Ilustrada no Cinema
 

O "flop" dos independentes

O "flop" dos independentes

Ainda que edições recentes do Oscar e uma rápida olhada nos filmes em cartaz dêem a entender que o cinema independente/de arte vive boa fase, ele não vai bem, obrigado.

Ao menos na Warner Brothers. A companhia anunciou recentemente que vai fechar duas problemáticas divisões dedicadas ao segmento.

A Picturehouse, de filmes como “O Labirinto do Fauno”, e a Warner Independent Pictures, de “Marcha dos Pinguins”, vão encerrar atividades, fazendo cerca de 70 profissionais perderem seus empregos.

“Essa decisão reflete a realidade de um mercado em mudança e nossa necessidade de gerir prudentemente nosso negócio com eficiência crescente”, disse o presidente do estúdio, Alan F. Horn.

Ou seja, por mais que filmes como os dois citados tenham gerado interesse do público e do Oscar, por exemplo, no balanço final as contas não fecham.

Entre os recentes “flops” da Warner Independent estão “No Vale das Sombras” (Paul Haggis), que rendeu a insuficiente soma de US$ 6,7 milhões, e o oscarizado “Piaf”, que levou “apenas” US$ 10 milhões na América do Norte.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 1h16 PM

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O impacto dos blockbusters

O impacto dos blockbusters

O crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta, no podcast desta semana, a estréia do filme "Speed Racer". Ou, melhor, fala sobre o impacto que a estréia deste blockbuster e "Homem de Ferro" causam no circuito brasileiro. Praticamente metade das salas de cinema do Brasil estão ocupadas pelos dois filmes. Para ouvir o podcast, clique no microfone abaixo.

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h08 PM

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“Serras da Desordem” - O Retorno

“Serras da Desordem” - O Retorno

Por Cássio Starling Carlos

Dois anos depois de concluído, o brilhante “Serras da Desordem”, de Andrea Tonacci, vem sendo exibido discretamente em circuito comercial. Já passou por Belo Horizonte e São Paulo e está em cartaz no Rio e em Brasília.

A quase invisibilidade de sua passagem pelo mercado não esconde a potência que o filme carrega, anunciada nos prêmios de melhor direção e fotografia no Festival de Gramado de 2006, na escolha como melhor longa de 2006 na entrega do prêmio Jairo Ferreira e reiterada na recepção crítica que vem recebendo.

O espaço que jornais como a Folha e revistas eletrônicas como Trópico, Cinética e Contracampo já dedicaram para refletir o trabalho de Tonacci vem agora se consolidar na forma do livro recém-lançado “Serras da Desordem” (Editora Azougue, 144 págs.), com organização do crítico, professor e cineasta Daniel Caetano.

O volume traz cinco ensaios e uma longa entrevista com Tonacci que ampliam as possibilidades de análise do filme para muito além dos limites relativamente acanhados de sua recepção no âmbito jornalístico.

O professor Ismail Xavier abre com sua chave de ouro a reunião de textos com uma incisiva reflexão focada nas ambigüidades do material documental e ficcional que imbricam formas e conteúdos de “Serras da Desordem”, sua transformação incessante de sentidos que se impõe ao espectador ao mesmo tempo em que nos levam a abandonar os estereótipos culturais que aplicamos à representação do índio.

O crítico Luís Alberto Rocha Melo indaga o uso que Tonacci realiza de materiais de arquivos, pela qual o filme ultrapassa suas representações imediatas para se afirmar como interpretação da construção do país num determinado período histórico através de suas imagens.

Já a etnóloga Clarice Cohn se concentra no lugar que o índio Carapiru ocupa em meio às múltiplas instâncias narrativas que compõem o filme, trazendo para o livro uma saudável abordagem extra-cinematográfica.

O crítico Rodrigo de Oliveira expande o fio de sua interpretação do objeto único para as estratégias de encenação adotadas por Tonacci desde “Bang Bang”, seu primeiro longa, feito em 1970, passando pela experimentação com o olhar indígena em “Conversas no Maranhão” (1977).

O último ensaio é assinado por Daniel Caetano, que propõe uma aproximação do filme com “O Signo do Caos”, derradeiro trabalho de Rogério Sganzerla, numa leitura modulada por valiosas considerações acerca dos sentidos do realismo que os dois cineastas brasileiros renovam em diálogo fecundo com a tradição do cinema moderno.

Uma entrevista com Tonacci, conduzida por Daniel Caetano, dá espaço para o diretor explicitar o longo processo de construção da obra, desmistificar as opções de encenação do ator/personagem Carapiru e lançar luzes sobre suas preferências estéticas.

Com este material farto e instigante, o livro “Serras da Desordem” inaugura a coleção “Odeon”, que se propõe pensar as produções relevantes do cinema brasileiro contemporâneo.

O cinema e o leitor agradecem! 

