Ilustrada no Cinema
 

Os vídeos e os duendes de Esmir Filho

Por Leonardo Cruz (no Rio)

Autor de bons curtas como “Saliva” (2007) e “Alguma Coisa Assim” (2006), Esmir Filho faz sua estreia em longas-metragens com o belo “Os Famosos e os Duendes da Morte”, apresentado em competição na noite de ontem no Festival do Rio.

O filme conta a história de um adolescente que vive numa pequena cidade gaúcha de raízes alemãs e que encontra na internet uma saída para o isolamento do interior do Rio Grande do Sul. Essa interação digital do personagem é ponto central do filme e resultado da pesquisa do cineasta para a obra: ele encontrou parte do elenco pela rede, em pesquisas entre os jovens descendentes de imigrantes da região do vale do Taquari, onde o longa foi rodado.

Para Esmir, seu filme é a peça principal de “um movimento integrado”, que transborda o cinema. Outra peça é o romance homônimo e autobiográfico de Ismael Caneppele, que inspirou o filme e que está sendo lançado pela editora Fina Flor.

Os outros dois braços do movimento estão na internet. Primeiro: os canais de Jingle Jangle no YouTube e no Flickr. No filme, Jingle Jangle é a garota misteriosa por quem o protagonista se interessa. Ele passa boa parte do tempo assistindo aos vídeos que ela grava e coloca no YouTube. Esses vídeos, que aparecem em vários momentos do filmes, estão na íntegra nesse canal de Jingle Jangle.

Segundo: as músicas de Nelo Johann, jovem gaúcho que compôs quase todas as canções de “Os Famosos e os Duendes da Morte”. Johann disponibiliza seu trabalho na internet desde 2001. São 16 discos inteiros (incluindo alguns EPs), divulgado na página dele no MySpace e pelo site 4shared.com, de troca gratuita de arquivos na rede.

“Eu queria que o filme juntasse várias formas de expressão que estavam soltas na internet. Que trouxesse uma voz, criasse uma rede entre essas pessoas”, diz Esmir Filho, que ficou conhecido na internet em 2006 pelo curta “Tapa na Pantera”, um dos primeiros grandes hits do YouTube no Brasil.

No vídeo no alto deste post, assista a um teaser do filme de Esmir Filho, que passa ainda nesta terça no Festival do Rio. O longa também será exibido na Mostra de SP em outubro e deve entrar em cartaz no país em fevereiro ou março de 2010. Abaixo, alguns dos vídeos de Jingle Jangle (em que ela aparece com Julian, outro personagem misterioso do filme). São ótimos para entender um pouco o espírito do longa.

Leia a cobertura diária do Festival do Rio na versão impressa da Ilustrada. A reportagem completa sobre "Os Famosos e os Duendes dos Mortos" será publicada na edição desta terça. 

Escrito por Leonardo Cruz às 3h05 PM

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Uma conversa com Jeanne Moreau

                                                                                    Divulgação

Por Leonardo Cruz (no Rio)

Na entrevista a seguir, concedida no Rio de Janeiro anteontem, a atriz francesa Jeanne Moreau, 81, fala sobre passagens importantes de sua carreira, do trabalho com grandes amigos, como Orson Welles, François Truffaut, Louis Malle e Luís Buñuel. Principal homenageada do Festival do Rio, ela também discute suas técnicas de interpretação e relembra as filmagens de “Joana Francesa”, que fez com Cacá Diegues em 1973, em Marechal Deodoro (Alagoas). Pela agenda apertada da atriz no Brasil, a conversa foi curta, apenas 40 minutos. E ficaram de fora questões sobre nomes importantes na carreira dela, como Antonioni, Fassbinder e Wenders.

A DESCOBERTA DO TEATRO
Vivi em Paris durante toda a ocupação, criada de forma bastante rigorosa. Era proibida de ler jornais, de ver filmes, de ir ao teatro. Mas, nos momentos de ausência do meu pai, ficava um pouco mais fácil. Minhas amigas costumavam ir ao teatro. Éramos um grupo de quatro garotas. Menti para meu pai e fui com elas ver uma apresentação em um teatro de Paris, numa tarde. E era “Antígona”. Quando vi aquela performance, soube que ali era o local onde gostaria de estar. Por causa da heroína da peça, que diz ‘não’ ao poder, que se rebela. Quando contei em casa que queria ser atriz, meu pai me estapeou.
Mas minha mãe me apoiava. Comecei a estudar no conservatório em 1937, mesma época em que peguei meus primeiros papéis na Comedie Française. Assinei um contrato com a Comedie em 1938 e comecei a fazer cinema naquela mesma época.

MALLE E TRUFFAUT
Conheci Louis em 1957, depois de fazer “A Rainha Margot”, o primeiro filme francês em Tecnicolor, um grande sucesso. Estava no teatro na época, com Peter Brook, encenando “Gata em Teto de Zinco Quente”, de Tennessee Williams, quando recebi a visita de dois representantes da produtora de Louis Malle. Ele já era conhecido na época pelo filme que fez com Jacques Costeau [“O Mundo Silencioso”]. Meu agente não queria que eu trabalhasse com Malle. Ele disse: “Esse homem só sabe filmar peixes”. Mas eu me interessei por Malle e por suas ideias, troquei de agente e fiz “Ascensor para o Cadafalso”.
Em 1957, estava com Louis em Cannes, para apresentar “Ascensor”, no antigo Palácio do Festival, quando vi um homem pequenino vindo em nossa direção. Era François Truffaut, que conhecia Louis. Em um momento em que Louis estava longe, François pediu meu telefone e disse que queria me mandar um livro. Era “Jules e Jim”.
Quando estávamos filmando “Jules e Jim”, o coprodutor, de repente, parou de acreditar no filme, nas cenas que vira filmadas, e foi embora. Tivemos que parar as filmagens. Eu já tinha feito um bom dinheiro naquela época. Então disse a François: tenho dinheiro. E virei coprodutora do filme.

A ARTE E A NATUREZA HUMANA
Na minha vida, todos os filmes, mesmo os que não foram bem-sucedidos, construíram quem eu sou, não só a atriz mas principalmente a mulher. Minha vida toda é dedicada à tentativa de descobrir a natureza humana. Temos uma vida que nos é dada e precisamos fazer alguma coisa com ela. Não só ganhar dinheiro, casar, ter filhos, ficar velhos e morrer sem entender porque estamos neste mundo. Temos que buscar respostas. E eu sempre tive uma enorme curiosidade em relação à vida. Tenho certeza que morrerei sem ter entendido a natureza humana, mas não vou deixar de tentar.

BUÑUEL E WELLES
A criação de cada personagem é sempre diferente. Depende do diretor. Por exemplo, Don Luís [Buñuel, com quem ela fez “Diário de uma Camareira”] nunca falava sobre um filme ou um personagem. Nunca. Eu conhecia os filmes dele e intuía. Descobria o personagem só no set, pelas roupas que ele vestia.
Orson [Welles, com quem fez quatro filmes] era parecido, ele não intelectualizava. Você nunca sabia o que iria filmar. Ele não deixava você ver o roteiro. Só dava algumas indicações, mas também era tudo muito intuitivo. Gosto assim. Conheço atores que gostam de decorar suas falas, estudá-las, decorá-las. Eu nunca decoro minhas falas. Mas leio o roteiro todos os dias. Do começo ao fim, para ver como o personagem se encaixa.

FÚRIA NO SET (sobre a briga que teve com os irmãos Hakim, produtores de “Eva”, em 1962)
Estávamos muito desapontados, porque os produtores cortaram o dinheiro, curtaram cenas, não gostavam do filme, não corresponderam ao que esperávamos deles. Eu tinha imposto Joe Losey como diretor, e eles eram contra. Um dia, eles foram ao estúdio na Cinecittá. Havia uma mesa enorme no fundo, onde a equipe do filme comia. E havia uma faca grande para cortar pão. Eu ameacei um deles com uma faca. Disse que abriria o estômago dele, se ele não fosse embora. Ele foi.

FILMAGENS DE “JOANA FRANCESA” NO BRASIL
Sou uma eterna viajante. Estou sempre de malas prontas. E Cacá me convidou, fiquei encantada com a ideia, com a possibilidade de conhecer um novo país. O que mais me lembro é da cachaça. Bebíamos muito. Lembro do calor. Da Dona Maria, da fazenda em que filmamos perto de Marechal Deodoro. Não havia hotéis lá. Tive que dormir em um convento. Era obrigada a estar no quarto antes das dez da noite, enquanto os brasileiros da produção ficavam se divertindo. Lembro-me de ter acordado uma vez no meio da noite com duas freiras me olhando. Foi uma experiência muito poderosa, durante dois meses.
E, claro, outro momento forte foi gravar a canção de Chico [“Joana Francesa”, tema do filme]. Eu o conheci, Milton Nascimento e Caetano Veloso também estavam lá.

A “MALA” DO ATOR; A CRIAÇÃO DOS PERSONAGENS
Orson me dizia que ser ator é como ter nascido em um trem que ficará rodando por décadas sem parar. E você precisa ter todo o necessário em uma mala. Guarde nessa mala sua história, ideias, emoções. Não deixe nada para trás. E você a usa quando o personagem pede.
Quando tenho que retratar um ser humano nascido da imaginação, estou a serviço não só do diretor mas desse pessoa à qual entreguei minha carne, meu rosto, minha voz. Me entrego completamente para criar algo novo, que tem tudo de mim, mas que não se parece comigo.
E, quando acabo um filme, me separo totalmente do personagem. Algumas vezes nem vejo os filmes prontos. Porque já vi o filme de perto demais.

