Sonhos de Miyazaki

Hayao Miyazaki é um diretor de modos tradicionais. Em uma entrevista, ele conta: não usa internet, não tem computador e nem fax. Diz que raramente assiste a televisão e que não possui DVD player. E-mail é outra coisa dispensável: quando precisa, ele recorre à velha e boa carta de papel. Jogou uma vez um videogame, e não gostou.
Mas, nos dias de hoje, em que o 3D, CGI e efeitos especiais são dogmas para se fazer cinema de espetáculo, a idiossincrasia maior do cineasta japonês é o fato de fazer desenhos animados à moda antiga: tudo à mão, sem computadores, como no tempo da carochinha.
“Ponyo”, que estreia em SP nesta sexta-feira, serve como exemplo do método do diretor. São 100 minutos de filme, em que 170 mil desenhos foram feitos, por uma equipe de 70 pessoas, em um período de um ano e meio. Será que isso torna o filme mais “orgânico”, real? E ao conseguir esses efeitos, não estaria atingindo o objetivo de todos os filmes 3D que nos são despejados pela goela?
Dê uma olhada na exuberância visual do filme, para ter uma ideia do que essa numerália significa.
Em linhas gerais, “Ponyo” conta a história de uma peixinha dourada que decide se tornar humana após se apaixonar por um garoto de cinco anos.
O trabalho de artesão de Miyazaki resulta num mundo intermediário, nem de “verdade” e nem “apenas” desenho. Não é algo fácil de perceber com olhos mais apressados.
Suas narrativas, apesar das sequências de ação mirabolante, seguem um outro ritmo, misteriosamente mais lento, mas nada tedioso.
Em produções anteriores, como “Viagem de Chihiro”, “Mononoke hime” (princesa Mononoke) ou “O Castelo Animado”, Miyazaki vai construindo detalhes, em que elementos do passado, presente e futuro se misturam. São grandes epopeias, personagens em deslocamento físico em busca de redenção.
Os filmes se passam em épocas indefinidas, como se fossem as fábulas que ouvíamos quando éramos crianças.
É como se o diretor criasse filmes-sonhos, com imagens fortes e etéreas que ficam impregnadas na mente. Nossa razão batalha para entender o que são aqueles monstros e criaturas, tentamos encaixá-los em referências já processadas anteriormente, mas o esforço é em vão.
Simplesmente desistimos e nos deixamos tomar pelas imagens e aceitamos essa realidade paralela. Você pode dizer: “Sim, mas qualquer desenho animado tem esse efeito”.
Eu diria que Miyazaki é muito mais um autor, um cineasta surrealista (na linha de David Lynch), do que simplesmente um diretor de desenhos animados.
Dos fimes mais recentes do cineasta, “Ponyo” é o mais convencional e infantil, mas a questão do embaralhamento de realidades continua forte.
Há uma ênfase em elementos orgânicos, deformações do corpo (não há como não pensar em David Cronenberg), uma crença no mágico (como em Meliés) e numa melancolia assustadora. Como quando somos crianças e vemos que um dia vamos crescer, como quando temos medo de perder o amor de nossos pais e sermos deixados à mercê.
Talvez seja por isso, mais do que pelas imagens fantásticas, que Miyazaki causa um estranho sentimento de nostalgia e familiaridade. É como acordar e tentar, sem sucesso, lembrar como foi o sonho.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h13 AM
Onde não há cinema
O leitor Marcelo Henrique é fascinado por cinema. Ele mora em Ribeirão Preto, SP, e recentemente enviou um e-mail para este blog contando como é difícil assistir a bons filmes morando numa cidade onde não há salas de cinema alternativo. Ele questiona: como manter o hábito [de assistir a bons filmes]?
Em São Paulo, capital, tudo é mais fácil, claro. Além do circuito normal, há, todos os dias uma boa mostra alternativa em cartaz. Amanhã, por exemplo, é a vez de “Dogma 95 - 15 Anos Depois”, na Cinemateca Brasileira.
No entanto, tudo é relativo. Sempre haverá alguém insatisfeito. Volta e meia ouço alguém aqui na cidade reclamar: “Nesta semana não tem nenhum filme legal em cartaz”. Ou então: “Só estreia coisa ruim aqui”. É desaforo para leitores como o Marcelo.
Comportamento natural do ser humano. Quando se entra em comparações, surgem frustrações. A programação de SP é boa comparada com a de Paris? E se for comparada com as cidades do interior do Brasil?
As coisas são menos drásticas desde pelo menos as invenções da televisão, do VHS, do DVD e da internet. Scorsese deve boa parte de seu conhecimento a noites sem dormir em que assistia a grandes clássicos que passavam na TV.
O modo tradicional (ultrapassado?) de se ver cinema é uma experiência que depende, sim, do local onde se vive. Se antes ver filmes solitariamente era uma opção, hoje é a única alternativa em muitos lugares.
Retornei semana passada de férias. Passei em dois extremos: Lins (SP), cidade com 73.183 habitantes, e Paris (França).
Numa das últimas vezes em que fui a Lins, havia um único cinema, anexo de um grande supermercado. Passava “A Paixão de Cristo”. Desta vez, não havia mais cinema. Meus tios me contam que não havia público, que o ingresso era muito caro. Os que gostam de cinema preferem alugar DVDs. No final das contas, é a grande crise do cinema mundo afora.