Escrito por Cássio Starling Carlos às 4h19 PM

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Tudo em família

Tudo em família

Por Bruno Yutaka Saito

Filmes sobre família não são necessariamente “filmes família”. Ao contrário, quando o campo em questão é o cinema independente, ou com ares mais alternativos, eles têm mais cara é de filme de terror. Dois lançamentos recentes em DVD são bons exemplos.

Chegando direto ao formato, “Margot e o Casamento” (“Margot at the Wedding”) é o novo longa de Noah Baumbach (de “A Lula e a Baleia”).

Margot (Nicole Kidman) é a escritora de meia-idade que viaja a Long Island para o casamento de sua irmã, Pauline (Jennifer Jason Leigh), com o traste Malcom (Jack Black). Elas estão brigadas há tempos, e resolvem fazer as pazes.

O que parece guiar o longa, no entanto, é uma profunda devoção ao estilo e ao clima dos filmes de John Cassavetes. Ficam evidentes a colaboração íntima e cúmplice entre atores e diretor, uma tensão permanente no ar, algo claustrofóbica, necessária quando o assunto é família (as disfuncionais, ao menos). O mérito de Baumbach é fazer parecer que a câmera flutua entre os atores, sempre entrando no meio das cenas, dando ao espectador certa sensação de proximidade.

Diz Baumbach à revista “Sight & Sound”: “Um encontro de família pode trazer o melhor e o pior de você, com pessoas freqüentemente regredindo a atos infantis. Além disso, membros de uma família dividem uma história, uma linguagem secreta, uma série de questões de orgulho e suposições etc., mas quando todos se tornam mais velhos, essas questões se quebram, e eu estou interessado em como as pessoas lidam com isso”.

Já em outro extremo, nada realista, está o registro de David Lynch para questões pessoais. Seu primeiro longa, o cultuado “Eraserhead” (1977) finalmente ganha lançamento em DVD no Brasil.

Longa-metragem que têm mais a ver com os primeiros trabalhos de videoarte de David Lynch, “Eraserhead” não têm uma estrutura convencional. Pode parecer óbvio, para quem assistiu a “Cidade dos Sonhos” ou “Império dos Sonhos”, mas o fato é que em “Eraserhead” estamos em um lugar não-identificado, que poderia ser a Terra ou qualquer outro planeta, época ou dimensão. E as pessoas não se parecem muito com pessoas, são criaturas/monstros literais.

No sentido simbólico, são metáforas claras de Lynch para um drama que ele vivia na época. Ele buscava representar seu medo da paternidade. Enquanto Lynch não chega ao Brasil para sua palestra, “Eraserhead” é fundamental para se entender as paisagens mentais do artista.

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h37 PM

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Ethan Coen, Mamet, Castellitto

Ethan Coen, Mamet, Castellitto

Por Sérgio Rizzo (em Nova York)

“Isto aqui não é David Mamet!”, diz um dos personagens para se defender dos insultos do outro. Ambos protagonizam um debate que parece eleitoral, mas que gira em torno da obediência aos Dez Mandamentos. O sujeito que insulta o colega (e a platéia), colérico com o comportamento da humanidade, se veste com uma bata branca e tem os cabelos longos e rebeldes; o outro, mais gentil e ponderado, usa paletó e gravata. Eles representam dois aspectos de Deus, ou da idéia de Deus, ou do humor que Ethan Coen extrai de figuras divinas em chave contemporânea.

A cena pertence a “Debate”, a última das três peças curtas que somam 85 minutos e compõem o espetáculo “Almost an Evening”, que estreou em Nova York no início do ano, no Linda Gross Theater (casa da Atlantic Theater Company, que produz a peça), e prossegue em cartaz no Theatres at 45 Bleecker Street, pequeno teatro off-Broadway, no Village. No domingo (dia 4), havia cerca de 50 espectadores – em sala com capacidade para o dobro.

A estréia de Ethan Coen no teatro – ele também é autor dos livros “Gates of Eden”, de contos, e “The Drunken Driver Has The Right of Way”, de poemas – está em plena sintonia com o tom de humor dos filmes realizados com o irmão, Joel Coen. “Debate” fica para o fim porque é a mais longa e divertida, com a estrutura de peça-dentro-da-peça: o tal confonto entre o Deus que Julga (F. Murray Abraham) e o Deus que Ama (Mark Linn-Baker) é um espetáculo teatral; quando termina, acompanhamos o que ocorre em um restaurante com um casal que assistiu ao espetáculo e com um dos atores. No final, volta-se ao espetáculo, na apresentação seguinte.

“Waiting”, que abre “Almost an Evening”, recria um purgatório com cara de repartição pública. Ali, um pobre coitado (Joey Slotnick) arrasta-se de sala em sala na tentativa de liberar a sua ida para o céu, mas os funcionários do lugar não colaboram – ou, como se desconfia, talvez façam apenas a sua parte. “Four Benches”, a peça curta intermediária, ironiza a trajetória de um britânico (Tim Hopper) nos EUA por meio de quatro encontros com outros homens em bancos, dois deles em saunas.