MEDO DO PALCO E OS AMIGOS QUE MORRERAM
Minha relação com os amigos que morreram é ainda tão importante quanto a que tenho com os vivos. Quando faço algo no palco, sempre há aquele momento de pânico, pouco antes da estreia, em que você esquece tudo, todo o trabalho que foi feito, a relação com outros atores, técnicos, o que o diretor espera de você. E de repente surge uma enorme calma. E eu dedico a noite a todas as pessoas que não estão lá. Amigos, família e todos esses homens e mulheres que foram e ainda são muito importantes para mim. Alguns atores encaram o palco como um ringue, como uma luta com o público. Eu não. Eu me entrego ao público com todo o amor de que sou capaz.

A ESTREIA COMO DIRETORA (com “Lumière”, de 1976)
Queria contar uma história sobre relacionamentos entre atrizes, algo que surgiu de uma conversa com François Truffaut. Sempre dizem que as atrizes se odeiam, são inimigas. Eu achava tudo isso estranho, coisa de americano. Mas, quando casei com um americano [o diretor William Friedkin], descobri que essa competição existe nos EUA, porque o mercado é diferente, a razão pela qual eles fazem cinema é diferente. A bilheteria é muito mais importante, e surgem essas brigas.
Por causa disso, comecei a escrever a partir de minha própria experiência. Conversei com Orson sobre isso. Ele foi a única pessoa que me encorajou a dirigir. Disse que eu conhecia a profissão, que estava sempre no set, e que tinha um desejo poderoso. E que, com um bom diretor de fotografia, eu conseguiria resolver qualquer dúvida técnica que tivesse.
Quando falei com François, ele não gostou da história. Mandei o roteiro para ele. E ele me devolveu cheio de anotações. Já não era mais minha história, era dele. Me arrependo de não ter guardado aquele roteiro.

O FILME QUE NÃO FEZ
Tinha um plano de fazer um filme sobre grandes atrizes na velhice. Sete grandes atrizes do cinema americano desde o nascimento do cinema. Comecei com Lillian Gish, fiz contato com Bette Davis e Ava Gardner. Greta Garbo também aceitou participar, desde que eu não filmasse o rosto dela. Eu queria filmar o andar dela. Na época, o produtor do filme, de quem eu era bastante próxima, ficou muito doente. Teve câncer no cérebro e se foi. E eu decidi abandonar o projeto.

A IMPORTÂNCIA DO CINEMA
O cinema, como toda arte, representa uma rebelião de uma certa parte da sociedade. É muito saudável para qualquer país ter um cinema forte, que discuta as questões. E eu sou e sempre fui uma rebelde.

*

Leia mais sobre Jeanne Moreau na versão impressa da Folha deste sábado (Ilustrada, pág. E5).

Escrito por Leonardo Cruz às 1h56 AM

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Os filmes da 33ª Mostra de SP

                                                                                 Fotos Divulgação

"35 Shots of Rhum", de Claire Denis, um dos filmes imperdíveis

Por Leonardo Cruz

Ainda falta pouco mais de um mês para a 33ª Mostra de SP, mas grande parte da programação do festival já está definida. Mais de 200 longas estão confirmados para o evento, que acontece de 22 de outubro a 5 de novembro. Muitos outros ainda devem entrar, e alterações ainda podem acontecer. A seguir, a lista dos filmes estrangeiros definidos até o momento, em ordem alfabética e seguindo os títulos divulgados pela Mostra. Os títulos em negrito são apostas e/ou recomendações do blog. Ao final do post, estão as homenagens e retrospectivas, que também ainda estão sujeitas a acréscimos e modificações.

“1ª Vez 16 mm”, de Rui Goulart (Portugal)
“35 Shots of Rum”, de Claire Denis (França)
“500 Dias com Ela”, de Marc Webb (EUA)

“A Farewell to Hemingway”, de Svetoslav Ovtcharov (Bulgária)
"A Fita Branca", de Michael Haneke (Áustria)

“A Frozen Flower”, de Yu Ha (Coreia)
“A Man who Ate his Cherries”, de Payman Haghani (Irã)
“À Procura de Eric”, de Ken Loach (Inglaterra)
“A Religiosa Portuguesa”, de Eugéne Green (Portugal)

“A Zona”, de Sandro Aguilar (Portugal)
“Accidents Happen”, de Andrew Lancaster (Austrália)

"Aconteceu em Woodstock", de Ang Lee (EUA)
“Adam”, de Max Mayer (EUA)
“Adam Resurrected”, de Paul Schrader (EUA)
“Altiplano”, de Peter Brosens e Jessica Woodworth (Alemanha)
“Amer”, de Hélène Cattet e Bruno Forzani (Bélgica, França)
“American Swing”, de Jon Hart e Mathew Kaufman (EUA)
“Amor en Tránsito”, de Lucas Blanco (Argentina)
“Amreeka”, de Cherien Dabis (EUA)
“Anaphylaxis”, de Ayman Mokhtar (Reino Unido)
“Ander”, de Roberto Castón (Espanha)
“Art Inconsequence”, de Robert Kaltenhaeuser (Alemanha)
“Arte de Roubar”, de Leonel Vieira (Portugal)

“Backyard”, de Carlos Carrera (México)
“Bad Day to Go Fishing”, de Alvaro Brechner (Espanha, Uruguai)
“Bathory”, de Juraj Jakubisko (Eslováquia)
“Be Calm and Count to Seven”, de Ramtin Lavafipour (Irã)
“Being Mr. Kotschie”, de Norbert Baumgarten (Alemanha)
“Beket”, de Davide Manuli (Itália)
“Bilal”, de Sourav Sarangi (Índia)
“Borderline”, de Lyne Charlebois (Canadá)
“Bright Star”, de Jane Campion (Reino Unido)
“Buddenbrooks”, de Heinrich Breloer (Alemanha)

“Carmel”, de Amos Gitaï (Israel, França)
“Chasing Che”, de Alireza Rofougaran (Irã)
“Cinerama”, de Inês de Oliveira (Portugal)
“Coffin Rock”, de Rupert Glasson (Austrália)
“Cold Souls”, de Sophie Barthes (EUA)
“Colin”, de Marc Price (Reino Unido)
“Comrade Couture”, de Marco Wilms (Alemanha)
“Cooking with Stella”, de Dilip Mehta (Canadá)
“Courting Condi”, de Sebastian Doggart (EUA, Reino Unido)
“Coweb”, de Xin Xin Xiong (Hong Kong, China)
“Crap’s Game”, de Ali Özgentürk (Turquia)

“Daniel & Ana”, de Michel Franco (México, Espanha)
“Dark Buenos Aires”, de Ramon Termens (Espanha, Argentina)
“Dear Lemon, Lima”, de Suzi Yoonessi (EUA)
“Delphi - 6”, de Rakeysh Omprakash Mehra (Índia)
“Desperados on the Block”, de Tomasz Emil Rudzik (Alemanha)
“Dogtooth”, de Yorgos Lanthimos (Grécia)
“Dorfpunks”, de Lars Jessen (Alemanha)


O grego "Dogtooth", prêmio da Um Certo Olhar em Cannes

“Efeitos Secundários”, de Paulo Rebelo (Portugal)
“El Sistema”, de Paul Smaczny, Maria Stodtmeier (Alemanha)
"Eastern Plays", de Kamen Kalev (Bulgária)

“Every Little Step”, de James D. Stern e Adam Del Deo (EUA)
“Everyone Else”, de Maren Ade (Alemanha)

“Fence”, de Toshi Fujiwara (Japão)
“Film Is a Girl & a Gun”, de Gustav Deutsch (Áustria)

"Food Inc.", de Rebert Kenner (EUA)
“Formosa Betrayed”, de Adam Kane (EUA, Tailândia)
“Frontier Blues”, de Babak Jalali (Irã, Reino Unido, Itália)
“Futebol Brasileiro”, de Miki Kuretani (Japão)

“German Souls”, de Martin Farkas, Matthias Zuber (Alemanha)
“Germany 09”, de Fatih Akin, Tom Tykwer e outros (Alemanha)
“Go Get Some Rosemary”, de Joshua e Ben Safdie (EUA)
“Green Water”, de Mariano de Rosa (Argentina)

“Hair India”, de Raffaele Brunetti e Marco Leopardi (Itália)
“Hangtime”, de Wolfgang Groos (Alemanha)
“Havan York”, de Luciano Larobina (México)
“Heiran”, de Shalizeh Arefpour (Irã)
“Henri-Georges Clouzot’s Inferno”, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea (França)
“Huacho”, de Alejandro Fernández Almendras (Chile)
“Humpday”, de Lynn Shelton (EUA)

“Ibrahim Labyad”, de Marwan Hamed (Egito)
“Initiation”, de Peter Kern (Áustria)
“Into The Lion’s Den”, de Nicolas Bénac, Cedric Robion (França)
"Irene", de Alain Cavalier (França)

"Katalin Varga", de Peter Strickland (Romênia)
“Kalandia - A Checkpoint Story”, de Neta Efrony (Israel)
“Kicks”, de Lindy Heymann (Reino Unido)
“Kids and Kids”, de Zhang Feng (China)
“King Hugo and His Dumsel”, de Franco De Peña (Polônia, Venezuela)

“La Guerre des Fils de la Lumière Contre les Fils des Ténèbres”, de Amos Gitaï (França)
“La Pivellina”, de Rainer Frimmel e Tizza Covi (Áustria, Itália)

"Les Beaux Gosses", de Riad Sattouf (França)
"Les Herbes Folles", de Alain Resnais (França)
“Life in the Building Blocks”, de Alfredo Hueck, Carlos Caridad (Venezuela)
“Little Joe”, de Nicole Haeusser (EUA)
“London River”, de Rachid Bouchareb (Reino Unido, França, Argélia)

