilustrada no Cinema

 

 

A pergunta estúpida

Quem costuma vir para Tiradentes nesta época do ano está estranhando. Desde a abertura do festival, na sexta, não chove. Dias quentes, sol de rachar. Dizem que a chuva e o festival são companheiros inseparáveis, e que a lama torna o local uma Woodstock brasileira.

Mas o primeiro filme do segmento Aurora, dedicado aos novos diretores, nos retoma a realidade desses dias em que, Brasil afora, a chuva tem exposto a fragilidade das cidades, das políticas públicas e de certos hábitos da população. Porque, diferentemente do que diz o jargão, não é apenas a chuva que mata.

O documentário “Enchente”, de Julio Pecly e Paulo Silva, retoma a tragédia de fevereiro de 1996 na Cidade de Deus, RJ, em que centenas morreram e milhares ficaram desabrigados. A dupla teve acesso a mais de quatro horas de material gravado pela Rede Globo na época, além das imagens de um morador local, Zezinho.

O tema é urgente, e torço para que o filme vá além do circuito de festivais e aquela permanência curtíssima em salas de cinemas da cidade (vale dizer que um filme estreou em circuito quando ele fica restrito a uma única sessão em horário ingrato durante uma semana apenas?, como acontece com vários documentários brasileiros?).

Há a questão política e engajada de “Enchente”. Há a necessidade de registro em filme, portanto permanente, para que a memória não se esqueça da realidade das chuvas. E, como sabemos, somos todos acometidos de uma amnésia súbita e recebemos as enchentes do começo do ano como se fosse uma surpresa.

“Enchente” cria um eficiente mecanismo de memória. Para criar o permanente, ele usa, em sua maioria, o registro imediato mas efêmero do telejornalismo.

Muitos irão questionar dizendo que não há muito cinema em “Enchente”, que o tom de registro se impõe.

Mas, desde o primeiro instante, a própria natureza da imagem está sendo questionada. Não apenas o que vemos na tela, mas muito do que está fora dela. E, como diria Bressane, o que importa é o que não vemos na tela.

Das horas de imagens registradas pela Rede Globo, a maior parte não foi ao ar. O ponto alto de “Enchente” vem de uma dessas imagens. Em meio ao cenário de devastação, com a população revoltada com o descaso público, uma repórter pergunta “Como você está se sentindo?”, ou coisa do tipo. A moradora local, revoltada, é agressiva: Como é que você acha que a gente está se sentindo? Não dá pra ver não? Não é óbvio? (não vou lembrar a frase exata, mas esse é o tom)

Um ano depois dessa tragédia, em 1997, eu estava no primeiro ano da faculdade de jornalismo. Não me lembro qual era o professor nem qual era a matéria, mas não me esqueço de algo que me incomodou muito na época. Ele dizia que, se você fosse cobrir uma enchente ou tragédia do tipo, na televisão, você tinha que, sim, perguntar: “Como é que você está se sentindo?”.

Assistir a “Enchente”, ontem,  enfim me ensinou coisas que poderia ter aprendido naquela aula.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 5h03 PM

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Extremos

Se o debate com Júlio Bressane em Tiradentes, no sábado, terminou em tom pessimista, mas de uma lucidez admirável, no domingo foi como se entrássemos em outra galáxia. Os embates entre um cinema-produto e um cinema-arte, e a eterna batalha deste segundo para conquistar verbas, circuito de distribuição e público, não são exclusivos da realidade brasileira. Como em tudo que acontece pelo Brasil (ricos e pobres etc.), no entanto, nossos extremos parecem ser mais extremos do que o de outros.

Quando o diretor Toniko Melo exibiu “VIPs” para uma tenda lotada, a expressão “cinema brasileiro”, como se fosse um gênero à parte, nunca pareceu tão inexata.
É como se fosse um cabo de guerra, com Bressane de um lado e Toniko de outro. No discurso antes da exibição, Toniko celebrou a “boa fase do cinema brasileiro”. Um cinema, segundo ele, que está mais próximo do público, que tenta se comunicar com as pessoas. O momento é de celebração, portanto, e o sucesso avassalador de “Tropa de Elite 2” não permite contestações.

Mas o que é o público, e o que significa buscar (ou ignorar )o público? Saraceni, que se formos pensar em termos de “produto vs. arte”, é muito mais parte deste último, diz que sempre procurou o público. Mas raras vezes ele encontrou audiência, sempre foi considerado “difícil”, como são considerados os diretores que não mastigam e não entregam respostas fáceis.

"VIPs” é dessa nova fase de empolgação do cinema pós-“Tropa 2”. É baseado na história real de um vigarista que se passou pelo filho do dono da Gol. De brasileiro, há o fato de contar uma história com personagens brasileiros e de ser falado em português, com paisagens brasileiras. É um filme de gênero, em que, da montagem frenética à trilha sonora,  tudo remete aos norte-americanos.

Não é o tipo de produção que procura o público. É o tipo de filme que seduz o público. Quando este estende a mão, ele é agarrado e puxado para uma orgia. E, depois, não há muito o que pensar, já que os sentidos são entorpecidos.

No mais, “VIPs” evoca a validade daquela piada que acrescenta ao “gênero” “cinema brasileiro”, o “gênero” “filme com Wagner Moura/Lázaro Ramos/Selton Mello”.

O que mais interessa em “VIPs” é o fator extra-fílmico. Ganha valor no que poderia ser, e não no que efetivamente mostra na tela.

É mais provável que Wagner Moura esteja no longa pela sua popularidade tremenda do momento, capaz de atrair multidões. Mas não deixa de ser interessante ver um ator hoje tão indissociável de sua persona, tão identificável como o Capitão Nascimento, na pele de personagem principal de um filme em que a identidade é fator central.

Wagner Moura não é mais um ator, um rosto/corpo em branco, com uma identidade para ser construída filme a filme. Ele, neste momento, é Wagner Moura interpretando um personagem X. O que não o torna um ator ruim, pelo contrário. Por isso, o acerto, talvez inconsciente, da sequência final, em que Wagner está do lado oposto daquele de “Tropa”.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h29 PM

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O tapa de Bressane

É necessário desacelerar em Tiradentes. São três os lugares de exibição de filmes na Mostra: a tenda, o cine-teatro e o cine-praça, montado ao ar livre. Todos pertos um do outro, mas é necessário andar mais rápido para não perder as sessões. Mas não muito.

São ruas estreitas as de Tiradentes, repletas de pedras. Se você não prestar atenção, se você não escolher a pedra certa em qual pisar, é fácil cair ou torcer o pé. O melhor mesmo é andar devagar. E, nesse ritmo, observar a paisagem local e pensar no filme visto há pouco. Alguns, no entanto, têm pressa, e entopem as ruas com seus carros potentes. Carros para quem não consegue andar alguns poucos quarteirões e tem pressa sabe-se lá do quê.