Assinada por Neil Pepe, diretor artístico do Atlantic Theater desde 1992, a montagem tem Abraham (o Salieri de “Amadeus”) como destaque em elenco de tipos bem marcantes – atores que poderiam estar em “Fargo” ou “O Grande Lebowski”. “Almost an Evening” cairia muito bem em um dos teatros da Praça Roosevelt, em São Paulo. Sugiro o ator Marco Antônio Pâmio -que adaptou recentemente “Edmond”, de David Mamet, e tem familiaridade com esse gênero de humor negro norte-americano- para cuidar da tarefa.

Além da frase mencionada lá em cima, há outra referência (indireta) a Mamet no espetáculo, quando alguém faz uma piada com jiu-jítsu (leia abaixo). São inserções carinhosas, ninguém tenha dúvida: Ethan Coen admira o talento de Mamet e Neil Pepe dirigiu textos do dramaturgo e cineasta, como “American Buffalo” e “Romance”.

“Brazilian jiu-jítsu”

“Cinturão Vermelho”, o filme de David Mamet ambientado no universo do “Brazilian jiu-jítsu” de Los Angeles, estreou em Nova York na última sexta-feira (dia 2), em três cinemas. Na sessão nobre de sábado, no complexo Loews/AMC próximo ao Lincoln Center, havia cerca de 20 pessoas em uma sala com capacidade para 300. Enquanto isso, “Homem de Ferro” abarrotava outras salas do multiplex e fazia o banheiro masculino ter fila muito maior do que o feminino, coisa rara ali.

A “Folha” assistiu a dois dias de filmagens, em junho do ano passado, em Los Angeles. Era fácil perceber, na ocasião, o entusiasmo de Mamet com o jiu-jitsu e com seus professores brasileiros. Esse envolvimento foi parar nas cenas de lutas, muito bem coreografadas. O que cerca a ação -incluindo os personagens brasileiros feitos por Alice Braga, a mulher do protagonista (Chiwetel Ejiofor), e Rodrigo Santoro, que faz seu irmão- não corresponde à densidade de personagens e à agilidade de diálogos a que faz referência aquela brincadeira de Ethan Coen e Neil Pepe em “Almost an Evening”. Para dizer o mínimo.

Castellitto em “Nárnia”

Depois de David Mamet dirigir filme sobre “Brazilian jiu-jitsu”, Philip Glass fazer a trilha sonora de um filme de Woody Allen (“O Sonho de Cassandra”) e Robert Downey Jr. interpretar super-herói de HQ (“Homem de Ferro”), outro encontro improvável de 2008: o ator italiano Sergio Castellitto (“Concorrência Desleal”, “Não se Mova”) como um vilão de filme da Disney em “As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian”.

A Folha assistiu nesta segunda-feira (dia 5) a uma pré-estréia do filme, em Nova York, em uma ampla sala da rua 42, com cerca de 600 espectadores; metade eram crianças e adolescentes. A meninada aplaudiu meia dúzia de vezes – em grandes feitos dos mocinhos, em um beijo anunciado o filme inteiro e quando acontece ao personagem de Castellitto, o Rei Miraz, o que você já imagina que vá acontecer, mesmo que não tenha lido o livro.

Público que vibra com a derrocada do vilão só pode deixar o ator que o interpreta satisfeito. Boa, Castellitto.

(O jornalista Sérgio Rizzo viaja a Nova York a convite da Disney.)

Escrito por Sérgio Rizzo às 12h45 PM

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Sucesso em 3D

Sucesso em 3D

Por Silvana Arantes

“Hannah Montana” fez 16,6 mil espectadores em sua estréia no Brasil, na semana passada. O volume de público não impressiona, se considerado isoladamente. Levando-se em conta que o filme ocupou apenas cinco salas (equipadas com tecnologia 3D), no entanto, vê-se que o título adolescente alcançou a excepcional média de 3.252 espectadores por cópia. O site Filme B observou que “é a melhor média de um filme 3D desde a implantação do formato no país, em outubro de 2006”. A segunda melhor média do fim de semana retrasado foi de “Quebrando a Banca” _693 espectadores por cópia. Enquanto isso, nos EUA, esquenta a discussão sobre a implantação de salas 3D, que os grandes da indústria querem acelerar.

Escrito por Silvana Arantes às 4h28 PM

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A zona

A zona

No podcast deste final de semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo fala sobre o filme "Zona do Crime", produção Espanha/México, que estréia hoje. Primeiro longa do diretor Rodrigo Plá, "Zona do Crime" aborda o tema das desigualdades sociais ao focar moradores de um condomínio de luxo, na Cidade do México, que tentam se isolar da violência urbana. Para ouvir o podcast, clique no microfone.

Escrito por Sérgio Rizzo às 11h27 AM

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À espera de um milagre

À espera de um milagre

Por Cássio Starling Carlos

As relações amorosas entre Eric Rohmer e seu público brasileiro costumam, como nos filmes do diretor francês, ser instáveis, irregulares e subtraídas por causa da inconstância dos distribuidores.