“Madholal Keep Walking”, de Jaí Tank (Índia)
“Mamachas of the Ring”, de Betty M Park (Bolívia, EUA)
“Menino Peixe”, de Lucía Puenzo (Argentina)
“Miss Stinnes Motors Round the World”, de Erica von Moeller (Alemanha)
“Morrer como um Homem”, de João Pedro Rodrigues (Portugal, França)
“Mother”, de Bong Joon-ho (Coreia)

“O Cerco - A Democracia nas Malhas do Neoliberalismo”, de Richard Broullitte (Canadá)
“O Fantástico Sr. Raposo”, de Wes Anderson (EUA)
"O Imaginário do Dr. Parnassus", de Terry Gilliam (Reino Unido)

“Of Heart and Courage, Ballet Bejart Lausanne”, de Arantxa Aguirre (Espanha)
“Of Parents and Children”, de Vladimir Michalek (República Tcheca)
“On Foot”, de Fereydoun Hasanpour (Irã)
“One Week”, de Michael McGowan (Canadá)
“Only When I Dance”, de Beadie Finzi (Reino Unido)
“Os Sorrisos do Destino”, de Fernando Lopes (Portugal)
“Outrage”, de Kirby Dick (EUA)
“Oye Lucky! Lucky Oye!", de Dibakar Banerjee (Índia)


"Politist, Adjectiv", mais um destaque do cinema romeno

“Paperplanes”, de Simon Szabó (Hungria)
“Partners”, de Frederic Mermoud (França, Suíça)
“Peter & Vandy”, de Jay Di Pieto (EUA)
“The Private Lives of Pippa Lee”, de Rebecca Miller (EUA)
“Playground”, de Libby Spears (EUA)

"Politist, Adjectiv", de Corneliu Porumboiu (Romênia)
“Prank”, de Péter Gárdos (Hungria)

"Polytechnique", de Denis Villeneuve (Canadá)

“Ramirez”, de Albert Arizza (Espanha)
“Red Sunrise”, de Gianfranco Pannone (Itália)
“Salvage”, de Lawrence Gough (Reino Unido)
“Samson & Delilah”, de Warwick Thornton (Austrália)
“Searching for the Elephant”, de S. K. Jhung (Coreia)
“Sede de Sangue”, de Park Chan-wook (Coreia)
“Sex Volunteer”, de Kyeong-duk Cho (Coreia)

“She, a Chinese”, de Xioalu Guo (China)
“Shirin”, de Abbas Kiarostami (Irã)
“Should I Really do It?”, de Ismail Necmi (Turquia)
“Singularidades de uma Rapariga Loura”, de Manoel de Oliveira (Portugal)
“Sleeping Soungs”, de Andreas Struck (Alemanha)
“Spiral”, de Jorge Pérez Solano (México)
“Still Walking”, de Hirokazu Kore-Eda (Japão)
“Super Star”, de Tahmineh Milani (Irã)
“Sweet Rush”, de Andrzej Wajda (Polônia)

"Tales From the Golden Age", de Cristian Mungiu e outros (Romênia)
"The 40th Door”, de Elchin Musaoglu (Azerbaijão)
“The Anarchist’s Wife”, de Marie Noëlle, Peter Sehr (Alemanha)
“The Arrivals”, de Claudine Bories, Patrice Chagnard (França)
“The Dispensables”, de Andreas Arnstedt (Alemanha)
“The Invention of Flesh”, de Santiago Loza (Argentina)
“The Mermaid and the Diver”, de Mercedes Moncada Rodriguez (Espanha, México)
“The Misfortunates”, de Felix van Groeningen (Bélgica)
“The Nature of Existence”, de Roger Nygard (EUA)
“The People I’ve Slept With”, de Quentin Lee (Canadá, EUA)
“The Pope’s Miracle”, de Pepe Valle (México)
“The Red Spot”, de Marie Miyayama (Alemanha)
“The Room in the Mirror”, de Rubi Gaul (Alemanha)
“The Stoning of Soraya M.”, de Cyrus Nowrasteh (EUA)
 “The Wolberg Family”, de Axelle Ropert (França)
“This Very Instant”, de Manuel Huerga (Espanha)
“Tide of Sand”, de Gustavo Montiel Pagés (México-Argentina)
“Todos Mentem”, de Matías Piñeiro (Argentina)
“Tokyo!”, de Michel Gondry, Leos Carax, Bong Joon-ho (França, Japão, Alemanha)
“Tom Zé Astronauta Libertado” (Tom Zé Liberated Astronaut), de Ígor Iglesias González (Espanha)
“Tomorrow at Dawn”, de Denis Dercourt (França)
“Trimpin: O Som da Invenção”, de Peter Esmonde (EUA)
“Tsar”, de Pavel Luguin (Rússia)

"Twenty", de Abdolreza Kahani (Irã)

“Under Rich Earth”, de Malcoml Rogge (Canadá, Equador)
“Unmade Beds”, de Alexis dos Santos (Inglaterra)
“Unmistaken Child”, de Nati Baratz (Israel)


"Vincere", de Marco Bellocchio, destaque de Cannes-09

"Vincere", de Marco Bellocchio (Itália)

“Ward Number 6”, de Karen Shakhnazarov (Rússia)
“West of Pluto”, de Henry Bernadet, Myriam Verreault (Canadá)
“When the Lemons Turned Yellow...”, de Mohammad Reza Vatandoost (Irã)
“White on Rice”, de Dave Boyle (EUA, Japão)
“Wolson: Aria of the Straits”, de Ota Shinichi (Japão)
“Worldrevolution”, de Klaus Hundsbichler (Áustria)

“Zapping-Alien@Mozart-Balls”, de Vitus Zepichal (Alemanha, Áustria)
“Zero”, de Pawel Borowski (Polônia)

RETROSPECTIVA DE THEO ANGELOPOULOS
“Dust of Time”
“Paisagem na Neblina”
“A Eternidade e um Dia”
“O Passo Suspenso da Cegonha”
“Um Olhar a Cada Dia”
“O Vale dos Lamentos”

RETROSPECTIVA DE GIAN VITTORIO BALDI (filmes dirigidos e produzidos por ele)
 “Fuoco!”, de Gian Vittorio Baldi (Itália)
“Il Cielo Sopra di Me”, de Gian Vittorio Baldi (Itália)
“Luciano, una Vita Bruciata”, de Gian Vittorio Baldi (Itália)
“Nevrijeme, Il Temporale”, de Gian Vittorio Baldi (Itália)
“Ultimo Giorno di Scuola Prima Delle Vacanze di Natale”, de Gian Vittorio Baldi (Itália)
“Appunti Per Un’Orestiade Africana”, de Pier Paolo Pasolini (Itália)
“Cronaca di Anna Magdalena Bach”, de Danièle Huillet, Jean-Marie Straub (Itália)
“Diario di una Schizofrenica”, de Nelo Risi (Itália)
“Porcile”, de Pier Paolo Pasolini (Itália, França)

PANORAAM DO CINEMA SUECO
“Corações em Conflito”, de Lukas Moodysson
“Metropia”, de Tarik Saleh

“Mr. Governor”, de Mans Mansson
“Quase Elvis” (Almost Elvis), de Petra Revenue
“The Ape”, de Jesper Ganslandt
“The Eagle Hunter’s Son”, de Renè Bo Hansen
“The Great Adventure”, de Arne Sucksdorff
“The King of Ping Pong”, de Jens Jonsson
“The Swimsuit Issue”, de Mans Herngren

“Os Emigrantes” (The Emigrants), de Jan Troell
“Everlasting Moments”, de Jan Troell
“The New Land”, de Jan Troell
“Who Saw Him Die?”, de Jan Troell

“Gabrielle”, de Hasse Ekman
“Girl with Hyacinths”, de Hasse Ekman
“Ombyte Av Tág”, de Hasse Ekman
“The Banquet”, de Hasse Ekman
“Wandering with The Moon”, de Hasse Ekman

HOMENAGEM A FANNY ARDANT
"Cinza Sangue”, de Fanny Ardant (França)
“A Mulher do Lado”, de François Truffaut (França)
“Crimes de Autor”, de Claude Lelouch (França)
“De Repente, Num Domingo”, de François Truffaut (França)

*

Leia mais na versão impressa da Ilustrada deste sábado (pág. E6)

Escrito por Leonardo Cruz às 7h36 AM

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Brillante Mendoza por Brillante Mendoza

                                                                                     Divulgação

O filipino Brillante Mendoza: oito filmes em cinco anos

Por Leonardo Cruz

Brillante Mendoza chega nesta quinta a São Paulo como principal convidado do Indie, o festival que acontece até o próximo dia 24 no Cinesesc. Nome ascendente no circuito internacional de festivais, o cineasta filipino disputou a Palma de Ouro em Cannes em 2008, com “Serbis”, e em 2009, com “Kinatay”, pelo qual recebeu o prêmio de melhor diretor. Na semana passada, apresentou no Festival de Veneza seu segundo filme do ano, “Lola”, que também disputou o Leão de Ouro.

O público do Indie poderá ver, de graça, sete dos oito longas de Mendoza _só “Lola” não veio. A convite do blog, o diretor filipino comentou cada um dos filmes que serão exibidos por aqui. Leia abaixo.

“Massagista” (2005)
A rotina de Iliac, massagista de clientela gay, moralmente dividido entre o trabalho e a origem de família religiosa.
Quando: amanhã, às 24h; quarta, às 22h40

“Foi o trabalho que mudou minha vida. Alterou minha perspectiva sobre cinema, me fez abandonar a publicidade. Acho que poderia ter feito um filme melhor, mas fiquei satisfeito com o resultado. No fundo é uma história de amor. Mas eu não queria que fosse uma história romântica, melodramática, sobre um cara fazendo massagem em um prostíbulo. Queria mostrar as coisas como elas eram, o tipo de gente que vivia lá, sem filtros.”