Soa saudosista falar assim, mas vale lembrar que cinema não é apenas o filme que está na tela. É o filme da vida real que já começa quando você se arruma em casa para ir à sala de projeção. É o burburinho na fila. É encontrar aqueles amigos que você não vê há tempos, oportunidade para colocar a conversa em dia. É a troca de ideias após a projeção. É o sentimento de pertencer a algo coletivo, quando se ouve as pessoas rindo ou lágrimas contidas da pessoa ao lado. É quando você, mesmo morando numa cidade grande, sente-se parte de uma vila.
Por mais que eu tenha me bodeado de ter perdido a sessão das 7 de “Vincere” no Cinesesc, no último sábado _era uma fila quilométrica, como eu não via há tempos_, não me incomodo. A vontade de fazer parte de algo coletivo é algo que compartilho com as pessoas que estavam nessa fila.
Paris é o oposto de Lins, sabemos. Em cada esquina, há uma sala de cinema. A existência de sala em uma cidade, diversidade na programação etc. é apenas uma grande metonímia. Sem preconceitos. Mas diz muito sobre a economia de uma região.
Ver filmes sozinho no computador é como viajar sozinho. É melhor do que não ir, mas depois de um tempo, a experiência fica meio vazia.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 6h12 PM
Lembranças do cinema

Godard inicia “O Desprezo” com uma citação atribuída a André Bazin: “O cinema substitui nossa visão por um mundo mais em harmonia com os nossos desejos”.
Isso ajuda a entender em parte por que a apreciação de um filme é algo extremamente pessoal, subjetivo. Filmes, às vezes, dizem mais sobre nós mesmos do que sobre a história que está na tela. O que retemos, afinal, de determinado filme?
Mais do que mera homenagem ao cinema, o site Postcards to Alphaville trabalha com a relação visão pessoal/memória afetiva.
Nele, artistas gráficos produzem cartões postais baseados em determinado filme. Ou, melhor, escolhem um personagem específico que lhes marcou, e dão a sua visão pessoal/homenagem para ele.
Tenho alguns prediletos. Observe a humanidade latente no HAL 900 de “2001”. O tom moderno da Patricia de “Acossado”. O Bob Harris de “Encontros e Desencontros”, integrado à paisagem de Tóquio. A solidão de Valentina em “A Noite”.


Ver um filme é como conhecer uma pessoa. Nunca daremos conta de um total entendimento (já dizia Orson Welles em “Cidadão Kane”). Não há uma visão única. Selecionamos aspectos que nos interessam, e tomamos esses retalhos como verdades. Postcards to Alphaville nos lembra disso.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h43 PM
Ozu e o cinema da vida

Você anda com frio nos últimos dias? Aqui, em São Paulo, poucas coisas, além do trabalho, me fazem sair de casa para enfrentar a chuva e o vento frio. Acredito que não sou o único a agir dessa forma. Costumo ir a lugares onde posso encontrar alguma espécie de calor.
Foi assim na última sexta-feira, dia 16. Eram quase oito da noite e uma turma de cerca de 50 pessoas (o número é impreciso) estava no centro da cidade, no Centro Cultural Banco do Brasil para assistir a uma palestra de Carlos Augusto Calil. Todos por espontânea vontade. O que faziam ali? Queríamos ouvir o que o professor e secretário municipal de cultura de SP tinha a dizer sobre o cineasta japonês Yasujiro Ozu, tema de uma extensa retrospectiva no local.
Calil se atrasou um pouco por causa do trânsito, sempre caótico e pior ainda quando chove. Ele também se espantou com tamanha audiência (a capacidade da sala é de 70 pessoas). Mas entendeu. Calil conhece bem o poder de atração e fidelidade exercido por Ozu.
Se escrevo este texto de uma forma ainda mais pessoal, o motivo é claro. Faço coro ao que Calil disse já no fim da palestra. Quando se sente meio atormentado, ele afirma assistir a um filme do Ozu. Há um poder até terapêutico, digamos, em produções como "Pai e Filha".
E por quê?
Esse é o grande enigma.
Ozu, na superfície, é até banal. As histórias são sempre as mesmas. Temos sempre conflitos de geração numa família. Há sempre um pai ou uma mãe querendo casar o (a) filho (a). Sempre temos o ritual do matrimônio ou da morte. A câmera é sempre baixa, com a lente 50mm, que dá uma visão, digamos "normal" das coisas, sem closes ou travellings. Praticamente não há grandes dramas. Cineastas japoneses de gerações seguintes, como Nagisa Oshima, consideram Ozu um conformista. Nas obras da maturidade, Ozu praticamente fazia remakes de seus próprios filmes.
Ozu tem um efeito mágico. Quando assisto a algum de seus filmes, é como se eu visse o próprio fluxo da vida passando diante dos meus olhos. Saio sempre mais aquecido, mas um pouco melancólico.
Esse "efeito terapêutico" causado por Ozu é algo que nenhum filme da mais alta tecnologia 3D consegue superar. Ozu reproduz a própria experiência da vida nas telas. Os personagens perdem um tempo enorme dizendo coisas banais. Não dizem frases de efeitos, não se debulham em lágrimas, não são extremos. Não somos assim a maior parte do tempo? Posso estar enganado, mas acho que gastamos mais tempo arrumando a casa, na fila do banco e falando sobre coisas triviais do que entabulando conversas profundas e intelectuais com nossos entes queridos.