Ausente das nossas telas durante décadas, com exceção de exibições demasiado esparsas ao longo dos anos 80 e 90, os filmes de Rohmer reencontraram seu público há poucos anos, quando os ciclos dos “Contos Morais”, das “Comédias e Provérbios” e dos “Contos das Quatro Estações” puderam ser redescobertos em bloco.

Mas o último trabalho de Rohmer a ser exibido aqui foi “A Inglesa e o Duque”. Dos dois mais recentes, “Agente Triplo” e “Os Amores de Astrée e Celadon”, salvo engano, só o primeiro foi mostrado no Festival do Rio em 2004, enquanto o último permanece criminosamente inédito.

Em DVD, a sorte dos admiradores de Rohmer pelo menos se manteve com o pacote de 19 títulos lançados pela Europa Filmes. E para quem ficou em São Paulo neste feriado prolongado, há uma boa oportunidade de conhecer um recorte da obra de Rohmer no ciclo “O Jogo da Sedução”, em cartaz no Centro Cultural São Paulo até domingo.

Em meio às ficções, dois documentários programados no ciclo são utilíssimos para entender por que Rohmer encanta alguns e provoca ira em outros. Em “A Fábrica do Conto de Verão”, o assistente de direção Jean-André Fieschi registra em tom de “making of” o processo de “mise-en-scène” de Rohmer, o trabalho de corpo-a-corpo com os atores (ver o diretor octogenário se divertindo numa pista de dança é um dos tantos momentos deliciosos da produção) e, em particular, a obsessão rohmeriana na construção dos espaços e a peculiaridade do realismo de seu cinema.

O outro título ganhou a tradução confusa de “Eric Rohmer, Provas de Apoio aos 120’”, mas o equivalente mais adequado em português é “Baseado em Provas”. Trata-se de um título da importantíssima série francesa “Cineastas do Nosso Tempo”, dirigida por André S. Labarthe. Neste, Rohmer recebe no escritório de sua produtora o crítico Jean Douchet e ao longo de duas horas os dois conversam sobre o método de criação do cineasta e as implicações do que alguns chamam, equivocadamente, de “improvisações”.

Com sua aparência burlesca, tal como os tipos de Buster Keaton, Rohmer abre sua caixa de segredos e entulha uma mesa com uma série de revelações, desde os cadernos de cores específicas nos quais anota o processo de pensamento de um filme até os registros de ensaios com os atores, passando por comentários extremamente esclarecedores a respeito do processo, que muitos consideram misterioso, chamado “mise-en-scène”.

Sem nenhuma ênfase no didatismo, mas também sem pudores de esteta que se esconde sob segredos, Rohmer rompe mistérios, lança luz sobre o enigma da criação, tal como um filósofo iluminista. Ao final, o espectador posta-se ainda mais admirado ao entender como a arte de Rohmer faz a transmutação do prosaico em poético, da imanência (dos corpos, da natureza) em transcendência. Na falta de uma palavra que melhor defina esse processo, a mais adequada continua sendo aquela que também dá nome a um fenômeno que ocorre com certa freqüência na obra do diretor: milagre.

***

Milagre também é o que se assemelha ao que Rohmer alcança em seu último filme, “Les Amours de Astrée et Céladon”, que acaba de sair em DVD na França. Baseado em um clássico do início do século 17, um romance de mais de 5.000 páginas, escrito por Honoré d’Urfé, o filme narra as peripécias de Eros, que flecha dois jovens pastores e ao mesmo tempo os impede de se aproximarem. Carregado de deliciosos anacronismos, “Les Amours de Astrée et Céladon” renova o interesse de Rohmer pelas vicissitudes do desejo e sua obsessão pela palavra como aquilo que, ao mesmo tempo, possibilita e impede a comunicação plena entre duas pessoas.

Como em todos os filmes do diretor, neste fala-se pelos cotovelos e quanto mais se fala mais se confunde. O modo de escapar desta armadilha humana, demasiado humana, será pela imagem, ainda uma vez indireta, carregada de subterfúgios (uma situação de travestismo na qual se reconhece em Rohmer um herdeiro de Hitchcock).

Só o classicismo de sua feitura e o anacronismo de seu tema e forma já bastariam para considerar um milagre a existência deste filme nos dias de hoje.

Mais milagroso ainda é ver um artista que acaba de completar 88 anos filmar a vida e o amor como se tivesse acabado de chegar ao mundo.  

Veja trecho de “Les Amours de Astrée et Céladon”:

Escrito por Cássio Starling Carlos às 1h27 PM

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Os estranhos de Jim Jarmusch

Os estranhos de Jim Jarmusch

 

Por Bruno Yutaka Saito

Era 2003, e o Cinesesc resolvera abrir uma micromostra-relâmpago com dois filmes de Jim Jarmusch: “Estranhos no Paraíso” (84) e “Down by Law” (86). Surpresa: na primeira exibição, do primeiro filme, uma fila quilométrica fazia o público dobrar a esquina da rua Augusta.