“A Professora” (2006)
A vida numa comunidade indígena filipina pelos olhos de uma garota de 13 anos que alfabetiza adultos, num esforço para que eles votem nas eleições.
Quando: segunda, às 16h30

“Eu tinha vontade de retratar essas pessoas, que habitam uma região de montanhas e são conhecidos como ‘africanos filipinos’, porque são negros e têm cabelos encaracolados. É um povo socialmente deslocado, isolado, e isso me atraía. Nessa época, depois de ‘Massagista’, tive muitas ofertas para fazer filmes comerciais, mas abri mão, porque eu já tinha feito publicidade. Seria quase a mesma coisa."

“Kaleldo” (2006)
As relações entre um pai dominador e suas três filhas ao longo de uma temporada de verão nas Filipinas.
Quando: sábado, às 20h20; quinta, às 22h20

“Tentei fazer uma experiência, um filme um pouco mais comercial, com atores famosos nas Filipinas, mas mantendo meu estilo, minhas ideias. Por causa do elenco, foi meu filme de maior sucesso no país. Mas não funcionou.”

“John John” (2007)
Thelma é a assistente social contratada para dar abrigo e cuidar de órfãos até que eles sejam adotados.
Quando: domingo, às 18h30

“Esse é um assunto muito caro para mim, porque tenho uma filha adotiva. Não tinha como errar, porque é um tema ao qual eu estava emocionalmente muito ligado. Consegui contar a história ao meu modo, com liberdade para fazer o que queria.”

“Tirador” (2007)
Batedores de carteiras e políticos em campanha se misturam nas favelas de um bairro comercial de Manila.
Quando: sábado, às 16h45; terça, às 22h

“É um olhar cínico sobre o sistema político filipino. No começo, um filme sobre os pequenos ladrões, mas, no fundo, uma crítica aos grandes trapaceiros que dominam a política do país.”

“Serbis” (2008)
Um cinema decadente, que exibe filmes pornôs e atrai garotos de programa, é também a casa de uma família.
Quando: domingo, às 22h50

“Em um país muito católico e conservador como as Filipinas, quis discutir o que é moral e o que é imoral. E o que uma família é capaz de fazer para continuar junto, unida.”

“Kinatay” (2009)
Para ganhar um dinheiro extra, um aspirante a policial se envolve no sequestro de uma prostituta.
Quando: hoje, às 20h30 (apenas para convidados)

“É todo baseado em um depoimento real, um comentário sobre como atua a polícia filipina e como a vida cotidiana no país é perigosa.”

*

Confira mais trechos da entrevista com Brillante Mendoza na pág. E6 da versão impressa da Ilustrada desta quinta.

Escrito por Leonardo Cruz às 7h25 AM

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Uma alternativa ao Festival do Rio

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"A Fuga da Mulher-Gorila", um dos filmes
da nova Semana dos Realizadores

Por Leonardo Cruz

Um cinema brasileiro mais autoral, mais arriscado, menos preocupado com resultados comerciais a curto prazo. E que busca espaço para ser visto. Essa é a proposta da Semana dos Realizadores, mostra organizada por um grupo de diretores (e curadores de festivais) que começa nesta sexta no Rio.

Há cerca de dez dias, Eduardo Valente, Felipe Bragança, Gustavo Spolidoro, Helvécio Marins Jr., Kléber Mendonça Filho, Lis Kogan e Marina Meliande colocaram de pé o evento, que apresentará 19 filmes, entre curtas, médias e longas, no Unibanco Arteplex, na praia de Botafogo.

A inspiração, como o nome deixa claro, é a Quinzena dos Realizadores, a mostra paralela ao Festival de Cannes que surgiu há 40 anos como um desafogo para uma produção que não cabia mais na programação oficial. Nesse raciocínio, a Semana se coloca como uma alternativa ao Festival do Rio, que vai de 24/9 a 8/10 e exibe mais de 300 títulos.

"O Festival do Rio cresceu muito, reunindo filmes muitos diferentes entre si, numa programação sem um rumo muito claro", diz Valente, crítico de cinema, editor da revista Cinética e cineasta. "E esse cinema de matriz mais autoral ficaria deslocado, marginal demais na programação", completa o diretor de "No Meu Lugar", apresentado em Cannes neste ano e que passará na Semana.

Além de "No Meu Lugar", outros destaques da mostra são "A Fuga da Mulher-Gorila", de Felipe Bragança e Marina Meliande, recém-exibido no Festival de Locarno, e "Morro do Céu", de Gustavo Spolidoro, o mesmo de "Ainda Orangotangos".

Valente rebate o argumento que o projeto seria a "Semana dos Recusados", de longas que teriam sido rejeitados pelo Festival do Rio. "Boa parte desses filmes nem foi inscrita no festival. Três receberam convite para participar, mas não quiseram", comenta o diretor, que evita uma posição de confronto com a maior mostra de cinema carioca. "Não queremos atentar contra ninguém nem criar polêmicas. Só queremos que esses filmes sejam de fato vistos."

A programação completa e o manifesto de seus criadores estão disponíveis na íntegra no blog da Semana dos Realizadores.

Escrito por Leonardo Cruz às 7h11 PM

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Festival de Veneza, a segunda metade

Por Leonardo Cruz (em Veneza)

A exibição dos filmes em competição pelo Leão de Ouro acabou nesta sexta, e os vencedores do Festival de Veneza serão conhecidos amanhã. Se a primeira metade da mostra teve em Claire Denis, Chéreau, Michael Moore e Herzog como destaques, a segunda parte apresentou três grandes longas e ao menos outros três bons filmes.

1. “Lola”: De repente, Brillante Mendoza baixou em Veneza. Foi o segundo filme-surpresa da competição. E a segunda produção do ano do cineasta filipino, que já faturou o prêmio de direção em Cannes-09 por “Kinatay”. Em “Lola”, Mendoza deixa de lado a violência e a escatologia explícitas dos filmes anteriores e faz uma obra em que o elemento visual mais forte é a água. Chove quase o tempo todo no filme, rodado numa alagada periferia de Manila, cheia de canais ladeados por cortiços. Esse cenário contribui para a atmosfera carregada de “Lola”, filme que acompanha o cotidiano de duas idosas unidas por um crime: o neto de uma matou o neto da outra. Enquanto uma organiza o funeral, a outra tenta tirar o parente da cadeia. A questão judicial ganha força conforme o longa avança e faz de “Lola” uma discussão sobre o valor da vida, a honra dos mortos e como sobreviver na pobreza. O melhor filme da competição do festival.

2. “A Single Man”: De repente, Tom Ford virou cineasta. Todo-poderoso do mundo da moda, ex-diretor de grifes como Gucci e Yves Saint Laurent, Ford mostrou em Veneza, no último dia do festival, um drama muito potente, que deve ter cortado o coração de Ang Lee, o presidente do júri. É a adaptação de um romance escrito em 1964 pelo americano Christopher Isherwood, sobre um homem que tenta superar a perda do namorado, com quem viveu por 16 anos. Colin Firth interpreta esse professor em depressão, cujo desinteresse pela vida se reflete na palheta de cores do filme. Quando ele está mal, se arrastando em sua rotina, as imagens são esmaecidas, desbotadas. Quando melhora, o filme se enche de cores fortes e vibrantes. Essa solução visual é a grande marca de “A Single Man”, que trata não só da dificuldade de curar feridas como também, de forte sutil, do preconceito aos homossexuais nos EUA.

3. “Lebanon”: a surpresa de Veneza 2009. Samuel Maoz lutou na Guerra do Líbano em 1982 e passou 27 anos digerindo sua experiência no conflito. Fez um ou outro curta e ganhava a vida com comerciais. E trouxe a Veneza seu primeiro longa, uma reconstituição ficcional dos dias que passou enfiado em um tanque israelense, entrando em território libanês. Um filme claustrofóbico, em que o espectador só vê aquilo que Maoz viu: o interior sujo, apertado e escuro do blindado, e o campo de batalha, sob a perspectiva limitada da mira do canhão do tanque.

4. “Soul Kitchen”: Fatih Akin descobriu que a vida não é só cheia de desgraças. “Soul Kitchen” é o mais perto que um alemão conseguiria chegar de uma comédia amalucada, “screwball”, sobre o dono de um restaurante vagabundo, que só serve fritura e comida congelada, na periferia de Berlim. Ele está na pior, cheio de dívidas, ameaçado pela vigilância sanitária, largado pela namorada e com uma hérnia de disco que o impede de cozinhar. Duas pessoas fazem sua vida mudar: seu irmão, que deixa a cadeia com uma condicional para trabalhar no restaurante, e um novo chef biruta. O cozinheiro é o responsável pelas melhores piadas do filme _Birol Ünel, que já trabalhara com Akin em “Contra a Parede”, cria um personagem que mistura Gordon Ramsey com Klaus Kinski. É o filme alto-astral de Veneza.

5. “Survival of the Dead”: Romero não se cansa de inventar jeitos de colocar seus zumbis em cena. Agora, tomou como base um clássico do faroeste e o encheu de mortos-vivos. O filme inspirador é “Da Terra Nascem os Homens” (1958), de Willian Wyler, e a briga por terras que opunha duas famílias na obra original foi trocada por uma rixa entre clãs sobre o que fazer com os mortos-vivos: exterminá-los ou domesticá-los, à espera de uma cura para a morte. Não há diálogo possível entre as duas famílias, tudo é resolvido no chumbo, num filme em que os humanos passam mais tempo matando uns aos outros do que aos zumbis. E é essa mensagem de desumanização que interessa a Romero. Um filme que valeria só por sua cena final, um duelo de zumbis à luz da Lua.