Assim como a vida, os filmes de Ozu parecem lentos. Mas, quando você menos repara, lá está você, totalmente envolvido na trama banal do pai que quer achar um pretendente para a filha. E, novamente, quando você menos repara, o filme já acabou. E você pergunta, nossa, mas já acabou?
Nesses meus últimos dias de férias, aproveitei para ver vários filmes de Ozu. Fiquei particularmente tocado ao descobrir que um dos autores favoritos do cineasta, em sua fase inicial, era Tatsuo Saito, mesmo nome do meu falecido pai. E me debulhei em lágrimas ao ver, pela primeira vez, "Era uma Vez um Pai". Lindo, lindo, mas cruel. Quer dizer, não cruel, mas real. Ficou me martelando na cabeça a história do pai e filho que não conseguem morar juntos e que nunca conseguirão.
Foi aí que comecei a entender melhor a obsessão de Ozu pelos trens (em todos seus filmes há pela menos um passando). Há toda a simbologia do trem como sinônimo do progresso e modernização inevitáveis, também presentes em vários filmes ocidentais das primeiras cinco décadas do século 20. Em "Era uma Vez um Pai", o trem vai embora, implacável, sem pedir licença, para não mais voltar. Para gostar de Ozu, não é necessário ser oriental ou ter interesse especial por cultura japonesa ou ser cinéfilo. É necessário ter apenas um pouco de sangue nas veias.
*siga a programação de SP aqui e a do Rio aqui
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 8h20 PM
O sonho americano de Sam Mendes
AVISO: Este jornalista cometeu um lapso. Fiquei tão emocionado com minhas férias que esqueci de dizer aqui que retorno no dia 19 de julho. Abraços.

Verona (Maya Rudolph) e Burt (John Krasinski) em "Por uma Vida Melhor"
Desde que ganhou uma renca de Oscars com "Beleza Americana" (1999), Sam Mendes viu que criticar o sonho americano era um bom negócio.
Era como se o longa-metragem aliviasse certo sentimento de culpa. "Beleza Americana" é um filme-terapia.
Mendes apontava para os defeitos de caráter dessa nação que se pretende dona do mundo. Falhava, no entanto, nas soluções propostas. A saída, sugeria o personagem de Kevin Spacey, era a regressão, uma fuga para um mundo infantilizado.
Já em "Foi Apenas um Sonho" (2008), Mendes resolveu pegar pesado. Deixou de lado o aspecto cômico. Leonardo Di Caprio e Kate Winslet estão notáveis, há uma entrega total aos personagens. Lembram aqueles atores que, no teatro, falam quase cuspindo, para desespero da primeira fila.
Novamente, o sonho americano é o alvo. Mas tudo é tão excessivo, tão "over", que as coisas começam a soar inverossímeis e perdem a força. Principalmente na sequência final.
Apesar de ser uma produção mais tímida, "menor", é em "Por uma Vida Melhor" que Sam Mendes erra menos. O filme, do ano passado, chega ao Brasil direto ao DVD.
A comédia dramática conta a história de um casal nos seus 30 e poucos anos de idade, Verona (Maya Rudolph) e Burt (John Krasinski). São aqueles típicos losers que o cinema indie norte-americano já celebrizou em tantos filmes na linha de "Pequena Miss Sunshine". São gente boa, simpáticos, mas sem grandes perspectivas para o futuro.
Eles terão uma filha em breve, e decidem rodar os EUA para achar o melhor lugar para criar a criança. Ela deve ter uma infância "épica", acredita Burt. O casal vai cruzando parentes e outros casais igualmente disfuncionais apenas para chegar à conclusão de que, de perto, ninguém é normal. E de que não há modelo de sucesso e perfeição a ser copiado. Eles deverão forjar seu próprio estilo de família.
O espectador sentirá aquele inevitável dejà-vu (alguém ainda aguenta esses filmes pseudo-indies?).
No entanto, Mendes tem certa noção de que está pisando em território já gasto. Exagera nas caricaturas (como na extremista personagem neo-hippie de Maggie Gyllenhaal) e faz o casal Verona-Burt questionar a condição de losers.
É exatamente nos exageros que ele acerto o tom. O grande mérito de "Por uma Vida Melhor" são os grandes personagens que vão surgindo. É como se fosse um desfile de seres fraturados por uma guerra invisível. Como se fossem veteranos de guerra triturados pelo complexo de superioridade e pela cobrança de sucesso a todo custo ditados por certo espírito norte-americano.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h55 PM
Pense, McFly
O leitor deste blog já deve ter notado que um ar oitentista andou pairando sobre os últimos posts. Tento fugir do assunto, mas até nos lançamentos mais badalados o período retorna _ao menos para mim.
Fui ver bem tardiamente o “Alice no País das Maravilhas” tendo em mente os vários fãs das histórias de Lewis Carroll que reclamaram do filme.
Tim Burton criou uma trama com começo, meio e fim, como se fosse uma aventura de Harry Potter ou Senhor dos Anéis. É um espírito diferente daquele da Alice dos livros, muito mais um “filme de Tim Burton” do que outra coisa. Para mim, nada disso foi problema.