Supresa, mas nem tanto. A pequena multidão ali presente apenas confirmava o fato de que Jarmusch está num lugar privilegiado da memória afetiva de quem acompanhou seu surgimento, nos anos 80, ou apenas ouviu relatos de amigos apaixonados.

Para esses fãs, a boa notícia: “Permanent Vacation” (80), seu primeiro filme, visto por pouquíssimas pessoas por aqui, já está nas lojas de DVDs. Na seqüência, chegam “Estranhos no Paraíso” e “Dead Man” (95).

Jarmusch em registro ainda bruto, como costumam ser filmes de estréias, “Permanent Vacation” acompanha Allie, jovem fã de Charlie Parker, que vagueia à esmo pelo Lower East Side, em Manhattan (Nova York), que mais parece uma cidade destruída por bombas (o registro de época é um dos pontos fortes do filme). Ele está num profundo vazio existencial, e vai encontrando estranhos personagens pelo caminho.

Ou seja, personagens solitários em uma trama sobre o “nada”, território que Jarmusch refinaria em suas produções seguintes. A diferença é que, em “Permanent Vacation”, o tom cômico fica um pouco por baixo do drama. Não é exagero comparar a melancolia de Allie ao zeitgeist da época, do pós-punk, ainda que seja o jazz que dê o tom do filme.

E por que Jarmusch causa filas e fascínio? É fácil entender a razão na geração próxima dos 40 anos. Filmes como “Estranhos no Paraíso” fazem parte de um contexto que englobava bandas como The Smiths, Legião Urbana e The Cure, livros de Caio Fernando Abreu etc., nomes, enfim, que evocam um romantismo urbano, adequado para certo clima de fim da civilização. Para os mais novos, desolação, alienação, solidão e busca por contato e afeto, questões também tocadas por Jarmusch, são fatores que sempre vão causar fascínio.

Veja abaixo uma cena, com uma sensacional dança de Allie, personagem que adota o lema “viva intensamente, morra jovem”:

 

A seguir, trailer de "Estranhos no Paraíso":

E um videoclipe de "Dead Man" (com trilha de Neil Young):

Escrito por Bruno Yutaka Saito às 12h39 PM

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Fernando Meirelles abre Cannes

Fernando Meirelles abre Cannes

Por Silvana Arantes

É oficial. O Festival de Cannes acaba de anunciar que "Blindness", o novo filme de Fernando Meirelles, abrirá a sua 61ª edição, no próximo dia 14 de maio, competindo pela Palma de Ouro. Em geral, os filmes de abertura em Cannes são exibidos fora de competição. O trailer está aqui.

Escrito por Silvana Arantes às 4h32 PM

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“Homem de Ferro” e a turma das 500 cópias

“Homem de Ferro” e a turma das 500 cópias

 
Cena de "Homem de Ferro"

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Encerrado o primeiro quadrimestre, nenhum filme lançado no Brasil se aproximou da faixa de três milhões de espectadores. A liderança está com “Eu Sou a Lenda” (2,222 milhões), seguido de “Meu Nome Não É Johnny” (2,1 milhões) e “Alvin e os Esquilos” (1,411 milhões), de acordo com levantamento do Filme B.

A retração de público em relação a 2007 _que já havia mostrado redução na comparação com 2006_ tem variado, nos últimos finais de semana, entre 1% e 33%. Distribuidores e exibidores a atribuem, entre diversos fatores, à falta de títulos com fôlego para atingir números expressivos.

Em 2007, cinco filmes chegaram à marca simbólica dos 3 milhões de espectadores: “Homem-Aranha 3” (6,141 milhões), “Shrek Terceiro” (4,688 milhões), “Harry Potter e a Ordem da Fênix” (4,263 milhões), “Piratas do Caribe 3” (3,826 milhões) e “Uma Noite no Museu” (3,030 milhões).

A partir desta semana, no entanto, o fator oferta não poderá mais ser invocado para explicar a retração. Começam amanhã (quarta, dia 30) a entrar em campo os candidatos aos primeiros postos do ranking em 2008, com o lançamento de “Homem de Ferro”. A distribuidora Paramount informa que serão 500 cópias _333 legendadas e 167 dubladas. O número equivale a algo entre 20% e 25% do total de salas em funcionamento no país, pouco superior a 2 mil.

Se esses filmes também não obtiverem números significativos, outras razões para a crise ganham força. Preço dos ingressos, pirataria e mudanças de hábito do público, sobretudo o jovem, lideram a fila, não necessariamente nessa ordem.