6. “Mr. Nobody”: Cinéfilos moderninhos farão fila para ver este filme do belga Jaco Van Dormael sobre “efeito borboleta”. Jared Leto é Nemo Nobody, último homem prestes a morrer de causas naturais, em 2092. Ele relembra sua vida, ou melhor, as muitas variantes de sua vida, a partir de uma decisão que tomou na infância: escolher entre o pai e a mãe no momento do divórcio. Essas cinco ou seis vidas hipotéticas são contadas de forma entrelaçada, num longa em sintonia com os trabalhos de Charlie Kaufman e Michel Gondry.

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Acompanhe a cobertura diária do Festival de Veneza na versão impressa da Ilustrada.

Escrito por Leonardo Cruz às 3h21 PM

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Festival de Veneza, um primeiro balanço

Por Leonardo Cruz (em Veneza)

Encerrado o sexto dia do Festival de Veneza, já é possível apontar alguns destaques da competição pelo Leão de Ouro e afirmar que 2009 já se mostra bem mais interessante que 2008. A seguir, alguns highlights desta primeira metade do festival, que vai até o próximo sábado.

1. “White Material” - Sem dúvida o melhor filme da competição até aqui. É a veterana Claire Denis, diretora francesa pouco conhecida no Brasil, mas de grandes filmes como “Beau Travail” (2001). Agora, ela dirige Isabelle Huppert num filme que tem como cenário Camarões à beira de uma guerra civil. Huppert é a francesa branca que tem uma fazenda de café no meio de um país negro em convulsão social. Contrariando todos os avisos, ele decide ficar e defender sua propriedade. É um filme sobre a incapacidade de enxergar, de ver o que se passa ao nosso redor, e sobre o que é o sentimento de posse, sobre coisas e pessoas.

2. “Persécution” - Patrice Chéreau conta a história de um homem rancoroso (Romain Duris), agressivo com os amigos, em crise constante com a namorada (Charlotte Gainsbourg) e que, de súbito, começa a ser perseguido por um desconhecido. Um filme em que tudo parece fora de lugar, sobre os tempos angustiados em que vivemos.

3. Duas Vezes Herzog - O diretor alemão dominou o final de semana. Depois de exibir sua refilmagem de “Vício Frenético” na sexta, reapareceu no sábado, com o filme-surpresa “My Son, My Son, What Have Ye Done?”. No primeiro, Herzog se afasta radicalmente do original de Abel Ferrara. Seu “The Bad Lieutenant” é quase uma paródia do filme de 1992, ao mesmo tempo que uma reflexão sobre a América ficou mais cínica desde então. “My Son, My Son” é tudo o que você poderia esperar de uma parceria entre Herzog e David Lynch (que assina a produção). Brad Macallam (Michael Shannon) é o homem que mata a mãe a golpes de espada e se tranca em casa com reféns. Ele ainda possui dois flamingos de estimação, mora numa casa cor de rosa e crê ter encontrado o rosto de Deus no rótulo de uma lata de aveia. Sacou o espírito?

4. “Capitalism, a Love Story” - Ah, esse Michael Moore. Sensacionalista, manipulador, autocentrado, o documentarista americano usa todos esses defeitos para fazer um filme extremamente engraçado e sedutor sobre a relação que os EUA têm com seu sistema econômico. Leia a crítica completa aqui.

5. “35 Vues du Pic Saint Loup” - depois do ótimo “Não Toque no Machado” (2007), Jacques Rivette retorna com uma comédia dramática bem-humorada e de enorme leveza. Sergio Castellito interpreta um viajante que cruza a França em seu Porsche conversível e encontra pelo caminho Kate (Jane Birkin), uma ex-acróbata que reencontra sua trupe circense após 15 anos de ausência. Se no filme anterior Rivette explorava os espaços fechados de um convento para construir sua ficção, aqui o picadeiro do circo é o espaço para desenvolver as relações de seus personagens.

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Acompanhe a cobertura diária do Festival de Veneza na versão impressa da Ilustrada.

Escrito por Leonardo Cruz às 9h22 PM

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A invasão dos filmes-brinquedo

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"Transformers 2" impulsiona o filão dos filmes-brinquedo

Por Cássio Starling Carlos

Pode ser tanto falta de criatividade quanto excesso. O fato é que o excelente desempenho da franquia “Transformers” – com quase US$ 320 milhões de bilheteria no primeiro filme e mais de US$ 400 milhões no segundo – é apenas o prenúncio do tipo de filme que vamos ter de assistir em breve.

Nada parece diversão de criança quando se acompanha a receptividade de “G. I. Joe - Origem do Cobra”, que em duas semanas bateu os R$ 4 milhões de renda só no mercado brasileiro. A conclusão que dá para tirar desses exemplos é que os filmes-brinquedo não estão para brincadeiras.

A prova é que depois das HQs e dos games, a indústria deslocou seu foco para brinquedos como seu novo campo de exploração para potenciais megassucessos. Veja o que já se encontra em preparação:

“Grayskull” (2011) - A reativação dos poderes de He-Man será testada desta vez num blockbuster de fato, depois de uma única aparição no catastrófico “Masters of the Universe”, de 1987. Joel Silver, produtor cuja ficha bancária ficou gorda com títulos que vão de “Duro de Matar” a “Speed Racer”, cuida pessoalmente do projeto.

“Batalha Naval” (2011)  - Peter Berg (que já pilotou “O Reino” e “Hancock”) assumiu o comando desta improvável versão cinematográfica do jogo que a Universal quer transformar num filme naval épico de ação.

“Detetive” (2011) - Coronel Mostarda, Dona Violeta, Senhorita Rosa e Senhor Verde vão sair do baú para decifrar a morte do Doutor Pessoa. Gore Verbinski (da franquia “Piratas do Caribe”) toca o projeto.

“Banco Imobiliário” (2011) - Não deu para ver ainda se os (d)efeitos da crise financeira vão sumir do horizonte, mas a Universal já convenceu Ridley Scott a dirigir a versão dessa brincadeira de compra e venda _que deve ter inspirado muita gente que hoje se diverte colocando em risco a sobrevivência do mundo e quem vive nele.

"View-Master"  (2012) - A ideia de adaptar esse antepassado das geringonças 3-D é da Dreamworks, que quer fazer um filme no espírito dos anos 80 da turma de Spielberg. Para isso já colocou para trabalhar a dupla dinâmica Alex Jurtzman e Roberto Orci, responsáveis por “Transformers” e pela ressurreição de “Star Trek”.

Diante disso, tudo parece possível. Portanto ninguém deve ter se surpreendido com o recente anúncio da preparação de “Lego: O Filme”.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 4h04 PM

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É Tudo Verdade 2 terá documentários de Louis Malle

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Louis Malle, em 1969, filma "A Índia Fantasma"

Por Leonardo Cruz

Saiu a programação da segunda metade do É Tudo Verdade, o festival internacional de documentários. Para quem não se lembra, a mostra deste ano foi dividida em duas partes – na primeira, realizada em abril, foram concentradas as seções competitivas nacional e internacional.

Agora é a hora do bis, com as mostras especiais, não-competitivas, que acontecem de 31 de agosto a 7 de setembro na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, e de 4 a 12 de setembro no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. E o chorinho é generoso: tem Louis Malle, Robert Drew, dois docs nacionais inéditos, um pacote iraniano e um filme que reúne depoimentos dos principais documentaristas do mundo.

A retrospectiva de Malle parece ser o mais suculento. São sete documentários do cineasta francês cuja carreira ficou marcada por ficções como “Ascensor para o Cadafalso” (1958), “O Sopro do Coração” (1971) e “Adeus Meninos” (1987). Entre os filmes do lado B do É Tudo Verdade estão “Humano, Demasiadamente Humano”, que acompanha os trabalhos na fábrica da Citroën em 1972, e dois episódios da série “A Índia Fantasma”, fruto de quatro meses de viagens do cineasta pelo país em 1969.

Robert Drew volta a abordar seu tema favorito em “Um Presidente a Lembrar - Na Companhia de John F. Kennedy”. O filme é composto por imagem dos filmes que Drew fez sobre JFK nos anos 60, incluindo “Primárias”, marco do cinema direto norte-americano. O material de divulgação do filme, disponível no site de Drew, diz que trata-se que uma “inteligente montagem” das quatro obras sobre Kennedy. A conferir se o cineasta, aos 85 anos, conseguiu de fato extrair uma reflexão nova desse material antigo.

A história social e política do Brasil surge nos dois docs nacionais. “Fordlândia”, de Daniel Augusto e Marinho Andrade, volta ao Pará dos anos 20 para mostrar o que foi a cidade fundada por Henry Ford no meio da Amazônia. Já “Ecos”, de Pedro Henrique França e Guilherme Menechini, trata da trajetória de Toninho do PT, o prefeito de Campinas que foi assassinado em setembro de 2001.

O panorama iraniano tem três filmes. “A Rainha e Eu”, de Nadih Persson, tem em seu centro Farah Diba Pahlevi, viúva do ex-xá do Irã. “Um Povo nas Sombras”, de Bani Khoshnoudi, faz uma viagem pela Teerã atual. “Cartas ao Presidente”, que abriu o É Tudo Verdade 2009, completa o pacote – o filme de Petr Lom sobre as viagens de Mahmoud Ahmadinejad será reapresentado.

Para os estudiosos de assunto, “Capturando a Realidade – A Arte do Documentário” é o filme imperdível deste lado B. A diretora Pepita Ferrari discute a importância do documentários com 33 cineastas, incluindo, Werner Herzog, Errol Morris e Eduardo Coutinho. A seguir, veja o trailer.