Fiquei mais intrigado, no entanto, com o vilão Stayne, que parece ter saído diretamente de uma tira de história em quadrinhos: malvado, duas-caras, cruel, assustador _os adjetivos são vários. Durante toda a projeção tentei lembrar que ator era aquele.
Crispin Glover, claro!, descobri só em casa, já no Imdb.
Você se lembra dele?
Alo-ou!! Tem alguém em casa? Hein? Pense, McFly, pense!
É ele, o inesquecível George McFly, o pai de Michael J. Fox em “De Volta para o Futuro” (1985). Revendo o filme hoje, dá para ver claramente que o personagem paspalho rouba a cena. Fui um dos vários garotos que torceram muito por ele, alvo de bully já nos anos 1950.
Mas você chegou a acompanhar a carreira de Glover nos anos seguintes? Nas continuações de “De Volta para o Futuro” até mataram o personagem, já que não foi possível um acordo sobre o salário com os produtores.
Glover se estabeleceu como um desses atores malditos de Hollywood. Uma figura que faz questão de alimentar a imagem de esquisito, excêntrico, maluco.
Quando o assunto é entrevista surreal em talk-show, Glover costuma aparecer entre os top five:
Um ponto alto nesse aspecto é a aparição curta, mas marcante, como o pirado e psicótico primo Dell em “Coração Selvagem”, de David Lynch.
Foi uma união de almas gêmeas, piada pronta. Sátiras existem aos montes:
Glover consegue imprimir uma marca pessoal até em produções mais comerciais, onde geralmente faz caras malvados. Em “As Panteras”, ele é o vilão magrelo que não abre a boca.
O ator diz seguir uma “estética do desconforto”. “What Is It” (2005), sua estreia na direção, é repleto de atores com síndrome de Down.
Claro que o culto de fãs não demorou a seguir. Tem até um selo musical, o norueguês Crispin Glover Records, que usa o ator no nome e no logotipo.
Sua atuação pode explicar um pouco o formato de “Alice”. Em uma produção Disney, com a direção autoral de Tim Burton e dois atores autorais (Glover e Johnny Depp), talvez não exista muito espaço para uma Alice convencionalmente inconvencional.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h27 PM
Impérios que contra-atacam
Na onda das comemorações dos 30 anos de “O Império Contra-Ataca”, Ivan Guerrero, “um talentoso roteirista/montador/diretor de arte em busca de um trabalho na indústria”, postou no seu canal no YouTube um “premake” do filme.
Depois dos remakes e das “prequels”, você deve estar se perguntando o que é esse novo termo. Para entender, busque o canal whoiseyevan no YouTube.
Guerrero pega filmes famosos dos anos 1980 e 1990, como “Os Caçadores da Arca Perdida”, “Forrest Gump” e “Os Caça-Fantasmas”, e imagina como eles seriam caso tivessem sido produzidos nos anos 1950.
Ou melhor, utiliza cenas de obscuros filmes antigos, dá uma bela editada e pronto: um desavisado pode acreditar que “O Império Contra-Ataca” (aquele filme já clássico e idolatrado por toda uma geração) é apenas um remake.
Veja frame por frame:
Os “premakes” são brincadeiras que demonstram o talento de Guerrero. No entanto, ainda que indiretamente, ele nos mostra como tudo em Hollywood é reciclado, seja intencionalmente ou não (já que George Lucas e Steven Spielberg devem ter visto vários filmes B na infância que ficaram no inconsciente).
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Não se sabe ao certo a influência dos protestos no Festival de Cannes ou dos abaixos-assinados que circulam pela internet, mas fato é que finalmente a Justiça iraniana ordenou a libertação do cineasta Jafar Panahi _que, por sua vez, havia anunciado greve de fome. O negócio é torcer para que cumpram o prometido.
Tudo é muito obscuro na maneira com que o país persa lida com a censura, as prisões e execuções.
Surpreendente é que, do outro lado, as coisas também não sejam muito claras. A diretora Torang Abedian, do filme “Not an Illusion”, acusa Bahman Gohbadi e seu “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” de plágio.
Os dois filmes contam a história de mulheres que tentam montar uma banda e tocar no exterior. Nos dois casos, a cena musical do Irã é mostrada em tom documental.
Se a questão dos direitos autorais já é complicada em países democráticos, no Irã ela praticamente não existe _ainda mais quando são obras não muito favoráveis ao regime.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h41 PM
O culto aos "Caça-Fantasmas"
Na atual onda de remakes e reboots (é a época do prefixo “de”) em Hollywood, chega a ser reconfortante a ideia de que “Os Caça-Fantasmas 3”, se existir mesmo, deverá manter o elenco original.
Ao menos é isso que dão a entender as recentes declarações, ainda que desencontradas, do diretor Ivan Reitman e dos atores Harold Ramis, Dan Aykroyd e Bill Murray.
Um dos grandes sucessos de bilheteria da história do cinema, a franquia está parada desde 1989, se não contarmos os desenhos animados que apareceram pelo caminho.
Mas, durante esse hiato, “Os Caça-Fantasmas” foi adquirindo um status de filme idolatrado por toda uma geração, algo digno de fãs de “Star Wars”.
Exagero?