É nessa toada que penso nas palavras sempre sábias, provocadoras e demolidoras de Júlio Bressane, ontem, durante o debate sobre e com Paulo Cezar Saraceni.

O encontro seguia tom ameno, com perguntas da platéia sobre o histórico de Saraceni, que mostrou seu mais recente filme, “O Gerente”, no festival. Nas palavras finais, Bressane acendeu o debate.

"É necessário apertar os parafusos."

Bressane nos lembrou de nossa mediocridade. Sim, somos todos medíocres, medianos, permanecemos na média, enquanto caminhamos para o fim inevitável. O que é que nos eleva, o que é que nos faz sentir um pouco vivos, o que nos faz correr contra a corrente e nos confere individualidade? Não me refiro a cargos, salários, estrelismos, mas o que nos faz justificar minimamente a nossa existência? “Um esforço para sair da pasta medíocre.”

Bressane é um provocador, sabemos, e sua presença em debates sempre rende temas relevantes. Ele criticava a platéia por não levantar questões relevantes, por não discutirmos propriamente “O Gerente”, filme que permite inúmeras leituras.

Tudo é um sintoma, acredita Bressane. “O Gerente” é mais do que um filme, ele é um representante, feito hoje, de um tempo que não existe mais. Não apenas tempo histórico, mas de uma percepção que se perdeu e se apresenta anacrônica.

O que é usufruir um filme hoje? Para Bressane, temos filmes guloseima, consumidos depois do prato principal, algo supérfluo, ingerido sem necessidade, mais por reflexo do que por uma busca, que não alimenta, engolido após já estarmos saciados.

“É uma exigência medieval, hoje não há mais tempo para a observação sensível”, disse Bressane. O que sobra, diz, é a escória da usura –que justifica o salário. Consumimos por desespero.

Bressane nos dá um tapa, e penso se a ignorância é uma fatalidade imposta ou uma opção inconsciente.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 3h53 PM

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O novo cinema em Tiradentes

Em Tiradentes, não há sala de cinema. Mas, em todos os começos de ano, turistas (principalmente de Minas Gerais), profissionais do cinema e jornalistas do Brasil inteiro deixam a região quase intransitável para ver e discutir filmes. Algo muito além dos habituais 7.002 habitantes, segundo o IBGE.

Estou aqui desde ontem, a convite da organização da 14ª Mostra de Cinema de Tiradentes, para cobrir o festival. Entre os cinéfilos, o festival está em rota ascendente há pelo menos uns cinco anos. A fama foi o que me atraiu: Tiradentes é conhecida como a mostra brasileira mais aberta às experimentações de linguagem cinematográfica.

Ainda é cedo para dizer se a informação procede, mas a abertura oficial, ontem, foi particularmente significativa. Na tenda montada para o festival, personalidades discursaram e o filme de abertura, “O Gerente”, de Paulo Cezar Saraceni, foi exibido.

Não havia filme mais significativo para a escolha.

Saraceni é um dos fundadores do cinema novo, e um dos resistentes do cinema de invenção. Para ele, a arte e a poesia é o que importam. Cinema não se trata de mercadoria. È uma forma de ver o mundo, de viver o mundo, de existir. Saraceni sofreu um AVC há alguns anos, e impressiona ver como seu filme (ele não lançava nada desde 2003) é radical, provocador, nada acomodado.

“O Gerente” é Ney Latorraca, homem que circula entre a alta sociedade carioca e escandaliza a todos ao extravasar o hábito de morder a mão das senhoras. Foi baseado em um conto de Carlos Drummond de Andrade.

Na tenda não havia apenas moradores de Tiradentes, claro. Mas seria interessante se fosse, se tivéssemos apenas olhos desacostumados a ver cinema da maneira que ele deve ser vistos: numa tela grande, ao lado de outras pessoas.

Nesse mundo hipotético, imagino o impacto que um filme como “O Gerente” deve causar. Não temos ali as facilidades do cinema-produto, do cinema-televisão, do cinema que conta historinhas. Saraceni cria um filme-delírio, poético, em que o passado se mistura ao tempo presente e que, em determinado momento, mira diretamente para os desejos mais escondidos, inconfessáveis, do próprio espectador. Estariam olhos “virgens” melhor preparados para receber aquele jorro de experimentações. Ou, ao contrário, os olhos virgens estariam definitivamente fechados e inacessíveis?
 
Ao sair da tenda, lá pela meia-noite, o impacto. Aliás, uma das coisas que fazem a experiência de freqüentar uma sala de cinema algo ainda essencial, é o contraste entre o mundo interior da sala escura e o mundo exterior, “real”.

Pois no mundo real, quase não consegui andar entre as ruelas estreitas de calçamento irregular, de pedras. É aquele cenário que nos remete ao passado histórico, inconfidentes, barroco, luta contra a monarquia, Joaquim José da Silva Xavier etc.

Um cenário secular habitado por multidões de adolescentes e pré-adolescentes, arrumados com suas roupas de sair, prontos para paquerar e badalar. Hordas e hordas de jovens sedentos por diversão. Fico imaginando se o gerente do filme encontraria alguma mão para se apaixonar. Somos todos, de alguma forma, vampiros, mortos-vivos (isso tem a ver com o debate que aconteceu hoje, com o Júlio Bressane, mas deixo para o próximo post).

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 4h42 PM

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Clint, o sereno

O cinema norte-americano tem uma longa relação com o além. Não me refiro a filmes de terror. Pense em “Ghost”, “Sexto Sentido” e, agora, “Além da Vida”, de Clint Eastwood.

O sucesso de tais filmes está ligado a fatores religiosos e crenças do espectador? Nem sempre.

É uma outra crença que entra em jogo: gostar de filmes em que tudo se encaixa no final, onde as coisas terminam fazendo um mínimo de sentido. Um cinema mais clássico.

De certa maneira, é como acreditar em vida após a morte. No final, há um alívio. Também tudo se encaixa, tudo faz sentido, e tudo, por mais doloroso que tenha sido o caminho, acaba ficando confortável.

Volta e meia, sempre haverá um detrator a criticar a crença em relação a esse tipo de filme. Clint Eastwood também é alvo fácil de outro tipo de detrator. Não são poucos que acusam o diretor de brega, açucarado, excessivamente melodramático.

“Além da Vida” vira, assim, alvo fácil. Ele estreia num momento interessante para os brasileiros, que têm visto uma onda de filmes ligados ao tema: “Chico Xavier”, “Aparecida”, “Nosso Lar”.