Escrito por Leonardo Cruz às 11h37 AM

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Michael Mann recusa clichês do cinema de autor

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Mann: digital favorece o realismo em "Inimigos Públicos"

Por Cássio Starling Carlos

A ideia de autor no cinema, consolidada pela crítica francesa nos anos 50, costuma ter resultados nefastos quando adotada na correria e sem precaução. Já naquela época, certos autores cultuados pela tropa de choque dos “Cahiers du Cinéma” riam da obsessão dos franceses em catalogar e distinguir os que consideravam “artistas” dos que tratavam como meros “artesãos”.

Mais de meio século se passou e ainda testemunhamos diretores prestes a serem convertidos em “autores” terem de lidar com precaução diante dos efeitos nem sempre positivos associados a essa distinção. O caso mais recente é o de Michael Mann, que no mês passado teve sua obra elevada olimpicamente ao lugar de honra da mais alta das distinções cinéfilas, uma retrospectiva na Cinemateca Francesa.

Cauteloso, Mann deu uma entrevista ao hábil Serge Kaganski, crítico do semanário francês “Les Inrockuptibles”, quando da estreia de seu “Inimigos Públicos” no qual se posiciona de modo contrário às leituras que a crítica vem fazendo da fase mais recente de seu trabalho. Além desses esclarecimentos úteis, Mann explicita seu interesse estético do uso do digital e põe pingos nos is em relação a interpretações demasiado simbólicas que acompanharam a recepção crítica de “Inimigos Públicos”.

Leia abaixo alguns trechos:

Pergunta – Como muitos de seus filmes, “Inimigos Públicos” conta mais uma vez uma história em que um tira persegue um gângster: dois homens posicionados de cada lado da barreira moral. Modo de sugerir que tais barreiras são movediças, imprecisas?

Michael Mann – Meu interesse é por pessoas, por seres humanos, não pelo que Edgar J. Hoover, o diretor do FBI de 1924 a 1972, chamava de o Bem e o Mal. O que movia Hoover era uma ambição monomaníaca que não tinha mais nada a ver com um sentido objetivo de justiça. Eu creio que essa maneira de ver o mundo em categorias bem definidas é um pouco ingênua. Os indivíduos têm motivações complexas. Já conceitos tais como a verdade, a justiça, reduzidos a noções simplistas à moda americana, são úteis apenas para as HQs.

Dillinger foi um ser humano em toda sua complexidade. Eu não vejo nele nem um monstro, nem um sociopata. A vontade dele era ser popular, ser amado pelas pessoas, encontrar o grande amor... Ele não era alguém sedento de sangue. Quando foi acusado de ter intencionalmente matado um tira em Indiana, ele sempre alegou ser inocente. De fato, ele matou o tira, mas no calor da ação. Ele não pretendia ser o Super-Homem. Mesmo quando estava no auge da celebridade e era manchete de jornais, ele continuou a preparar os assaltos com sobriedade e democraticamente, em acordo com seus cúmplices. Ele nunca se deixou cegar por sua atividade e pela celebridade de suas ações, sempre manteve cabeça fria. Um personagem de cinema deve guardar a mesma complexidade que uma pessoa de verdade. Os personagens unidimensionais me entediam.

Pergunta - O filme se passa durante a Depressão: crise do sistema bancário, guerra contra o inimigo público, o que evoca certos aspectos do presente... Por meio do gênero e suas convenções, poderíamos ver uma crítica aos anos Bush?

Mann – Você pode, claro, mas não foi essa minha intenção. Quando começamos a trabalhar no filme, a crise atual ainda não havia acontecido. Ao contrário, a economia parecia a pleno vapor. A pré-produção teve início em 2007, eu comecei a filmar no início de 2008, a Bolsa estava muito bem.

Pergunta - Mas não se pode impedir de traçar um paralelo entre a “guerra contra o crime” que você mostra no filme e a “guerra contra o terrorismo”...

Mann – Não, de fato, eu absolutamente não tentei estabelecer nenhum paralelo entre o passado e o presente. Esse tipo de procedimento não me interessa. Não vou ao cinema para receber uma mensagem, mas para viver uma experiência. E a melhor experiência para mim pode ser encontrada numa realidade alternativa. Com Dillinger, tentei conduzir o espectador até lá, na América dos anos 30. Não se tratava de modo algum de trazer os anos 30 e Dillinger para o presente. Os únicos detalhes históricos de meu filme são a invenção por Hoover da “guerra contra o crime”, o fato de ele ter apontado Dillinger como “inimigo público número 1”, e que isso tenha cativado os americanos. Quando rodávamos o filme, era a época das primárias nas eleições. Nós tínhamos para consulta os jornais de 1933. Qualquer que fosse o período que consultássemos, Dillinger era a personalidade mais conhecida dos EUA, logo depois do presidente. Apesar disso, apesar de toda aquela atenção, ele continuou a viver “normalmente”: ele saía, ia jantar em restaurante, ia a boates, assaltava bancos...

Pergunta - Você é um estilista, um formalista. Para você o estilo é mais importante que a história?

Mann – Um filme estiloso cuja história é fraca atrairá nossa atenção durante cinco minutos, não mais. Um cinema puramente formalista é algo imaterial, não tem nenhum sentido. Minha prioridade é contar uma boa história e fazer de tal modo que a história tenha um impacto no espectador. O estilo é o que torna esse impacto mais ou menos forte e a tarefa do realizador é encontrar o melhor meio de veicular o impacto mais forte. Ponto final. Para o estilo enquanto tal, eu não estou nem aí. Assim como estou me lixando para a maneira como as pessoas me percebem: como um artista ou um “entertainer”... Para mim, o crime capital de um realizador é se tomar por isso ou aquilo. Se me tornasse vaidoso e me observasse filmar, eu me condenaria a um fracasso certo e total! Pensar em seu próprio estilo não passa de sedução imatura.

Pergunta - De qualquer modo, o estilo tem um pouco de importância...

Mann – Certamente! Mas se eu filmasse uma sequência estilisticamente estonteante, mas inútil à totalidade do filme, eu a cortaria e a eliminaria sem hesitar.

Pergunta - Você se encontra na ponta do trabalho com ferramentas digitais. Qual é o impacto desse tipo de recurso no seu trabalho?

Mann – No caso de “Inimigos Públicos”, filmar em digital deu à imagem um sentido mais agudo ao realismo, como se fosse um aumento de realidade, mais intenso que a verdade. Fizemos testes comparativos entre a câmera com película e a digital. A clássica deu resultados bem bons, do tipo belo filme de época. A digital me proporcionava a sensação de estar vivo em 1933, de ser contemporâneo da época no filme, de quase poder tocar na gota d’água que cai no carro preto. Essa sensação de extrema realidade era a que eu buscava. Não queria que o público visse meu filme como um truque retrô. Era preciso que o espectador tivesse a sensação de viver na história. Eu sempre fico satisfeito quando um filme tem o poder de me fazer embarcar nele e me fazer abandonar a realidade prosaica da vida, fico embasbacado quando o cinema me faz mergulhar num filme como no fundo de uma piscina, adoro essa sensação... Esquecer o tempo, esperar que o filme, a experiência, não acabe rápido.

Pergunta – Na França, consideramos o realizador como o autor de um filme. Nos EUA, é sobretudo o produtor. Onde você se situa nesse debate?

Mann – As coisas não são, assim, tão estanques. Nos Estados Unidos, pode-se apropriar do poder do qual se tem necessidade. Basta se conhecer suficientemente bem, saber o que se quer, do que é preciso para fazer seu filme. Às vezes, é preciso assumir certos riscos se você quer ter o controle. Pessoalmente, eu controlo o “final cut” há não muito tempo. Mas também gosto de ouvir a opinião do pessoal dos estúdios porque eles são inteligentes, sensíveis. O arquétipo hollywoodiano segundo o qual o estúdio é malvado frequentemente é falso. Ninguém nunca me obrigou a mudar isso ou aquilo, mas às vezes me fizeram observações, sugestões com frequência interessantes. Vou mesmo mais longe: hoje, temos menos problemas trabalhando com um grande estúdio do que com um produtor independente. Com um independente você é obrigado a lidar com dez produtores, 15 conselheiros que se consideram artistas e toda essa merda. Com um grande estúdio, você trabalha com grandes caras. Um tornado lançou os cenários pelos ares? Você dá de ombros, mantém o rumo e o problema estará resolvido em alguns dias. Não choramingamos, não gememos, somos profissionais.

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A seguir, o trailer do imperdível "Inimigos Públicos".

Escrito por Cássio Starling Carlos às 1h13 PM

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Fogo amigo contra "Moscou", de Eduardo Coutinho

Por Leonardo Cruz

“Ao propor a encenação, Eduardo Coutinho sabia estar fazendo uma aposta de risco. Esperava que o confronto das personalidades envolvidas no ensaio fizesse surgir algo que pudesse documentar. Mas gravou cerca de 80 horas, com duas câmeras, e nada de interessante ocorreu. Influiu nesse resultado, sem dúvida, a aparente falta de engajamento das atrizes e dos atores, apesar de advertidos, logo no início, de que não poderiam ‘ficar só brincando’. Mais decisiva ainda foi a omissão deliberada do próprio Coutinho. Desde o início, embora decepcionado com o resultado dos ensaios, deixou de intervir e redirecionar o projeto.”
 
Esse é o trecho mais contundente da crítica que o cineasta e montador Eduardo Escorel faz de “Moscou”, o novo documentário de Eduardo Coutinho, que entra em cartaz em São Paulo na próxima sexta. O texto “Coutinho não sabe o que fazer”, publicado na página 62 da revista “Piauí” deste mês, é a primeira avaliação francamente negativa sobre “Moscou” –até então, o longa fora motivo de resenhas merecidamente positivas quando passou no Festival É Tudo Verdade, em abril, e de prêmio no Festival de Paulínia, no mês passado.