Dê uma olhada na mais recente ação do grupo nova-iorquino Improv Everywhere. Criado em 2001, eles executam aquilo que um dia já chamamos de “flashmob”. Ou seja, um grupo de pessoas executa uma ação pré-combinada em algum lugar público.
Desta vez, eles se inspiraram na sequência inicial de “Os Caça-Fantasmas”, a famosa cena de assombração na biblioteca.
É um espírito semelhante ao usado pelo diretor Michel Gondry em “Rebobine, Por Favor”, onde Jack Black e Mos Def criam uma versão caseira do filme.
Mais fanática ainda é a trupe de Hank Braxtan, diretor do longa-metragem caseiro “Return of the Ghostbusters”. Aliás, a geração dos “filmes de fãs” é sintomática dos tempos atuais, de acesso fácil a aparelhos digitais, distribuição imediata e o espírito “faça você mesmo (e seja marqueteiro) na internet”.
Por que o fascínio? É uma questão nostálgica. A série fala especialmente para pessoas na faixa dos 30 e poucos anos, como eu (foi um dos primeiros filmes que eu vi no cinema).
As gerações mais novas talvez nem saibam quem são os “Caça-Fantasmas”. Para as gerações mais velhas, é apenas mais uma bobagem cheia de efeitos especiais da Hollywood dos anos 1980.
Quando revi os dois filmes, já adulto, não senti a mesma empolgação de quando era criança. Filmes da mesma época, como “De Volta para o Futuro” ou “E.T”, no entanto, resistiram bem ao teste do tempo.
Mas, relembrando a minha lógica de criança, não havia nada tão empolgante como aquele misto de comédia e filme de ação com sujeitos repletos de apetrechos fantásticos correndo pela cidade atrás de fantasmas (no fundo, a vontade era SER um caça-fantasmas). E os fantasmas eram monstrengos suportáveis, distante daqueles dos filmes de terror que davam pesadelos à noite.
Se estou ansioso pelo novo “Os Caça-Fantasmas”? Nem um pouco. Os filmes antigos e as homenagens de fãs já bastam. Foi péssima a sensação recente de ver um novo e redundante Indiana Jones.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h10 PM
Cinema físico
Entre as experiências que mostras de cinema (seja o Festival de Cannes, seja a Mostra Internacional de Cinema de SP) proporcionam, uma de minhas prediletas é o teste físico de assistir a vários filmes no mesmo dia, às vezes um emendado no outro.
O julgamento crítico fica um tanto afetado. Os sentidos, amortecidos, após a quarta hora sentado na sala de projeção. A trama de um filme começa a se misturar com a de outro, lá pela oitava hora. Não há tempo para “digestão”, para comentar tranquilamente a obra com o amigo, com a namorada etc., enquanto se toma café e um pouco de ar puro.
No último sábado, não cheguei a esses demonstrações exageradas de cinefilia, mas, na tentativa de tirar o atraso e ver alguns filmes importantes em cartaz, praticamente emendei sessões de duas obras que são extremos opostos: “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” e “Homem de Ferro 2”.
Ao menos para mim, a experiência de embotar os sentidos trouxe uma percepção ampliada do que essas duas obras representam. Não me entenda mal _não estou insinuando que os dois filmes, no final das contas, são parecidos. Foi muito mais uma experiência, como disse, física.
Fiquei hipnotizado com “Viajo Porque Preciso...”; há tempos não via filme tão radical. Não é apenas a mistura de ficção e documentário ou o fato de uma narração dar todo um novo sentido às imagens.
Em nenhum momento o protagonista aparece. Ele é apenas uma voz solitária que caminha pelas estradas. Opção acertadíssima, logo se percebe.
Ele sofreu uma decepção amorosa, e viaja porque quer esquecer. Mas, quanto mais tenta esquecer, mais ele se lembra. Ele é como um fantasma, ele é todo divagações _menos corpo e mais imaginação. Não se trata, portanto, de uma experimento como “A Dama do Lago” (1947, de Robert Montgomery), rodado em câmera subjetiva.
“Viajo Porque Preciso....” é daqueles filmes tristes, tristes, mas não deixa uma sensação ruim após a projeção. Senti-me leve e otimista ao sair da sala.
O protagonista de “Homem de Ferro 2” também tem no corpo uma questão central.
Tony Stark é o milionário que se torna super-herói graças a uma poderosa armadura. A horas tantas, diz que ele e a armadura são uma coisa só. Não está errado.
Apenas mostrar o Homem de Ferro não basta _seria o equivalente a ter uma Ferrari como protagonista. Teríamos, assim, mais um “Transformers” e aqueles personagens difíceis de gerar empatia.
Volta e meia, o Homem de Ferro abre a lataria para mostrar o rosto do ator principal, Robert Downey Jr. Aí, sim, vemos um corpo, que é a alma do personagem.
Mas apesar de toda a pirotecnia e da produção milionária, “Homem de Ferro 2” causou-me um amortecimento dos sentidos e uma apatia que nem o ritmo lentíssimo de “Viajo Porque Preciso...” conseguiu.
E não acho que seja porque vi “Homem de Ferro” na última sessão do dia. Mas, sim, porque “Homem de Ferro” é como andar a mais de 200km por hora, num carro de Fórmula 1, e “Viajo Porque Preciso....” é como ir sem pressa numa viagem à praia com amigos queridos, enquanto se observa a paisagem.