Penso no médium interpretado por Matt Damon no filme de Clint e no Chico Xavier do longa brasileiro. São basicamente dois mundos diferentes, duas visões de cinema. Um é galã, herói romântico. O brasileiro, por mais que seja baseado numa figura real, tem a sua personalidade fílmica calcada na interpretação e nas escolhas do ator Nelson Xavier. É um personagem essencialmente brasileiro, batalhador, sofrendo as consequências de ter nascido num país de Terceiro Mundo.

Para o brasileiro Daniel Filho, não existe essa coisa de cinema autoral. “Gosto do cinema bem narrado, de entender a história que estou vendo. Não gosto de filme de experimentação. Godard, para mim, acabou no primeiro. Não uso o cinema como uma exibição pessoal minha. Uso para montar uma história”, disse Daniel Filho em uma entrevista.

Não há, portanto, nos filmes de Daniel algo autoral _desde que não se considere o padrão Globofilmes algo autoral. É ruim? Não necessariamente.
Já Clint, mesmo trabalhando num gênero que lhe é estranho, com um roteiro que não é de sua autoria, consegue dar continuidade a temas que vem trabalhando nos últimos anos.

A morte está sempre por perto em filmes como “Menina de Ouro”, “Gran Torino”, “Sobre Meninos e Lobos”, “Cartas de Iwo Jima” etc.

Geralmente, ao fim dos filmes de Clint, costumo ficar com o coração apertado, mas aliviado ao mesmo tempo.

Por mais que os conflitos mostrados durante o filme sejam, muitas vezes, terríveis de suportar, há uma serenidade no encerramento. Talvez muito disso venha da própria personalidade de Clint. Atores costumam dizer que o set de Clint é um dos mais tranquilos e calmos de todos. Ele não grita “Ação”. Simplesmente pede para os atores começarem a cena. Há um senso de sabedoria que contamina a todos, segundo relatos.

É uma bela metáfora para a vida em si.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 5h39 PM

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Cinefilia viva


"Os Incompreendidos"

François Truffaut é um dos grandes enigmas do cinema. Não me refiro aos seus filmes, como “Os Incompreendidos”,

belos e nada herméticos como alguns realizados por colegas de geração, Godard principalmente.

Continua um dos grandes mistérios da história da arte entender como o Truffaut pré-diretor, pré-crítico e pré-persona pública, um jovem desconhecido de 22 anos, conseguiu escrever um texto que ajudaria a mudar os rumos do cinema francês e, depois, do cinema mundial.

Publicado no número 31 da revista “Cahiers du Cinéma”, em janeiro de 1954, o artigo “Uma Certa Tendência do Cinema Francês”, em suas cerca de 15 páginas, colocou em xeque o establishment cinematográfico de seu país. Truffaut atacava veementemente o padrão de qualidade então vigente, a “qualidade francesa”, de diretores veteranos e consagrados internacionalmente.

A a partir daí, num resumo em ritmo demasiadamente acelerado, Truffaut e os colegas de geração defenderam a “política dos autores” na mesma revista e, mais tarde, partiram da militância crítica para a criação de seus próprios filmes. Era a nova geração, a nouvelle vague, tomando o poder.

Essa é uma das histórias, a central, do livro “Cinefilia”, de Antoine Baecque, que será lançado na segunda quinzena de fevereiro pela Cosac Naify. Baecque, ex-crítico e editor da “Cahiers”, faz o retrato de seis críticos, André Bazin, George Sadoul, François Truffaut, Roger Tailleur, Bernard Dort e Serge Daney, para entender um fenômeno que atingiu sua plenitude com repercussões de peso nos anos 50 e 60.

Para a geração do pós-guerra, a paixão não era apenas pelos filmes. Era, naquele momento, necessário colocar o filme em debate, entender, analisar. Textos, revistas, livros e críticos específicos passavam a ser alvo de similar dedicação por parte dos cinéfilos.

Geração que teve nos “jovens turcos” da “Cahiers du Cinéma” seus expoentes mais célebres e influentes. Pois é a cinefilia que faz Truffaut e Chabrol verem em Hitchcock algo mais do que um bom técnico. É a cinefilia que impulsiona a admiração por gente como Samuel Fuller, nomes hoje inquestionavelmente grandes.

Um tom saudosista percorre a leitura de “Cinefilia”. É o retrato de uma época que não volta mais, que pode soar démodé nos dias atuais. A cinefilia descrita no livro é praticamente um ato religioso, que vê na relação espectador-público uma relação sagrada. A sala de cinema é quase uma sacristia, e o filme exibido na tela, uma revelação e manifestação divina. Aos abençoados é permitido entrar em contato com uma realidade superior, mais elevada, menos mundana.

Nos dias de hoje, vemos tal relação com mais força em épocas de mostras de cinema, já que as salas, principalmente as de shoppings, são templos de consumo de pipoca, e não de revelação “divina”.

A cinefilia está morta?

Reproduzo trecho de “Cinefilia”:

“A propósito da multiplicação dos cineclubes no imediato pós-guerra, o elemento central da retomada da cinefilia, ele [André Bazin] propunha que ‘O futuro historiador do cinema deverá concentrar-se mais na espantosa revolução que está em via de se operar no consumo cinematográfico do que nos progressos técnicos no decurso desses mesmos anos’”.

A cinefilia está transformada, metamorfoseada, intimidada, mas nunca morta.

Truffaut burilou “Uma Certa Tendência do Cinema Francês” durante dois anos antes da publicação. Seria possível algo assim hoje, em tempos de tweets mais rápidos do que a conexão de sinapses? E poderia um texto, hoje, capaz de tamanho poder transformador? Especulações são apenas exercício de imaginação.

Mas vejo a cinefilia atualmente como uma prática ainda mais secreta e alternativa do que em seus tempos áureos. E, se hoje não há mais contexto histórico ou lugares físicos para ela se expor como antes, a cinefilia sobrevive nas comunidades que devoram torrents e acumulam gigabytes nos computadores, em DVDs e pen drives. O desespero do cinéfilo agora é dar conta de tantos filmes para assistir em casa e, ainda assim, conseguir tempo para desenvolver um pensamento crítico _e sentir prazer depois de tudo isso.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h57 PM

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O espírito 2000 - Parte 2

Algo que não pode faltar em nenhuma retrospectiva sobre o cinema dos anos 2000 é a valorização do “real”. No Brasil, tivemos um boom de bons documentários estreando nos cinemas; no exterior, a estética de câmera na mão e falsos documentários pipocaram, como se a ficção não desse mais conta do relato de uma boa história.
Neste post, continuo na busca do espírito do cinema dos anos 2000:

VERDADE EM XEQUE
Muito espaço nos anos 2000 foi dedicado a Sacha Baron Cohen. Ao menos até agora, ele não chegou a revolucionar o cinema como prometia. No máximo, causou um comichão. A estratégia que parecia revolucionária em “Borat” (foto), de colocar um personagem interagindo com o mundo real, para revelar a hipocrisia, logo se tornou repetitiva em “Bruno”.