A nova obra registra os ensaios que o Galpão, grupo teatral mineiro, fez de “As Três Irmãs”, de Tchecov, a pedido de Coutinho. A peça não seria encenada depois, o que interessava ao diretor era acompanhar o processo de criação.

Poucas pessoas entendem mais de documentário no Brasil do que Escorel, tanto na teoria quanto na prática. Ele coordena o curso de pós-graduação sobre o assunto da Fundação Getulio Vargas. Entre os filmes que dirigiu, estão “Vocação do Poder” (2005) e “Bethânia Bem de Perto” (1966). Entre os que montou, “Santiago” (2007) e “Fé” (1998). Além de ter conhecimento de causa, Escorel é amigo de Coutinho e assina a montagem do filme mais conhecido dele, “Cabra Marcado Para Morrer” (1984), clássico do documentário nacional.

Em conversa com a repórter da Ilustrada Fernanda Ezabella na última sexta-feira, Coutinho comentou a análise do amigo e a crítica pública feita por ele:

"Eu estava perdido. E mesmo a minha montadora, que não conhecia o material e depois de três meses ficou envolvida, não tinha como solucionar isso. Aí veio uma pessoa de fora, veio o Escorel, e disse: ‘Aqui não tem filme’. Ele acaba de publicar um artigo em que fala isso: Quando tinha 20 horas e depois com o filme pronto, ele continuou a dizer que não era um filme."

Coutinho lembrou que Escorel também fez uma avaliação negativa de “Santo Forte” (1999), documentário que marcou a retomada de sua carreira. “Ele achou que nunca seria um filme, que seria uma tortura. E errou. E depois reconheceu que tinha avaliado mal. Só espero que agora ele esteja errado também.”


Na avaliação de Coutinho, Escorel tem ressalvas não só a “Santo Forte” e “Moscou”:

“Eu considero que todos os filmes que eu fiz depois, mesmo ‘Santo Forte’, que ele não gosta desse tipo de cinema. [...] Vou continuar amigo dele, mas há uma incompatibilidade com ele na coisa que eu faço. Ele continua meu amigo. Fez o artigo, detona o filme. Eu só lamento porque é em cima do lançamento.”

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Na versão impressa da Ilustrada de hoje, Coutinho conta que “Moscou” foi seu filme mais difícil, de montagem mais longa (cinco meses) e que pensou em parar de fazer cinema. “Foi uma crise realmente muito forte”, disse o diretor a Fernanda Ezabella.

Além da reportagem, a Ilustrada publica duas resenhas de “Moscou”, ambas positivas. Para o crítico Inácio Araujo, o filme representa um ao mesmo tempo uma sequência da obra de Coutinho e um recomeço. Para o romancista Bernardo Carvalho, o diretor cria uma analogia entre o projeto de filmar um ensaio, uma obra inacabada, e a vida frustrada das personagens de Tchecov.

Assinantes da Folha ou do UOL podem ler esses três textos aqui, a partir da manhã desta terça.

Escrito por Leonardo Cruz às 11h39 PM

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Festival de Veneza terá 2 filmes brasileiros

                                                                     Carol Sachs/Divulgação

Paulo José, em "Insolação", um dos brasileiros em Veneza-09

Por Leonardo Cruz

Dois filmes brasileiros foram selecionados para a 66a edição do Festival de Veneza, que acontece de 2 a 12 de setembro.

“Insolação”, de Daniela Thomas e Felipe Hirsch, e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo”, de Karim Aïnouz e Marcelo Gomes, serão exibidos dentro da seção Horizontes, principal mostra paralela competitiva do festival italiano.

“Insolação” entrelaça quatro histórias baseadas em contos russos do final do século 19 – em comum, todas tem o amor como tema. Daniela e Felipe são parceiros de longa data no teatro, e ele faz sua estreia na direção em cinema. Paulo José, Simone Spoladore, Leonardo Medeiros e Leandra Leal estão no elenco.

“Viajo Porque Preciso” também é fruto do trabalho de dois antigos parceiros. Entre outros trabalhos, Karim e Marcelo escreverem juntos os roteiros de “Madame Satã”, dirigido por pelo primeiro, e “Cinema, Aspirinas e Urubus”, dirigido pelo segundo. O novo longa é uma narrativa ficcional que usa como base imagens que os cineastas captaram na virada do milênio para um documentário chamado “Sertão de Acrílico Azul Piscina”. Conta a história de uma pessoa que viaja e vive uma desilusão amorosa.

A lista completa de filmes de Veneza 2009 está aqui. Entre os destaques, os novos filmes de Werner Herzog, Jacques Rivette, Claire Denis, Fatih Akin e Michael Moore.

Escrito por Leonardo Cruz às 9h52 AM

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Qual o futuro da distribuição de filmes?

Por Cássio Starling Carlos

Quem ainda não é adepto do download de filmes que atire a primeira pedra!

Como aconteceu há alguns anos com a música e culmina hoje com a proclamada “morte do CD”, encontra-se em pleno curso a mudança de paradigma nas formas de consumo do cinema (ou melhor, do audiovisual, já que o tráfego de clipes e programas de TV pela internet é tanto quanto ou maior que o de cópias de “blockbusters”).

Os distribuidores e exibidores se queixam, claro, e ameaçam com o apocalipse. Afinal, se o ganha-pão deles circula livremente e sem custos pela rede, de onde vai sair o tão suado dinheirinho?

Na edição deste bimestre, a respeitável “Film Comment” abriu espaço para um divertido artigo do crítico argentino Quintín intitulado “Black Crow Blues”. No texto de duas páginas, Quintín descreve suas desventuras em um site de download que supera, em oferta e variedade de títulos, o que se poderia imaginar da reunião das maiores e mais completas cinematecas de todo o mundo.

Como nem tudo é só alegria, o tal Black Crow (sob o qual mal se disfarça o irresistível site Karagarga) impõe regras proporcionalmente rígidas ao paraíso que suas fileiras representam para seus associados. E Quintín descreve com graça as várias fases de seu relacionamento com essa tentação, desde os primeiros flertes, passando pela paixão fulminante e pelos riscos de abandono até entrar numa espécie de idade do juízo. Legal!

O que mais chama a atenção no artigo é uma nota curta, impressa em vermelho e agregada pelos editores da “FC”, onde se enxergam os dez dedos de cautela por trás da decisão de publicá-la. Nela se lê: “Este artigo diz respeito a um bastante conhecido site de compartilhamento de arquivos. Mesmo que ‘Film Comment’ não perdoe tal atividade, trata-se de uma parte proeminente da atual cultura de cinema e por isso fomos levados a tratá-la”.

Pois bem.

E a circulação legal de arquivos enquanto isso?

Seguindo o modelo da indústria fonográfica, os paquidermes da produção têm ampliado, ainda que muito timidamente, a oferta em VOD ou “video on demand”. A matriz da Warner disponibiliza (apenas para quem reside nos EUA), além do grosso de sua produção contemporânea, parte já relevante de seu catálogo histórico, ou seja, filmes dos anos 30 em diante, antes reservados aos alucinados de cinematecas.

Nesta semana, a Disney anunciou a intenção de disponibilizar online uma ampla série de seus produtos, incluindo filmes, programas de TV e games. “Àqueles dispostos a pagar”, esclarece o comunicado.

Há algumas semanas, a Salon reuniu num eficiente balanço a já ampla oferta de canais de VOD existente nos EUA, num artigo no qual foram avaliados custos, qualidade e catálogo de serviços como iTunes, Amazon, Netflix, YouTube, Hulu, Joost, Babelgum, Jaman, SnagFilms, IndiePix e The Auteurs.

Na França, as Éditions Montparnasse mantêm serviço semelhante, com uma lista de títulos bastante desejável, infelizmente restrita aos habitantes da França, Suíça, Bélgica, Mônaco, Luxemburgo e Andorra.

Enquanto isso, no nosso cantinho de Terceiro Mundo tudo parece emperrado por limitações estruturais da rede (leia-se, universalização da banda larga, cabeamento em fibra ótica). Em 2007, a HBO havia anunciado que “até o final do ano” disponibilizaria seus conteúdos de séries. Desde então, não se ouviu mais falar no projeto.

Em abril deste ano, a direção do braço de distribuição digital da Warner andou dizendo que conteúdos da empresa estarão disponíveis “em breve” para usuários da América Latina.

Enquanto as grandes lançam esses balões de ensaio, seguimos timidamente alguns modelos já existentes. A Saraiva Digital, por exemplo, iniciou em maio um serviço que traz opções de aluguel (a partir de R$ 1,90, para títulos infantis, até R$ 4,90 para “lançamentos”) ou de venda (a preço semelhante aos de DVDs em ofertas).

A pirataria, por outro lado, não demonstra tamanho acanhamento, como comprova a autêntica segmentação de mercado operada pelos camelôs que atuam na região do Espaço Unibanco de Cinema.

Quando o negócio legal um dia sair da letargia vai acabar descobrindo aquilo que todo mundo que quer ver filmes já sabe: “tá tudo dominado!”.

*

Este artigo diz respeito a um bastante conhecido site de compartilhamento de arquivos. Mesmo que o Ilustrada no Cinema não perdoe tal atividade, trata-se de uma parte proeminente da atual cultura de cinema e por isso fomos levados a tratá-la.

Escrito por Cássio Starling Carlos às 2h45 PM

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Cinema independente não existe, diz Herzog

                                                                Kimberly White/Reuters

Werner Herzog, que diz ver apenas dois filmes por ano

Por Fernanda Ezabella (em Los Angeles)

O diretor alemão Werner Herzog, 66, tem dois longas inéditos na manga e um curta que rodou na Etiópia, além de uma ópera montada na Espanha e um livro em inglês, tudo realizado nos últimos 11 meses.