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Godard acabou dando bolo e não apareceu em Cannes para apresentar "Film Socialisme".
As passagens do cineasta pelo festival nunca são completamente tranquilas, como mostram esses vídeos de 1968 e 1988:
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h30 PM
David Lynch, o homem-sonho
No ar há quase um ano, a série de documentários “Interview Project”, de David Lynch, ganhou recentemente o Webby Awards da categoria.
Ainda que não sejam dirigidos por Lynch, os curtas têm seu toque subliminar. Vem aquela sensação de que há algo muito estranho escondido sob as coisas mais banais. São retratos de pessoas desconhecidas da América profunda. É um cruzamento de “História Real” com Eduardo Coutinho.
Lynch fez campanha pesada pelo Twitter. Ele é um dos principais cineastas a usar a internet como extensão de possibilidades artísticas. Em 2002, já mostrava as séries “Rabbits” e “Dumbland”.
É um meio de expressão mais imediato, que supre a carência dos fãs por novos filmes seus_ cada dia mais raros.
Esse David Lynch dos dias atuais contrasta com o David Lynch de 1983. Um recente vídeo postado pela atriz Sean Young em seu canal no YouTube nos relembra que Lynch, naquela época, era “o” cara em Hollywood, após ter dirigido dois filmes (“Eraserhead” e “O Homem-Elefante”).
Sean mostra um vídeo com imagens captadas em Super-8. Era a primavera de 1983, na Cidade do México, e Lynch tinha um orçamento e expectativas gigantes para “Duna”. No final das contas, o filme, que deveria ser um sucesso, é mais lembrado como o único fracasso artístico na carreira de Lynch (ele não teve direito ao corte final).
Mas nas imagens captadas por Sean, tudo é festa. Vemos a equipe feliz, sorridente e otimista. Ela nos conta que todos o “amavam e fariam tudo por ele”.
“Veludo Azul” (1986) foi a produção seguinte, que salvou a pele de Lynch. Mas foi com a série televisiva “Twin Peaks” (1990-1991) que o diretor finalmente alcançou o grande público.
Se, hoje, as expectativas para o final de “Lost” são imensas, é necessário reconhecer que “Twin Peaks” pavimentou o caminho para esquisitices na linguagem da TV.
A lembrança do impacto da série voltou recentemente à minha mente quando achei no YouTube esses comerciais feitos por Lynch para uma marca japonesa de café. É coisa de louco. Lynch se entrega totalmente à lógica do mercado, mas ainda assim, parece estar tirando um sarro de todos.
E, outra proeza, encaixa a necessidade básica de vender um produto ao universo policial e sobrenatural de “Twin Peaks”. Há até uma visita ao quarto vermelho.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h18 PM
O conforto de "Inferno"

"Inferno" é reconfortante.
Não é necessário ser especialista. Vamos supor que você seja um conhecedor médio do cinema dito de arte. O que lhe vem à mente quando o assunto é cinema francês?
Provavelmente você puxará pela memória os filmes recentes a que assistiu e pensará em nomes como Juliette Binoche e Louis Garrel. Mas a nouvelle vague de Godard e Truffaut, com certeza, surgirá em algum momento.
O que faz com que eles continuem marcantes e outros, antes gigantes, tenham sumido do inconsciente coletivo cinéfilo? Esse não é exatamente o tema de “O Inferno de Henri-Georges Clouzot”, mas a questão da memória é central no documentário.
Nos anos 1960, Henri-Georges Clouzot (1907-1977) era um dos monstros sagrados do cinema francês. Exatamente o tipo de artista que a jovem geração da nouvelle vague adorava atacar. “O Inferno”, com toda a pompa, alto orçamento e pretensões, seria a obra-prima de Clouzot, um filme que buscava mudar a história do cinema e calar a boca desses detratores.
“Inferno”, no entanto, nunca chegou a ser finalizado. A trama era relativamente simples. Conta a história do ciúme doentio que o personagem de Serge Reggiani começa a sentir pela mulher, Romy Schneider.
A realização, por outro lado, era das mais complicadas. Para mostrar o ciúme crescente de Reggiani, Clouzot criou imagens de delírio, para reproduzir o estado de deformação mental do personagem. Eram experiências com a arte cinética. Teve liberdade total para gastar e experimentar.
Mas Clouzot entrou numa espiral de loucura. Era tirano com a equipe. Nunca estava satisfeito com os resultados. Por fim, Reggiani simplesmente não apareceu mais para as filmagens, antes de Clouzot ter um ataque cardíaco.
Essa imagens ficaram arquivadas durante anos. Os diretores do documentário “Inferno”, Serge Bromberg e Ruxandra Medrea, encontraram os rolos, mas sem som, e levam a público extratos de uma obra que nunca existiu. Os experimentos de Clouzot impressionam pela beleza estética.
Mas ele era realmente um gênio, como o tom laudatório do documentário insiste em ressaltar? Pensar nos nomes que são citados durante o documentário ajudam a entender a real posição de Clouzot na história, além do funcionamento da indústria cinematográfica.
O diretor, assim como vários de sua geração, ficou impressionado com “8 e 1/2”, de Fellini. Queria fazer o seu próprio “8 e 1/2”. Mas conseguiu, no máximo, incorporar na vida real, por trás dos bastidores e longe dos olhos do público, o drama de um diretor que fica perdido e sem rumo, afogado no próprio ego.