A VERDADE É RELATIVA
Já faz muito tempo que sabemos que um documentário não é sinônimo de verdade absoluta. Mas foi nos anos 2000 que vários filmes mostraram, com maestria, como a realidade pode ser moldada para se adequar a um ponto de vista. No Brasil, o mestre absoluto é Eduardo Coutinho; nos EUA, Michael Moore é a face mais midiática desse segmento. Filmes: “Santiago”, “Edifício Master”, “Tiros em Columbine” (foto).

FICÇÃO IMITANDO O REAL
Alguns traços estéticos são a cara de uma década. Logo se tornam datados. Nos anos 80, o “neon-realismo” é exemplo claro. Na década de 2000, em que o YouTube e os vídeos de câmeras de celulares se tornaram referência no dia a dia, colocar imagens falsamente toscas em grandes produções parece quase uma regra. Filmes: Trilogia Bourne (foto), “Distrito 9”, "Atividade Paranormal".

MAIS REAL QUE O REAL
São filmes de ficção, mas os intérpretes acabam levando a experiência de vida para as telas. É ficção, mas é um pouquinho real também. Filmes: “O Lutador” (foto), “Entre os Muros da Escola”.

O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO
A milenar China é essencial nos anos 2000, principalmente no aspecto econômico. Zhang Yimou e Jia Zhang Ke são como pólos. Enquanto um celebra o país, o outro lança questionamentos. Filmes: “Em Busca da Vida”, “Herói” (foto).

O CONTINENTE EUROPEU MOSTRA A SUA CARA
O velho continente e suas mazelas, desemprego, crise econômica, política e moral. Os irmãos Dardenne, Michael Haneke e Lars Von Trier estão na estrada faz tempo, mas nos anos 2000 lançaram filmes essenciais, conectados com seu tempo. Filmes: “A Criança” (foto); “Dogville”; “Caché”, “A Fita Branca”.

TÃO LONGE TÃO PERTO
O Oscar para “O Segredos dos Seus Olhos” só veio confirmar o óbvio: o cinema brasileiro tem muito a aprender com o cinema argentino. No Brasil, a mentalidade de narrativa de telenovela domina grande parte da produção. Filmes: “O Pântano” (foto), “Nove Rainhas”.

ESPÍRITO DE ÉPOCA
Qual o “zeitgeist” dos anos 2000? O mundo altamente conectado tem gerado seres desesperadamente solitários. Filmes: “Elefante” (foto); “Guerra ao Terror”; “O Curioso Caso de Benjamim Button”; “A Rede Social”.

EM BUSCA DO BRASIL
Os filmes brasileiros mais surpreendentes e ousados da década tem alguma relação com o Nordeste. Uma cinematografia pulsante a se acompanhar com dedicação. Filmes: “Cinema Aspirinas e Urubus”, “Amarelo Manga”, “Madame Satã” (foto), “Viajo porque Preciso Volto porque Te Amo”.

O BRASIL “GLOBAL”
O grande público brasileiro gostou de sair de casa para ver filmes no cinema que lembram as produções da TV. “Se Eu Fosse Você” (foto), “Dois Filhos de Francisco” são exemplos bem acabados da dominação global da Rede Globo no cinema.

INDEPENDENTES
Em décadas anteriores, cinema independente norte-americano era sinônimo de John Cassavetes ou Jim Jarmusch. O sucesso de “Pequena Miss Sunshine” fez com que o indie virasse uma caricatura.

CINEMA DE RESISTÊNCIA
Mahmoud Ahmadinejad foi presença constante no noticiário dos anos 2000. Os olhos do mundo se voltaram para o Irã, e o cinema, ainda que vigiado, é uma arma de resistência. E não nos esqueçamos da prisão e condenação de Jafar Panahi. Filmes: “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” (foto), “Procurando Elly”.

DA TV PARA O CINEMA
O cinema virou saco de pancadas nos anos 2000. A tese é: toda a criatividade que historicamente esteve associada ao cinema migrou para a televisão. As badaladas séries teriam os melhores roteiristas, as histórias mais envolventes e revolucionárias. E outra migração se fez: os badalados diretores e roteiristas das séries começaram uma bem-sucedida carreira no cinema. Filmes: “Star Trek” (foto), “Cloverfield”.

ERA BUSH
Os vampiros castos de “Crepúsculo” são modelos da era Bush. Mas, ironicamente, carregam alta dose de subversão, já que deixam de lado o imaginário de Belo Lugosi e tantos outros vampiros assustadores. Romeu e Julieta dos tempos atuais. O discurso final de “Batman - O Cavaleiro das Trevas” também é pura doutrina Bush.

FILMES BRINQUEDOS
Se George Lucas e Steve Spielberg revolucionaram o cinema nos anos 70, com os filmes-produtos, hoje temos “Transformers”. São os tempos dos filmes-brinquedos, que assumem descaradamente o lado business do cinema.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h44 PM

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O espírito 2000

Há cenas de filmes que sintetizam um espírito de época. Os poucos segundos da dança de John Travolta e Uma Thurman em “Pulp Fiction” são a visão clara dos anos 90.

Luke Skywalker e Han Solo, de “Star Wars”, ou o Marlon Brando de “O Poderoso Chefão” personificam a nova Hollywood dos anos 70.

“Os Incompreendidos” (1959) e “Acossado” (1960) são as diretrizes para se entender os anos 1960.

Hoje, isso está claro. Mas, e no calor do momento? Conseguimos, hoje, ter uma visão clara desta primeira década do século 21? Se uma análise mais profunda ainda é prematura, já que a história ainda está sendo escrita, conseguimos ao menos tatear.

Tento seguir um critério simples, escrever de imediato, ao pensar nos principais filmes da década. Não me refiro aos melhores. Mas aqueles que, de alguma maneira, explicam o que é o cinema entre 2001 e 2010. Meu método, que muitos chamarão de superficial, é puxar pela memória. Tente fazer isso. Você pode se surpreender com o resultado.

BRASIL, MUNDO CÃO
A retomada do cinema brasileiro foi nos anos 90, mas nos anos 2000 uma fórmula se mostrou quase sempre eficaz. Denúncia social + violência nua e crua = sucesso. Assim o Brasil conseguiu ir para o exterior, com filmes como “Cidade de Deus” (foto) e “Tropa de Elite”. A explosão de “Tropa de Elite 2” é extra-fílmica, um evento sociológico. Outros exemplares: “Carandiru - O Filme”, “Ônibus 174”.