Acompanhe o calendário da corrida dos milhões no Brasil, ou a “turma das 500 cópias”:

9 de maio: “Speed Racer”, dos irmãos Andy e Larry Wachowski, Warner

22 de maio: “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, de Steven Spielberg, Paramount

30 de maio: “As Crônicas de Nárnia – Príncipe Caspian”, de Andrew Adamson, Disney

13 de junho: “Fim dos Tempos”, de M. Night Shyamalan, Fox; e “O Incrível Hulk”, de Louis Leterrier, Universal

18 de julho: “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, de Christopher Nolan, Warner

7 de novembro: “007 – Quantum of Solace”, de Marc Forster, Sony

21 de novembro: “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”, de David Yates, Warner

Escrito por Sérgio Rizzo às 4h18 PM

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Haneke reafirma a vitória da barbárie

Haneke reafirma a vitória da barbárie


O original: Paul (Arno Frisch) flerta com
 a platéia em “Funny Games” (1997)

Por Leonardo Cruz (em Paris)

O que motiva um cineasta a refazer o mesmo filme dez anos depois? E um filme como “Funny Games”, que transforma a platéia em cúmplice de uma sessão lúdica de tortura e assassinato? A resposta do diretor Michael Haneke: o longa original, de 1997, rodado na Áustria e falado em alemão, não atingiu seu alvo.

“O primeiro filme já se endereçava aos espectadores anglófonos, consumidores de violência. Mas não funcionou. A língua foi um obstáculo, e o filme ficou restrito nos EUA ao circuito de arte. Por isso aceitei esse remake”, declarou Haneke ao jornal “Libération”, por conta do recente lançamento na França de “Funny Games U.S.”.

Produção da Warner Independent, filmado no ano passado nos EUA, falado em inglês e com Naomi Watts, Tim Roth e Michael Pitt como protagonistas, o novo “Funny Games” é uma cópia fiel ao original, mesmo argumento, mesmos diálogos, mesmos planos, mesmo exercício de sadismo. Vemos novamente a história da família rica e feliz que tem sua casa na beira do lago gentilmente invadida por dois jovens que brincam de matar. E mais uma vez aceitamos acompanhar o jogo que massacra pai, mãe, filho e cãozinho fofo.


A cópia: Paul (Michael Pitt) flerta com
 a platéia em “Funny Games U.S.” (2007)

Com nova roupagem, “Funny Games U.S.” não tem mais o efeito surpresa do original, mas a repetição das mesmas seqüências de violência talvez seja mais atordoante do que há uma década, porque tudo o que Hakene nos mostra (ou apenas nos sugere) continua atual. Ou melhor, torna-se ainda mais atual, plausível, nestes tempos de Columbines e Abu Ghraibs.

Ao refazer o mesmo filme de horror, Haneke parece querer nos dizer que o tempo passou, e a barbárie continua, prevalece, e que estamos nos habituando a ela. Como disse o diretor no “Libération”, “ninguém é inocente”, todos somos jogadores.

Por não abrir mão dessa barbárie, “Funny Games U.S.” foi rejeitado por redes de multiplex norte-americanas. Estreou nos EUA em março em 288 salas e acumula até agora renda doméstica de US$ 1,3 milhão, números bastante modestos para os padrões hollywoodianos. E sinal de que, mesmo falada em inglês, a mensagem de Haneke não atinge plenamente seu alvo.

No Brasil, O longa está comprado pela distribuidora Califórnia e, segundo o portal Filme B, deve estrear em agosto. A seguir, os trailers dois filmes de Haneke, primeiro o austríaco, depois o americano.

 

Escrito por Leonardo Cruz às 12h05 PM

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Cinema na Virada

Cinema na Virada

No podcast desta semana, o crítico da Folha Sérgio Rizzo comenta a programação de cinema da Virada Cultural, evento cultural que toma São Paulo durante 24 horas, a partir do sábado, às 18h. Entre os destaques, a Galeria Olido traz a Mostra Internacional de Cinema na Virada, com filmes como o mexicano “O Violino” e o chileno “Machuca”, e o Sesc Ipiranga, que vai exibir curtas de Charles Chaplin ao ar livre. Para ouvir o podcast, clique no microfone abaixo.

Escrito por Sérgio Rizzo às 11h42 AM

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Tom Kalin fala sobre “Pecados Inocentes”

Tom Kalin fala sobre “Pecados Inocentes”

Por Sérgio Rizzo (crítico da Folha)

Quase um ano depois de fazer sua premiére mundial no Festival de Cannes, “Pecados Inocentes” estréia hoje (sexta) em São Paulo (já estava em cartaz no Rio de Janeiro desde a semana passada), será exibido amanhã (sábado) no Festival Tribeca, em Nova York, e tem estréia prevista nos EUA para o final de maio.

Primeiro longa-metragem de ficção dirigido por Tom Kalin desde “Swoon – Colapso do Desejo” (1992), o filme se baseia no livro “Savage Grace”, de Natalie Robins e Steven M. L. Aronson, a “verdadeira história das relações fatais em uma rica e famosa família norte-americana”, os Baekeland.

Abaixo, os principais trechos de entrevista concedida ontem por Kalin à Folha.