O desprezo com que trata a nouvelle vague parece ser muito mais reflexo de uma insegurança. Sabia que seu tempo estava passando, que os novos vinham com algo mais consistente do que uma moda passageira. Quando questionado sobre a importância da improvisação durante as filmagens, dizia que improvisava no papel.
Há atores que reencenam, hoje, trechos do roteiro, dando sentido e vida a um filme que nunca foi visto. “O Inferno de Henri-Georges Clouzot” é sedutor e reconfortante porque cria a possibilidade de uma segunda chance. É como se os incontáveis filmes e livros que nunca saíram da mente de seus escritores, e portanto nunca existiram, finalmente criassem forma, encontrando e fascinando seu público.
Tivesse sido finalizado, "Inferno" poderia ser apenas um grande de um abacaxi. Mas, do jeito que é revisto pelo documentário, torna-se uma obra-prima.
É a ação, e não a intenção, o que realmente conta na vida? Em “O Inferno de Henri-Georges Clouzot”, basta a intenção.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 10h16 PM
Medo de cinema
Cinema pode ser uma arma política poderosa, e nomes como os russos Dziga Vertov e Serguei Eisenstein já sabiam bem como a montagem podia manipular e induzir sentidos.
Ao mesmo tempo em que adoram o cinema, as ditaduras e a censura também morrem de medo dele. Sabem bem que se trata de uma faca de dois gumes.
No Irã, por exemplo, o diretor Jafar Panahi (de “O Balão Branco” e “Fora do Jogo”, entre outros) está preso desde o dia 1º de março. Nos últimos dez anos seus filmes foram banidos dos cinemas do país. Desde os últimos quatro anos, ele não pode mais trabalhar. Em outubro passado, seu passaporte foi confiscado e ele foi proibido de deixar o país.
Hoje, uma carta assinada por 20 nomes centrais do cinema mundial pediram a libertação de Panahi.
São eles: Paul Thomas Anderson, Joel & Ethan Coen, Francis Ford Coppola, Jonathan Demme, Robert De Niro, Curtis Hanson, Jim Jarmusch, Ang Lee, Richard Linklater, Terrence Malick, Michael Moore, Robert Redford, Martin Scorsese, James Schamus, Paul Schrader, Steven Soderbergh, Steven Spielberg, Oliver Stone e Frederick Wiseman.
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Caso surreal também é o da Coreia do Norte, um dos países mais fechados do mundo.
Veja “The Vice Guide to North Korea”, a série de 14 vídeos que a revista “Vice”, em seu braço de televisão pela internet, produziu sobre o país há alguns anos (vou colocar apenas a primeira parte; dá para encontrar fácil digitando north korea vice no Youtube.
Lá, apenas uma figura engloba as funções de galã, diretor, roteirista, montador etc.: o “querido líder” Kim Jong-il. Sabe-se pouca coisa sobre o país. Entre elas, que o ditador é obcecado por cinema e que seu filme favorito é “...E o Vento Levou”. Ele mesmo se auto-denomina “gênio do cinema”, em livro que escreveu nos anos 70 sobre o assunto.
Não há como saber quantos filmes o país produz por ano. O Imdb indica apenas 45 filmes (ever, ou seja, na história) em que a Coreia do Norte aparece como produtor ou co-produtor. A Coreia do Sul, por outro lado, aparece com 4.574 títulos.
E é por meio do cinema que o embaixador brasileiro no país, Arnaldo Carrilho, tentará buscar afinidades. Carrilho também é cinéfilo e, em entrevistas, já disse que pretende mostrar ao líder filmes de Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Leon Hirszman. Segundo o jornalista Sério Rangel, Carrilho tentará, ainda, incluir produções brasileiras recentes, como “Dois Filhos de Francisco” e “O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias” na próxima edição do Festival de Pyongyang, entre setembro e outubro.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h28 PM
A dificuldade de ser jovem no cinema
Beatriz Lefèvre/Divulgação
Cena de "As Melhores Coisas do Mundo"
No Brasil, o público adolescente não tem muito interesse em se ver retratado nas telas de cinema. Ao menos essa é uma das conclusões que podemos tirar do desempenho tímido de “Os Famosos e os Duendes da Morte” e “As Melhores Coisas do Mundo” nas bilheterias.
Em São Paulo, o filme de Esmir Filho é exibido apenas em duas sessões, três semanas após a estreia. Já o longa de Laís Bodanzky, em cartaz há pouco mais de uma semana, tem um circuito exibidor maior, mas não está entre as cinco maiores bilheterias do fim de semana.
Agora, no entanto, não podemos usar o velho argumento de que não há bons filmes sobre jovens feitos no Brasil. O primeiro semestre ainda nem acabou, mas dá para incluir tranquilamente as duas obras entre as mais interessantes do ano. O negócio é torcer para que os grandes estúdios, como a Warner, não desistam de produções como essas.
Há quem defenda a tese de que o espectador gosta de sonhar com outro mundo quando vai ao cinema. Em outras palavras, a massa preferiria ver um mundo idealizado, seja por meio do riso (a comédia destrambelhada), seja por meio da adrenalina (filmes de ação, terror) ou seja por meio do glamour (o filme com o galã/a musa do momento), que serviriam como válvula de escape.