TODOS CONECTADOS
Alejandro González Iñárritu e Guillermo Arriaga transformaram em dogma a estrutura de histórias paralelas no mesmo filme, para sugerir que todas as pessoas estão interligadas. É a velha história do efeito borboleta: o bater de asas de uma borboleta pode influenciar até um tufão do outro lado do mundo. O Oscar de melhor filme para “Crash - No Limite” só veio coroar essa moda. Outros filmes: “Babel” (foto), “21 Gramas”.

GERAÇÃO MULTIMÍDIA
É nos anos 2000 que o trio Charlie Kaufman, Michel Gondry e Spike Jonze fizeram a festa. Egressos da cultura dos videoclipes, do skate, é uma geração criada não apenas na cinefilia, mas na releitura pós-pós-moderna dos itens de consumo da cultura pop. Filmes: “Adaptação”, “Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças” (foto), “Onde Vivem os Monstros”.

GUERRA ANIMADA
Para explicar os horrores da guerra, é necessário uma reinvenção, um novo olhar sobre a realidade. Uma câmera não parece ser mais capaz de dar conta de registrar e reproduzir a surrealidade do real. Filmes: “Persépolis”, “Valsa com Bashir” (foto).

SAGA
Cinesséries são parte fundamental de uma década. Os anos 2000 serão lembrados por duas sagas gigantescas: “O Senhor dos Anéis” e “Harry Potter”, iniciadas em 2001. São filmes que marcam uma geração inteira, vide "Star Wars".

O NOVO FUTURO DO CINEMA
“Avatar” é o primeiro de uma saga, mas, ficará marcado pelo fato de trazer o 3D de volta ao noticiário. Após o filme de James Cameron, o 3D virou o Santo Graal do cinema. Mas nem só de tecnologia vive o cinema.

RENOVAÇÃO ASIÁTICA
Depois dos cinemas novos pelo mundo afora, são os cinemas nacionais que dão o sopro de renovação. É na Ásia onde surgem alguns dos exemplares mais surpreendentes. Filmes: “O Hospedeiro” (foto), “Oldboy”, “Síndromes e um Século”.

ANIMAÇÃO DE ADULTOS
Animação virou cinema de autor, local para se experimentar fórmulas e discutir temas sérios. Filmes: “A Viagem de Chihiro” (foto), “Up - Altas Aventuras”.

EXISTENCIALISMO MADE IN USA
Fãs de Antonioni podem se entediar, mas Sofia Coppola encontrou seu rumo ao virar cineasta. E, em filmes como “Encontros e Desencontros” (foto) e “Um Lugar Qualquer”, propõe uma pausa para questionar a existência em uma potência tão obcecada pelo sucesso.

SUPER-HERÓIS
“Homem Aranha” (foto) é o exemplo mais bem acabado de como um filme pode ser fiel à HQ que lhe inspirou e ser uma grande obra de arte ao mesmo tempo. Pena que, no decorrer da década, até heróis de quinta categoria ganharam seus filmes. “Batman Begins” segue por outra via, ao optar pelo realismo, como se tivesse vergonha de ter surgido a partir de uma HQ.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h15 PM

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A solidão de David Fincher

David Fincher gosta de fazer filmes sobre seres solitários. Seus personagens costumam ser um tanto alheios ao mundo e não são raras as vezes em que lutam sozinhos contra o "sistema".

Existe solidão mais penosa do que percorrer o ciclo da vida em sentido contrário, como sabe bem o personagem título de "O Curioso Caso de Benjamin Button"?

Ou então os investigadores de "Zodíaco", que têm suas vidas destroçadas de uma forma ou de outra ao se verem na impossibilidade de decifrar um mistério?

Em "O Clube da Luta", o "inimigo" é declarado sem rodeios. É o mundo, de certa forma, que deve ser combatido.

Penso em quem são os solitários de hoje, da vida real.

Mark Zuckerberg, retratado em "A Rede Social", com certeza é um deles (ou ao menos é o que Fincher nos faz crer).

Mas será apenas a solidão ou é uma espécie de mediocridade emocional que faz um sujeito, após terminar com a namorada, postar uma série de baixarias em seu blog na internet?

Fincher não está apenas contando a história do Facebook.

Ele está novamente contando uma história de solidão. Mas uma solidão épica, já que se trata do "mais jovem bilionário do mundo".

O que faz de Zuckerberg um gênio?

Não é essa resposta que Fincher busca responder.

No filme, o tempo todo vemos Zuckerberg ter lapsos, ficar alheio ao que acontece à sua volta, imerso em pensamentos. Pensa o tempo todo na ex-namorada. Somos sugestionados a crer que ele criou o Facebook apenas para impressionar a ex-namorada, para tentar reavê-la.

É uma visão que torna o filme mais interessante do que uma tradicional biopic. Pelas bordas, Fincher analisa esse tipo de solidão que é bem contemporânea. Que nos prende à frente da tela de computador. Que torna os medíocres da vida real em seres sedutores e donos da bola quando postam em blogs e redes sociais da vida.

É necessário essa interface do computador, o anônimo computador, que hoje serve como uma máscara. Fantasia que divide o mundo "real" do "virtual" e mantém todos, no fundo, grandes anônimos. Se a vida no mundo exterior é frustrante para muitos, dentro da rede, todos podem ser reis (e não apenas por um dia, como diria Bowie em "Heroes").

O que torna Zuckerberg fascinante é que ele conseguiu se tornar um bilionário com a sua mediocridade. Nós, não. Apenas remoemos nossas frustrações e dores e delírios na tela do computador. Tem solidão maior?

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 5h10 PM

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Encontro com Coppola

 
Foi uma sensação estranha quando me pediram para entrevistar Francis Ford Coppola. Filmes como “O Poderoso Chefão” e “Apocalypse Now” são parte do imaginário do cinema; parecem que estão lá no panteão sagrado de Hollywood desde sempre. Lembrar que Coppola é o homem por trás de tais monumentos é lembrar que ele é um dos grandes cineastas ainda vivos e em atividade e, imaginar que terei 15 minutos para entrevistá-lo é ter certeza de que inúmeras perguntas e dúvidas ficarão de fora.

Na minha mente, Coppola, era um tiozão bonachão, mas rigoroso, daqueles de clichês de família italiana. Na coletiva de imprensa e nos poucos minutos que conversei em entrevista individual, o que encontrei foi um.... tiozão bonachão de família italiana.