A seguir, leia trechos inéditos da entrevista que o cineasta deu à Folha, em sua casa em Los Angeles, cidade onde mora há cerca de dez anos. Aqui, ele fala sobre Hollywood, reality shows, financiamento de filmes e a busca pelo “êxtase da verdade”.

Como é viver em Los Angeles, onde se concentra a indústria do cinema?
Ela existe, mas não me afeta. Não que eu vá dizer que é ridícula. É como deve ser. Eu amo alguns filmes de Hollywood, como os filmes de Fred Astaire, são alguns dos melhores que Hollywood já criou. Então, tem sua beleza. Mas só por coincidência eu vivo aqui. Não sou parte disso. Hollywood é uma definição cultural. Quando você vê “Transformers” ou “Transporters”, qual é mesmo o nome? Existe uma certa definição cultural ali. E a minha definição cultural é bavariana.

Mas também existem os filmes independentes em Hollywood.
Cinema independente não existe. É um mito. Cinema independente apenas existe nos filmes caseiros, que você faz nas férias, na praia no Havaí, para mostrar para sua família. Todo o resto é dependente, de finanças, sistema de distribuição, mídia, de tudo, dos sindicatos, sindicatos de atores, diretores, roteiritistas.

E quanto aos programas de TV americanos? Li que o senhor gostava dos reality shows.
Não, não vejo nada. Na época assisti ao [reality] da [ex-coelhinha da ‘Playboy’] Ann Nicole Smith. Claro que ela era um fenômeno interessante, porque você tem que pensar em novos ícones de “beleza”, e eu tenho que dizer isso entre aspas. É uma beleza disforme, como os bodybuilders. Quase grotesco. E por causa disso ela era um fenômeno interessante.

O que te faz dizer então que Los Angeles é a cidade com mais substância dos Estados Unidos?

Por exemplo, o Museum of Jurassic Technologies, que provavelmente você nunca conheceu. Foi um homem genial que o fundou, fica no Venice Boulevard e muito do conteúdo do museu é completamente fantástico. E a 30 minutes daqui, em Pasadena, tem um laboratório de aviões a jato, com um centro de controle de inúmeras missões e um arquivo da Nasa com milhões e milhões de coisas preservadas de explorações do nosso sistema solar, da Lua. Los Angeles é cheia de coisas assim. E você encontra aqui os melhores escritores, fotógrafos, músicos, as coisas realmente são feitas aqui. Mas você precisa olhar além da superfície. E eu vivo completamente além da superfície. Por isso as pessoas mal sabem que eu vivo aqui.

O senhor costuma ir com que frequência aos cinemas?
Eu raramente vejo filmes. Nunca vou a nenhuma première de cinema, vejo talvez dois filmes por ano.

Por quê?
Não sei. Não tenho muito tempo de ver filmes. Nos últimos 11 meses, eu fiz dois longas-metragens e um curta na Etiópia. Fiz uma ópera (Parsifal) em Valência, publiquei o livro “Conquest of the Useless” em inglês e trabalhei muito na sua tradução, e agora estou preparando outros projetos. Não sou um workaholic, eu trabalho muito focado e quieto e é isso. Eu nunca fui de ver muitos filmes. Nunca, nunca.

Nem quando era mais jovem e decidiu fazer cinema?

Não, eu não via muitos filmes.

O senhor gosta de dizer que o cinema verdade [vertente do documentário] não vai a fundo na verdade. Mas, ao mesmo tempo, diz que seus documentários não são documentários.
Isso me levaria 48 horas para explicar. Mas, para encurtar, digo que estou atrás de algo diferente do que o cinema verdade, simplesmente porque o cinema verdade é muito baseado em fatos, e fatos não signifcam necessariamente a verdade.

Mas, quando você faz um documentário, você encena, repete as cenas várias vezes. Como acha que está chegando mais perto da verdade assim?
Estou chegando perto da poesia, perto da imaginação, de algo que nos ilumina. E daí temos outra qualidade de verdade nisso, é um êxtase da verdade.

E da onde vêm as ideias para tantos filmes?

Elas sempre vêm até mim, como uma invasão, como ladrões na calada da noite, invadindo uma casa. Agora, enquanto estamos sentados aqui, sete, oito novos projetos estão forçando a porta para entrar. Não é que eu fico planejando uma carreira, eu nunca tive uma carreira. Você vê, outros [diretores] vão atrás de livros best-sellers, recém-lançados, para ver o que dá para transformar em um filme. Eu nunca estive nisso. Mas você pode ficar tranquila, eu tenho muitas histórias boas ainda para contar.

Ficou mais fácil para financiar seus filmes hoje?

Nao. É mais difícil hoje.

Por quê?
Não vou falar da crise financeira, que claro que dificulta as coisas. Mas todos os distribuidores que existiam dos meus filmes, ou as distribuidoras dos meus filmes no Brasil e outros lugares, se extinguiram. E o público quase do mundo inteiro mudou sua atenção para filmes mais como “O Exterminador do Futuro” e menos para filmes como “Aguirre”. Então é uma grande mudança. E agora a atenção é mais para a internet. Mas eu nunca vou reclamar, porque sempre dou um jeito de fazer o meu próximo filme, e o próximo e o próximo.

*

LEIA MAIS TRECHOS DA ENTREVISTA
Este post complementa a longa entrevista com Werner Herzog publicada na versão impressa da Ilustrada deste domingo. Nela, o cineasta alemão fala sobre as filmagens de “Fitzcarraldo” no Brasil e no Peru, tema do livro “Conquest of the Useless”, em que Herzog publica seus diários sobre o período em que passou na selva amazônica rodando o longa. Fala também de sua relação com Glauber e diz que Garrincha é um de seus grandes ídolos. Assinantes da Folha e do UOL podem ler a íntegra dessa entrevista aqui, a partir da manhã deste domingo.

Escrito por Fernanda Ezabella às 7h55 PM

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Começa a nova fase da "Cahiers du Cinéma"

                                                                                         Fotos Reprodução

Por Leonardo Cruz

Começam a tomar forma as esperadas mudanças editoriais da “Cahiers du Cinéma”. A revista de cinema mais famosa do mundo anunciou nesta semana, em um comunicado em seu site, que Stéphane Delorme será seu novo editor-chefe, responsável por “liderar a reformulação” da publicação mensal.

Este é o primeiro passo concreto de mudança da “Cahiers” depois que a revista foi comprada pelo grupo editorial britânico Phaidon Books, especializado em livros de arte. O anúncio desta semana deixa claro que o publisher da Phaidon, Richard Schlagman, vai acompanhar de perto o trabalho do novo editor.

O comunicado diz que, trabalhando com Schlagman, “Delorme focará na revitalização da ‘Cahiers’, desenvolvendo uma revista que se coloque no coração da cultura fílmica contemporânea, que fale aos cinéfilos de hoje e que consolide o papel central da ‘Cahiers’ na produção cinematográfica internacional”.

O resultado prático de todo esse bonito blablablá ainda é um mistério. Mas a verdade é que a “Cahiers” precisa mesmo de um “extreme makeover” já há um bom tempo. Publicação que redefiniu a crítica de cinema no mundo a partir de sua fundação em 1951, com nomes como André Bazin, Jean-Luc Godard, François Truffaut e Claude Chabrol, a “Cahiers” perdeu o fôlego e deixou de ser a revista mais influente para quem se interessa por cinema _para ficar num único exemplo, a norte-americana “Film Comment” faz hoje um trabalho bem mais interessante.

Ao menos em teoria, a escolha de Delorme é interessante. Aos 35 anos, ele é crítico da “Cahiers” desde 1998 e integra o conselho editorial da revista desde 2001 _e tem um dos melhores textos da revista nos últimos anos. Também faz parte do comitê de seleção da Quinzena dos Realizadores, a mostra mais ousada do Festival de Cannes. Delorme já apontou como subeditor outro nome em ascensão na crítica francesa, Jean-Philippe Tessé, 32.

A revista manterá seu visual atual até o fim deste ano e deverá apresentar um novo projeto gráfico e editorial no início de 2010. E Delorme promete “levar vida nova à ‘Cahiers’, abri-la ao exterior e transformá-la em um lugar de desejo, entusiasmo, criatividade e troca de ideias”. A ver se consegue.

*

O primeiro aniversário da pequena “Juliette”

Manter um revista de cinema no Brasil é quase impossível. Especialmente se tal revista não estampa em suas capas os Harry Potters ou Transformers da vida. Fazê-lo fora do eixo Rio-SP, sem o suporte de uma grande editora, é ainda mais complicado. Por isso, é admirável que a revista “Juliette” complete agora seu primeiro aniversário.

Publicação mensal editada em Curitiba por Josiane Orvatich e Rafael Urban, a “Juliette” chega a seu décimo número, sempre focada no cinema autoral e independente. A revista tem um visual delicado –cada edição ganha singelas ilustrações de um artista convidado– e oferece entrevistas, ensaios e críticas.

Nas duas edições que li (maio e junho/09), os textos eram em geral bem escritos, com destaque para o perfil da cineasta argentina Lucrecia Martel e a entrevista com o documentarista João Moreira Salles, ambos do número de junho. Se há uma ressalva a fazer, é a temperatura. O destaque de maio, por exemplo, foi para Marcos Jorge, de “Estômago”, filme de sucesso em 2008. Na edição de junho, há um ensaio sobre “Che - o Argentino”, muito depois de o filme ter saído de cartaz.

Relevado isso, a “Juliette” se revela uma leitura interessante, revista que ainda tem muito a amadurecer, mas que engatinha com admirável vigor. Para quem quiser se aventurar, a revista pode ser encontrada em São Paulo na livraria do Espaço Unibanco Augusta (r. Augusta, 1.475).

Escrito por Leonardo Cruz às 1h24 PM

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