“Tenho uma carreira eclética. Trabalhei como produtor para outros diretores, por exemplo. Fiz diversos trabalhos experimentais em cinema e vídeo, em paralelo a meus filmes narrativos, ao longo dos últimos 20 anos. Sou professor no programa de graduação da Universidade Columbia há uma década. Depois de ‘Swoon’, produzi ‘O Par Perfeito’ (1994) e ‘Um Tiro para Andy Warhol’ (1996). Desenvolvi dois longas de não-ficção – um sobre as relações entre Patti Smith e Robert Mapplethorpe, e outro sobre a banda de rock norte-americana The Monks. Escrevi o roteiro de ambos, mas não os filmei. Durante os anos 90, fiz vários curtas de ficção, como ‘Geoffrey Beene 30’, com Marcia Gay Harden, Claire Danes e Viveca Lindfors, e ‘Plain Pleasures’, com Frances McDormand, Will Patton e Lili Taylor. Meu trabalho experimental recente inclui ‘Every Wandering Cloud’ e ‘Cheap & Vulgar’, que existem também em forma de instalação, e que já foram exibidos em festivais, canais de TV e no circuito de galerias e museus.”

“Minha produtora Christine Vachon e eu dividimos uma predileção pouco saudável por histórias sobre crimes verdadeiros. Ela me deu ‘Savage Grace’ enquanto eu fazia ‘Swoon’ e o livro me agarrou pela garganta. Está um degrau acima de muitos livros do gênero, com uma inesquecível mistura de sensacionalismo de tablóide com tragédia grega. É contado em primeira pessoa, nas vozes dos personagens, uma obra jornalística notável que nos oferece muitas visões contraditórias. Christine e eu tentamos, sem sucesso, fazer um projeto com o grupo The Really Useful Group, de Andrew Lloyd Weber, em meados dos anos 90 (até então, nenhuma versão musical havia sido planejada). Por muitos anos, ‘Savage Grace’ ainda permaneceu em minha imaginação. Assim, começamos a rolar a bola outra vez. A partir do momento em que Julianne Moore entrou no projeto, tudo começou a andar. Filmamos o longa inteiramente em Barcelona (Julianne é a única norte-americana do elenco) no verão de 2006.”

“Julianne foi a única pessoa que eu poderia imaginar como Barbara. Eu a conhecia superficialmente dos períodos em que Todd Haynes estava filmando ‘Safe – Mal do Século’ e ‘Longe do Paraíso’. Ela é muito amistosa, pé no chão. Eu escrevi a ela uma carta pessoal e enviei junto o roteiro assombroso de Howard Rodman. Uma semana depois, estávamos almoçando. Ela disse ‘sim’ imediatamente e foi o seu envolvimento que tornou o filme possível.”

“Fiz testes com cerca de 100 atores para o papel de Antony. Eddie Redmayne simplesmente apareceu e ficou com o personagem. Ele era surpreendente, envolvente, passando de um rapaz terno e frágil para um homem ansioso, e com um rosto inesquecível que evoca os anos 60. Ele também se parece muito com o que poderia ser um filho de Julianne, e isso acrescenta um poder visceral ao papel.”

“Dirigir atores é uma dança complexa e única com cada pessoa que trabalha com você. O papel do diretor é orquestrar a atenção do público, e não dar aos atores as falas do diálogo. Às vezes, a melhor coisa que se pode fazer é dar ao ator espaço e liberdade para correr riscos. Julianne é notável em sua maneira de encontrar os menores e mais precisos momentos de comportamento e de ação física que trazem vida à cena. Escalar bem o elenco de um filme é a melhor desforra porque, se (como diz o clichê) atuar é reagir, o filme se beneficia enormemente de uma grande química entre os atores.”

“Barbara e Tony são personagens simbióticos; no sentido místico, quase as duas metades de um todo. O filme é baseado na perspectiva de ambos, embora na visão tradicional possamos ver Barbara como a principal protagonista porque ela conduz a história para a frente, literalmente. Penso que, nesse filme, a empatia e a compaixão são mais importantes do que a tradicional ‘identificação’ com os personagens. A voz over de Tony é também uma janela dentro do filme e seu personagem oferece um aspecto emocional diferente para a história. Barbara e Tony são apanhados em uma dança terrível e fatal.”

(Atenção: abaixo, o diretor conta detalhes da trama)

“O filme é a história de um profundo fracasso nos mais simples deveres do amor. Por exemplo, o dever de um marido amar a esposa, ou o de pai e mãe amarem sua criança... Essa família acabou transformando o que poderia ser carinhoso e libertário em uma prisão claustrofóbica. Enquanto fazia o filme, eu estava muito interessado nesta questão: Tony é quem mata Barbara ou a morte dela é, de certa forma, um complexo suicídio? Ela usa seu filho como instrumento para terminar com a própria vida? A tragédia é uma história humana fundamental e, embora fortemente movido por essas emoções, penso que foi possível também trazer empatia e compaixão para o filme.”

“Tomo emprestada a sabedoria de uma frase de Elia Kazan: ‘Dirigir consiste em transformar psicologia em comportamento’. Como muitos já disseram, cinema é um meio para ‘mostrar’ e não ‘dizer’. Quis fazer uma abordagem lírica e visual do colapso mental de Barbara e Tony, e baseá-la em momentos específicos de comportamento que trazem para a luz o que está debaixo da superfície.”