Quando, na coletiva de imprensa para divulgar "Tetro", os assessores pediram para os jornalistas encerrarem as perguntas, Coppola foi enfático e fez pouco caso. Dirigindo-se aos jornalistas, disse: “Façam mais quatro perguntas. Não dêem ouvidos a eles [os assessores]”.

Na entrevista individual, entro na sala e dou de cara com um cansado Coppola, suado, sentado em uma cadeira, com as pernas bem abertas. Meu olhar fixa nas pernas do diretor. Ele está com as calças arregaçadas, deixando as canelas à mostra. Vejo a meia de “tio”, cor vinho, bem esticada. Estou numa cantina italiana?

Estendo a mão e ele retribui, sorridente, olhando nos meus olhos. Na hora, lembro da sequência inicial de “O Poderoso Chefão”, e é como se eu estivesse no escritório de Don Corleone pedido sua bênção. Peço apenas 15 minutos de sua atenção e respostas para meia dúzia de perguntas.

Quando Coppola conta que acabou há poucos dias as filmagens de sua nova produção, ele pede para eu olhar seus pés: “Veja, ainda há barro nos meus sapatos”. E tinha mesmo.

Terminada a entrevista, saí de lá com a vontade de rever todos os filmes do diretor. Tarefa feliz, que vai me tomar bastante tempo nos próximos dias. Gosto até dos chamados pontos baixos da carreira do diretor.

Como foi o período que o sr. passou na Argentina para filmar “Tetro”? O sr. acompanhou as notícias sobre a morte do ex-presidente Néstor Kirchner?

Francis Ford Coppola - Sim, acompanhei. Foi tão repentino, uma morte trágica... O tempo que passei na Argentina foi ótimo. O país tem uma grande tradição de teatros, cinema, música e artes em geral, mas particularmente teatro. Há uma grande vitalidade em Buenos Aires na cena teatral e, por isso, há muito espaço para os atores. Foi uma ótima experiência, fiquei por ali quase um ano.

O sr. costuma dizer que está começando a segunda fase de sua carreira agora. Há algo da primeira fase da qual o sr. se arrependa?

Coppola - Fui incrivelmente sortudo na primeira parte da minha carreira. A única coisa errada foi que eu não estava fazendo o que realmente queria. Eu queria escrever coisas mais experimentais, mais ousadas, fazer filmes mais pessoais. Claro que foi empolgante ser um diretor bem sucedido, ter fama, ganhar muito dinheiro etc. Mas, em minha história pessoal, todas as vezes em que ganhei muito dinheiro, acabei perdendo tudo. Minha paixão real é fazer filmes experimentais e pessoais, como se eu fosse o autor de um livro.

O sr. é mais feliz agora?

Coppola - Eu era feliz antes. Mas sou muito mais sortudo agora. Nesta idade em que estou, em que os homens costumam jogar golfe, posso fazer filmes mais pessoais um atrás do outro. Acabei de terminar outro filme agora [“Twixt Now and Sunrise”], há dois dias, ainda há lama nos meus sapatos.


O sr. tem planos de fazer um filme no Brasil?

Coppola - Gostaria de fazer um filme aqui, mas não sei se é muito caro. Desde que comecei a visitar o país, anos atrás, o real tem se valorizado, e há uma maravilhosa prosperidade, mas, ao mesmo tempo, parece que tem se tornado tão caro quanto trabalhar em outro país. Romênia e Argentina são países mais vantajosos por causa da cotação da moeda local em relação ao dólar, e o padrão de pagamento para a equipe é menor do que no resto da Europa. A questão de escolher um lugar para fazer um filme é: posso pagar ou não (já que coloco meu dinheiro nisso)? Mas talvez o Brasil não seja tão caro assim. Você sabe se é muito caro filmar no Brasil?

O sr. acha que seus filmes são como alguns vinhos, que ficam melhores com o passar do tempo?

Coppola - Fico surpreso como agora, na minha idade, 71 anos, as pessoas falam de alguns filmes meus de uns 30 anos atrás, que não foram particularmente populares ou bem sucedidos na época. Então faz sentido que, se seus filmes são pouco usuais, diferentes daquilo que está sendo feito, podem não ser populares, mas, mais tarde, vão parecer mais interessantes e contemporâneos. Isso certamente acontece comigo. Engraçado que as pessoas dizem “Oh, os filmes que você faz agora não são tão bons quanto os de antes”, mas eu digo que os filmes que eu fazia antes também não eram bons na época.

Qual é a grande contribuição da sua geração para o cinema?

Coppola - Inspirar os jovens a fazer filmes e serem bem sucedidos. Gosto de imaginar que, se um jovem vê um filme meu e faz um belo filme, de alguma forma fiz parte disso. É maravilhoso quando os jovens pegam o que você fez, rearranjam e fazem algo novo a partir disso.

O sr. costuma criticar bastante os blockbusters. George Lucas, um cineasta da sua geração e amigo do sr., é um dos responsáveis pelo atual estado de Hollywood?

Coppola - George e Steven [Spielberg] fizeram alguns filmes que foram muito bem sucedidos, mas porque atingiram o público de uma maneira ampla, e isso é uma coisa boa. O problema é a indústria do cinema só querer fazer filmes desse tipo. Acredito que a melhor política é a diversidade, em que você tem filmes de entretenimento, outros mais experimentais. Tem que haver uma mistura. Hoje, em Hollywood, você não pode fazer um filme a não ser que seja um blockbuster.

O sr. poderia descrever como é uma reunião da família Coppola?

Coppola - É como uma verdadeira família italiana. Amamos ficar juntos, passar o Dia de Ação de Graças reunidos, jantar, ver filmes, conversar sobre filmes. Aprendemos muito com os mais jovens. É como uma grande família que ama vinho, comida, filmes e arte.

É por isso que família é tão importante nos seus filmes?

Coppola - Acredito que família é importante para todos, mesmo para aqueles que a perderam. Nós damos muito aos filhos, e eles nos dão muito em retorno.

O sr. ainda é convidado para dirigir filmes de grande orçamento?

Coppola - Sou convidado para filmes médios hoje em dia. A não ser que seja uma produção como “Homem-Aranha”, a produção de um filme tende a ser longa, é um processo que passa dos oito meses. Ser convidado para dirigir um filme significa se juntar a eles e sair por aí implorando por dinheiro. Prefiro fazer filmes de baixo custo e colocar dinheiro meu desde que esteja dentro do meu orçamento.

Como é a sensação de não ter produtores pressionando o sr., como acontecia no passado?

Coppola - É maravilhoso. A situação agora é muito boa. Eu acabei de terminar um filme; eu apenas decidi rodar. Falei “Vamos fazer”, e nós fizemos, e não sei se é bom ou não, mas foi divertido.