“Para que me ver refletido na tela se já estou cansado da minha própria vida?”, seria o mantra desse público.
Seguindo esse raciocínio, “Os Duendes...” e “As Melhores Coisas...” são quase como documentários. O primeiro é um filme feito por um jovem com uma visão de jovem destinado a jovens _os jovens sonhadores, com a mente embaralhada entre o real e o imaginário. O segundo é um filme de adultos destinado a jovens, que fala a linguagem dos jovens, mas com uma visão nostálgica e paternalista da juventude ("As Melhores Coisas..." é o "Chega de Saudade" com adolescentes no lugar dos idosos).
Deixando de lado questões de mercado, os dois filmes já cumpriram bem uma das “funções” mais nobres do cinema, que é o registro _e a análise_ de uma época, uma geração _ou várias gerações, como a mais introspectiva, de “Os Duendes...”, e a mais extrovertida, de “As Melhores Coisas...”.
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O curta “Space Monkey” é tanto o novo trabalho da ONG internacional World Wide Fund for Nature, que visa a conservação da natureza, quanto o videoclipe para a música “Song for the Divine Mother of the Universe”, do músico australiano Ben Lee.
O filme mostra o retorno à Terra, após 65 anos, de um macaco que foi enviado ao espaço. Preste atenção. Os ecos de “2001 -Uma Odisséia no Espaço” e “Planeta dos Macacos” soam fortes _aliás, Tim Burton bem que poderia retomar a série, não?
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h01 PM
O corajoso cinema iraniano
Já escrevi sobre o filme iraniano “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” aqui no blog. Passou na Mostra de SP no ano passado e estreou nos EUA na semana passada. O filme causa furor por onde passa, já que mostra a repressão no Irã de uma forma sincera e pop, a partir do ponto de vista de músicos locais alternativos.
Por aqui no Brasil não há ainda nenhuma previsão de lançamento. Qual a solução? Se levarmos em conta o que o diretor Bahman Ghobadi diz, pode-se baixar o filme na internet sem nenhum complexo de culpa (ao menos no Irã):
“Olá, meu querido povo iraniano. Aqui é Bahman Ghobadi, diretor deste filme, ‘Ninguém Sabe dos Gatos Persas’. Estou muito orgulhoso de que você possa assistir ao meu filme sem pagar nada (...) No Irã nossos filmes são proibidos de serem exibidos nos cinemas. Então assista! E peço duas coisas: primeiro, assista em grandes monitores com boa qualidade de som; segundo: se você conhece alguém que, como os jovens do filme, trabalha com música underground, ajude-o(a). Essas pessoas trabalham numa situação difícil no Irã, sem nenhuma ajuda do governo ou outras organizações. O futuro do Irã está na mão desses jovens e de outros artistas”.
Você se lembra de outro diretor de destaque que tenha incentivado os internautas a baixar um filme de sua própria autoria?
É atitude condizente com o espírito do filme, que tenta quebrar as barreiras de uma ditadura _que, por sinal, mantém preso desde março outro grande cineasta, Jafar Panahi.
No Brasil, país onde o presidente mantém uma relação de apoio a Mahmoud Ahmadinejad, assistir a “Ninguém Sabe dos Gatos Persas” se faz ainda mais necessário.
COMENTÁRIO DOS LEITORES:
Rodrigo de Oliveira, Rio de Janeiro
Por razões políticas completamente diversas, mas ainda assim imperativas, o Guilherme de Almeida Prado disponibilizou, ele mesmo, seu "Onde Andará Dulce Veiga?" na internet, via uma comunidade de downloads de filmes brasileiros no Orkut.
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 9h50 PM
O astro vulcão
Atualmente, ele é o grande assunto nas editorias de internacional. A erupção do vulcão na Islândia causou uma pane aérea na Europa, fechando aeroportos de cinco países e restringindo o voo em outros 20.
Parece coisa de cinema _e também é. Quer dizer, vulcões, mais precisamente vulcões em erupção, mexem com a imaginação do público. Essa estrutura geológica é a própria representação da natureza impiedosa, explodindo sem freios, indiferente à manipulação humana.
É um material fascinante para roteiristas e diretores em busca de imagens de forte impacto. Mas cenas com um vulcão em erupção obviamente nem sempre garantem bons filmes. Tente lembrar de que maneira eles são usados nas tramas. Há o clichê do vulcão entrando em erupção lá pelo final do filme, gerando um último susto antes do desfecho.
Outro uso bem comum nas tramas é o vulcão como metáfora de sentimentos represados dos personagens principais prestes a explodir (ou então, uma situação tensa, insustentável). O vulcão é o elemento primitivo, o fim de tudo. Ou o começo de tudo: a explosão de lava surge como uma espécie de ejaculação gigantesca.
Não são poucas as tramas que mostram vulcões como elementos divinos adorados por uma tribo/civilização específica, que fazem rituais em sua homenagem, para mante-lo “calmo”.
Veja, a seguir, trechos de alguns filmes como “Joe contra o Vulcão”, “O Senhor dos Anéis -O Retorno do Rei”, “Fantasia”, “O Inferno de Dante”, “Volcano” e “Com 007 só se Vive Duas Vezes”. Será que teremos uma nova safra de filmes com vulcões aí pela frente?
Escrito por Bruno Yutaka Saito às 11h02 PM