“Eu e meus colaboradores estávamos interessados em expressar os cinco períodos de tempo, de 1946 a 1972, com referências à linguagem cinematográfica daquelas épocas. Assisti a filmes como ‘Gilda’, ‘Bela da Tarde’, ‘O Criado’, ‘Desprezo’ e ‘Morte em Veneza’ para saturar meus olhos e sensibilidade. (Robert) Bresson estava na minha cabeça também. Apesar disso, não vejo esse filme como ‘pós-moderno’. Quis encontrar uma linguagem sincera e específica para ‘Pecados Inocentes’. Ao mesmo tempo em que fomos inspirados por muitos diretores, procuramos sempre achar uma linguagem visual única, misteriosa e específica para essa história. Cada filme dirá a você como filmá-lo se você o ouvir atentamente.”

“Hoje, admiro mais cineastas do que os que aparecem nesta lista, mas são eles que vêm à mente nesta manhã, sem nenhuma ordem de preferência: Lucrecia Martel, Agnés Varda, Hou Hsiao-hsien, Alfonso Cuarón,  Todd Haynes, Paul Thomas Anderson, Kelly Reichardt, Gus Van Sant, Lynne Ramsay, Claude Chabrol, Karïm Ainouz, Wong Kar-wai.”

Escrito por Sérgio Rizzo às 9h39 PM

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Em busca do filme perdido

Em busca do filme perdido

Por Cássio Starling Carlos

O tempo e a memória, os amores perdidos e a impossibilidade de reencontrá-los são os temas mais recorrentes nos filmes de Wong Kar-wai, como se pode conferir, ainda uma vez, no belo “Um Beijo Roubado”, incursão do diretor chinês em território norte-americano. Em ritmo de conta-gotas, o público brasileiro pôde conhecer as minúcias do ritmo ao longo de toda a obra de WKW, desde que se decidiu distribuir os trabalhos anteriores à sua repercussão internacional, cujo marco é “Amores Expressos”.

Mas ficou faltando “Ashes of Time”, um título considerado atípico, em particular por ser uma incursão no universo “wuxia”, o filme de artes marciais.

Depois de ser exibido na 19ª Mostra Internacional de São Paulo, em 1995, “Ashes of Time” virou raridade. Agora em versão “redux”, “Ashes of Time” tem seu relançamento anunciado com pompa, com direito a exibição especial durante o próximo Festival de Cannes, de 14 a 25 de maio. A Sony Picture Classics já fechou com a Fortissimo a distribuição para o mercado norte-americano. E espera-se que desperte a atenção de algum distribuidor brasileiro.

Segundo informações dispersas, para “Ashes of Time Redux” WKW não rodou novo material, mas remasterizou, restaurou e reeditou o original. A intenção do diretor foi reorganizar a estrutura narrativa, impor mais clareza e formatar uma versão definitiva para posterior lançamento em DVD.

Acostumados ao universo predominantemente urbano do direto, mesmo que por vezes sujeito a nostalgias, os fãs dos filmes de WKW podem estranhar seu mergulho no tempo imemorial em “Ashes of Time”. Descrito sumariamente como “filme de kung fu”, “Ashes of Time” faz parte do esforço de WKW em se adaptar ao modelo industrial do cinema de Hong Kong, calcado na produção de gêneros. Depois de realizar um policial e um melodrama, WKW se dedicou ao “wuxia”. Como a ênfase na complexidade visual exigiu uma pós-produção mais demorada, WKW aproveitou o tempo para rodar, com leveza e agilidade, “Amores Expressos”, o filme que fez seu nome circular no Ocidente. 

De kung fu, contudo, não há muito em “Ashes of Time”. As lutas estão lá, coreografadas como de hábito no cinema local, mas passam por um processo de desconstrução na imagem, que se tornaria daí em diante uma das marcas recorrentes dos filmes de WKW. O gesto é decomposto, desacelerado, até mesmo paralisado, e reacelerado, num esforço de tornar visível o tempo por trás da ação. É curioso observar como WKW formata esse recurso justamente nas cenas em que o movimento se impõe como o centro da nossa atenção.

À margem desses momentos, o diretor tece uma complexa trama de nostalgia e evocações, a partir das figuras dos dois heróis centrais e das mitologias que os acompanham. A sobreposição de tempos, a indeterminação do foco da narrativa, a aparição de personagens em memórias desconectadas tornam a compreensão do filme bastante complicada.

Entretanto, a imersão num universo que lhe é estranho em aparência torna ainda mais evidentes as recorrências formais do diretor. Dá para conferir na telinha do YouTube, mas espera-se que a versão “redux” não demore a chegar a uma telona ao nosso alcance.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 3h04 PM

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O blog "Ilustrada no Cinema" é uma extensão da cobertura de cinema publicada diariamente no caderno cultural da Folha. É um espaço para críticas, notícias e curiosidades sobre o mundo cinematográfico, coordenado pelo jornalista e editor-assistente da Ilustrada, Leonardo Cruz, e também produzido pelos repórteres Lúcia Valentim Rodrigues, Silvana Arantes e Bruno Yutaka Saito.

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