Seria possível fazer um filme como “Apocalypse Now” nos dias de hoje?

Coppola - É tudo uma questão de dinheiro. Se eu for sortudo e acontecer de eu fazer um filme pequeno que dê dinheiro, com certeza eu teria mais dinheiro e o usaria para fazer filmes maiores. Tem tudo a ver com os recursos. Eu faria um filme maior se eu tivesse o dinheiro para fazer, sem a pressão dos produtores. Hoje em dia tenho que fazer filmes que custam menos que US$ 6 ou 7 milhões. Geralmente filmes grandes custam US$ 4 ou 10 bi, e não disponho dessa quantia.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h38 PM

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O afeto de "Tetro"

A família Coppola é, atualmente, a grande família do cinema. Francis, Sofia, Nicolas, Roman, Jason e Talia, só para citar os membros mais conhecidos do clã, encarnam um imaginário de talento unido pelo sangue antes pertencente aos Huston.

Por um lado, são uma grande família italiana como qualquer outra. Imaginá-los reunidos no Natal, num almoço de domingo, em uma ampla mesa com massas e vinhos, só para citar o clichê, não é algo absurdo.

Não faltam referências autobiográficas de Coppola em “Tetro”. À parte o tom de tragédia grega que já se anuncia no título, a família está no centro. Bennie (Alden Ehrenreich) é o jovem que vai a Buenos Aires em busca do adorado irmão mais velho, Tetro (Vincent Gallo).

Coppola hoje está mudado. Agora ele é o pai de Sofia. Ele aprendeu a ser minimalista. Menos é mais. Nossa memória afetiva logo nos lembra que ele é o homem intenso que criou filmes gigantes, monumentos como “O Poderoso Chefão” e “Apocalypse Now”. Que, nos anos 80, dirigiu filmes subestimados, mas definitivos, como “O Selvagem da Motocicleta”. E que, agora, surge feliz e tranquilo, com o passado de dívidas e turbulências bem distante.

“Tetro” é um filme de afetos. O afeto está em cada sequência filmada por Coppola. No amor intenso de Bennie por Tetro nos lembramos do amor que demos e recebemos (ou não compreendemos) (ou não ganhamos) de nossos próprios familiares.

Coopola gera angústias ao remeter a experiências tão íntimas do espectador. Porque se trata de um amor puro, incondicional, desinteressado.

De onde vem esse poder? O afeto transborda no sorriso encantador do estreante Alden Ehrenreich, uma espécie de jovem DiCaprio de “Gilbert Grape”, outro filme de família, de amor fraterno.

Mesmo quem não tem irmãos, mas já teve uma figura mais velha, de “treinador”, alguém que serviu de guia, que apresentou livros e filmes definidores de caráter, vai sentir um afago no coração ao ver “Tetro”.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h21 AM

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A laranja mecânica e a tropa da vida real

Por mais que sejam de “mentira”, a violência mostrada em determinados filmes é insuportável para algumas pessoas. Sabemos que atores ou animais não foram maltratados durante as filmagens, mas, uma vez feita a encenação, a verdade fictícia está criada. É o antigo princípio de são Tomé, ver para crer. Até hoje ditaduras fazem alterações em imagens para moldar o mundo segundo seus critérios.

“Laranja Mecânica” ficou proibido durante 27 anos no Reino Unido. As razões são controversas até hoje. Nos anos 1970 ocorreram vários crimes supostamente inspirados pelas cenas de ultraviolência do filme.

Isso não impediu que “Laranja Mecânica” se tornasse um dos pontos altos da carreira de Stanley Kubrick.

Experimente, no entanto, assistir, via YouTube, às cenas de agressão na av. Paulista. Chegam a ser insuportáveis tamanha a indignação que causam. Lembram, de certa maneira, as sequências de “Laranja Mecânica” em que Alex e sua gangue atacam o velho no túnel, ou a cena de estupro.

Ligando a TV agora, você provavelmente verá a ampla cobertura dos canais sobre a onda de violência no Rio. Estão lá tiroteios, vistas aéreas, traficantes correndo, o Caveirão em ação. Novamente, um misto de sensação de impotência e indignação.

No conforto do cinema, imagens semelhantes em “Tropa de Elite 2” nos ferem, mas sobrevivemos. Por mais complexo que seja um filme, os limites estão bem determinados pela tela. Sempre há uma verdade que não cabe lá dentro.

É a vida que está cada vez mais surreal ou é o cinema que está cada dia mais real?

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 8h23 PM

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Woody Allen, o cruel

A rotina do dia a dia chega a ser desgastante em vários momentos, quando tudo é repetição e nada é criação, mas alguns rituais, algumas tradições, são bem-vindas. Sou da turma que espera ansioso pelos encontros com a família no Natal e no Ano Novo, por exemplo.

Todos os anos temos o Imposto de Renda. Carnaval. Show do Roberto Carlos. E filme do Woody Allen _nem todos os anos, mas ao menos essa é a impressão.

Um pouco por essa questão de rotina é que coloco Woody em categoria além do mundo cultural. Seus filmes são referências que ajudam os cinéfilos a se situar no tempo. Para mim, são filmes-coisa. Já sabemos do que se trata, mas, como um perito, nos deliciamos com as pequenas sutilezas e peculiaridades de “coisa” em “coisa”.

Todos os anos esperamos pelo novo filme de Woody. Já sabemos de antemão que alguns personagens vão se repetir. O sujeito meio atrapalhado que vai trair a mulher. Ou então o sujeito que comete algum infração e tenta ocultar seu crime. A mulher linda, mas meio tola, que irá inicialmente fazer um homem subir às alturas, mas que depois irá se mostrar um estorvo. O neurótico, paranoico, inseguro.

Tudo isso está em “Você Vai Conhecer os Homens dos Seus Sonhos”. Mas, ao mesmo tempo, há um gosto amargo.

São basicamente dois casais e suas infidelidades. Após anos de casamento, Alfie (Anthony Hopkins) se separa de Helena (Gemma Jones). Esta irá se consolar com uma vidente charlatã. Ele irá se casar com uma prostituta.

Sally (Naomi Watts), filha do casal, não está em situação melhor. Ela é casada com um pretendente a escritor, Roy (Josh Brolin), que está de olho na vizinha. Já Sally está de olho no chefe.

A questão de acaso e destino, ou a nossa impotência em relação ao desenrolar dos acontecimentos, está totalmente atrelado à construção da personagem de Helena.

Na sessão em que eu estava, ouvi poucas risadas. Este filme teoricamente é uma comédia, mas ela é sombria. Cruel demais com seus personagens. Woody nunca foi santo com eles, mas aqui ele é sádico, como podemos ver numa das cenas finais, entre Sally e Helena.

Esse tom estranho vem, em grande parte, da escolha do elenco, em especial Anthony Hopkins e Josh Brolin. Hopkins é um Hannibal Lecter adaptado ao universo de Woody.

Canibal em outro sentido, mas ainda canibal e frio. Já Brolin encarna parte daquela “reserva de mercado” de alter ego “alleniano”. É inseguro, infiel, desesperado. Mas não é engraçado. Brolin parece estar se especializando em personagens com caráter duvidoso, difícil de criar empatia com o público, como em “W” ou “Wall Street 2” _não que isso signifique ser um mau ator; pelo contrário.

“Você Vai Conhecer os Homens dos Seus Sonhos” está longe de ser ruim. Mas a sensação é estranha, como se, neste ano, a tradição da repetição tivesse sido pervertida.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 4h04 PM

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Julio Medem e o sexo

"Os Amantes do Círculo Polar" (1998) é daqueles filmes que ficam num lugar especial na memória. Na memória das pessoas minimamente românticas, diga-se. Como não ficar tocado por um filme que trabalha com a deliciosa e confortável idéia de que o encontro amoroso é algo predestinado, místico, imortal até?

Questão parecida aparece no filme seguinte do diretor espanhol Julio Medem, "Lúcia e o Sexo" (2001). Os relacionamentos parecem seguir uma lógica de encontros e desencontros, em que imaginação e realidade, idealização e desconstrução, são elementos constantes.

"Lúcia e o Sexo" exala ainda um tom de celebração quase pueril do encontro amoroso e torna ainda mais explícitas as metáforas de Medem. Elas "gritam" na mise-en-scène que explora os elementos físicos, seja o corpo de Paz Vega, seja a geografia esburacada e cheia de reentrâncias da ilha.

Em seu filme mais recente, "Um Quarto em Roma", Medem tenta reduzir os elementos ao mínimo, como se buscasse fazer uma síntese. Pena que essa busca pelo minimalismo tenha alcançado um resultado justamente oposto, maneirista e pomposo. Aquela magia de "Amantes" e "Lúcia" surge apenas ocasionalmente e de raspão neste "Quarto".

Mas a tentativa é boa, e os efeitos que Medem ainda consegue nos causar são notáveis.

"Um Quarto em Roma" é sobre duas moças que voltam de um bar, meio bêbadas, e resolvem terminar a noite no quarto de hotel de uma delas. Eram completas desconhecidas antes daquele encontro, e ficamos sabendo apenas que uma delas é lésbica e a outra não. Na manhã seguinte, cada uma irá voltar para seu país; Espanha e Rússia, respectivamente.

Passaremos o restante do filme trancados com essas duas mulheres no quarto de hotel. Elas ficarão nuas praticamente o tempo todo, farão confidências e iremos acompanhar suas transas em diferentes cômodos e posições.

O espectador voyeur, no entanto, que não se empolgue. Este filme é traiçoeiro.

De tanto que Medem explora a nudez das duas atrizes, Elena Anaya e Natasha Yarovenko, em determinado momento nos abstraímos do fato de que elas nada vestem. As imagens das atrizes chegam a um estado de pureza, e paramos de ver malícia na nudez. Vemos corpos belos, como se estivéssemos vendo estátuas de uma distante beleza apolínea em um museu. O corpo nu vira uma espécie de roupa, de carcaça. Como se aquela nudez cobrisse o que as duas moças realmente pensam e sentem.

Algo como a nudez em trabalhos de videoarte ou performances de artistas plásticos. É o corpo nu, sem apetrechos para nos desviar a atenção, em seu estado mais puro. Mas lá pela enésima cena de sexo, começam a vir à mente comerciais estilizados de xampu e de carros...

As referências à arte grega e ao Renascimento são desnecessárias, como se Medem precisasse nos explicar o que sentir e pensar. Parece que, desta vez, ele não teve coragem em deixar as imagens falarem por si só.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 1h21 AM

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As asas de Wim Wenders

O alemão Wim Wenders é um exemplo de resistência. Sua reputação continua em alta conta, apesar de tentar sistematicamente se auto-sabotar com filmes fracos já faz uns 20 anos.

Não há nenhum segredo. Ninguém consegue esquecer a excelência do seu período de projeção no exterior, evolução e ápice (entre 1972 e 1987). Depois de “Asas do Desejo”, poderia simplesmente ter se aposentado e, ainda assim, continuar figurando entre os grandes do cinema.

Fato é que após “Alice nas Cidades”, “Paris, Texas” e o próprio “Asas”, Wenders parecia já ter dito tudo que realmente queria dizer. O que veio depois, com uma ou outra exceção, foi repetição e diluição de seus temas e, em casos extremos, tristes caricaturas.

É como se Wenders já tivesse cumprido a sua missão. Como se Wenders estivesse insistindo no cinema, apesar de ainda estar ativo como artista. Como um artista em busca de um novo meio de expressão.

Apenas com a exposição “Lugares, Estranhos e Quietos”, em cartaz no Masp, é que me dei conta da verdadeira vocação de Wenders.

Wim Wenders é um viajante profissional.

E cinema é apenas uma das formas que encontrou para exercer a sua “profissão”. Um meio que lhe permite mostrar imagens e histórias coletadas pelo mundo afora.

Ele diz no folder da exposição: “Se eu tivesse nascido há 150 anos teria sido um viajante que registraria suas impressões em aquarelas”.

Ainda que a beleza das fotos que registram paisagens de lugares como Armênia, Israel, Austrália, Alemanha e Brasil seja inegável, é de se perguntar se um museu do porte do Masp abriria suas portas para alguém sem o currículo de Wenders.

Mas, em algumas obras, a mágica se faz. Como nas imagens de uma roda gigante abandonada na Armênia. Nelas, o Wenders dos bons tempos se manifesta. Paisagem desolada, perdida no meio do nada, nos lembrando de como esse mundo é gigantesco e de como é fácil ser solitário nele.

Na hora me lembrei de uma grande amiga, também apaixonada por lugares, como Wenders. No projeto Pocket Films for Travelers, Juliana Mundim utiliza mídias diversas para mostrar sua visão poética sobre diferentes cantos do mundo. São filmes curtos, textos, fotos, músicas.

Para Wenders ou para a Juliana, a vida é um grande road movie, em que personagens inesperados entram e saem a toda hora do roteiro, em que a mise-en-scène enfatiza o movimento e a contemplação. É uma experiência quase mística. Cada lugar tem sua energia própria, e é necessário um desprendimento nada fácil para deixar de lado conceitos culturais pré-estabelecidos e se deixar possuir .

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h27 PM

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